CAPÍTULO 6 — O SOM QUE FALTA
por Sonhado acordadoO riso veio outra vez, agora mais perto.
Daniel conhecia a pausa no meio dele. Duas notas rápidas, uma inspiração curta, depois a terceira mais alta, quase um engasgo. Gabriel ria assim quando tentava continuar sério. Daniel sabia disso antes de atravessar a porta.
Depois não soube mais.
A sensação durou menos que o intervalo entre dois golpes das rodas. Ficou apenas o riso de uma criança que podia ser qualquer criança, misturado ao tilintar de pratos e ao rumor distante do trem.
— Espera — disse ele.
Helena já havia inclinado o corpo para examinar a abertura, sem ultrapassá-la. César, atrás dela, apoiava dois dedos no alto da porta como quem verificava a firmeza de uma moldura. A garota mantinha distância. A luz morna cortava seus tênis e terminava antes dos cadarços.
Ninguém perguntou o que Daniel queria esperar.
O cheiro de bolo continuava vindo da fresta: açúcar queimado nas bordas, casca de laranja ralada, o pano úmido que Vera estendia sobre a mesa. Daniel procurou o riso por trás daquilo. Encontrou uma cadeira arrastando, uma colher batendo numa tigela, o rádio fora de sintonia.
O riso, não.
— Se ficarmos parados, a porta pode fechar — disse César. — E aí teremos feito um excelente pacto de grupo.
Helena passou a unha pelo rebordo de metal. Um pó dourado ficou preso sob ela.
— Não há corrente de ar suficiente para explicar os cheiros.
— Ainda bem que temos uma conclusão.
Ela limpou o dedo no forro do casaco e entrou.
Não anunciou. Não pediu que a seguissem. Um pé desapareceu na luz; o resto do corpo foi atrás, e o som de seus passos mudou assim que atravessou, do impacto seco sobre madeira para um ruído macio, como sola sobre tapete.
César abriu a boca, talvez para comentar, mas Daniel o ultrapassou. A temperatura subiu no rosto antes de seus sapatos cruzarem a soleira.
Durante um instante, o vagão pareceu vazio.
Era comprido, estreito e iluminado por globos de vidro leitoso. Havia portas dos dois lados, todas sem maçaneta, e um corredor central forrado por um tapete verde de pelos gastos. Nenhuma janela. Ao fundo, outra porta permanecia fechada.
Então Daniel respirou.
As paredes se afastaram.
O corredor ganhou ladrilhos brancos e pretos. Uma mesa surgiu onde antes não havia espaço, coberta por uma toalha de plástico com morangos desbotados. A luz dos globos tornou-se sol de fim de tarde. Uma cortina amarela trouxe o cheiro do quintal depois da mangueira.
Ele parou com o pé sobre a divisão entre o tapete e o piso da cozinha antiga.
Vera estava de costas para ele, inclinada sobre uma forma de bolo. Não a Vera de domingo, com a faixa branca na raiz do cabelo. Aquela tinha os cabelos presos por um lápis e usava a camiseta verde que guardava para ficar em casa. Cantava junto ao rádio, errando uma palavra de propósito.
Gabriel passou correndo pelo corredor.
Doze anos, talvez. Magro, joelhos sujos, uma toalha amarrada ao pescoço como capa. Levava a tigela de cobertura nas duas mãos.
— Gabriel — chamou Daniel.
O menino não olhou.
Vera ergueu a colher e disse alguma coisa. A boca se moveu; a frase chegou abafada, como ouvida através de uma parede grossa. Gabriel respondeu lambendo a cobertura do polegar.
Lembrava da chuva, do barro nas sandálias e de ter consertado a antena. Lembrava de Gabriel com aquela capa ridícula e de Vera ameaçar usar a toalha para secar o chão.
Deveria lembrar por que os três riram.
O espaço estava ali. Um ponto exato depois do gesto de Gabriel, antes de Vera bater a colher na borda da tigela. Daniel sentiu a lembrança chegando e encontrou uma superfície branca, lisa, sem nada onde apoiar a mão.
Atrás dele, alguém esbarrou na porta.
A cozinha tremeu. A mesa perdeu as bordas por um segundo, deixando aparecer o corredor verde por baixo.
— Não fecha — disse a garota.
Ela havia atravessado por último e mantinha um sapato prendendo a passagem. O painel de madeira roçava a lateral do tênis, insistindo em se mover.
César empurrou com o ombro, mas a porta não cedeu nem o reconheceu; atravessou a resistência dele devagar, obrigando-o a retirar o corpo.
— Solta — Daniel disse à garota.
— A gente combinou…
— Já entramos. Solta antes de prender seu pé.
Ela olhou para a abertura que diminuía, depois para o corredor que mudava em torno deles. Retirou o tênis num puxão. A porta se fechou sem bater.
A cozinha desapareceu.
No lugar dela, uma sala ampla tomou metade do vagão. Paredes azul-claras, poltronas de vinil, um bebedouro com copos de plástico empilhados. Um desenho infantil estava preso à parede com fita. Sol amarelo, casa vermelha, quatro pessoas de mãos dadas.
Helena deixou escapar um som curto pelo nariz.
Uma mulher mais jovem, de jaleco, surgiu perto do bebedouro. Helena, com olheiras profundas e o cabelo preso alto, segurava um envelope aberto. Outra médica a abraçou por trás, quase derrubando o copo que ela tinha na mão.
— Você passou — disse a mulher. — Eu falei que você passava.
A Helena ao lado de Daniel não respondeu. A dobra que havia feito em seu bilhete ainda marcava o bolso do casaco. Ela foi até o desenho infantil e tentou descolar uma ponta da fita. O papel não reagiu aos dedos.
A Helena mais jovem ria dentro do abraço, molhando a manga da colega com água do copo.
— Quem é ela? — César perguntou.
Helena soltou a fita.
A pergunta ficou no ar. Ela examinou a pilha de copos, o envelope, o relógio da sala. O ponteiro marcava 6h14.
— Isto não é uma reprodução exata — disse por fim. — O relógio ficava na outra parede.
A colega da lembrança repetiu: “Você passou.” O abraço recomeçou. O copo inclinou no mesmo ângulo, derramando as mesmas três gotas.
Uma vez.
Outra.
Na terceira, Helena desviou o rosto.
— É seu? — perguntou a garota, mais baixo.
Helena já caminhava para o fundo. O ambiente médico perdeu cor e se dissolveu no cheiro de cerveja, carvão e repelente.
César não teve tempo de escolher.
O corredor virou um quintal estreito cercado por muros altos. Uma churrasqueira soltava fumaça perto de uma pia externa; numa mesa de plástico, peças de dominó cercavam garrafas suadas. Dois homens discutiam sobre a pontuação. Um deles era César, mais novo e sem barba. O outro tinha o mesmo sorriso, mas o rosto era mais largo e os cabelos raspados.
— Você roubou — disse o irmão.
— Aprendi com o melhor.
— Então aprendeu errado.
O César da mesa bateu uma peça. O irmão jogou o corpo para trás numa indignação exagerada, e uma senhora fora de vista mandou os dois calarem a boca. Eles riram.
O César do vagão permaneceu parado perto da churrasqueira, onde a fumaça passava por seu peito sem fazê-lo tossir. O sorriso apareceu por reflexo e morreu antes de chegar aos olhos.
Daniel notou um terceiro lugar à mesa.
Vazio. Um copo servido, uma cadeira puxada, nenhuma pessoa.
— Quem estava ali? — perguntou.
César pegou uma peça de dominó. Ou tentou. Os dedos fecharam no ar, e a peça continuou sobre o plástico.
— Não sei.
— A lembrança é sua.
— Obrigado pela perícia.
O irmão de César embaralhou as pedras. O som seco se multiplicou pelo vagão, alto demais, misturando-se às rodas que corriam por baixo de tudo.
— Tem um copo — Daniel insistiu. — Alguém estava sentado.
César chutou a perna da cadeira vazia. O móvel não se moveu, mas o quintal inteiro oscilou. A fumaça escureceu; por trás dela apareceu por um instante uma rua molhada, faróis, um capuz cobrindo um rosto.
— Se quer fazer perguntas — César disse, sem olhar para Daniel —, começa pela menina que sabia contar um tempo que não existiu.
— Não me chama de menina.
Ela estava junto ao muro, apertando os braços contra o corpo. César virou a cabeça, o corte sobre a sobrancelha mais escuro sob a luz da churrasqueira.
— Você prefere “sem nome”?
A resposta não veio. O quintal cedeu antes.
O muro abriu-se numa paisagem de verão. Grama alta, toalha xadrez, sombra de uma árvore carregada de flores brancas. Uma mulher sentada de costas cortava maçãs em fatias finas. Ao lado dela, a garota — mais nova, talvez oito anos — tentava montar uma pipa vermelha. Havia alguém ajoelhado à sua frente, ajudando com as varetas.
O rosto dessa pessoa permanecia fora do campo de visão, não importa de onde Daniel olhasse. Quando ele se deslocava, o tronco da árvore, um reflexo ou a própria pipa cobria os traços.
A garota do vagão ficou sem cor.
— Não.
Foi até a cena e arrancou a pipa das mãos da criança. Seus dedos atravessaram o papel. Tentou de novo, desta vez com as duas mãos, e perdeu o equilíbrio sobre a toalha que não afundava sob seu peso.
— Para — disse ela, para ninguém visível. — Não mostra isso.
A mulher ofereceu uma fatia de maçã. A criança recusou, concentrada no nó. A pessoa sem rosto disse algo que fez as duas rirem.
A garota pressionou as palmas sobre os ouvidos.
Helena mudou de direção e se aproximou, mas não a tocou. A distância de um braço permaneceu entre as duas.
— Não olha — disse a garota. — Vira.
Helena virou-se para a parede inexistente.
César demorou um pouco mais. Quando cedeu, foi sem comentário. Daniel manteve os olhos no chão até a grama desaparecer debaixo de seus sapatos.
O trem devolveu o corredor verde.
Não por inteiro.
Restos das quatro lembranças permaneciam presos às paredes: a cortina amarela de Vera numa porta, o desenho infantil sobre o lambril escuro, duas peças de dominó no rodapé, uma fita vermelha balançando no teto sem vento. Os cheiros se misturavam até ficarem errados. Bolo com desinfetante. Carvão sobre flores. Maçã cortada com madeira úmida.
As rodas batiam num ritmo estável ao fundo.
César foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Isso é útil.
Ninguém acompanhou.
Ele esfregou fuligem inexistente entre o polegar e o indicador, examinando a pele limpa.
— Seja o que for, mostrou coisas. Lugares. Pessoas. Dá para usar.
— Para quê? — Helena ainda estava de costas para a garota.
— Descobrir por que escolheu cada um. Alguma coisa precisa ligar nós quatro.
— Ou quer que a gente conte o que viu no seu quintal antes de perguntar da cadeira vazia? — A garota tirou as mãos dos ouvidos. Havia marcas vermelhas junto às têmporas.
César mordeu o lado de dentro da bochecha. Passou a língua sobre o ponto, uma vez, e sorriu.
— Está melhor?
— Não faz isso.
— Isso o quê?
Ela imitou o sorriso dele de maneira cruel e desajeitada. Por um segundo pareceu prestes a chorar; transformou o movimento numa careta.
Daniel voltou para o lugar onde a cozinha havia aparecido.
A cortina amarela continuava presa ao batente. Tocou o tecido. Desta vez houve resistência: algodão fino, uma costura solta na barra, cheiro de sabão de coco. Quando puxou, a cortina deslizou e revelou uma porta estreita.
— Tem outra aqui.
Helena se aproximou. César calou. A garota permaneceu onde estava, olhando para a fita vermelha no teto.
A porta estreita não combinava com as demais. Madeira clara, tinta gasta perto da fechadura, uma placa oval sem palavras. Daniel girou a maçaneta.
Abriu para a cozinha antiga.
Não uma imagem ocupando o vagão, mas o cômodo inteiro, fundo e sólido, com luz de fim de tarde sobre os ladrilhos. A forma de bolo descansava no fogão. O rádio chiava. Gabriel passava correndo com a tigela nas mãos e voltava ao início assim que alcançava o corredor.
— Não entra — disse Helena.
Daniel já havia cruzado.
O calor da cozinha envolveu seus braços. A sola grudou numa gota de cobertura no piso e soltou com um ruído úmido. Real. Perto da pia, havia pratos secando num pano. Daniel reconheceu um lascado na borda, resultado de uma discussão sobre quem lavaria a louça.
Gabriel apareceu outra vez.
— O que ela disse? — Daniel perguntou.
O menino passou por ele.
Vera ergueu a colher. A boca formou a frase abafada. Gabriel levou o polegar sujo de cobertura até o nariz, deixando uma mancha marrom na ponta. Os ombros de Daniel — o Daniel daquela tarde, sentado fora do campo de visão — sacudiram com uma risada.
Ele sabia que estivera ali. A cadeira junto à janela estava puxada para trás do modo como gostava. Uma chave de fenda repousava ao lado de um rádio desmontado. Seu trabalho. Suas mãos.
Mas, quando tentou ocupar o lugar, a cadeira estava vazia.
Daniel fechou os olhos. Uma tarde chuvosa. A antena. Gabriel de capa. Vera com a colher.
O que ela disse?
Nada.
Não era uma palavra fora de alcance. Ele encontrou a espera antes da frase, a explosão de riso depois. No meio havia um corte limpo.
Abriu os olhos e viu a tigela cair.
Gabriel tropeçara na ponta da toalha. A louça girava no ar. Daniel reagiu sem pensar.
O mundo ficou imóvel.
A tigela parou inclinada, cobertura erguida numa onda acima da borda. Um respingo marrom pairou diante do rosto de Gabriel. A chama do fogão se transformou numa faixa azul sem movimento.
Daniel teve cinco segundos.
Não contou. Agarrou a tigela — sólida agora — e a colocou sobre a mesa. Endireitou o corpo de Gabriel por um ombro. Ao tocar o menino, sentiu os ossos pequenos, o calor preso sob a camiseta, os fios úmidos do cabelo roçando seus dedos.
O tempo voltou.
Gabriel caiu de joelhos sem a tigela. Vera gritou uma palavra. Depois os dois olharam para o objeto sobre a mesa.
A lembrança não recomeçou.
Vera virou devagar para Daniel.
Seus olhos não tinham pupilas.
A cozinha esfriou. O sol perdeu a cor, o rádio emudeceu e a cobertura afundou sobre si mesma. Gabriel continuava ajoelhado. A mancha na ponta do nariz desapareceu; depois o rosto ficou liso, ainda inclinado para Daniel.
Daniel recuou e bateu na mesa.
— Não.
Na parede acima do fogão, letras surgiram sob a tinta. Não formavam frase. Apenas cinco riscos verticais, queimados na superfície.
Um deles se apagou.
Daniel tentou lembrar a voz de Gabriel naquela tarde.
Sabia que o irmão falara. Via a garganta se mover. Via o peito encher antes do riso. Não havia som. Nem abafado. Nada.
O bilhete queimou contra seu peito.
Ele o arrancou do bolso. O símbolo das duas linhas estava marcado mais fundo, escuro como fuligem. Uma mancha úmida atravessava o papel, embora suas mãos estivessem secas.
Helena apareceu na porta.
— Daniel, sai daí.
Ele mostrou o bilhete, sem encontrar palavras para a coisa que faltava.
— A voz — disse. — Eu não…
O chão inclinou sob seus pés. Não era o vagão fazendo a curva. A cozinha se dobrava em direção à porta, ladrilhos deslizando uns sobre os outros. Helena agarrou o batente com uma mão e estendeu a outra.
Daniel alcançou por instinto. Os dedos quase se tocaram, mas o piso puxou seus sapatos para trás.
César surgiu atrás de Helena, prendeu o pé numa saliência do corredor e segurou a cintura do casaco dela. A garota, mais distante, gritava alguma coisa que o ruído das rodas engoliu.
Daniel lançou o bilhete primeiro.
Helena o apanhou contra o peito. César reclamou, o casaco esticou, a costura gemeu. Por um instante os três formaram uma linha instável entre a cozinha e o corredor.
— A mesa! — Helena gritou.
Daniel segurou a borda. A madeira cedeu em suas mãos como massa de pão. Afundou até os punhos.
A mão de Gabriel apareceu ao lado da dele.
Pequena, suja de cobertura, oferecida.
Daniel olhou para o rosto liso do irmão.
Cinco segundos cabiam entre os dois.
— Não toca nele! — veio a voz da garota, nítida dessa vez.
Daniel soltou a mesa e se lançou para a porta.
Helena fechou os dedos em sua manga. César puxou os dois, tropeçando para trás. Eles caíram no corredor verde quando a porta estreita bateu com força suficiente para lançar lascas de tinta pelo tapete.
O vagão retomou o equilíbrio.
Ouviram apenas o trem e a própria respiração.
A garota estava encostada à parede. Não escondia o medo agora. Seu maxilar tremia; ela o prendia mordendo o lábio.
Helena sentou e examinou as próprias mãos. Um rasgo atravessava a palma, aberto pela farpa do batente. O sangue se acumulou numa linha fina.
César percebeu ao mesmo tempo.
— Você se cortou.
Ela fechou a mão sobre o ferimento.
— Superficial.
— Ótimo. Este lugar parece respeitar ferimentos superficiais.
Helena não respondeu. Estendeu o bilhete de Daniel pelo canto, sem tocar o símbolo.
— O que aconteceu lá dentro?
Daniel se sentou com as costas no rodapé. A cortina amarela havia sumido. A parede voltara a ser madeira escura, sem porta.
— Eu parei de novo.
César se afastou um pouco, quase imperceptivelmente.
— Por quê?
Daniel abriu a boca. A tigela caía. Gabriel tropeçava. A reação acontecia antes da escolha.
— Ele ia cair.
— Numa lembrança — Helena disse isso para o chão, não para ele.
— Parecia… Eu toquei nele.
— E depois?
Daniel tentou produzir o riso. Três notas, uma pausa, a última mais alta. Era assim? Ou havia inventado a forma poucos minutos antes?
— A voz dele sumiu.
César franziu a testa.
— Da cena?
— De mim.
Ninguém encontrou uma resposta rápida. Pela primeira vez desde que entrara, César não tentou fabricar uma.
Daniel pressionou os dedos contra a têmpora. Veio o rosto de Gabriel aos doze anos, a toalha no pescoço, a cobertura no nariz.
Sem som.
— Antes — disse ele —, quando toquei o bilhete… já tinha um espaço. Eu não sabia o que faltava. Agora sei.
Helena ergueu os olhos para os cinco riscos queimados que haviam surgido na parede do corredor. Daniel não os vira aparecer ali. Quatro permaneciam escuros; no lugar do quinto, havia apenas madeira clara.
César retirou a mão do bolso onde guardava o próprio bilhete.
Devagar.
A garota fechou os olhos. Uma lágrima escapou; ela a limpou com a base da palma, irritada por ter sido vista.
— Você sabia — Daniel falou.
Ela negou antes que ele terminasse.
— Não sabia qual.
— Qual o quê?
— Qual lembrança ele ia pegar.
Helena apoiou o bilhete de Daniel no tapete entre os quatro. Não fez pergunta. O papel tinha duas manchas agora, redondas e pálidas, como marcas deixadas por gotas que secaram depressa.
César fitava a garota.
— “Ele.”
Ela percebeu tarde demais.
— O vagão.
— Você chamou de ele.
— Foi jeito de falar.
— E sabia que alguma lembrança seria levada.
A garota empurrou a fita vermelha, ainda pendurada do teto, para longe do rosto. O gesto a fez oscilar sobre os quatro, lançando uma sombra fina no tapete.
— Eu sabia que tinha um preço.
— Pelo seu bilhete? — Helena perguntou.
A menina encarou a mão ensanguentada dela, depois o bilhete no chão. Fugiu da pergunta.
— Vocês teriam entrado mesmo se eu falasse.
— Tente — disse Daniel.
Ela o olhou. A raiva veio primeiro; por baixo, algo pior.
— Você tocou duas vezes mesmo sem eu falar.
Daniel não respondeu.
Das paredes, as lembranças começaram a respirar outra vez. O rádio de Vera chiou atrás da madeira. Peças de dominó se chocaram sob o piso. Uma mulher repetiu “você passou” em algum ponto acima do teto. Mais longe, a criança com a pipa pediu ajuda a alguém cujo nome se perdeu no barulho das rodas.
No fundo do corredor, uma moldura apareceu torta entre duas portas.
Não pertencia a nenhum dos quatro cenários.
A fotografia, amarelada nas bordas, mostrava um homem de terno escuro ao lado de uma mulher e duas crianças. Atrás deles, sob um galpão aberto, via-se uma locomotiva nova, com a pintura negra intacta.
A mesma forma que os carregava agora.
Daniel se levantou e chegou perto sem tocar no vidro.
O homem segurava um relógio de bolso. O menino mais velho olhava para a locomotiva, não para a câmera.
No canto inferior, alguém escrevera uma data à tinta.
1947.
— Esta não é de nenhum de nós — Helena disse atrás dele.
César se aproximou pelo outro lado. O reflexo do vidro cortava seu rosto ao meio.
— Como sabe?
Ela não respondeu. Não precisava.
O trem diminuiu a velocidade.
Os quatro riscos queimados na parede pulsaram, escurecendo e clareando no ritmo das rodas. A fotografia tremeu dentro da moldura. Por um momento, o homem pareceu virar os olhos para Daniel.
Ele recuou.
A garota não olhava para a família.
Olhava para a locomotiva ao fundo.
— Não usem de novo — disse.
Nenhum deles discutiu.
O que você achou deste capítulo?
para reagir.


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