CAPÍTULO 4 — OS PASSAGEIROS
por Sonhado acordadoA folha de metal deslizou pela calha com uma raspagem seca de ferro contra ferro e parou no meio do curso.
Do outro lado, revelaram-se três degraus de ferro fundido sob uma luz amarela opaca e o corredor estreito de um vagão. Daniel travou no lugar. Esperou que uma figura surgisse, um cobrador, um vigia, qualquer voz para dar ordem. Apenas a vibração abafada da locomotiva respondia, ressoando por baixo da plataforma como um pulmão gigante comprimido atrás das paredes de alvenaria.
A névoa de vapor frio subiu pelas frestas, cobrindo os seus sapatos até a altura dos tornozelos.
Ele se abaixou, pegou a lanterna de alumínio no cimento e pressionou a trava do polegar duas vezes. A lâmpada sequer piscou.
— Tem alguém aí dentro?
A pergunta ecoou no corredor e morreu sem retorno.
Daniel olhou para trás. A Estação de Santa Augusta continuava imóvel na escuridão: a fachada em ruínas, o terceiro pilar, o banco de concreto quebrado. Se contornasse o vagão, poderia procurar uma placa de fabricação, um número de frota, uma sigla de concessionária — qualquer dado que devolvesse aquela máquina ao mundo comum.
O trem soltou um estalo metálico longo, a estrutura inteira estremecendo.
A porta deslizante cedeu mais cinco centímetros.
Ele ergueu o celular. A tela mantinha-se num preto sepulcral. Apertou o botão de ligar até a ponta do polegar esbranquiçar de pressão.
Nenhum sinal.
— Fuga de corrente — murmurou. — O campo magnético dessa…
A frase morreu na garganta.
Sob os vagões, os trilhos de ferro exibiam aquela faixa de aço polido. A matagal alto atravessava as vigas e o vapor sem dobrar uma folha sequer.
Daniel cravou o pé no primeiro degrau de ferro.
O metal não estava gelado; estava morno, com a temperatura de pele humana.
Subiu o segundo. A estrutura da locomotiva tremeu contra a sua palma quando ele segurou o corrimão de latão. No terceiro degrau, olhou uma última vez para a plataforma escura. A mochila de lona pesava num só ombro. No seu pulso, o relógio de pulso de Gabriel marcava meia-noite e continuava marchando.
Passou para o corredor.
A folha de metal correu atrás dele e bateu contra o batente com um baque surdo, pneumático.
Daniel girou o corpo e tentou conter o fecho. Seus dedos escorregaram pelas chapas tarde demais. A porta encaixara-se na moldura sem deixar vestígio de maçaneta, trava ou junta. Parecia uma parede de metal maciço.
— Abra essa porta!
Ele desferiu dois golpes com a base da mão na chapa.
— Abra!
O silêncio do lado de fora foi absoluto.
O corredor à sua frente acendeu-se gradativamente, lâmpada por lâmpada. Cúpulas de vidro amarelado encrostado, presas ao teto por suportes de latão trabalhado. As paredes eram revestidas por painéis de madeira escura e polida, sem qualquer traço de fuligem ou poeira acumulada. Daniel passou a ponta dos dedos pelo painel. Encontrou ranhuras finas na madeira, marcas profundas que tinham sido cobertas por camadas e camadas de verniz denso.
Havia uma porta pesada de madeira no fundo da passagem. Acima da moldura, uma placa de latão gravada em relevo trazia a palavra ENTRADA.
Puxou o celular do bolso mais uma vez. Morto. Guardou o aparelho. Enfiou a mão na mochila, pegou a chave de fenda de cabo amarelo e manteve a haste de aço colada à perna.
— Eu só vou olhar a cabine — disse para o vazio.
A declaração não aliviou o aperto no seu estômago.
Empurrou a porta de madeira.
O salão do outro lado era desproporcionalmente mais largo do que a estrutura externa do vagão permitia. Fileiras de poltronas estofadas em veludo verde-escuro acompanhavam as paredes; no centro, um tapete vermelho desgastado cobria o assoalho. Quatro janelas altas abriam-se de cada lado, mas cortinas de tecido pesado e escuro tapavam completamente a vista. No centro da composição, uma mesa redonda de nogueira estava parafusada ao piso. Sobre o tampo, uma luminária de latão apagada e um vaso de louça sem flores.
Três pessoas viraram a cabeça imediatamente na direção de Daniel.
Uma mulher na faixa dos quarenta anos estava sentada junto à mesa, a mão direita cravada no próprio pulso esquerdo, apertando a carne com força. O cabelo castanho-escuro, preso num coque baixo desfeito, deixava fios caídos sobre a testa suada. Um casaco de lã claro estava largado na poltrona ao lado.
Perto da primeira janela, um homem mantinha-se de pé, os ombros tensos dentro de uma jaqueta preta. Tinha barba curta por fazer, testa larga e um corte recente e avermelhado acima da sobrancelha esquerda. Ele esboçou um sorriso ao ver Daniel entrar, mas os seus olhos desceram na hora para a chave de fenda segura na mão dele.
A terceira figura era uma garota.
Encolhida na poltrona mais distante, usava um casaco de sarja escuro três tamanhos grande demais para o seu corpo magro. Não devia ter mais de quinze anos. As mãos estavam escondidas no fundo das mangas compridas. Não se mexeu. Apenas acompanhou a entrada de Daniel com o olhar — descendo da chave de fenda para o relógio de pulso antigo no braço dele.
A mulher perto da mesa falou primeiro, a voz raspando na garganta:
— Bate a porta. Encaixa isso.
Daniel olhou para trás. A passagem do corredor continuava escancarada.
— Por quê?
— O ar… fica pesado quando essa passagem fica aberta. Dá uma tontura desgraçada.
Ela nem esperou a resposta dele, desviando o olhar para o tampo da mesa enquanto massageava a têmpora.
— Encaixa essa porta, por favor.
Daniel empurrou a folha de madeira pesada até ouvir o estalo do trinco. Manteve a chave de fenda em riste.
O homem junto à janela soltou um riso curto, sem humor, ajeitando a gola da camisa preta.
— Se andar armado com chave de fenda faz você dormir melhor, ótimo. Mas dá pra não apontar essa ponta de aço pra minha cara?
Daniel notou que a haste de metal estava direcionada para o peito do sujeito. Baixou a mão, mantendo a ferramenta colada ao quadril.
— Que composição é essa? Quem tá no comando?
— Maravilha. Chegou o fiscal — o homem da barba ironizou, dando dois passos pelo tapete vermelho. — A gente também tá tentando adivinhar.
— Isso é um vagão de passageiros antigo.
— Sério? Achei que era uma lanchonete. Obrigado pelo laudo.
A mulher da mesa fechou os olhos por um segundo longo, soltando um suspiro irritado.
— Chega, César.
— Eu tô calmo, Helena. Só acho ótimo que todo mundo que entra aqui acha que vai resolver o problema na base da autoridade.
— Você é médica? — Daniel perguntou, virando-se diretamente para a mulher.
Ela demorou a responder, os olhos avaliando Daniel da cabeça aos pés antes de soltar o pulso.
— Helena.
— Não perguntei seu nome.
— Sou médica — a resposta veio num tom seco, defensivo. — A minha cabeça começou a martelar e a vista escureceu quando tentei andar de volta por aquele corredor. Assim que recuei dois passos pra cá, a pressão estabilizou.
— Ela faz a autópsia do próprio mal-estar — César debochou, apontando com o polegar. — É fascinante. Dá um alívio enorme pra quem tá preso junto.
Ele deu mais um passo na direção de Daniel e estendeu a mão direita.
— César.
Daniel não moveu um músculo para retribuir.
— Daniel.
César recolheu a mão devagar, enfiando os dedos de volta no bolso do casaco sem perder o tom sarcástico.
— E você veio equipado. Pelo menos já temos um encanador pro caso de vazamento.
Daniel enfiou a chave de fenda no bolso lateral da jaqueta, mantendo os dedos enganchados no cabo.
— De qual estação vocês vieram?
— Da porta — respondeu César.
— Qual linha? Qual cidade?
— Virou delegacia agora?
— É uma pergunta simples.
César virou-se e deu um tapa na cortina pesada da janela atrás de si.
— Eu tava no estacionamento do shopping no centro de Santa Augusta. A doutora aqui diz que tava no plantão do hospital. E a menina…
Ele fez um gesto com a cabeça na direção da garota encolhida na poltrona.
— A menina decidiu que não fala com a plebe.
A garota recolheu as pernas para cima do estofado do banco, afundando o queixo dentro do colarinho do casaco.
— Você precisa comentar tudo o que todo mundo faz ou é só mania de grandeza? — a voz dela saiu fina, áspera de poeira.
César abriu as mãos num gesto teatral.
— Olha só. O fantasma fala.
— Falo quando não tem ninguém me enchendo o saco.
Daniel caminhou dois passos no tapete, parando a uma distância segura da garota. Ela sustentou a encarada por um segundo e baixou os olhos fixamente para o relógio de pulso de couro no braço dele.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou.
— Não interessa.
— Se a gente tá trancado no mesmo espaço, interessa.
— Pra você mudar a minha ficha?
Daniel hesitou, a resposta travando na boca.
— Pra saber quem tá aqui dentro.
Ela encostou a lateral da cabeça no encosto de veludo.
— Me risca dessa lista.
— As janelas — Daniel mudou o foco, virando-se para o salão. — Alguém tentou abrir o fecho das cortinas?
— Não tem fecho — Helena respondeu da mesa.
Ele foi até a armação mais próxima e puxou o tecido aveludado para o lado.
Não havia vidro.
Atrás da cortina, o caixilho era preenchido por um painel de madeira escura, perfeitamente liso e idêntico ao revestimento do teto.
Daniel passou a ponta dos dedos pelas bordas da moldura de madeira. A cortina existia. O varão de latão existia. Mas por trás, a parede era maciça.
— Isso não é uma janela convertida — disse ele, a voz caindo num tom baixo. — Foi construído fechado assim.
— Colocaram cortina numa parede de madeira? — César franziu a testa, o tom sarcástico sumindo por um instante.
— Pode ser um cenário. Um vagão adaptado pra transporte privado.
— Um vagão adaptado que recolhe passageiro num hospital, num estacionamento e numa linha abandonada ao mesmo tempo?
— Você disse que tava num estacionamento — Daniel encarou-o. — Eu não vi estacionamento nenhum do lado de fora.
— Justo. Eu também não vi a sua estaçãozinha de trem.
Daniel caminhou até a janela seguinte e puxou o tecido. Outro painel de madeira cego.
— Pode ter compartimento duplo. Efeito visual. Alguma substância dispersa no ar do ambiente…
— Ninguém aqui tá sob efeito de narcótico — Helena cortou, ríspida, ajeitando o coque de cabelo.
— Você fez exame de sangue em todo mundo?
— Eu tô observando as pupilas e a coordenação motora desde que entrei nessa caixa.
— Observar de longe não é laudo.
— Não é. Mas é o que dá pra fazer sem a porcaria de um laboratório!
Daniel pressionou a madeira da parede com a base do polegar. Estrutura sólida.
— O trilho da estação lá fora tava tomado por ferrugem — soltou ele, como se pensasse alto. — Tinha mato de um metro nas vigas. Essa composição não podia ter rodado sobre aquele leito. As rodas de aço não…
Ele travou. César perdera o sorriso irônico. Helena observava os seus movimentos com uma atenção cirúrgica, quase assustada. A garota na poltrona roía a pele da lateral do polegar até sangrar.
— Você olhou as rodas lá fora? — Helena perguntou, a voz quase num sussurro.
— Olhei.
— Elas tavam assentadas no trilho?
Daniel lembrou-se do rastro de aço polido que vira sob o farol da lanterna.
— Não tenho certeza.
— Há dez segundos você parecia bem convicto.
— O matagal não tava amassado — ele aumentou o tom, a agressividade subindo como um escudo. — O vapor passou por cima e as plantas nem mexeram! Isso não faz sentido mecânico nenhum!
César encostou o quadril na mesa central.
— Ótimo. Temos duas teorias na mesa. Um sequestro milionário feito por engenheiros malucos ou um surto psicótico coletivo perfeitamente sincronizado. Eu prefiro o sequestro. No sequestro dá pra negociar valor.
— Quatro pessoas sem nenhuma ligação — Helena disse, o olhar perdido no tapete. — Sem ponto de contato prévio.
— Três e meia — César corrigiu, apontando para a garota. — A menor de idade ali ainda não apresentou o RG.
A garota ergueu o braço por dentro da manga e estendeu o dedo do meio na direção de César sem tirar a mão do casaco.
Daniel deu a volta na mesa, caminhando até a porta de madeira por onde entrara.
— A composição ainda não se moveu.
Ninguém respondeu.
O assoalho continuava transmitindo uma vibração constante e grave para a sola dos seus sapatos. Um zumbido profundo, mecânico. Poderia ser o motor ligado em neutro.
Poderia.
Ele tocou a placa de latão gravada com a palavra ENTRADA. O metal estava trancado, sem folga na trava. Do lado de dentro, não havia maçaneta nem ranhura de chave.
— Tem outra saída no fundo — Helena avisou, apontando o indicador.
Na extremidade oposta do salão, uma folha de madeira idêntica fechava a passagem. Acima dela, não havia placa nem inscrição. Daniel cruzou o corredor central do tapete vermelho. César o seguiu a dois passos de distância, os sapatos rangendo no piso.
— Quer que eu force o fecho primeiro? — César perguntou.
— Por quê?
— Porque você tá respirando curto desde que pisou aqui dentro.
Daniel puxou o ar com força pelo nariz.
— Tô perfeitamente normal.
— Maravilha. Meu olho é que tá ruim.
Daniel encostou as costas dos dedos na madeira da porta do fundo. Nenhuma reação. Buscou dobradiças expostas ou parafusos de retenção na moldura. Nada.
— Deve ter fecho eletromagnético interno.
— Claro. Tecnologia de ponta num vagão de 1920.
— Se você não tem nada de útil pra somar…
— Eu tenho: não mete a mão aí.
Daniel virou-se bruscamente.
César fez um gesto com a cabeça na direção de Helena.
— A doutora tentou voltar pela outra porta e quase caiu desmaiada no chão. Você quer ver se essa aqui te apaga também?
— A gente nem sabe se foi a porta que causou a tontura dela.
— Perfeito. Pela primeira vez a gente concorda em alguma coisa.
Um ruído áspero de papel raspando contra madeira cortou a conversa dos dois.
Helena levantou-se da poltrona num salto.
No centro da mesa de nogueira, onde antes só existiam o vaso de louça vazio e a luminária de latão, repousava agora um cartão de papel encorpado, de cor creme.
Ninguém no salão estava perto o bastante do móvel para deixar o papel ali.
César ergueu as duas mãos abertas para cima.
— Não olha pra mim. Eu tava do lado dele.
Daniel aproximou-se da mesa com passos lentos.
O papel tinha bordas grossas, levemente queimadas, e trazia um símbolo em tinta preta no canto superior: duas linhas curvas paralelas entrando numa forma de túnel cego. Apenas uma linha saía do outro lado.
No centro da folha, um nome impresso em letras maiúsculas:
HELENA DUARTE
A médica congelou a dois passos da mesa, os braços esticados ao lado do corpo.
Daniel leu a frase impressa em letras menores logo abaixo do nome. Seu maxilar se contraiu.
4 de setembro de 2011. Sala cirúrgica três. Escolher a criança.
O cartão deslizou sozinho pela superfície da madeira polida.
Deslocou-se dez centímetros e parou exatamente na borda diante de Helena.
A mulher avançou e arrancou o papel da mesa com um movimento brusco, amassando a borda com os dedos.
— Isso é um erro grosseiro.
— O seu nome tá errado? — César perguntou, inclinando o pescoço.
— O termo usado. A formulação dessa frase.
— O que aconteceu nessa sala cirúrgica?
Ela dobrou a folha de papel em quatro partes com uma precisão maníaca.
— Havia dois pacientes em estado crítico e recursos para atender apenas um deles.
— E você teve que escolher.
— A frase transforma um protocolo de triagem médica numa acusação vulgar — a voz de Helena rasgou, os olhos inflamados de raiva.
Ela enfiou o papel dobrado no bolso interno do casaco de lã.
— Isso não tem relevância nenhuma pra gente sair dessa caixa.
César encarou o bolso dela, depois voltou os olhos para o tampo da mesa.
— Eu acho que quem montou esse lugar pensa diferente.
O segundo cartão de papel creme surgiu sobre a nogueira.
O deboche desapareceu do rosto de César antes mesmo que ele terminasse de se aproximar.
CÉSAR MORAES
Ele leu a linha inferior em silêncio. Virou o papel de cabeça para baixo imediatamente.
— E aí? — Helena cobrou, dando um passo na direção dele. — O que diz a sua ficha?
— Diz que a produção desse show fez o dever de casa — César soltou, a voz perdendo o alcance habitual.
— E a linha de baixo?
Ele colocou a palma da mão sobre o cartão, cobrindo o texto.
— Assunto de família.
— Você leu a minha linha em voz alta.
— E eu me arrependo profundamente disso.
Daniel conseguiu pegar um vislumbre de duas palavras impressas na folha antes de César guardá-la no bolso interno: 22 de fevereiro e meu irmão.
Um terceiro cartão apareceu no centro da mesa.
A garota no fundo do salão moveu-se com uma rapidez assustadora.
Projetou-se para fora da poltrona, atravessou o tapete, agarrou a folha de papel e a enfiou para dentro do casaco de sarja antes que qualquer um pudesse ler o nome. No movimento desajeitado, o seu quadril bateu na quina da mesa, fazendo o vaso de louça oscilar na madeira.
— Ei! — César gritou. — Isso aí era a sua identificação!
— Não é da sua conta!
— O seu nome ia ajudar a gente a entender quem você é!
— Não interessa quem eu sou!
Helena observou os braços da garota cruzados sobre o peito, prendendo o papel contra o corpo.
— Você tá tremendo.
— É o vento dessa caixa — a garota retrucou, os dentes batendo.
— Não tem vento nenhum aqui dentro.
— Pra mim tem!
Daniel deu um passo na direção da garota.
Ela recuou três passos no tapete, batendo as costas contra o painel de madeira.
— Não encosta em mim!
Ele parou imediatamente, erguendo as mãos.
— Ninguém vai tirar nada de você.
— Todo mundo fala essa porcaria antes de puxar!
Por uma fração de segundo, os ombros da garota caíram e os olhos se encheram d’água. Ela virou o rosto, fingindo examinar o varão da cortina.
Daniel voltou-se para a mesa de nogueira.
O quarto cartão já repousava sobre a madeira.
DANIEL MONTENEGRO
O seu nome completo estava impresso em letras pretas. Logo abaixo, uma data e um horário exato.
17 de agosto de 2011. 23h58.
Não havia uma frase descritiva. Apenas quatro palavras cravadas no papel:
ALCANÇAR GABRIEL A TEMPO.
Daniel travou as duas mãos na borda de madeira da mesa. O sangue sumiu do seu rosto.
— Não…
Helena aproximou-se pela lateral.
— Daniel?
— Esse horário… foi quando Gabriel morreu — a voz dele saiu num sussurro descontrolado.
— Do que você tá falando?
— Estava no laudo. Alguém acessou meus arquivos, o cartão de memória, meu telefone…
— Quem é Gabriel? — César perguntou, o tom irônico totalmente ausente.
Daniel continuou encarando as quatro palavras na folha creme.
— O cartão foi lido ontem à tarde. Alguém grampeou meu telefone… colocou escuta na casa da minha mãe…
— Daniel — Helena segurou o braço dele com força. — Solta a mesa. Recua.
— O relógio… viram a marca no meu pulso.
— Não toca nesse cartão!
A garota gritou do fundo do vagão:
— Ele vai te puxar se você encostar!
Daniel virou a cabeça bruscamente na direção dela.
— Como é que você sabe disso?
A garota apertou os lábios com força, encolhendo os ombros.
— Você sabe o que é esse lugar? — ele avançou um passo. — Responde!
— Eu não sei de nada!
— Então por que você falou que—
O cartão de papel creme moveu-se.
Deslizou sozinho pela superfície da mesa de nogueira até tocar a ponta do indicador de Daniel.
O vagão de passageiros desapareceu num estalo seco.
O cascalho afiado do leito da ferrovia rasgou a sola do seu sapato.
Gabriel corria à sua frente no escuro, atravessando os trilhos em ruínas de Santa Augusta. A sola descolada do seu tênis esquerdo raspava no cascalho a cada passada. A câmera digital balançava pela alça no seu pulso magro. Daniel estava travado junto ao terceiro pilar de sustentação da plataforma e ainda não tinha gritado o nome do irmão.
A cena não tinha a névoa fosca de uma memória antiga. O ar cheirava a poeira de carvão e óleo queimado. O seu joelho esquerdo ainda não doía. A luz amarelada e trêmula começava a projetar a sombra dos galpões na curva da linha.
— Gabriel!
O irmão não se virou.
Daniel correu.
O seu primeiro passo foi pesado, lento demais. No segundo, a sola do seu sapato derrapou nas pedras soltas da brita. Gabriel abaixou-se no meio dos trilhos para recolher o relógio de pulso caído sobre o ferro.
A luz amarelada explodiu na curva.
Daniel abriu a boca para gritar a ordem de parada.
Não.
Ele já tinha feito aquilo há quinze anos.
Gritar custara um segundo inteiro de reação.
Daniel lançou o corpo para a frente, saltando da borda da plataforma de cimento.
O apito ensurdecedor da locomotiva rasgou a noite. Gabriel ergueu a cabeça. Daniel viu o susto congelar os olhos do irmão, depois a luz do reconhecimento, a boca abrindo para formar o seu nome.
Cinco metros de distância.
Talvez quatro.
Daniel estendeu a mão direita no ar.
Mais cinco segundos.
Era todo o tempo que existia.
O mundo ao seu redor parou bruscamente.
O apito da locomotiva morreu no meio da nota. Os pedaços de cascalho projetados pelo seu salto ficaram suspensos no ar, imobilizados no espaço. O facho de luz amarelada da curva congelou sem avançar um centímetro. Gabriel continuava ajoelhado entre os trilhos, os dedos a milímetros do vidro do relógio.
Apenas Daniel continuava se movendo.
Deu um passo sobre o cascalho suspenso.
O seu peito queimava como se estivesse cheio de brasa, mas o ar recusava-se a entrar nos pulmões.
Dois passos.
A perna raspou num pedaço de pedra suspenso sem conseguir deslocá-lo.
Três.
Gabriel estava ali. Tão perto que Daniel conseguia enxergar os poros da sua pele e o suor na sua testa — mais nítido do que em qualquer pesadelo dos últimos quinze anos.
Quatro.
Daniel cravou os dedos no braço do irmão. A manga da camisa de algodão azul era áspera e quente sob as suas gemas. Desta vez, o tecido não escorregou.
Cinco.
O som do mundo desabou de volta de uma só vez.
Daniel puxou o corpo do irmão com toda a força dos seus ombros.
Gabriel deslocou-se menos de dez centímetros sobre as pedras.
A luz amarelada engoliu os dois.
Daniel bateu com violência contra a folha da porta no fundo do vagão.
O seu ombro esquerdo chocou-se contra a madeira maciça. A chave de fenda escapou do seu bolso e rastejou pelo piso de veludo até parar perto da mesa. Ele tentou manter o equilíbrio, mas as suas pernas cederam, fazendo-o deslizar até o chão.
Helena estava parada ao lado da mesa de nogueira, a mão direita ainda estendida no ar no ponto exato onde Daniel estivera há um segundo.
César permanecia encostado na janela, o rosto totalmente pálido, os olhos arregalados.
A garota colocara-se de pé, o corpo rígido contra a parede.
Ninguém conseguiu emitir um som durante longos segundos.
Daniel olhou para a mesa central. O seu cartão de papel creme continuava repousando sobre a madeira, a seis metros de distância de onde ele estava agora.
Olhou para a própria mão direita.
Os seus dedos continuavam cravados em concha, apertados como se ainda segurassem o tecido azul da camisa de Gabriel.
— Como… como é que você fez isso? — Helena perguntou, a voz falhando.
Daniel apoiou a cabeça contra a madeira fria da porta.
— Eu não fiz nada.
César apontou com um dedo trêmulo para o espaço vazio ao lado da mesa.
— Você tava ali parado do lado dela.
— Eu sei.
— E agora você tá do outro lado do vagão.
— Eu sei!
A luminária de latão no centro da mesa acendeu-se com um estalo limpo, projetando uma luz amarelada e intensa sobre o salão.
Todos se encolheram com o clarão repentino.
Sob a iluminação da lâmpada, o ponteiro de aço do relógio de parede preso acima da porta começou a marchar para a frente.
00:01
A garota encarou Daniel do outro lado do vagão. As mãos haviam desaparecido outra vez dentro das mangas, mas o tecido tremia.
— Foram cinco segundos — disse ela.
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