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O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 1212 MIN

O corredor não devolvia passos.

Daniel percebeu quando correu até a curva e ouviu apenas a sola tocando o metal, sem o ruído que deveria vir depois. Parou. Bateu o salto uma vez. O impacto existiu sob o pé, seco, mas não avançou um centímetro pelo espaço estreito.

Atrás dele, Helena ajudava a garota a andar.

— César! — chamou Daniel.

O nome saiu de sua boca e morreu antes de alcançar a primeira lâmpada.

Nenhuma resposta.

O corredor seguia reto, revestido por chapas cinzentas que não combinavam entre si. Algumas tinham rebites grandes, antigas; outras eram lisas, pintadas recentemente. Portas estreitas surgiam dos dois lados, todas sem maçaneta. Acima, lâmpadas protegidas por grades deixavam intervalos de escuridão exatos entre um círculo de luz e outro.

Daniel voltou.

A garota mantinha os dedos presos na costura da jaqueta dele. A unha do indicador ainda aparecia alguns milímetros fora do lugar, mas as outras partes tinham parado de se repetir. A estampa da blusa permanecia torta, como se alguém a tivesse remontado com pressa.

— Consegue andar?

— Estou andando.

— Sem se apoiar.

Ela soltou a jaqueta na mesma hora. Deu dois passos sozinha e quase perdeu o tênis esquerdo, que demorou uma fração de segundo para acompanhar o pé. A garota o empurrou de volta com a ponta do outro sapato.

— Pronto.

Daniel não respondeu.

— Não fica olhando.

— Não estou.

— Está, sim.

Helena passou entre os dois. O casaco continuava amarrado à cintura, mas o bolso cortado pendia para fora como uma boca pequena. Ela dobrou o tecido sobre a abertura e prendeu a dobra no nó, com movimentos duros demais para parecerem apenas práticos.

— Ele não poderia ter ido longe com aquele ferimento.

— A passagem levou — disse Daniel. — Não sabemos para onde.

— Levou para frente.

Helena indicou uma mancha no piso. Não era sangue fresco. Uma marca marrom, estreita, interrompida a cada poucos metros, como se um tecido encharcado tivesse roçado no metal.

A garota aproximou o rosto sem se abaixar.

— Pode ser ferrugem.

— Pode.

Helena já seguia a mancha.

Daniel caminhou ao lado da garota. Não tentou tocá-la outra vez, mas contou seus passos até o décimo. No décimo primeiro, ela percebeu.

— Eu não vou desmontar.

— Certo.

— Você não acredita.

— Acredito que não está desmontando agora.

Ela fez uma careta que não encontrou força para virar ironia. Passou a língua sobre o lábio ressecado e continuou.

As portas laterais não tinham números. Daniel tentou a primeira, depois a segunda. Nenhuma cedeu. Na terceira, encontrou quatro riscos perto da moldura: três verticais e um inclinado sobre eles. Passou o polegar pela marca. A poeira saiu, mas os riscos permaneceram.

— Alguém contou alguma coisa aqui.

Helena não voltou.

— Ou tentou lembrar — disse a garota.

Daniel olhou para ela.

— Lembrar o quê?

— Se eu soubesse, não precisava riscar.

O trem inclinou-se, mas nada no corredor deslizou. Nem poeira, nem gotas, nem o bolso solto do casaco de Helena. Os corpos sentiram a curva; o espaço, não. Por alguns segundos, caminharam com os ombros voltados para uma parede que permanecia perfeitamente vertical.

A mancha marrom terminou diante de uma porta maior.

No centro havia uma placa de latão. Daniel limpou-a com a manga. Nenhuma palavra apareceu. O metal guardava apenas quatro furos onde letras tinham sido retiradas.

Helena pressionou a porta.

Ela abriu sem produzir vento.

Do outro lado havia um vagão comprido, quase escuro, ocupado por fileiras de bancos de madeira. Nenhum passageiro. Nenhuma janela. As paredes eram forradas por nichos de bagagem, e em cada nicho descansava um objeto: chapéus, malas, brinquedos, guarda-chuvas, um sapato infantil, três pares de óculos dentro de estojos abertos. Pequenas etiquetas pendiam de todos eles.

Todas em branco.

O silêncio não parecia ausência de som. Parecia uma superfície. Daniel sentiu-o encostar nos ouvidos assim que entrou, macio e denso, abafando até a respiração dentro do nariz.

Helena ficou na porta.

— Não se separem.

A garota entrou logo depois de Daniel. O piso era coberto por uma passadeira azul, limpa nas bordas e gasta no centro. Havia marcas de pés na trama, mas nenhuma apontava uma direção inteira. Um calcanhar surgia perto da porta; mais adiante, apenas cinco dedos. Depois nada.

Daniel olhou para trás.

A porta do corredor permanecia aberta. Mesmo assim, não via o corredor. O retângulo mostrava uma parede forrada de papel verde, distante, como se a abertura pertencesse a outro cômodo.

— Helena.

Ela viu. Não comentou. Retirou uma moeda do bolso, colocou-a atravessada entre a porta e o batente e conferiu duas vezes se o metal sustentava a fresta.

— Se fechar, ouvimos a moeda cair.

A garota olhou para o piso coberto de tecido.

— Não vamos ouvir.

Helena deixou a moeda mesmo assim.

Os bancos tinham encostos altos, dividindo o vagão em pequenos compartimentos. Sobre o primeiro, alguém deixara um jornal sem texto. Havia colunas, fotografias e títulos impressos em cinza-claro, mas nenhuma letra. Na imagem maior, quatro pessoas posavam diante de uma casa. Os rostos estavam intactos; os espaços entre elas, raspados até o papel ficar fino.

Daniel virou a página.

Mais fotografias sem nomes. Anúncios de produtos sem marcas. Uma lista com quatro linhas vazias.

No compartimento seguinte, uma mesa estreita sustentava quatro xícaras. Três estavam vazias. A quarta continha café ainda morno, com uma película escura tremendo na superfície apesar de o vagão não vibrar. Daniel aproximou o nariz. Não havia cheiro.

— Não bebe — disse Helena.

— Eu não ia.

A garota contou as xícaras com o indicador, sem tocar.

— Por que quatro?

Daniel procurou uma resposta no banco, nas etiquetas, no corredor pelo qual tinham entrado. Viu três marcas de água junto à mesa. A quarta cadeira estava afastada, virada para o fundo do vagão.

— Estavam aqui antes.

— Tudo estava — Helena falou, já olhando para outro lugar.

A garota pegou uma colher pelo cabo. Daniel esperou que Helena protestasse, mas ela apenas acompanhou o movimento. A colher não refletia o rosto de quem a segurava. Mostrava a mesa vazia, as quatro xícaras e uma cadeira ocupada por uma depressão no estofado.

— Tem alguma coisa sentada — a garota sussurrou.

Daniel tomou a colher de sua mão usando a ponta da manga. No metal, a cadeira apareceu vazia outra vez.

— Não pega mais nada.

— Você pegou.

— Para tirar de você.

— Continua sendo pegar.

Ele deixou a colher sobre a mesa. O objeto caiu atravessado na borda de uma xícara. Não tilintou. A superfície do café na quarta começou a girar, formando um funil pequeno. No fundo, por menos de um segundo, Daniel viu dentes que não pertenciam a uma boca — uma fileira de espaços claros fechando-se sobre o líquido.

Piscou.

O café estava parado.

A garota já se afastara. Dessa vez não fingiu que não tinha visto.

Acima da mesa, um porta-retratos pendia torto. A fotografia mostrava apenas roupas: um vestido, dois ternos, uma blusa infantil, todos sustentados na posição de uma família que havia saído da imagem sem levar o que vestia. No canto inferior, uma data fora raspada. Restava o número quatro.

— Isso estava esperando por nós? — perguntou.

Ninguém respondeu.

Helena examinava o banco seguinte. O assento guardava uma depressão recente, profunda o bastante para alguém adulto, mas a poeira em torno estava intacta. Ela aproximou dois dedos da madeira, sem encostar.

— Está quente.

A garota testou o ar acima do banco.

— Eu não sinto.

— Não toque.

— Eu não ia tocar.

Helena retirou a mão primeiro. Na lateral do assento, uma faixa escura havia manchado a madeira. Daniel conhecia aquela cor. Sangue seco misturado a água.

— Ele passou por aqui.

O nome não veio junto à frase.

Daniel esperou. Helena também.

A garota mexeu a boca como se fosse completá-la. Não completou.

— César — Daniel disse.

O silêncio pareceu apertar-se em torno do nome.

Helena virou-se para ele.

— Sim.

Mas demorara.

Daniel puxou a chave de fenda do bolso e riscou CÉSAR na madeira do banco.

As letras ficaram claras contra o verniz escuro.

— Para quê? — a garota perguntou.

— Para não demorar da próxima vez.

Ela não gostou da resposta. Isso apareceu no modo como dobrou a etiqueta branca de um guarda-chuva próximo sem chegar a arrancá-la.

— Você acha que eu vou esquecer também.

— Acho que este lugar apaga nomes.

— Não foi isso que perguntei.

Daniel guardou a ferramenta.

— Fica perto.

Ela soltou a etiqueta. A pequena dobra se desfez sozinha, voltando a deixá-la lisa.

Helena avançou para a fileira seguinte. Não procurava mais apenas manchas no piso. Conferia debaixo dos bancos, os nichos, as junções entre a passadeira e a parede. No terceiro compartimento encontrou uma faixa de tecido presa a um parafuso.

Parte de uma camisa.

— É dele — disse Daniel.

Helena segurou a faixa pelas pontas. O tecido estava duro de sangue.

— De quem?

A pergunta saiu rápida demais para ser brincadeira.

Daniel apontou para o banco anterior.

A palavra que riscara já não estava inteira. Restavam ÉSAR e a marca superficial de uma curva antes do E.

Helena voltou três passos. Passou a unha sobre a madeira. A primeira letra se desfez em pó.

— César Moraes — disse, agora com precisão. — Ferimento no abdome, abaixo do rebordo costal. Transferido de Marina. Casaco usado como compressão. Roubou dois bilhetes.

Cada frase parecia um prego.

A garota fechou os olhos por um instante.

— Tinha uma piada ruim para tudo.

— Assobiava — Daniel acrescentou. — Ou o irmão assobiava.

— Ele apagou minha memória.

Helena dobrou a faixa ensanguentada e guardou-a no bolso externo do casaco, aquele que não fora cortado.

O banco rangeu.

Não quando ela saiu de perto. Depois.

Os três olharam ao mesmo tempo.

A depressão quente no assento começara a subir, devagar, como espuma recuperando a forma depois que alguém se levanta. A poeira permaneceu intacta. Quando a madeira nivelou, a mancha de sangue na lateral perdeu as bordas e desapareceu dentro do verniz.

Do nicho acima, um chapéu caiu.

Não houve som.

O objeto tocou o piso, amassou a aba e rolou até o sapato de Daniel em completo silêncio.

Ele recuou.

O chapéu continuou rolando por mais tempo do que o impulso permitia. Passou entre Helena e a garota, entrou sob um banco e não saiu do outro lado.

Algo se moveu atrás dos encostos.

Não uma forma inteira. Primeiro uma alteração no pó suspenso, um corredor limpo abrindo-se no ar. Depois etiquetas brancas viraram ao mesmo tempo, acompanhando alguma coisa que avançava pelo vagão. Nenhuma mostrou o verso.

A garota levou os dedos à boca.

— Tem alguém aqui.

Daniel ergueu a chave de fenda. O gesto pareceu ridículo antes de terminar.

— Volta para a porta.

— A porta não está mais ali.

O retângulo atrás deles agora mostrava um armário cheio de casacos. A moeda continuava presa no batente, mas já não tinha uma face gravada. Era um círculo liso de metal.

Helena se colocou entre a garota e os bancos.

— Devagar.

— Para onde? — Daniel perguntou.

Ela não respondeu.

O corredor limpo no pó parou a dois compartimentos deles.

Uma etiqueta virou.

Depois outra.

Na terceira, surgiu escrita.

DANIEL MONTENEGRO.

Ele deu um passo. Helena segurou a própria manga antes de agarrá-lo e conteve a mão no meio do caminho.

— Não chega perto.

A etiqueta balançou. As letras começaram a perder tinta pela última sílaba. MONTENEGRO virou MONTENEGR, depois MONTENEG.

Daniel sentiu uma pressão atrás dos olhos. Não dor. A sensação de ter entrado num cômodo para buscar alguma coisa e parado sem saber qual.

A chave de fenda estava em sua mão.

Por quê?

Olhou para a madeira riscada no banco. ÉSAR.

Conhecia aquelas letras. Não a ordem.

— Daniel — a garota chamou.

Ele se voltou.

Ela parecia menor no casaco molhado. A estampa torta da blusa, a unha deslocada, os olhos vermelhos. Daniel sabia que precisava ficar perto dela.

Não sabia por quê.

A lacuna durou menos de um segundo.

Gabriel vivo. A garota se desfazendo. A mão dela fechada na dele.

Daniel atravessou o espaço e segurou seus ombros.

— Diz alguma coisa que eu saiba.

— O quê?

— Qualquer coisa.

Ela tentou rir e não conseguiu.

— Você é chato.

— Outra.

— Guarda ferramenta no bolso como um velho. Confere porta duas vezes. Não sabe mentir quando fala do seu irmão.

— Outra.

A garota franziu o nariz, assustada com a exigência.

— Você… você me carregou.

As palavras encontraram lugar.

Daniel soltou os ombros dela devagar.

— Certo.

Helena permanecia de frente para os bancos. Em sua mão, a faixa de camisa reaparecera fora do bolso. Ela a apertava como se tivesse esquecido que a guardara.

— Quem é Marina? — perguntou.

Daniel olhou para ela.

Helena olhava o sangue no tecido.

— Eu sei o nome — continuou. — Não sei por que disse.

A garota respondeu antes que Daniel encontrasse uma forma segura:

— A menina do hospital.

— Que hospital?

O pó suspenso abriu outro corredor atrás de Helena.

Daniel viu algo parecido com dedos apoiarem-se no alto de um encosto. Não dedos visíveis; cinco ausências estreitas onde a madeira deixava de refletir luz. O banco inclinou-se sob um peso sem corpo.

Uma etiqueta no nicho virou.

HELENA DUARTE.

Helena leu o próprio nome. Nenhuma reação chegou ao rosto.

— Essa sou eu.

Não parecia certeza.

A garota recuou até tocar Daniel com as costas.

— A gente precisa sair.

— Pela porta — ele disse.

— Qual porta?

Havia três agora.

Uma mostrava o armário de casacos. Outra se abria para um banheiro estreito, com quatro escovas de dentes em copos sem marcas. A terceira dava para o mesmo vagão, visto de outro ângulo. Em todas, a moeda lisa continuava presa ao batente.

Helena enrolou a faixa ensanguentada na mão ferida. O tecido deixou uma linha escura sobre sua pele.

— Seguimos o sangue.

— De quem? — a garota perguntou.

Helena parou.

Daniel abriu a boca.

O nome não veio.

Olhou para o banco riscado. Restava SAR.

— Do homem que roubou nossos bilhetes.

— Que homem?

A garota perguntou com sinceridade.

O silêncio tocou Daniel por dentro.

Ele enfiou a mão no bolso vazio. Encontrou apenas o forro cortado por nada, embora seu bolso não tivesse sido cortado. No outro, os dedos tocaram um papel dobrado que não lembrava ter guardado.

Abriu.

Era um pedaço do jornal sem texto. Sua própria letra atravessava o centro:

CÉSAR ROUBOU OS BILHETES.

Enquanto os três liam, o primeiro nome perdeu o acento. Depois o R. O A fechou-se até virar um círculo. As letras escorreram para as fibras sem deixar tinta.

Restou:

ROUBOU OS BILHETES.

Helena segurou o papel perto da lâmpada.

— Quem roubou?

Atrás do último banco, alguma coisa respirou sem produzir som.

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