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O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 2017 MIN

Esperando.

O vagão conservava as três possibilidades acesas, e cada uma lançava uma temperatura diferente sobre o grupo. Da casa onde Gabriel vivia vinha o calor parado de uma tarde sem Lívia. Do apartamento em que ela crescia, um frio de janela molhada. A terceira visão não oferecia calor nem frio. Apenas retirava ambos da pele de Helena, aos poucos, enquanto o corpo dela permanecia caído entre Daniel, o irmão vivo e a filha que continuava existindo.

Lívia olhava para essa última.

Não para o sangue. Para a própria mão, fechada na mão de Daniel dentro da imagem.

A Lívia da visão parecia alguns anos mais velha. Tinha o cabelo preso de qualquer jeito, um cadarço desamarrado e a cicatriz no queixo mais clara sob a luz branca. Os dedos dela se encaixavam nos do pai com a facilidade de um gesto repetido. À esquerda, Gabriel usava o relógio. Diante dos três, Helena não respirava.

A garota real esfregou o polegar contra a palma.

Daniel viu. Não disse nada.

Helena ainda segurava o bilhete aberto. As palavras não haviam retornado às dobras, mas a data pulsava por baixo do papel, visível no dorso de sua mão antes de existir na superfície. Ela tentou fechá-lo. O papel resistiu, rígido como uma chapa fina.

César ocupava a ponta do banco, curvado sobre o ferimento. Pela primeira vez em vários minutos, não procurava uma saída. Observava Lívia.

As rodas mantinham três ritmos sob o piso.

Um deles falhou.

Lívia ergueu o rosto.

— Como você soube? — perguntou Helena.

A pergunta veio sem endereço claro. Lívia entendeu.

— Eu não soube.

— Da terceira.

— Ela aparecia quando eu tentava olhar para as outras duas ao mesmo tempo.

Helena passou o polegar pela borda do bilhete. O corte surgiu no papel antes de abrir a pele. Uma linha vermelha atravessou a digital.

— E sempre havia alguém no chão.

Lívia assentiu.

Daniel soltou devagar o relógio de Gabriel. A pulseira deixara marcas retangulares em seu pulso.

— Você consegue fechar uma delas?

A menina demorou a olhar para ele. Quando olhou, manteve os olhos abaixo do rosto, na gola do casaco, como se ainda fosse possível falar com uma parte menos perigosa daquele homem.

— Ver não é a mesma coisa que fechar.

— Eu perguntei se consegue.

— Não sei.

César moveu o pé. A sombra dele continuou sentada por um instante e depois se levantou para acompanhá-lo.

— Ela sabe — disse. — Ou o vagão não teria mostrado três portas para ela.

— Não havia portas — Lívia rebateu.

— Havia três versões suas.

— Não é a mesma coisa.

— Aqui nada é a mesma coisa e, mesmo assim, sempre cobra como se fosse.

Helena dobrou o bilhete sobre o corte do polegar. Não olhou para César.

— Basta.

Ele abriu a boca, reconsiderou. Encostou-se ao banco com cuidado, mas não desviou os olhos de Lívia.

Na terceira possibilidade, a mão de Daniel apertou a da filha.

O contato aconteceu primeiro na garota real.

Seus dedos se fecharam de repente. Não havia mão dentro deles, porém os nós embranqueceram como se alguém a segurasse do outro lado. Lívia tentou abrir a palma e não conseguiu. A versão futura puxava.

Ela deu meio passo em direção à janela.

Daniel se colocou no caminho.

Não a tocou. O corpo bastou para interromper o avanço.

Lívia ergueu os olhos até o queixo dele. A cicatriz pequena no próprio queixo pareceu mais funda.

— Sai.

— Não.

— Ela está me puxando.

— Então eu seguro você aqui.

A frase ficou entre os dois.

Na plataforma recriada do Vagão 3, ele havia feito isso sem saber por quê. A garota se desmanchava contra seu peito, o casaco perdendo fios, o pé duplicando sobre a pedra molhada; Daniel a abraçara porque soltar parecia pior. O desaparecimento desacelerara. Não parara.

Lívia lembrava.

O cheiro de chuva preso na camisa dele. O botão duro contra sua testa. O braço passando por suas costas com uma cautela atrasada, como se Daniel só percebesse depois a força que usava. Cinco batidas rápidas sob o tecido — ou quatro, talvez seis; o trem já confundia medidas — e a voz dela pedindo que não soltasse.

Ele não prometera.

Não soltara.

Agora, Daniel manteve os braços junto ao corpo.

— Eu preciso chegar perto — ela disse.

— Para quê?

Lívia olhou por cima do ombro dele, para Helena morta na imagem.

— Para fazer parar.

Helena levantou a cabeça. O desconforto passou por seu corpo de um jeito pequeno: o pé girou para fora, preparando uma recusa que não chegou à boca.

— Não faça nada sem saber o que vai perder.

Lívia soltou uma respiração curta.

— Foi isso que você me disse para fazer? Pensar primeiro em mim?

A pergunta não trazia provocação. Por isso atingiu mais fundo.

Helena não respondeu. O bilhete absorvia sangue de seu polegar, formando uma mancha circular que aparecia no centro antes de alcançar as bordas.

Daniel saiu da frente.

Não por concordar. Abriu apenas o espaço necessário, e Lívia passou de lado para não encostar nele. A manga dela roçou o ar a dois dedos do casaco. Mesmo assim, uma fibra cinza apareceu presa ao velcro de seu punho.

A lembrança do abraço se tornou mais nítida.

Lívia parou diante da terceira visão.

O vidro já não parecia vidro. Tinha profundidade suficiente para conter uma sala branca, o corpo de Helena e uma continuação escura além das bordas. A versão futura de Lívia se encontrava do outro lado, mão estendida, dedos ocupados pelos de Daniel.

A garota real levantou a própria mão.

As duas palmas se alinharam sem se tocar.

Nada aconteceu.

César soltou o ar. Não chegou a dizer eu avisei. A velha frase formou apenas um movimento cansado na boca.

Lívia mudou o ângulo da cabeça.

A visão mudou com ela.

Não como as páginas do manual, que viravam símbolos conforme a inclinação. A cena revelou espessura. Atrás de cada gesto havia outros gestos muito finos, comprimidos uns contra os outros: Daniel começando a se ajoelhar; Gabriel avançando; Helena caindo; Lívia prendendo a respiração; o sangue subindo e descendo ao mesmo tempo. Centenas de movimentos futuros ocupavam o mesmo espaço em lâminas transparentes, como se cada fração de segundo tivesse endurecido.

Lívia encostou a unha do indicador na borda de uma delas.

Um som agudo percorreu os dentes de todos.

Ela puxou.

Da visão saiu uma placa fina, menor que uma fotografia, embora contivesse a sala inteira. Dentro dela, Helena ainda estava em pé. Daniel ainda estendia a mão. Gabriel e Lívia ainda não haviam chegado ao lugar que os salvaria.

Lívia segurou a placa pelas bordas.

Outra apareceu atrás. Depois outra. Não caíram. Permaneceram alinhadas dentro da janela, cada uma guardando o instante seguinte.

— O que é isso? — Daniel perguntou.

Ela não respondeu.

Virou a primeira lâmina.

O futuro dentro dela continuou na posição anterior, recusando-se a acompanhar o giro. Lívia forçou mais. A borda abriu um corte sob sua unha. Em vez de sangue, saiu um brilho pálido que escorreu para cima do dedo e se acumulou na articulação.

Helena se aproximou um pouco. Parou fora do alcance.

— Lívia.

A garota mordeu o lábio. Com a outra mão, prendeu a lâmina entre indicador e polegar e a torceu.

Ela não quebrou.

O som veio do primeiro futuro.

Gabriel riu na casa onde Lívia não existia. O riso atravessou a lâmina e fez a menina perder força por um segundo. Daniel também ouviu; a cabeça dele virou antes que conseguisse impedir. Na segunda possibilidade, a Lívia mais velha encostou o ombro no pai, viva, e a cadeira do tio permaneceu vazia.

As duas alternativas chamavam.

A terceira oferecia ambas.

Quase ambas.

Lívia olhou para Helena.

Helena não sustentou o olhar de imediato. Fitou o corpo caído, a mancha sob as costelas, a própria mão futura aberta no piso. Depois retornou à menina. Não disse faça. Não disse pare.

A decisão continuava onde deveria estar.

Lívia colocou a placa entre os dentes.

Daniel avançou.

— Não.

Ela ergueu o braço livre, barrando-o sem olhá-lo. O gesto saiu trêmulo. A determinação não corrigia o medo; apenas o obrigava a esperar.

Com os dentes prendendo uma borda e a mão puxando a outra, Lívia rasgou o instante.

Não houve estilhaço.

A lâmina separou-se em duas películas flexíveis, e tudo o que existia dentro dela perdeu a capacidade de terminar os próprios movimentos. Helena começou a cair e ficou suspensa antes do chão. Daniel abriu a boca sem produzir a palavra. Gabriel estendeu o braço para um ponto que já não chegaria. A Lívia futura tentou segurar o pai, mas seus dedos passaram a repetir o mesmo centímetro de percurso.

A garota cuspiu metade da placa.

Ela não tocou o piso. Enrolou-se no ar, apertada, até virar um pequeno tubo claro. Dentro dele, a sala branca ainda existia, estreita demais, com todos espremidos numa possibilidade que já não podia acontecer.

Lívia arrancou a placa seguinte.

Desta vez, soube onde colocar os dedos.

Rasgou-a pela linha que unia o sangue de Helena à nitidez de Gabriel. A conexão apareceu como uma nervura escura dentro do material. Quando se rompeu, o ferimento no corpo futuro fechou por um segundo — e Lívia desapareceu da mesma imagem.

Ela estremeceu, mas continuou.

Uma placa. Outra.

Cada uma continha uma variação mínima: Helena morria com os olhos abertos; com os olhos fechados; com Daniel pressionando o ferimento; sozinha por alguns segundos antes que eles a encontrassem; dizendo uma palavra que a espessura não deixava ouvir. Em todas, Gabriel vivia. Em todas, Lívia permanecia.

Lívia rasgou cada uma.

Os tubos transparentes se acumularam ao redor de seus pés sem produzir sombra. Alguns eram finos como agulhas. Outros ainda guardavam pedaços móveis — uma mão, um piscar, a queda de uma gota — condenados a repetir gestos que não levavam a lugar nenhum.

O nariz da garota começou a sangrar.

A primeira gota não caiu. Transformou-se numa esfera vermelha junto à narina e se abriu como uma flor minúscula, pétalas voltadas para dentro. A segunda correu pelo rosto normalmente.

Helena retirou do bolso um pedaço limpo da camisa encontrada na mala. Estendeu-o.

Lívia não viu.

Daniel pegou o tecido, mas parou antes de encostar na menina. A mão dele permaneceu suspensa junto ao ombro dela.

— Faltam quantas?

Lívia contou sem voz. Os olhos se moviam de lâmina em lâmina.

— Não sei.

— Você consegue parar?

— Consigo.

Ela arrancou outra.

Daniel abaixou a mão.

O ritmo central sob o vagão ficou mais lento. As rodas que pertenciam à terceira possibilidade começaram a perder batidas. Não cessaram; tropeçavam, retomavam, tropeçavam outra vez.

César levantou-se do banco. Precisou apoiar dois dedos no encosto, irritou-se com a própria necessidade e os retirou cedo demais.

— Se ela apagar isso, abre o quê?

Ninguém respondeu.

— Uma porta? A próxima visão? Ou ficamos presos com as duas piores?

Helena manteve o pano estendido.

— César.

— Eu quero saber se ela está destruindo a única saída.

Lívia puxou uma lâmina que resistiu mais que as outras. Dentro dela, a Helena futura ainda respirava. Gabriel e Daniel tentavam estancar o sangue. A garota da visão estava ajoelhada perto da cabeça da médica, repetindo alguma coisa.

O tubo não se formou quando a placa rasgou. Uma das metades se colou ao punho de Lívia.

Palavras atravessaram sua pele de dentro para fora.

NÃO ERA PARA SER VOCÊ.

Helena leu.

A mão com o pano caiu alguns centímetros.

Lívia puxou a película presa ao braço. A pele veio junto o suficiente para deixar uma faixa vermelha. Antes que Daniel pudesse impedir, ela dobrou a metade sobre si mesma. Uma vez. Duas. Na terceira, as palavras se tocaram e desapareceram.

— Não é uma saída — Lívia disse, sem olhar para César. — É só alguém que eu não contei que ia ficar para trás.

Ele permaneceu em pé, mas a pergunta seguinte não veio.

Helena aproximou o pano do rosto da menina. Desta vez, Lívia percebeu. Hesitou antes de aceitar, como se receber ajuda dela fosse outra espécie de acusação.

Pressionou o tecido sob o nariz.

— Ainda falta — murmurou.

As placas finais não estavam diante dela. Encontravam-se dentro do reflexo da terceira Lívia, sobrepostas ao corpo como escamas invisíveis. A versão futura permanecia de mãos dadas com Daniel. À medida que as outras frações eram destruídas, ela encarava a garota real com uma expressão que já não copiava a sua.

Parecia saber que seria a última.

Lívia atravessou a mão pela superfície.

O vidro não cedeu. A pele de seu braço, porém, apareceu do outro lado antes dos dedos. Depois o cotovelo. Por um instante, havia um membro sem mão entrando na cena. A causalidade corrigiu-se com um puxão seco, e a palma surgiu fechada ao redor de alguma coisa.

Quando Lívia retirou o braço, trazia um retângulo transparente.

Não continha o futuro inteiro.

Continha o abraço.

Daniel reconheceu a plataforma molhada, a luz impossível, os fios do casaco da garota se soltando. Viu a si mesmo envolvendo-a com os braços, primeiro rígido, depois mais firme quando o corpo dela falhou. O pequeno fragmento não possuía som, mas a boca de Lívia formava o pedido.

Não solta.

A garota olhou para a placa e empalideceu.

— Isso não é daqui.

Daniel também não entendeu de imediato. Então viu o relógio em seu próprio pulso dentro da lembrança. O ponteiro imóvel. O rosto de Lívia escondido contra sua camisa. A primeira vez que a segurara.

— Não — ele disse.

Ela virou-se para ele.

— É o preço — Helena falou.

Não havia precisão clínica na voz. Apenas reconhecimento.

Lívia segurou a lembrança com as duas mãos. Agora tremia tanto que as bordas batiam contra suas unhas. O abraço se repetia dentro da placa: aproximação, contato, os braços de Daniel fechando, a imagem voltando ao início antes de alcançar o instante em que ele a soltaria.

— Pode ser outra — Daniel disse. — Espera.

— Não dá para escolher.

— Você não sabe.

— Eu sei.

— Lívia…

— Se eu devolver, ela volta.

A terceira visão, quase vazia, pulsou atrás dela. O corpo de Helena tornou a ganhar uma borda. Gabriel recuperou cor numa das mãos. A possibilidade respirava por uma fresta.

Daniel procurou uma solução nos detalhes. A largura da placa. A distância até a janela. O ângulo dos dedos de Lívia. Coisas mensuráveis. Nenhuma servia.

— Cinco segundos — disse. — Me dá cinco segundos.

Lívia soltou um som pequeno, quase uma risada, quase um choro.

— Foi o que eu pedi para ela sem falar.

Ele ficou imóvel.

A garota encostou a testa na placa.

Dentro dela, o botão da camisa de Daniel pressionava o mesmo lugar. Por um momento, as duas Lívia — a de agora e a da lembrança — fecharam os olhos juntas.

Então ela abriu as mãos.

A placa não caiu.

Permaneceu sustentada entre as palmas afastadas e começou a perder espessura. Não se partiu nem queimou. O abraço foi ficando raso. Primeiro desapareceu a profundidade da plataforma; depois o espaço entre os corpos; depois a pressão dos braços. Daniel e Lívia viraram duas figuras desenhadas na mesma superfície, incapazes de estar uma diante da outra.

Lívia afastou mais as mãos.

A imagem se esticou.

O casaco perdeu a textura. A chuva perdeu o frio. O peito de Daniel deixou de subir sob o rosto dela. A lembrança se transformou numa linha de cores, tão fina quanto um fio puxado de tecido.

A menina enrolou o fio no indicador.

Uma volta.

Na plataforma da lembrança, Daniel esqueceu de fechar o primeiro braço.

Duas.

Lívia já não sabia de que lado do peito dele estivera.

Três.

O pedido desapareceu de sua boca.

Ela puxou.

O fio entrou sob a unha e sumiu.

A terceira possibilidade apagou-se.

Não de uma vez. Tudo o que dependia da morte de Helena perdeu primeiro os verbos. O sangue deixou de correr. Daniel deixou de se ajoelhar. Gabriel deixou de avançar. Lívia deixou de segurar. Restaram pessoas e objetos parados, sem ação possível, como palavras soltas de uma frase desmontada.

Depois perderam os nomes.

Por último, a luz branca recolheu os contornos e fechou-se numa linha vertical.

A linha atravessou o vagão e se apagou sob os pés de Helena.

O terceiro ritmo das rodas cessou.

Lívia cambaleou.

Daniel a amparou pelos ombros.

Ela reagiu como se um desconhecido a tivesse agarrado. O cotovelo subiu entre os dois, o corpo girou, e ela escapou das mãos dele com uma rapidez assustada. Bateu as costas na janela agora escura.

— Não encosta.

Daniel parou.

O rosto dela mudou ao vê-lo. A defesa permaneceu nos braços, mas a razão já não estava ali.

— Sou eu — disse ele.

— Eu sei quem você é.

Lívia olhou para os próprios ombros, para o lugar onde os dedos dele haviam tocado. Depois para o casaco. Encontrou a fibra cinza presa ao velcro do punho e tentou retirá-la.

— Quando foi a primeira vez? — perguntou.

Daniel não respondeu.

Ela ergueu a fibra diante da luz.

— Você já tinha me abraçado.

Não era uma pergunta. Era um fato sem imagem.

Helena dobrou o pano ensanguentado, escondendo a mancha no interior. Seus olhos foram de Lívia a Daniel e voltaram. Ela deu um passo, parou; não parecia saber se a proximidade seria recebida como cuidado ou cobrança.

— Na estação — disse Daniel.

Lívia esperou o resto.

— Quando você começou a desaparecer.

— Eu pedi?

Ele olhou para o relógio.

— Pediu para eu não soltar.

A garota soprou o cabelo para longe dos olhos. O gesto saiu igual ao da criança da cozinha, igual ao da filha que ele ainda não conhecera. Não havia reconhecimento no modo como ela o observava.

— E você soltou?

Daniel demorou um segundo além do necessário.

— Depois.

Lívia assentiu, aceitando a informação como aceitaria uma fotografia antiga de alguém parecido consigo. Guardou a fibra cinza no bolso. Talvez por acreditar nele. Talvez porque era tudo o que restava.

Helena estendeu a mão outra vez, não com o pano, mas vazia.

Lívia olhou para ela.

O gesto não pediu perdão. Não ofereceu absolvição. Helena manteve a palma entre as duas, desconfortável com a própria mão aberta.

Lívia tocou apenas as pontas de seus dedos.

Foi suficiente.

As duas possibilidades restantes se moveram.

Na primeira, Gabriel fechou a porta da casa e Lívia continuou ausente. Na segunda, a filha de Daniel apagou a lanterna sobre a cadeira vazia do tio. As imagens se afastaram para lados opostos do vagão, carregando consigo calor e frio, até se tornarem duas faixas estreitas nas paredes.

Entre elas apareceu madeira.

Não uma porta inteira. Primeiro, a marca clara de onde uma maçaneta seria tocada muitas vezes. Depois riscos de malas junto à base, poeira afastada por pés que ainda não haviam passado e um retângulo de luz projetado no chão antes que houvesse fresta.

César se levantou com esforço.

O manual, fechado sobre a mala, abriu sozinho numa página nova. Os símbolos não formaram palavras. Duas linhas corriam lado a lado e terminavam diante de seis pequenos traços verticais.

Um deles escureceu.

A parede cedeu ao redor da marca da maçaneta.

Uma porta tomou forma, antiga, estreita, coberta por verniz rachado. Não trazia número. Do outro lado vinha o som de muitas vozes falando baixo, nenhuma próxima o bastante para ser entendida, e o cheiro de papel guardado, metal frio e fumaça antiga.

Lívia retirou a mão da de Helena.

Daniel abriu espaço para que ela passasse primeiro, mas a menina não avançou. Fitou as duas faixas de futuro ainda acesas, uma em cada parede. Gabriel ou ela. Nenhuma terceira imagem entre as duas.

O preço escolhido permanecia ausente.

Helena recolheu o bilhete. César apanhou a mala. Daniel manteve os braços junto ao corpo.

A maçaneta girou antes que alguém a tocasse.

A porta do Vagão 6 se abriu.

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