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O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 1713 MIN

O sorriso chegou antes do resto do rosto.

Ficou suspenso por um instante entre as bochechas ainda incompletas, pequeno demais para a menina mais velha que aparecia por baixo da criança, familiar demais para Daniel desviar. Depois vieram os olhos. Escuros. Um pouco estreitos quando ela sorria, com o esquerdo fechando antes do direito.

Daniel conhecia aquilo.

Não sabia de onde.

A menina estendeu o embrulho ao homem mais velho. O braço levantou primeiro; o papel ainda estava junto ao peito quando o presente já ocupava as mãos dele. A versão futura de Daniel abriu os olhos.

— Para mim?

Ela fez que sim.

O pé direito se apoiou pela borda externa. O joelho virou um pouco para dentro. Um modo ruim de distribuir o peso, quase um desequilíbrio, corrigido no último instante por um movimento curto do quadril.

Daniel olhou para a porta.

Lívia estava na mesma posição.

O ombro contra a parede, os braços cruzados, o pé direito apoiado de lado. Quando percebeu que ele observava, assentou a sola inteira no chão.

Tarde demais.

Na cozinha, a criança prendeu o polegar dentro dos outros dedos antes de esperar que o presente fosse aberto. A unha apareceu marcada por pequenas meias-luas, feridas antigas de quem apertava sempre o mesmo lugar.

Lívia escondeu as mãos sob as axilas.

Daniel tornou a olhar para a menina.

Um adesivo de estrela ao avesso. O cotovelo ralado. Meias de cores diferentes. O pequeno espaço entre os dentes da frente. Detalhes soltos, todos incapazes de provar qualquer coisa sozinhos, mas o corpo dele já não precisava de prova. O ar recusou-se a entrar até o fundo dos pulmões. A lista de afazeres estalou dentro de seu punho.

O outro Daniel retirou o papel do embrulho.

Lá dentro havia uma moldura.

A fotografia não aparecia. O vidro devolvia a cozinha vazia, depois a mesa, depois uma versão da casa onde nenhum dos três morava. A menina tentou inclinar a moldura para ajudá-lo. O cabelo caiu sobre seu rosto, e ela o afastou soprando para cima, sem usar as mãos.

Lívia fez o mesmo.

Um fio escuro subira até seu olho. Ela soprou. Só percebeu o gesto depois.

Parou com a boca entreaberta.

Daniel atravessou a cozinha.

O primeiro passo aconteceu duas vezes: seu sapato tocou a madeira; a tábua recebeu o peso; então ele estava outra vez junto à mesa, ainda começando a andar. Na repetição, derrubou a cadeira. O barulho chegou antes, seco, e a cadeira caiu quando ele já passava.

— Daniel — Helena chamou.

Ele não respondeu.

A criança ergueu a moldura para o homem mais velho. No reflexo, por um segundo, ela tinha quatorze anos.

O mesmo casaco.

O mesmo cabelo preso de qualquer jeito atrás da orelha esquerda e solto do outro lado. A mesma cicatriz fina junto ao queixo, tão clara que Daniel só a notara em Lívia quando a luz do hospital a atingira. O rosto adolescente ocupou o vidro e desapareceu antes que a versão futura pudesse vê-lo.

Daniel já tinha visto.

Virou-se.

Lívia não estava mais encostada à parede. Recuara até o corredor instável, onde as placas do piso surgiam sob seus pés depois de cada passo. Sua sombra, porém, continuava na porta da cozinha.

— Você.

A palavra saiu sem força.

Lívia balançou a cabeça.

Uma vez. Pequeno. O tipo de negação que não tentava convencer ninguém.

Daniel caminhou até ela. A distância entre os dois aumentou antes de diminuir; a cozinha alongou-se, a mesa ganhou mais dois lugares e perdeu todos, o relógio na parede bateu sete e vinte e um sem produzir som.

— Aquela menina.

Lívia olhou para Helena. Depois para César. Procurou uma saída nos dois e encontrou apenas testemunhas.

— Daniel, eu…

— É você.

Ela puxou ar pela boca. O peito levantou, mas a respiração só chegou depois, num ruído estreito.

— Não aqui.

— É você?

O grito não veio. Daniel tentou elevar a voz e ela se quebrou no nome que ainda não disse. Apertou a lista, desdobrou-a, tornou a dobrar. As bordas não se alinhavam. Tentou mais uma vez.

— Responde.

Lívia encolheu os dedos dentro das mangas do casaco. Por um segundo, pareceu menor do que no primeiro vagão — não por causa de alguma versão alternativa, mas porque curvou as costas como se esperasse que a parede a aceitasse.

— Sou eu.

A sala ficou muda antes que ela terminasse.

As lâmpadas continuaram acesas, o relógio continuou avançando para trás, o bolo soltou vapor, mas todos os sons desapareceram. Daniel viu a boca da mulher se mover na cozinha. Viu a criança rir. Nada o alcançou.

Ele olhou para o rosto de Lívia.

Tentou procurar diferenças.

A menina tinha dentes de criança. Lívia não. A menina usava duas meias, Lívia calçava tênis. O cabelo era mais curto. O cotovelo podia ter ralado em qualquer queda. A cicatriz junto ao queixo podia pertencer a qualquer garota que tivesse corrido depressa demais perto de uma mesa.

Lívia apoiou o pé pela borda externa.

Daniel baixou os olhos.

Ela corrigiu a posição.

O som voltou de uma vez. Pratos, lâmpadas, a vibração do vagão, o papel da moldura sendo arrancado quinze segundos tarde demais. César disse alguma coisa que se perdeu no acúmulo. Helena levantou a mão em direção a Daniel, mas não completou o gesto.

— Você é… — Ele parou. A palavra não cabia na boca. — Minha?

Lívia fechou os olhos.

O rosto da criança apareceu sobre o dela, um pouco mais baixo, sorrindo. A sobreposição durou menos de um piscar.

— Sou.

Daniel deixou a lista cair.

O papel não alcançou o chão. Ficou suspenso à altura do joelho, dobrando-se sozinho em formas que ele costumava fazer nas bordas de recibos enquanto esperava. Um quadrado. Um triângulo. Uma casa sem porta.

Ele recuou.

— Não.

Lívia abriu os olhos.

— Eu sabia que você ia…

— Não.

— Você não precisa falar desse jeito.

— Eu não tenho filha.

A frase atingiu a menina antes do som. Lívia fez uma careta como se tivesse levado uma bofetada, e só depois as palavras chegaram ao corredor.

Helena se moveu entre os dois, não como barreira completa. Deixou espaço suficiente para que ainda se vissem.

— Daniel.

Ele levou a mão ao relógio. Errou a correia, encontrou a própria pele, tentou outra vez. O mostrador de Gabriel havia parado em 23h58. Daniel bateu nele com a unha.

Nada.

— Eu não tenho — repetiu, mais baixo.

— Ainda não — disse Lívia.

A resposta veio sem cálculo. Assim que falou, ela pareceu querer recolhê-la. Cobriu a boca com o punho, mordendo o tecido.

Na cozinha, a mulher sem rosto disse as mesmas palavras.

Ainda não.

Daniel olhou para ela. Depois para a versão mais velha de si mesmo, que segurava a moldura com uma das mãos e usava a outra para limpar uma mancha de cobertura no nariz da criança.

O gesto era desajeitado. Primeiro passou o polegar. Não resolveu. Depois dobrou um guardanapo em quatro partes iguais, umedecendo apenas uma ponta. Daniel conhecia a ordem porque a faria daquele jeito.

O homem futuro terminou e entregou o guardanapo à menina para que ela conferisse.

Ela conferiu.

Lívia, no corredor, ainda escondia a boca.

Daniel tentou contar.

Quinze anos desde a morte de Gabriel. Quatorze anos nela. Os números ficaram lado a lado e se recusaram a formar uma resposta simples. Havia meses que ele não conhecia, uma mulher cujo rosto o vagão escondia, uma casa que seus dedos lembravam sem ter tocado. Levantou a mão, como se pudesse organizar as datas no ar.

Não conseguiu.

— Quantos anos?

Lívia baixou o punho.

— Você sabe.

— Fala.

— Quatorze.

Ele assentiu uma vez. Rápido demais. Depois outra, mais lenta, como se confirmasse um horário com alguém do trabalho.

— Quatorze.

César se afastou do batente e quase caiu quando a estrutura atrás dele deixou de existir. Conseguiu apoiar a palma na parede, que ganhou matéria sob seus dedos. A outra mão permaneceu sobre a etiqueta ensanguentada.

— Ela veio de uma das janelas — disse. A voz não tinha humor. — Ou de uma dessas… possibilidades.

Daniel virou para ele.

— Não fala.

César fechou a boca.

Helena observava Lívia por cima do ombro. A gaze em sua mão estava inteiramente vermelha agora. Ela a dobrou para esconder a mancha, mas não perguntou nada.

Daniel apontou para a cozinha.

— Aquela mulher.

Lívia ficou imóvel.

— Quem é?

— Eu não posso.

— Não pode o quê? Dizer o nome?

— Não é isso.

— Então fala.

— Para.

A palavra saiu aguda demais. Lívia olhou imediatamente para Helena, envergonhada com o próprio volume, e baixou a voz.

— Por favor.

Daniel passou os dedos pela lateral da caneca inexistente que seu corpo ainda sentia. Só encontrou ar. A mão fechou-se devagar.

— Você sabia quem eu era na estação.

Lívia não respondeu.

— Sabia no primeiro vagão. Quando eu parei os cinco segundos. Sabia quando eu… — A voz falhou em Gabriel. Daniel tentou de novo. — Desde quando?

Ela mexeu a ponta do tênis sobre uma junção do piso. A placa de vidro ficou opaca antes de receber o atrito. Sob ela, uma sombra de Lívia correu para longe.

— Faz tempo.

— Quanto tempo?

— Para mim ou para você?

Daniel ficou quieto.

Lívia apertou os olhos. Uma lágrima escapou e parou na curva do rosto antes de ter caído; segundos depois, a pele ficou molhada acima dela. Lívia limpou com a manga, irritada, e a mancha apareceu no tecido antes do toque.

— Desculpa.

Ele não sabia a qual frase ela respondia. Talvez não fosse a nenhuma.

— Você entrou naquele trem me procurando?

— Eu entrei porque…

Ela olhou para o relógio dele.

Daniel cobriu o mostrador.

Lívia engoliu o restante.

— Porque o quê?

— Eu precisava ver você.

— Só isso?

— Não.

A resposta veio rápida. Honesta demais para ser inteira.

O corredor em volta deles produziu três portas. Uma apareceu aberta, mostrando a cozinha com a criança. Outra permaneceu fechada, marcada por um risco escuro na altura do rosto de Daniel. A terceira existia apenas como sombra no piso, sem parede onde pudesse ser instalada.

Lívia olhou para as três. Seu corpo se inclinou em direção à porta aberta antes que ela o impedisse.

— Eu não queria que você descobrisse assim.

— Como?

— Com ela pequena.

Daniel voltou a olhar para a criança.

Ela estava sentada à mesa agora, desenhando. A mão segurava o lápis com força excessiva, o indicador quase sobre a ponta. Lívia já fizera aquilo com o fragmento da pipa ao reentalhar o nome de César: dedos próximos demais da madeira, unha esbranquiçada pelo esforço.

A criança desenhou quatro pessoas.

Uma foi apagada antes de o lápis tocá-la.

Daniel viu somente o espaço branco entre três corpos de giz. A borracha surgiu depois na outra mão da menina, limpa.

Lívia deu um passo para bloquear sua visão.

— Não olha.

— Sai.

— Isso não é tudo.

— Eu sei que não é tudo.

Ele falou alto. A parede atrás dela recuou. Lívia também, levando os dois braços para perto do corpo. Daniel viu o movimento e interrompeu o próximo passo.

O corredor estreitou-se entre eles.

— Há quanto tempo você sabe? — perguntou.

— Eu vi você antes de entrar. Não assim. Não inteiro. Eu via pedaços. A estação, o relógio, o jeito que você… — Ela apontou para a lista flutuando. — Faz isso com papel. Eu achei que, quando chegasse perto, ia ter certeza.

Daniel pegou a lista no ar e a abriu. As palavras tinham mudado.

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Ele amassou o papel.

O ruído só veio depois de a bolinha estar fechada em seu punho.

— E teve?

— No relógio.

Daniel retirou a mão que cobria o mostrador.

— O que tem ele?

Lívia olhou para o chão.

— Você guardou.

— Era do Gabriel.

— Eu sei.

Ele esperou mais. Ela não deu.

Na cozinha, a versão futura de Daniel virou a moldura. A fotografia começou a se formar de dentro para fora. Primeiro, uma mão adulta pousada no ombro de uma criança. Depois a manga de uma camisa. Um pedaço de céu. O rosto da mulher continuava queimado pela luz.

Lívia viu antes dos outros e avançou até a soleira.

— Chega.

Tentou fechar a porta, mas não havia maçaneta. Seus dedos arranharam a madeira, procurando uma borda. A sombra dela já empurrava uma porta inexistente do outro lado.

Daniel segurou o batente, não nela.

— Deixa.

— Você não entende.

— Então me faz entender.

— Eu não consigo!

Desta vez ela não se desculpou pelo grito. Bateu a mão aberta na parede. A porta apareceu só para receber o golpe e tornou a desaparecer. Lívia bateu outra vez; o segundo impacto veio primeiro, fazendo Daniel piscar antes que a palma tocasse a madeira.

— Você quer que eu diga tudo e depois vai fazer o quê? Vai olhar para mim desse jeito até decidir que eu não devia ter vindo? Que eu estraguei alguma coisa? Eu não pedi para…

A frase quebrou.

Ela fechou os dentes, mas o queixo continuou tremendo. Virou o rosto para que ninguém visse. A versão infantil na cozinha fez o mesmo, escondendo-se atrás da mulher sem face.

Daniel soltou o batente.

Sua mão levantou sozinha na direção de Lívia. Parou no meio do caminho. Não sabia se deveria tocar o cabelo, o ombro, nada. A palma ficou aberta entre os dois, inútil.

Lívia olhou para ela.

Durante um instante, pareceu que daria o passo que faltava.

Não deu.

Daniel baixou a mão.

O erro aconteceu no rosto dela antes do gesto terminar: uma pequena retração nos olhos, rápida, seguida pela tentativa de ficar indiferente. Ela puxou as mangas até cobrir os dedos e assentiu como se ele tivesse respondido a uma pergunta.

Helena desviou os olhos. César inclinou a cabeça para o lado oposto, oferecendo uma privacidade que o corredor não permitia.

Daniel procurou uma frase prática. Uma pergunta que pudesse medir. Nome completo. Data. Lugar. Qualquer coisa com uma resposta que coubesse numa linha.

— Você mora onde?

Lívia riu uma vez. Não havia humor no som.

— Agora?

Ele fechou os olhos.

Quando abriu, a cozinha mostrava outra manhã. A mulher não estava. O Daniel mais velho lavava uma xícara enquanto a menina, já adolescente, prendia o cabelo diante da janela. O movimento do punho era o de Lívia. A inclinação do corpo era a dela. Até o modo como verificava se alguém a observava antes de sorrir para o próprio reflexo.

Daniel não precisava de mais nada.

A versão adolescente virou para o pai.

Disse uma palavra sem som.

O Daniel da cena respondeu. Daniel não ouviu, mas reconheceu o formato em sua boca.

Filha.

O vagão apagou primeiro a luz, depois a causa da luz. A cozinha perdeu as paredes. O cheiro de café ficou sozinho no escuro. A mesa desapareceu sob quatro marcas de caneca que permaneceram suspensas, uma delas ainda úmida.

Lívia começou a sumir junto com a casa.

Não o corpo. Apenas as bordas: o contorno do casaco confundiu-se com o corredor, os cabelos perderam a separação do fundo, como se o vagão não soubesse a qual imagem ela pertencia.

Daniel avançou.

Desta vez não parou a mão. Fechou os dedos em torno do tecido junto ao cotovelo dela, confirmando matéria.

Lívia olhou para o ponto onde ele a segurava. Depois para o rosto dele.

— Não solta — pediu.

Daniel apertou o casaco.

Não prometeu.

Ao redor deles, as quatro marcas de caneca começaram a cair.

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