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Sair

A folha de metal deslizou pela calha com uma raspagem seca de ferro contra ferro e parou no meio do curso.

Do outro lado, revelaram-se três degraus de ferro fundido sob uma luz amarela opaca e o corredor estreito de um vagão. Daniel travou no lugar. Esperou que uma figura surgisse, um cobrador, um vigia, qualquer voz para dar ordem. Apenas a vibração abafada da locomotiva respondia, ressoando por baixo da plataforma como um pulmão gigante comprimido atrás das paredes de alvenaria.

A névoa de vapor frio subiu pelas frestas, cobrindo os seus sapatos até a altura dos tornozelos.

Ele se abaixou, pegou a lanterna de alumínio no cimento e pressionou a trava do polegar duas vezes. A lâmpada sequer piscou.

— Tem alguém aí dentro?

A pergunta ecoou no corredor e morreu sem retorno.

Daniel olhou para trás. A Estação de Santa Augusta continuava imóvel na escuridão: a fachada em ruínas, o terceiro pilar, o banco de concreto quebrado. Se contornasse o vagão, poderia procurar uma placa de fabricação, um número de frota, uma sigla de concessionária — qualquer dado que devolvesse aquela máquina ao mundo comum.

O trem soltou um estalo metálico longo, a estrutura inteira estremecendo.

A porta deslizante cedeu mais cinco centímetros.

Ele ergueu o celular. A tela mantinha-se num preto sepulcral. Apertou o botão de ligar até a ponta do polegar esbranquiçar de pressão.

Nenhum sinal.

— Fuga de corrente — murmurou. — O campo magnético dessa…

A frase morreu na garganta.

Sob os vagões, os trilhos de ferro exibiam aquela faixa de aço polido. A matagal alto atravessava as vigas e o vapor sem dobrar uma folha sequer.

Daniel cravou o pé no primeiro degrau de ferro.

O metal não estava gelado; estava morno, com a temperatura de pele humana.

Subiu o segundo. A estrutura da locomotiva tremeu contra a sua palma quando ele segurou o corrimão de latão. No terceiro degrau, olhou uma última vez para a plataforma escura. A mochila de lona pesava num só ombro. No seu pulso, o relógio de pulso de Gabriel marcava meia-noite e continuava marchando.

Passou para o corredor.

A folha de metal correu atrás dele e bateu contra o batente com um baque surdo, pneumático.

Daniel girou o corpo e tentou conter o fecho. Seus dedos escorregaram pelas chapas tarde demais. A porta encaixara-se na moldura sem deixar vestígio de maçaneta, trava ou junta. Parecia uma parede de metal maciço.

— Abra essa porta!

Ele desferiu dois golpes com a base da mão na chapa.

— Abra!

O silêncio do lado de fora foi absoluto.

O corredor à sua frente acendeu-se gradativamente, lâmpada por lâmpada. Cúpulas de vidro amarelado encrostado, presas ao teto por suportes de latão trabalhado. As paredes eram revestidas por painéis de madeira escura e polida, sem qualquer traço de fuligem ou poeira acumulada. Daniel passou a ponta dos dedos pelo painel. Encontrou ranhuras finas na madeira, marcas profundas que tinham sido cobertas por camadas e camadas de verniz denso.

Havia uma porta pesada de madeira no fundo da passagem. Acima da moldura, uma placa de latão gravada em relevo trazia a palavra ENTRADA.

Puxou o celular do bolso mais uma vez. Morto. Guardou o aparelho. Enfiou a mão na mochila, pegou a chave de fenda de cabo amarelo e manteve a haste de aço colada à perna.

— Eu só vou olhar a cabine — disse para o vazio.

A declaração não aliviou o aperto no seu estômago.

Empurrou a porta de madeira.

O salão do outro lado era desproporcionalmente mais largo do que a estrutura externa do vagão permitia. Fileiras de poltronas estofadas em veludo verde-escuro acompanhavam as paredes; no centro, um tapete vermelho desgastado cobria o assoalho. Quatro janelas altas abriam-se de cada lado, mas cortinas de tecido pesado e escuro tapavam completamente a vista. No centro da composição, uma mesa redonda de nogueira estava parafusada ao piso. Sobre o tampo, uma luminária de latão apagada e um vaso de louça sem flores.

Três pessoas viraram a cabeça imediatamente na direção de Daniel.

Uma mulher na faixa dos quarenta anos estava sentada junto à mesa, a mão direita cravada no próprio pulso esquerdo, apertando a carne com força. O cabelo castanho-escuro, preso num coque baixo desfeito, deixava fios caídos sobre a testa suada. Um casaco de lã claro estava largado na poltrona ao lado.

Perto da primeira janela, um homem mantinha-se de pé, os ombros tensos dentro de uma jaqueta preta. Tinha barba curta por fazer, testa larga e um corte recente e avermelhado acima da sobrancelha esquerda. Ele esboçou um sorriso ao ver Daniel entrar, mas os seus olhos desceram na hora para a chave de fenda segura na mão dele.

A terceira figura era uma garota.

Encolhida na poltrona mais distante, usava um casaco de sarja escuro três tamanhos grande demais para o seu corpo magro. Não devia ter mais de quinze anos. As mãos estavam escondidas no fundo das mangas compridas. Não se mexeu. Apenas acompanhou a entrada de Daniel com o olhar — descendo da chave de fenda para o relógio de pulso antigo no braço dele.

A mulher perto da mesa falou primeiro, a voz raspando na garganta:

— Bate a porta. Encaixa isso.

Daniel olhou para trás. A passagem do corredor continuava escancarada.

— Por quê?

— O ar… fica pesado quando essa passagem fica aberta. Dá uma tontura desgraçada.

Ela nem esperou a resposta dele, desviando o olhar para o tampo da mesa enquanto massageava a têmpora.

— Encaixa essa porta, por favor.

Daniel empurrou a folha de madeira pesada até ouvir o estalo do trinco. Manteve a chave de fenda em riste.

O homem junto à janela soltou um riso curto, sem humor, ajeitando a gola da camisa preta.

— Se andar armado com chave de fenda faz você dormir melhor, ótimo. Mas dá pra não apontar essa ponta de aço pra minha cara?

Daniel notou que a haste de metal estava direcionada para o peito do sujeito. Baixou a mão, mantendo a ferramenta colada ao quadril.

— Que composição é essa? Quem tá no comando?

— Maravilha. Chegou o fiscal — o homem da barba ironizou, dando dois passos pelo tapete vermelho. — A gente também tá tentando adivinhar.

— Isso é um vagão de passageiros antigo.

— Sério? Achei que era uma lanchonete. Obrigado pelo laudo.

A mulher da mesa fechou os olhos por um segundo longo, soltando um suspiro irritado.

— Chega, César.

— Eu tô calmo, Helena. Só acho ótimo que todo mundo que entra aqui acha que vai resolver o problema na base da autoridade.

— Você é médica? — Daniel perguntou, virando-se diretamente para a mulher.

Ela demorou a responder, os olhos avaliando Daniel da cabeça aos pés antes de soltar o pulso.

— Helena.

— Não perguntei seu nome.

— Sou médica — a resposta veio num tom seco, defensivo. — A minha cabeça começou a martelar e a vista escureceu quando tentei andar de volta por aquele corredor. Assim que recuei dois passos pra cá, a pressão estabilizou.

— Ela faz a autópsia do próprio mal-estar — César debochou, apontando com o polegar. — É fascinante. Dá um alívio enorme pra quem tá preso junto.

Ele deu mais um passo na direção de Daniel e estendeu a mão direita.

— César.

Daniel não moveu um músculo para retribuir.

— Daniel.

César recolheu a mão devagar, enfiando os dedos de volta no bolso do casaco sem perder o tom sarcástico.

— E você veio equipado. Pelo menos já temos um encanador pro caso de vazamento.

Daniel enfiou a chave de fenda no bolso lateral da jaqueta, mantendo os dedos enganchados no cabo.

— De qual estação vocês vieram?

— Da porta — respondeu César.

— Qual linha? Qual cidade?

— Virou delegacia agora?

— É uma pergunta simples.

César virou-se e deu um tapa na cortina pesada da janela atrás de si.

— Eu tava no estacionamento do shopping no centro de Santa Augusta. A doutora aqui diz que tava no plantão do hospital. E a menina…

Ele fez um gesto com a cabeça na direção da garota encolhida na poltrona.

— A menina decidiu que não fala com a plebe.

A garota recolheu as pernas para cima do estofado do banco, afundando o queixo dentro do colarinho do casaco.

— Você precisa comentar tudo o que todo mundo faz ou é só mania de grandeza? — a voz dela saiu fina, áspera de poeira.

César abriu as mãos num gesto teatral.

— Olha só. O fantasma fala.

— Falo quando não tem ninguém me enchendo o saco.

Daniel caminhou dois passos no tapete, parando a uma distância segura da garota. Ela sustentou a encarada por um segundo e baixou os olhos fixamente para o relógio de pulso de couro no braço dele.

— Qual é o seu nome? — ele perguntou.

— Não interessa.

— Se a gente tá trancado no mesmo espaço, interessa.

— Pra você mudar a minha ficha?

Daniel hesitou, a resposta travando na boca.

— Pra saber quem tá aqui dentro.

Ela encostou a lateral da cabeça no encosto de veludo.

— Me risca dessa lista.

— As janelas — Daniel mudou o foco, virando-se para o salão. — Alguém tentou abrir o fecho das cortinas?

— Não tem fecho — Helena respondeu da mesa.

Ele foi até a armação mais próxima e puxou o tecido aveludado para o lado.

Não havia vidro.

Atrás da cortina, o caixilho era preenchido por um painel de madeira escura, perfeitamente liso e idêntico ao revestimento do teto.

Daniel passou a ponta dos dedos pelas bordas da moldura de madeira. A cortina existia. O varão de latão existia. Mas por trás, a parede era maciça.

— Isso não é uma janela convertida — disse ele, a voz caindo num tom baixo. — Foi construído fechado assim.

— Colocaram cortina numa parede de madeira? — César franziu a testa, o tom sarcástico sumindo por um instante.

— Pode ser um cenário. Um vagão adaptado pra transporte privado.

— Um vagão adaptado que recolhe passageiro num hospital, num estacionamento e numa linha abandonada ao mesmo tempo?

— Você disse que tava num estacionamento — Daniel encarou-o. — Eu não vi estacionamento nenhum do lado de fora.

— Justo. Eu também não vi a sua estaçãozinha de trem.

Daniel caminhou até a janela seguinte e puxou o tecido. Outro painel de madeira cego.

— Pode ter compartimento duplo. Efeito visual. Alguma substância dispersa no ar do ambiente…

— Ninguém aqui tá sob efeito de narcótico — Helena cortou, ríspida, ajeitando o coque de cabelo.

— Você fez exame de sangue em todo mundo?

— Eu tô observando as pupilas e a coordenação motora desde que entrei nessa caixa.

— Observar de longe não é laudo.

— Não é. Mas é o que dá pra fazer sem a porcaria de um laboratório!

Daniel pressionou a madeira da parede com a base do polegar. Estrutura sólida.

— O trilho da estação lá fora tava tomado por ferrugem — soltou ele, como se pensasse alto. — Tinha mato de um metro nas vigas. Essa composição não podia ter rodado sobre aquele leito. As rodas de aço não…

Ele travou. César perdera o sorriso irônico. Helena observava os seus movimentos com uma atenção cirúrgica, quase assustada. A garota na poltrona roía a pele da lateral do polegar até sangrar.

— Você olhou as rodas lá fora? — Helena perguntou, a voz quase num sussurro.

— Olhei.

— Elas tavam assentadas no trilho?

Daniel lembrou-se do rastro de aço polido que vira sob o farol da lanterna.

— Não tenho certeza.

— Há dez segundos você parecia bem convicto.

— O matagal não tava amassado — ele aumentou o tom, a agressividade subindo como um escudo. — O vapor passou por cima e as plantas nem mexeram! Isso não faz sentido mecânico nenhum!

César encostou o quadril na mesa central.

— Ótimo. Temos duas teorias na mesa. Um sequestro milionário feito por engenheiros malucos ou um surto psicótico coletivo perfeitamente sincronizado. Eu prefiro o sequestro. No sequestro dá pra negociar valor.

— Quatro pessoas sem nenhuma ligação — Helena disse, o olhar perdido no tapete. — Sem ponto de contato prévio.

— Três e meia — César corrigiu, apontando para a garota. — A menor de idade ali ainda não apresentou o RG.

A garota ergueu o braço por dentro da manga e estendeu o dedo do meio na direção de César sem tirar a mão do casaco.

Daniel deu a volta na mesa, caminhando até a porta de madeira por onde entrara.

— A composição ainda não se moveu.

Ninguém respondeu.

O assoalho continuava transmitindo uma vibração constante e grave para a sola dos seus sapatos. Um zumbido profundo, mecânico. Poderia ser o motor ligado em neutro.

Poderia.

Ele tocou a placa de latão gravada com a palavra ENTRADA. O metal estava trancado, sem folga na trava. Do lado de dentro, não havia maçaneta nem ranhura de chave.

— Tem outra saída no fundo — Helena avisou, apontando o indicador.

Na extremidade oposta do salão, uma folha de madeira idêntica fechava a passagem. Acima dela, não havia placa nem inscrição. Daniel cruzou o corredor central do tapete vermelho. César o seguiu a dois passos de distância, os sapatos rangendo no piso.

— Quer que eu force o fecho primeiro? — César perguntou.

— Por quê?

— Porque você tá respirando curto desde que pisou aqui dentro.

Daniel puxou o ar com força pelo nariz.

— Tô perfeitamente normal.

— Maravilha. Meu olho é que tá ruim.

Daniel encostou as costas dos dedos na madeira da porta do fundo. Nenhuma reação. Buscou dobradiças expostas ou parafusos de retenção na moldura. Nada.

— Deve ter fecho eletromagnético interno.

— Claro. Tecnologia de ponta num vagão de 1920.

— Se você não tem nada de útil pra somar…

— Eu tenho: não mete a mão aí.

Daniel virou-se bruscamente.

César fez um gesto com a cabeça na direção de Helena.

— A doutora tentou voltar pela outra porta e quase caiu desmaiada no chão. Você quer ver se essa aqui te apaga também?

— A gente nem sabe se foi a porta que causou a tontura dela.

— Perfeito. Pela primeira vez a gente concorda em alguma coisa.

Um ruído áspero de papel raspando contra madeira cortou a conversa dos dois.

Helena levantou-se da poltrona num salto.

No centro da mesa de nogueira, onde antes só existiam o vaso de louça vazio e a luminária de latão, repousava agora um cartão de papel encorpado, de cor creme.

Ninguém no salão estava perto o bastante do móvel para deixar o papel ali.

César ergueu as duas mãos abertas para cima.

— Não olha pra mim. Eu tava do lado dele.

Daniel aproximou-se da mesa com passos lentos.

O papel tinha bordas grossas, levemente queimadas, e trazia um símbolo em tinta preta no canto superior: duas linhas curvas paralelas entrando numa forma de túnel cego. Apenas uma linha saía do outro lado.

No centro da folha, um nome impresso em letras maiúsculas:

HELENA DUARTE

A médica congelou a dois passos da mesa, os braços esticados ao lado do corpo.

Daniel leu a frase impressa em letras menores logo abaixo do nome. Seu maxilar se contraiu.

4 de setembro de 2011. Sala cirúrgica três. Escolher a criança.

O cartão deslizou sozinho pela superfície da madeira polida.

Deslocou-se dez centímetros e parou exatamente na borda diante de Helena.

A mulher avançou e arrancou o papel da mesa com um movimento brusco, amassando a borda com os dedos.

— Isso é um erro grosseiro.

— O seu nome tá errado? — César perguntou, inclinando o pescoço.

— O termo usado. A formulação dessa frase.

— O que aconteceu nessa sala cirúrgica?

Ela dobrou a folha de papel em quatro partes com uma precisão maníaca.

— Havia dois pacientes em estado crítico e recursos para atender apenas um deles.

— E você teve que escolher.

— A frase transforma um protocolo de triagem médica numa acusação vulgar — a voz de Helena rasgou, os olhos inflamados de raiva.

Ela enfiou o papel dobrado no bolso interno do casaco de lã.

— Isso não tem relevância nenhuma pra gente sair dessa caixa.

César encarou o bolso dela, depois voltou os olhos para o tampo da mesa.

— Eu acho que quem montou esse lugar pensa diferente.

O segundo cartão de papel creme surgiu sobre a nogueira.

O deboche desapareceu do rosto de César antes mesmo que ele terminasse de se aproximar.

CÉSAR MORAES

Ele leu a linha inferior em silêncio. Virou o papel de cabeça para baixo imediatamente.

— E aí? — Helena cobrou, dando um passo na direção dele. — O que diz a sua ficha?

— Diz que a produção desse show fez o dever de casa — César soltou, a voz perdendo o alcance habitual.

— E a linha de baixo?

Ele colocou a palma da mão sobre o cartão, cobrindo o texto.

— Assunto de família.

— Você leu a minha linha em voz alta.

— E eu me arrependo profundamente disso.

Daniel conseguiu pegar um vislumbre de duas palavras impressas na folha antes de César guardá-la no bolso interno: 22 de fevereiro e meu irmão.

Um terceiro cartão apareceu no centro da mesa.

A garota no fundo do salão moveu-se com uma rapidez assustadora.

Projetou-se para fora da poltrona, atravessou o tapete, agarrou a folha de papel e a enfiou para dentro do casaco de sarja antes que qualquer um pudesse ler o nome. No movimento desajeitado, o seu quadril bateu na quina da mesa, fazendo o vaso de louça oscilar na madeira.

— Ei! — César gritou. — Isso aí era a sua identificação!

— Não é da sua conta!

— O seu nome ia ajudar a gente a entender quem você é!

— Não interessa quem eu sou!

Helena observou os braços da garota cruzados sobre o peito, prendendo o papel contra o corpo.

— Você tá tremendo.

— É o vento dessa caixa — a garota retrucou, os dentes batendo.

— Não tem vento nenhum aqui dentro.

— Pra mim tem!

Daniel deu um passo na direção da garota.

Ela recuou três passos no tapete, batendo as costas contra o painel de madeira.

— Não encosta em mim!

Ele parou imediatamente, erguendo as mãos.

— Ninguém vai tirar nada de você.

— Todo mundo fala essa porcaria antes de puxar!

Por uma fração de segundo, os ombros da garota caíram e os olhos se encheram d’água. Ela virou o rosto, fingindo examinar o varão da cortina.

Daniel voltou-se para a mesa de nogueira.

O quarto cartão já repousava sobre a madeira.

DANIEL MONTENEGRO

O seu nome completo estava impresso em letras pretas. Logo abaixo, uma data e um horário exato.

17 de agosto de 2011. 23h58.

Não havia uma frase descritiva. Apenas quatro palavras cravadas no papel:

ALCANÇAR GABRIEL A TEMPO.

Daniel travou as duas mãos na borda de madeira da mesa. O sangue sumiu do seu rosto.

— Não…

Helena aproximou-se pela lateral.

— Daniel?

— Esse horário… foi quando Gabriel morreu — a voz dele saiu num sussurro descontrolado.

— Do que você tá falando?

— Estava no laudo. Alguém acessou meus arquivos, o cartão de memória, meu telefone…

— Quem é Gabriel? — César perguntou, o tom irônico totalmente ausente.

Daniel continuou encarando as quatro palavras na folha creme.

— O cartão foi lido ontem à tarde. Alguém grampeou meu telefone… colocou escuta na casa da minha mãe…

— Daniel — Helena segurou o braço dele com força. — Solta a mesa. Recua.

— O relógio… viram a marca no meu pulso.

— Não toca nesse cartão!

A garota gritou do fundo do vagão:

— Ele vai te puxar se você encostar!

Daniel virou a cabeça bruscamente na direção dela.

— Como é que você sabe disso?

A garota apertou os lábios com força, encolhendo os ombros.

— Você sabe o que é esse lugar? — ele avançou um passo. — Responde!

— Eu não sei de nada!

— Então por que você falou que—

O cartão de papel creme moveu-se.

Deslizou sozinho pela superfície da mesa de nogueira até tocar a ponta do indicador de Daniel.

O vagão de passageiros desapareceu num estalo seco.

O cascalho afiado do leito da ferrovia rasgou a sola do seu sapato.

Gabriel corria à sua frente no escuro, atravessando os trilhos em ruínas de Santa Augusta. A sola descolada do seu tênis esquerdo raspava no cascalho a cada passada. A câmera digital balançava pela alça no seu pulso magro. Daniel estava travado junto ao terceiro pilar de sustentação da plataforma e ainda não tinha gritado o nome do irmão.

A cena não tinha a névoa fosca de uma memória antiga. O ar cheirava a poeira de carvão e óleo queimado. O seu joelho esquerdo ainda não doía. A luz amarelada e trêmula começava a projetar a sombra dos galpões na curva da linha.

— Gabriel!

O irmão não se virou.

Daniel correu.

O seu primeiro passo foi pesado, lento demais. No segundo, a sola do seu sapato derrapou nas pedras soltas da brita. Gabriel abaixou-se no meio dos trilhos para recolher o relógio de pulso caído sobre o ferro.

A luz amarelada explodiu na curva.

Daniel abriu a boca para gritar a ordem de parada.

Não.

Ele já tinha feito aquilo há quinze anos.

Gritar custara um segundo inteiro de reação.

Daniel lançou o corpo para a frente, saltando da borda da plataforma de cimento.

O apito ensurdecedor da locomotiva rasgou a noite. Gabriel ergueu a cabeça. Daniel viu o susto congelar os olhos do irmão, depois a luz do reconhecimento, a boca abrindo para formar o seu nome.

Cinco metros de distância.

Talvez quatro.

Daniel estendeu a mão direita no ar.

Mais cinco segundos.

Era todo o tempo que existia.

O mundo ao seu redor parou bruscamente.

O apito da locomotiva morreu no meio da nota. Os pedaços de cascalho projetados pelo seu salto ficaram suspensos no ar, imobilizados no espaço. O facho de luz amarelada da curva congelou sem avançar um centímetro. Gabriel continuava ajoelhado entre os trilhos, os dedos a milímetros do vidro do relógio.

Apenas Daniel continuava se movendo.

Deu um passo sobre o cascalho suspenso.

O seu peito queimava como se estivesse cheio de brasa, mas o ar recusava-se a entrar nos pulmões.

Dois passos.

A perna raspou num pedaço de pedra suspenso sem conseguir deslocá-lo.

Três.

Gabriel estava ali. Tão perto que Daniel conseguia enxergar os poros da sua pele e o suor na sua testa — mais nítido do que em qualquer pesadelo dos últimos quinze anos.

Quatro.

Daniel cravou os dedos no braço do irmão. A manga da camisa de algodão azul era áspera e quente sob as suas gemas. Desta vez, o tecido não escorregou.

Cinco.

O som do mundo desabou de volta de uma só vez.

Daniel puxou o corpo do irmão com toda a força dos seus ombros.

Gabriel deslocou-se menos de dez centímetros sobre as pedras.

A luz amarelada engoliu os dois.

Daniel bateu com violência contra a folha da porta no fundo do vagão.

O seu ombro esquerdo chocou-se contra a madeira maciça. A chave de fenda escapou do seu bolso e rastejou pelo piso de veludo até parar perto da mesa. Ele tentou manter o equilíbrio, mas as suas pernas cederam, fazendo-o deslizar até o chão.

Helena estava parada ao lado da mesa de nogueira, a mão direita ainda estendida no ar no ponto exato onde Daniel estivera há um segundo.

César permanecia encostado na janela, o rosto totalmente pálido, os olhos arregalados.

A garota colocara-se de pé, o corpo rígido contra a parede.

Ninguém conseguiu emitir um som durante longos segundos.

Daniel olhou para a mesa central. O seu cartão de papel creme continuava repousando sobre a madeira, a seis metros de distância de onde ele estava agora.

Olhou para a própria mão direita.

Os seus dedos continuavam cravados em concha, apertados como se ainda segurassem o tecido azul da camisa de Gabriel.

— Como… como é que você fez isso? — Helena perguntou, a voz falhando.

Daniel apoiou a cabeça contra a madeira fria da porta.

— Eu não fiz nada.

César apontou com um dedo trêmulo para o espaço vazio ao lado da mesa.

— Você tava ali parado do lado dela.

— Eu sei.

— E agora você tá do outro lado do vagão.

— Eu sei!

A luminária de latão no centro da mesa acendeu-se com um estalo limpo, projetando uma luz amarelada e intensa sobre o salão.

Todos se encolheram com o clarão repentino.

Sob a iluminação da lâmpada, o ponteiro de aço do relógio de parede preso acima da porta começou a marchar para a frente.

00:01

A garota encarou Daniel do outro lado do vagão. As mãos haviam desaparecido outra vez dentro das mangas, mas o tecido tremia.

— Foram cinco segundos — disse ela.

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