CAPÍTULO 17 — O LUGAR ENTRE OS DOIS
por Sonhado acordadoO sorriso chegou antes do resto do rosto.
Ficou suspenso por um instante entre as bochechas ainda incompletas, pequeno demais para a menina mais velha que aparecia por baixo da criança, familiar demais para Daniel desviar. Depois vieram os olhos. Escuros. Um pouco estreitos quando ela sorria, com o esquerdo fechando antes do direito.
Daniel conhecia aquilo.
Não sabia de onde.
A menina estendeu o embrulho ao homem mais velho. O braço levantou primeiro; o papel ainda estava junto ao peito quando o presente já ocupava as mãos dele. A versão futura de Daniel abriu os olhos.
— Para mim?
Ela fez que sim.
O pé direito se apoiou pela borda externa. O joelho virou um pouco para dentro. Um modo ruim de distribuir o peso, quase um desequilíbrio, corrigido no último instante por um movimento curto do quadril.
Daniel olhou para a porta.
Lívia estava na mesma posição.
O ombro contra a parede, os braços cruzados, o pé direito apoiado de lado. Quando percebeu que ele observava, assentou a sola inteira no chão.
Tarde demais.
Na cozinha, a criança prendeu o polegar dentro dos outros dedos antes de esperar que o presente fosse aberto. A unha apareceu marcada por pequenas meias-luas, feridas antigas de quem apertava sempre o mesmo lugar.
Lívia escondeu as mãos sob as axilas.
Daniel tornou a olhar para a menina.
Um adesivo de estrela ao avesso. O cotovelo ralado. Meias de cores diferentes. O pequeno espaço entre os dentes da frente. Detalhes soltos, todos incapazes de provar qualquer coisa sozinhos, mas o corpo dele já não precisava de prova. O ar recusou-se a entrar até o fundo dos pulmões. A lista de afazeres estalou dentro de seu punho.
O outro Daniel retirou o papel do embrulho.
Lá dentro havia uma moldura.
A fotografia não aparecia. O vidro devolvia a cozinha vazia, depois a mesa, depois uma versão da casa onde nenhum dos três morava. A menina tentou inclinar a moldura para ajudá-lo. O cabelo caiu sobre seu rosto, e ela o afastou soprando para cima, sem usar as mãos.
Lívia fez o mesmo.
Um fio escuro subira até seu olho. Ela soprou. Só percebeu o gesto depois.
Parou com a boca entreaberta.
Daniel atravessou a cozinha.
O primeiro passo aconteceu duas vezes: seu sapato tocou a madeira; a tábua recebeu o peso; então ele estava outra vez junto à mesa, ainda começando a andar. Na repetição, derrubou a cadeira. O barulho chegou antes, seco, e a cadeira caiu quando ele já passava.
— Daniel — Helena chamou.
Ele não respondeu.
A criança ergueu a moldura para o homem mais velho. No reflexo, por um segundo, ela tinha quatorze anos.
O mesmo casaco.
O mesmo cabelo preso de qualquer jeito atrás da orelha esquerda e solto do outro lado. A mesma cicatriz fina junto ao queixo, tão clara que Daniel só a notara em Lívia quando a luz do hospital a atingira. O rosto adolescente ocupou o vidro e desapareceu antes que a versão futura pudesse vê-lo.
Daniel já tinha visto.
Virou-se.
Lívia não estava mais encostada à parede. Recuara até o corredor instável, onde as placas do piso surgiam sob seus pés depois de cada passo. Sua sombra, porém, continuava na porta da cozinha.
— Você.
A palavra saiu sem força.
Lívia balançou a cabeça.
Uma vez. Pequeno. O tipo de negação que não tentava convencer ninguém.
Daniel caminhou até ela. A distância entre os dois aumentou antes de diminuir; a cozinha alongou-se, a mesa ganhou mais dois lugares e perdeu todos, o relógio na parede bateu sete e vinte e um sem produzir som.
— Aquela menina.
Lívia olhou para Helena. Depois para César. Procurou uma saída nos dois e encontrou apenas testemunhas.
— Daniel, eu…
— É você.
Ela puxou ar pela boca. O peito levantou, mas a respiração só chegou depois, num ruído estreito.
— Não aqui.
— É você?
O grito não veio. Daniel tentou elevar a voz e ela se quebrou no nome que ainda não disse. Apertou a lista, desdobrou-a, tornou a dobrar. As bordas não se alinhavam. Tentou mais uma vez.
— Responde.
Lívia encolheu os dedos dentro das mangas do casaco. Por um segundo, pareceu menor do que no primeiro vagão — não por causa de alguma versão alternativa, mas porque curvou as costas como se esperasse que a parede a aceitasse.
— Sou eu.
A sala ficou muda antes que ela terminasse.
As lâmpadas continuaram acesas, o relógio continuou avançando para trás, o bolo soltou vapor, mas todos os sons desapareceram. Daniel viu a boca da mulher se mover na cozinha. Viu a criança rir. Nada o alcançou.
Ele olhou para o rosto de Lívia.
Tentou procurar diferenças.
A menina tinha dentes de criança. Lívia não. A menina usava duas meias, Lívia calçava tênis. O cabelo era mais curto. O cotovelo podia ter ralado em qualquer queda. A cicatriz junto ao queixo podia pertencer a qualquer garota que tivesse corrido depressa demais perto de uma mesa.
Lívia apoiou o pé pela borda externa.
Daniel baixou os olhos.
Ela corrigiu a posição.
O som voltou de uma vez. Pratos, lâmpadas, a vibração do vagão, o papel da moldura sendo arrancado quinze segundos tarde demais. César disse alguma coisa que se perdeu no acúmulo. Helena levantou a mão em direção a Daniel, mas não completou o gesto.
— Você é… — Ele parou. A palavra não cabia na boca. — Minha?
Lívia fechou os olhos.
O rosto da criança apareceu sobre o dela, um pouco mais baixo, sorrindo. A sobreposição durou menos de um piscar.
— Sou.
Daniel deixou a lista cair.
O papel não alcançou o chão. Ficou suspenso à altura do joelho, dobrando-se sozinho em formas que ele costumava fazer nas bordas de recibos enquanto esperava. Um quadrado. Um triângulo. Uma casa sem porta.
Ele recuou.
— Não.
Lívia abriu os olhos.
— Eu sabia que você ia…
— Não.
— Você não precisa falar desse jeito.
— Eu não tenho filha.
A frase atingiu a menina antes do som. Lívia fez uma careta como se tivesse levado uma bofetada, e só depois as palavras chegaram ao corredor.
Helena se moveu entre os dois, não como barreira completa. Deixou espaço suficiente para que ainda se vissem.
— Daniel.
Ele levou a mão ao relógio. Errou a correia, encontrou a própria pele, tentou outra vez. O mostrador de Gabriel havia parado em 23h58. Daniel bateu nele com a unha.
Nada.
— Eu não tenho — repetiu, mais baixo.
— Ainda não — disse Lívia.
A resposta veio sem cálculo. Assim que falou, ela pareceu querer recolhê-la. Cobriu a boca com o punho, mordendo o tecido.
Na cozinha, a mulher sem rosto disse as mesmas palavras.
Ainda não.
Daniel olhou para ela. Depois para a versão mais velha de si mesmo, que segurava a moldura com uma das mãos e usava a outra para limpar uma mancha de cobertura no nariz da criança.
O gesto era desajeitado. Primeiro passou o polegar. Não resolveu. Depois dobrou um guardanapo em quatro partes iguais, umedecendo apenas uma ponta. Daniel conhecia a ordem porque a faria daquele jeito.
O homem futuro terminou e entregou o guardanapo à menina para que ela conferisse.
Ela conferiu.
Lívia, no corredor, ainda escondia a boca.
Daniel tentou contar.
Quinze anos desde a morte de Gabriel. Quatorze anos nela. Os números ficaram lado a lado e se recusaram a formar uma resposta simples. Havia meses que ele não conhecia, uma mulher cujo rosto o vagão escondia, uma casa que seus dedos lembravam sem ter tocado. Levantou a mão, como se pudesse organizar as datas no ar.
Não conseguiu.
— Quantos anos?
Lívia baixou o punho.
— Você sabe.
— Fala.
— Quatorze.
Ele assentiu uma vez. Rápido demais. Depois outra, mais lenta, como se confirmasse um horário com alguém do trabalho.
— Quatorze.
César se afastou do batente e quase caiu quando a estrutura atrás dele deixou de existir. Conseguiu apoiar a palma na parede, que ganhou matéria sob seus dedos. A outra mão permaneceu sobre a etiqueta ensanguentada.
— Ela veio de uma das janelas — disse. A voz não tinha humor. — Ou de uma dessas… possibilidades.
Daniel virou para ele.
— Não fala.
César fechou a boca.
Helena observava Lívia por cima do ombro. A gaze em sua mão estava inteiramente vermelha agora. Ela a dobrou para esconder a mancha, mas não perguntou nada.
Daniel apontou para a cozinha.
— Aquela mulher.
Lívia ficou imóvel.
— Quem é?
— Eu não posso.
— Não pode o quê? Dizer o nome?
— Não é isso.
— Então fala.
— Para.
A palavra saiu aguda demais. Lívia olhou imediatamente para Helena, envergonhada com o próprio volume, e baixou a voz.
— Por favor.
Daniel passou os dedos pela lateral da caneca inexistente que seu corpo ainda sentia. Só encontrou ar. A mão fechou-se devagar.
— Você sabia quem eu era na estação.
Lívia não respondeu.
— Sabia no primeiro vagão. Quando eu parei os cinco segundos. Sabia quando eu… — A voz falhou em Gabriel. Daniel tentou de novo. — Desde quando?
Ela mexeu a ponta do tênis sobre uma junção do piso. A placa de vidro ficou opaca antes de receber o atrito. Sob ela, uma sombra de Lívia correu para longe.
— Faz tempo.
— Quanto tempo?
— Para mim ou para você?
Daniel ficou quieto.
Lívia apertou os olhos. Uma lágrima escapou e parou na curva do rosto antes de ter caído; segundos depois, a pele ficou molhada acima dela. Lívia limpou com a manga, irritada, e a mancha apareceu no tecido antes do toque.
— Desculpa.
Ele não sabia a qual frase ela respondia. Talvez não fosse a nenhuma.
— Você entrou naquele trem me procurando?
— Eu entrei porque…
Ela olhou para o relógio dele.
Daniel cobriu o mostrador.
Lívia engoliu o restante.
— Porque o quê?
— Eu precisava ver você.
— Só isso?
— Não.
A resposta veio rápida. Honesta demais para ser inteira.
O corredor em volta deles produziu três portas. Uma apareceu aberta, mostrando a cozinha com a criança. Outra permaneceu fechada, marcada por um risco escuro na altura do rosto de Daniel. A terceira existia apenas como sombra no piso, sem parede onde pudesse ser instalada.
Lívia olhou para as três. Seu corpo se inclinou em direção à porta aberta antes que ela o impedisse.
— Eu não queria que você descobrisse assim.
— Como?
— Com ela pequena.
Daniel voltou a olhar para a criança.
Ela estava sentada à mesa agora, desenhando. A mão segurava o lápis com força excessiva, o indicador quase sobre a ponta. Lívia já fizera aquilo com o fragmento da pipa ao reentalhar o nome de César: dedos próximos demais da madeira, unha esbranquiçada pelo esforço.
A criança desenhou quatro pessoas.
Uma foi apagada antes de o lápis tocá-la.
Daniel viu somente o espaço branco entre três corpos de giz. A borracha surgiu depois na outra mão da menina, limpa.
Lívia deu um passo para bloquear sua visão.
— Não olha.
— Sai.
— Isso não é tudo.
— Eu sei que não é tudo.
Ele falou alto. A parede atrás dela recuou. Lívia também, levando os dois braços para perto do corpo. Daniel viu o movimento e interrompeu o próximo passo.
O corredor estreitou-se entre eles.
— Há quanto tempo você sabe? — perguntou.
— Eu vi você antes de entrar. Não assim. Não inteiro. Eu via pedaços. A estação, o relógio, o jeito que você… — Ela apontou para a lista flutuando. — Faz isso com papel. Eu achei que, quando chegasse perto, ia ter certeza.
Daniel pegou a lista no ar e a abriu. As palavras tinham mudado.
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Ele amassou o papel.
O ruído só veio depois de a bolinha estar fechada em seu punho.
— E teve?
— No relógio.
Daniel retirou a mão que cobria o mostrador.
— O que tem ele?
Lívia olhou para o chão.
— Você guardou.
— Era do Gabriel.
— Eu sei.
Ele esperou mais. Ela não deu.
Na cozinha, a versão futura de Daniel virou a moldura. A fotografia começou a se formar de dentro para fora. Primeiro, uma mão adulta pousada no ombro de uma criança. Depois a manga de uma camisa. Um pedaço de céu. O rosto da mulher continuava queimado pela luz.
Lívia viu antes dos outros e avançou até a soleira.
— Chega.
Tentou fechar a porta, mas não havia maçaneta. Seus dedos arranharam a madeira, procurando uma borda. A sombra dela já empurrava uma porta inexistente do outro lado.
Daniel segurou o batente, não nela.
— Deixa.
— Você não entende.
— Então me faz entender.
— Eu não consigo!
Desta vez ela não se desculpou pelo grito. Bateu a mão aberta na parede. A porta apareceu só para receber o golpe e tornou a desaparecer. Lívia bateu outra vez; o segundo impacto veio primeiro, fazendo Daniel piscar antes que a palma tocasse a madeira.
— Você quer que eu diga tudo e depois vai fazer o quê? Vai olhar para mim desse jeito até decidir que eu não devia ter vindo? Que eu estraguei alguma coisa? Eu não pedi para…
A frase quebrou.
Ela fechou os dentes, mas o queixo continuou tremendo. Virou o rosto para que ninguém visse. A versão infantil na cozinha fez o mesmo, escondendo-se atrás da mulher sem face.
Daniel soltou o batente.
Sua mão levantou sozinha na direção de Lívia. Parou no meio do caminho. Não sabia se deveria tocar o cabelo, o ombro, nada. A palma ficou aberta entre os dois, inútil.
Lívia olhou para ela.
Durante um instante, pareceu que daria o passo que faltava.
Não deu.
Daniel baixou a mão.
O erro aconteceu no rosto dela antes do gesto terminar: uma pequena retração nos olhos, rápida, seguida pela tentativa de ficar indiferente. Ela puxou as mangas até cobrir os dedos e assentiu como se ele tivesse respondido a uma pergunta.
Helena desviou os olhos. César inclinou a cabeça para o lado oposto, oferecendo uma privacidade que o corredor não permitia.
Daniel procurou uma frase prática. Uma pergunta que pudesse medir. Nome completo. Data. Lugar. Qualquer coisa com uma resposta que coubesse numa linha.
— Você mora onde?
Lívia riu uma vez. Não havia humor no som.
— Agora?
Ele fechou os olhos.
Quando abriu, a cozinha mostrava outra manhã. A mulher não estava. O Daniel mais velho lavava uma xícara enquanto a menina, já adolescente, prendia o cabelo diante da janela. O movimento do punho era o de Lívia. A inclinação do corpo era a dela. Até o modo como verificava se alguém a observava antes de sorrir para o próprio reflexo.
Daniel não precisava de mais nada.
A versão adolescente virou para o pai.
Disse uma palavra sem som.
O Daniel da cena respondeu. Daniel não ouviu, mas reconheceu o formato em sua boca.
Filha.
O vagão apagou primeiro a luz, depois a causa da luz. A cozinha perdeu as paredes. O cheiro de café ficou sozinho no escuro. A mesa desapareceu sob quatro marcas de caneca que permaneceram suspensas, uma delas ainda úmida.
Lívia começou a sumir junto com a casa.
Não o corpo. Apenas as bordas: o contorno do casaco confundiu-se com o corredor, os cabelos perderam a separação do fundo, como se o vagão não soubesse a qual imagem ela pertencia.
Daniel avançou.
Desta vez não parou a mão. Fechou os dedos em torno do tecido junto ao cotovelo dela, confirmando matéria.
Lívia olhou para o ponto onde ele a segurava. Depois para o rosto dele.
— Não solta — pediu.
Daniel apertou o casaco.
Não prometeu.
Ao redor deles, as quatro marcas de caneca começaram a cair.
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