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Sair

Às seis e dezessete, o relógio na mesa de cabeceira estalou antes de acender os dígitos em vermelho. Daniel já estava com os olhos abertos.

Ficou encarando a mudança mútua dos números até virar 6:18. O celular ao lado marcava 6:17. Um minuto de atrito, um segundo de atraso mental que ele corrigia todos os dias sem jamais ajustar o visor da parede.

Desceu as pernas da cama. Os pés descalços tocaram o taco frio antes de encontrar os chinelos surrados. No escuro, o apartamento reverberava um estalo seco nos canos de água, o arrastar pesado de uma cadeira três andares acima e o zumbido mecânico da geladeira, que tremia a lata do lixo na cozinha. Daniel contou mentalmente. Um, dois, três… O zumbido não cessou; tornou-se um chiado estridente que parecia vibrar direto no osso temporal.

Na cozinha, girou a torneira. A água bateu no fundo de alumínio da chaleira com barulho de chumbo grosso. Ele nivelou o recipiente na marca exata de duas xícaras. Enquanto o fogo azul lambia o fundo do metal, o pano de prato manchado de mofo antigo foi virado de lado; o pó acumulado na tampa da caneca foi limpo no vão do polegar. Na lista presa por um ímã de farmácia, sob a palavra fita isolante, ele nem percebeu que apertou a caneta até furar o papel.

O celular sobre o balcão tremeu. Duas vibrações curtas, interrompidas por uma terceira mais longa.

MÃE.

Ele esperou o som da quarta vibração morrer na pedra fria antes de deslizar o polegar.

— Oi.

— Achei que estivesse dormindo. — A voz de Vera veio abafada por um chiado de fundo, ruído de chaleira ou rádio ligado.

— Não.

— A sua voz… parece cansada.

— É o horário.

— Para você nunca tem horário. Escuta… vou passar aí no fim da tarde. — Ouviu-se o baque seco de uma gaveta empurrada com o quadril. Um suspiro áspero, próximo demais do microfone. — Lá pelas sete.

— Hoje? Tenho relatório acumulado, não sei se—

— Eu espero na porta. Como sempre.

A chaleira soltou um apito agudo, perfurando o ar úmido da cozinha. Daniel estendeu a mão rapidamente e desligou o manípulo do fogão, cortando o som na metade.

— Eu fiz comida — mentiu ele, a garganta seca.

— Não perguntei se você tinha comida, Daniel.

O silêncio do outro lado da linha não era oco. Era o mesmo silêncio acumulado ao longo de quinze anos: pesado, denso de nomes que nenhum dos dois pronunciava, cheio de acusações não ditas.

— Sete horas, então — murmurou ele.

— Você lembrou, não lembrou?

Daniel encaixou a tampa da chaleira com força excessiva, fazendo o metal estalar.

— Lembrei.

A ligação caiu sem despedidas.

Bebeu o café negro e amargo em pé, escorado na esquadria da janela. Lá fora, Santa Augusta afundava numa garoa cinzenta e espessa, o tipo de névoa que impregnava a fuligem nos vidros. Oitenta metros abaixo, o tráfego fluía como um rio de graxa: faróis amarelos de um lado, lanternas vermelhas do outro. Um ônibus cortou o sinal amarelo; ele acompanhou a mancha vermelha das luzes até ela ser engolida pelo concreto dos edifícios.

A caneca lavada repousou no escorredor, exatamente perpendicular à borda.

No guarda-roupa, o cheiro de mofo e naftalina quase o fez recuar. Ele pegou a camisa azul, mas a luz do teto revelou um fio desfiado perto do punho esquerdo. O tecido esgarçado parecia um dente exposto. Gabriel costumava puxar fios soltos assim até desmanchar a barra das mangas. Um arrepio involuntário subiu pela espinha de Daniel — a lembrança veio não como uma imagem clara, mas como o estalo seco de dois dedos puxando o algodão e a sensação súbita de afastar aquela mão quente.

Fechou a porta do armário com um baque firme. Trocou pela cinza.

Às 6:52, a porta do apartamento bateu.

No elevador, o cheiro de desinfetante barato misturava-se com o vapor da chuva. No sexto andar, dona Célia entrou com o poodle tiracolo, embrulhado num plástico amarelado.

— Bom dia, seu Daniel.

Ele apenas assentiu, encolhendo os ombros dentro do casaco.

— Vai virar o dia todo nessa melaça — murmurou a mulher, ajustando o bicho sob o armação do braço. — Mas o senhor tá prevenido, né?

Daniel sentiu o cabo de madeira do guarda-chuva pesado na mão direita. O indicador pressionava a trava metálica com tanta força que a articulação ficara esbranquiçada. O cachorro esticou o focinho em direção à sua canela, farejando o tecido seco da calça. Ele deu um passo milimétrico para trás, esbarrando na parede espelhada do elevador.

A porta abriu-se no térreo com um solavanco metálico.

O ar do estacionamento subterrâneo tinha cheiro de combustível queimado e mofo acumulado nas vigas. Ele deu duas batidas rápidas com a ponta do sapato no pneu dianteiro do carro, limpou uma fresta de água condensada no retrovisor com a manga do casaco e sentou-se ao volante. O rádio ligou sozinho, cuspindo a voz esganiçada de um radialista sobre acidentes na ponte. Daniel girou o botão até o som virar um chiado quase inaudível. O parabrisa estava turvo; ele esperou a névoa evaporar sob o vento do desembaçador. Vinte segundos bastariam. Ficou parado por quarenta.

Ao sair, pegou o desvio pela zona industrial. A rota direta economizaria sete minutos, mas o forçaria a passar em frente à antiga oficina onde Gabriel comprara o violão de segunda mão. A fachada de madeira e o cheiro de verniz há muito tinham sido destruídos; hoje havia ali uma farmácia de rede com letreiro de néon verde-limão. Mesmo sabendo que a loja não existia mais, o trajeto do desvio já tinha se tornado um reflexo involuntário.

Chegou à seguradora às 7:29.

O escritório ocupava o segundo andar de um edifício decadente, sufocado entre um consultório dentário e uma loja de fardamentos. Daniel passava oito horas diárias encarando imagens de destruição doméstica e automotiva: parachoques retorcidos, telhados arrancados por tufões, marcas de fumaça preta subindo pelas paredes de cozinhas residenciais. Seu trabalho era a desconfiança sistemática — encontrar o detalhe grotesco ou sutil que desmentia a dor do segurado. Uma rasura na data, uma sombra errada no capô, uma colisão idêntica registrada dois meses antes.

Ele era implacável nisso.

Naquela manhã, travou a tela em um boletim de ocorrência. A declaração do motorista cravava o acidente às 19h12. O registro do posto de combustível marcava 19h17. Cinco minutos de hiato. Daniel aproximou o zoom no campo digital até os pixels dos números ficarem borrados.

— Não me diga que achou pelo em ovo de novo, Montenegro.

A voz de Renato veio acompanhada pelo ruído da cadeira de rodas de escritório rangendo ao lado. Daniel nem piscou.

— Horários diferentes.

— É uma batida de ré num estacionamento, cara. Cinco minutos? O sujeito devia estar nervoso, o relógio do painel podia estar atrasado…

— O formulário pede precisão.

Renato inclinou-se, apoiando os cotovelos na divisória plástica.

— Você faz essa cara de delegado de polícia toda vez que descobre que alguém é humano e erra o horário por cinco minutos. Meta da empresa é volume, Daniel. Ninguém vai te dar um bônus por descobrir que o relógio de um HB20 tá desregulado.

— Se o horário está errado, o documento é inválido — disse ele, a voz num tom plano, quase sem ar. — Vou solicitar as imagens de segurança do posto.

Renato soltou um riso curto, balançando a cabeça.

— Um dia eu entendo que tipo de demônio te morde com essa coisa de relógio.

Daniel encarou o colega por uma fração de segundo antes de voltar os olhos para a tela brilhante.

— Está no formulário — repetiu, a voz ríspida.

Apagou a frase original na caixa de texto. Em vez de Inconsistência cronológica grave, digitou apenas: Solicitar comprovação adicional. Enviou o arquivo antes que a dúvida o fizesse reescrever.

Às 10:43, a gaveta da mesa tremeu. Duas mensagens da mãe:

Levo sopa.

E a caixa.

Ele empurrou a gaveta com o joelho até ouvir o estalo do fecho.

Trabalhou direto, o pescoço rígido. Às 12:05, Renato bateu com o nó dos dedos na divisória.

— Almoço. Hoje tem promoção de costela lá embaixo.

— Preciso cruzar uns dados aqui.

— Você sempre precisa. Vai definhar aí nessa cadeira.

— Podem ir.

— Quer que traga algum prato?

— Não.

— Isso não é resposta.

Daniel olhou para a imagem aberta no monitor. Uma sala inundada por água barrenta; no meio da lama, um carrinho de brinquedo vermelho boiava de rodas para cima. A cena parecia errada, quase encenada.

— Traz um café.

— Café não sustenta corpo de adulto, Montenegro.

— Sem açúcar — cortou Daniel, voltando a digitar.

Renato suspirou e se afastou. Assim que os passos do colega sumiram no corredor, Daniel abriu a gaveta inferior. No fundo, sob uma pilha de pastas suspensas, tirou um envelope pardo amassado nas pontas.

Dentro, havia uma fotografia analógica com as bordas amareladas. Daniel e Gabriel na varanda da antiga casa de campo. Ele devia ter vinte e dois; o irmão, dezoito. A luz do sol estourava a lateral esquerda da foto. Gabriel vestia uma regata surrada e apontava uma mangueira de jardim para fora do enquadramento, rindo de algo invisível. Daniel aparecia com a camisa encharcada, a expressão dura, a mão levantada como se tentasse se proteger da água.

Ele virou o papel. No verso, a grafia trêmula da mãe: Janeiro de 2010.

Daniel tentou desesperadamente lembrar o que acontecera um segundo depois que o obturador da câmera disparara. A água caindo no piso de cerâmica? O grito irritado da mãe por causa dos vasos de samambaia? A garganta de Gabriel se contraindo na risada? Nada. A memória era uma parede em branco. Apenas a boca do irmão continuava ali, fixa no papel, o sorriso de alguém cujos dentes ele já não conseguia recordar com clareza.

O telefone fixo da mesa disparou, cortando o silêncio do escritório vazio.

Daniel guardou a foto com um movimento brusco, dobrando o canto do envelope pardo sem querer.

— Montenegro.

— Seu Daniel? É do Posto Avenida. Sobre o requerimento das câmeras de segurança…

Ele ajeitou o envelope com a mão trêmula antes de fechar a gaveta.

— Sim. Pode falar.

— Então, conferimos aqui. O carro do segurado realmente entrou às 19h12. O nosso sistema de gravação é que estava marcando 19h17 por causa de uma queda de energia no início da semana.

Daniel olhou o campo do formulário na tela. 19h17.

— Então o cliente estava certo.

— Perfeitamente certo. O relógio da nossa central é que estava atrasado.

— Entendido. Envie o laudo por e-mail, por favor.

Desligou. Clicou no botão de aprovação da indenização. Cinco minutos de diferença. Toda uma suspeita de fraude construída sobre um relógio mecânico que havia perdido a sincronia após um pique de luz.

Renato voltou às 12:58, largando um copo de isopor e um sanduíche embrulhado em papel-manteiga sobre a mesa de Daniel.

— Pedi o de peito de perua. Se não gostar, reclama com o bispo.

Daniel pegou o embrulho.

— Quanto foi?

— Paga não me enchendo o saco no relatório das duas.

Daniel abriu o papel. Queijo, alface, uma fatia fina de tomate. Ele começou a retirar o tomate, mas hesitou e o colocou de volta no pão.

— Renato.

— Fala.

— Obrigado.

O colega parou, encarando-o com uma sobrancelha levantada, esperando que ele completasse a frase. Daniel apenas baixou os olhos para o papel engordurado.

— Só isso — disse ele.

— Já é um milagre vindo de você.

Às 18:20, a chuva forte batia ritmadamente contra os vidros temperados da seguradora, produzindo um som pesado, constante. O andar estava praticamente escuro, salvo pelas luzes do teto sobre a estação de trabalho de Daniel. A supervisora passou com a bolsa ajeitada no ombro.

— Daniel. O expediente acabou há vinte minutos.

— Falta checar duas assinaturas.

— Deixa para amanhã. O mundo não vai ruir se essa análise esperar doze horas.

— Dez minutos e eu fecho o sistema.

— Você falou a mesma coisa na sexta-feira.

— Na sexta a demanda era maior.

Ela encarou-o por alguns segundos, os olhos pesados de cansaço, sem demonstrar qualquer vestígio de simpatia.

— Vá para casa, Daniel.

Ele olhou o canto inferior da tela: 18:21. Salvou o arquivo. Fechou a janela. Abriu o programa novamente para conferir se o laudo constava no histórico de salvamentos recentes. A supervisora continuava parada ao seu lado, os braços cruzados.

— Pronto — disse ele, desligando o monitor.

— Estou vendo.

No carro, o celular mostrava três chamadas perdidas. Ele ligou de volta antes de engatar a ré.

— Onde você está? — A voz da mãe soava entrecortada pelo vento da rua.

— No estacionamento.

— Eu disse sete horas.

— São seis e meia, mãe.

— Estou sentada no degrau da sua porta.

Daniel olhou para o relógio digital do painel do carro, como se o visor pudesse contestar a presença dela lá no oitavo andar.

— Você correu.

— E você demorou. Vem logo.

No trajeto, a chuva transformara as faixas da pista em espelhos negros. Os pneus cortavam a água acumulada com um chiado contínuo. Um motociclista passou rasgando o corredor entre o carro e um ônibus urbano, jogando uma cortina de lama no parabrisa. Daniel pisou no freio com violência. O cinto de segurança travou contra seu esterno, tirando-lhe o ar por um segundo.

Parado no meio da via, encarou a traseira azul do ônibus. A chapa metálica amassada, as luzes de freio refletidas na água da pista, o escapamento soltando fumaça cinzenta. A imagem pareceu congelar.

A buzina de um caminhão atrás dele rasgou a noite. Daniel engatou a primeira marcha e acelerou.

Chegou às 19:09. Vera estava encolhida no corredor, encostada na folha da porta de madeira. Uma bolsa térmica gasta repousava entre os pés, e uma caixa de papelão pesada descansava sobre os seus joelhos.

— Podia ter esperado no carro lá embaixo — disse ele, tirando a chave do bolso.

— O vento no pátio estava pior.

Ele abriu a porta e recolheu a bolsa térmica. A mãe levantou-se devagar, segurando a caixa contra o peito. Aos sessenta e quatro anos, Vera parecia ter encolhido sob o sobretudo escuro. O cabelo, que ela pintava religiosamente a cada três semanas, agora exibia uma faixa prateada e espessa junto à raiz. Daniel percebeu que ela arrastava levemente a perna esquerda ao atravessar a soleira.

— O que tem na perna?

— Rigidez.

— Você está mancando.

— Fiquei nove minutos sentada no piso de cerâmica fria.

— Eu avisei que chegaria perto das sete e meia.

— E eu avisei que não ia ficar esperando lá fora.

Ele trancou a porta, girou a chave duas vezes na fechadura e testou a maçaneta com três puxões secos. Levou a bolsa com a sopa para a cozinha. Vera largou a caixa de papelão no centro da mesa de jantar.

— Você não respondeu quando mandei mensagem sobre a caixa.

— Estava em atendimento.

— Mas leu.

Daniel retirou a panela de alumínio de dentro da bolsa térmica. O cheiro concentrado de alho e caldo de legumes tomou o ambiente.

— Sabia que você traria algo.

— Não começa, Daniel.

Ele abriu o armário da parede para pegar dois pratos fundos.

— Vai comer agora?

— Estou sem apetite.

— Trouxe a sopa para quê, então?

— Para você não comer biscoito seco de novo.

Ele segurou a borda do prato de cerâmica por alguns segundos. O frio da louça subiu pelos dedos. Guardou o item de volta e fechou a porta do armário.

Vera puxou a fita adesiva larga que selava a caixa. O som do plástico rasgando ecoou alto na sala pequena. Dentro, embrulhados em folhas de jornal amareladas, estavam os fragmentos de outra vida: uma caneca com o escudo descascado do time de futebol, três fitas cassete sem caixa, um boné de sarja desbotado, uma carteira de couro ressecada sem documentos e um relógio de pulso antigo, com pulseira de couro marrom gasta nas bordas.

Daniel reconheceu o relógio antes mesmo que ela tirasse o jornal.

— Estava no fundo do armário do quarto dele — disse Vera, a voz caindo um tom. — Atrás das cobertas velhas.

Ele pegou a concha de inox e mergulhou no caldo frio, mexendo a sopa mecanicamente, embora o fogão estivesse desligado.

— Podia ter deixado lá.

— Vou colocar a casa à venda.

O metal da concha bateu no fundo da panela com um estalo limpo.

— O quê?

— A estrutura é grande demais. A calha do telhado cedeu de novo na semana passada e goteja na sala. Não preciso de três quartos.

— Você não me disse nada sobre corretor.

— Estou dizendo agora.

— Já assinou contrato?

— Ainda não.

— Então não colocou à venda.

— Para você só existe realidade se tiver um carimbo no papel?

Daniel pousou a concha na bancada de granito. Uma gota de caldo caiu na pedra. Ele pegou o pano de prato e limpou a mancha com movimentos circulares rigorosos.

— Posso ir lá no sábado. Ver a infiltração, trocar as telhas quebradas. Não precisa vender um imóvel por causa de goteira.

— Não é por causa da goteira, Daniel.

Vera estendeu a mão e tocou a pulseira rígida do relógio de pulso sobre a mesa.

Ele abriu a porta da geladeira, encarando as prateleiras quase vazias.

— Quer água?

— Não.

— O suco acabou.

— Eu não quero beber nada.

A porta da geladeira se fechou com um baque abafado.

— Eu levo a escada no sábado de manhã. Subo no telhado e resolvo isso.

— Faz quinze anos que você sobe naquele telhado, pinta parede, troca borracha de torneira — a voz de Vera finalmente perdeu a neutralidade, carregada de uma garganta seca. — Toda vez que a casa dá um sinal de desgaste, você corre para consertar antes que pareça que o tempo passou.

— Eu faço porque você mora lá soz—

— Eu moro lá! — cortou ela. — Você faz vigília.

Daniel puxou uma das cadeiras da mesa de jantar, mas não se sentou. O relógio de Gabriel estava exatamente entre os dois, sobre a folha de jornal que exibia uma notícia antiga. O vidro do mostrador tinha um risco profundo bem sobre o numeral quatro.

— O corretor vai lá na segunda — completou Vera, alisando o tecido do casaco. — Eu queria limpar as coisas dele antes disso.

— Podia ter me avisado com antecedência.

— Para você passar três semanas inventando motivos para eu não jogar fora um monte de papel mofado?

— Eu não falei em jogar fora.

— Mas pensou.

Vera empurrou a caixa de papelão alguns centímetros para o lado. O boné desbotado tombou para fora da borda. Daniel deu um passo à frente e o recolocou exatamente na posição original.

— Fica com o que você quiser — disse a mãe. — O resto vai para a doação da paróquia.

— Não dá para decidir isso assim.

— Assim como?

Ele apontou para os objetos espalhados na mesa, mas a garganta travou. Rápido. De forma impulsiva. Naquela noite de agosto, com a chuva batendo no vidro e a sopa esfriando na bancada. Nenhuma dessas frases mudaria o olhar de Vera.

— Hoje — disse ele, a voz quase sumindo.

Vera sustentou o olhar até que Daniel desviasse os olhos para o chão.

— Hoje faz quinze anos, Daniel — respondeu ela, sem alarde.

O relógio de parede da cozinha emitiu um estalo metálico: 19h17. Daniel sabia que o mecanismo adiantava exatamente cinco segundos. Ele mesmo o ajustara no domingo anterior usando o horário oficial do celular, mas seus dedos haviam hesitado uma fração de segundo ao soltar a pino de ajuste.

Nunca corrigira o erro.

Vera ajeitou a alça da bolsa no ombro.

— A sopa é de batata. Tem pão na sacola lateral.

— Você não vai comer nada?

— Não.

— Mãe.

Ela parou com a mão na maçaneta da porta de entrada. Daniel tentou organizar as palavras na mente, mas a hesitação prolongada fez com que o pensamento perdesse a força antes de virar som.

— Eu vou lá no sábado — disse ele, por fim. — Para olhar o telhado.

Vera fechou os olhos por um segundo longo.

— Leve um casaco pesado. A rádio disse que a temperatura vai cair.

— Tá.

— E coma a sopa.

— Vou comer.

A porta abriu-se para o corredor frio. Vera deu um passo para fora, parou e virou-se. Ergueu a mão direita, levou dois dedos aos lábios e depois os projetou levemente no ar — um gesto pequeno, tímido, quase mecânico. Era uma mania antiga. Gabriel costumava debochar do gesto, exagerando os movimentos com os dois braços até fazer a mãe rir.

Daniel tentou desesperadamente visualizar o rosto do irmão fazendo aquilo.

Vieram os braços compridos. Veio a inclinação da cabeça. O rosto de Gabriel quase se formou no ar escuro do corredor por uma fração de segundo — mas desfez-se imediatamente, como uma mancha de óleo se dissolvendo na água.

A porta do elevador se fechou.

Daniel permaneceu parado no corredor silencioso até o indicador numérico do painel mostrar que a cabine chegara ao térreo.

Dentro do apartamento, serviu uma concha de sopa na tigela, mas não usou a colher. Carregou a caixa de papelão para o tapete da sala. Alinhou os objetos do irmão em uma linha rigorosa sobre o tecido: da caneca menor até a carteira. As fitas cassete não tinham rótulo. A carteira de couro guardava uma moeda de dez centavos oxidada num bolso secreto. A caneca cheirava a poeira e mofo acumulado.

Por último, pegou o relógio de pulso.

Os ponteiros de aço estavam cravados em 19h17.

Ele girou a coroa lateral. O ponteiro dos minutos deslizou suavemente pelo mostrador; o dos segundos continuou imóvel, travado.

Daniel foi até o aparador, pegou a pequena caixa de ferramentas de precisão e usou a ponta de uma lâmina fina para remover a tampa traseira de metal. A bateria botão estava coberta por uma crosta esverdeada de azinhavre. Ele limpou os contatos com o canto de um pano seco e pegou uma bateria nova na divisória do estojo.

Quando encaixou a peça, o ponteiro dos segundos deu um pequeno tranco e começou a girar.

Tic. Tic. Tic.

Daniel contou os estalos no silêncio da sala.

Um.

Dois.

Três.

Quatro.

No quinto movimento do ponteiro, ele puxou a coroa de metal para fora com força, travando a engrenagem novamente.

Ficou sentado no chão frio, a chave de fenda minúscula em uma mão e o relógio parado na outra. A sopa esfriava na cozinha. Lá fora, a chuva continuava a estalar contra as janelas. No andar de cima, o baque surdo de algo caindo no chão; no poço do elevador, os cabos de aço rangiam subindo e descendo sem parar no oitavo andar.

Daniel empurrou a coroa de volta.

O relógio voltou a andar.

Ele levantou-se, caminhou até o aparador e deitou o relógio sobre a madeira — com o mostrador virado para a parede, escondendo os números.

Antes de se deitar, testou a fechadura da porta duas vezes, girou o registro do gás na cozinha e ajustou o despertador para as seis e dezessete. Na cama, com a luz apagada, abriu a galeria de fotos do celular. Navegou por dezenas de arquivos: comprovantes digitais, fotos de danos em veículos, a mancha de infiltração no teto da casa da mãe, o mapa da rota do trabalho.

Nenhum rosto.

Fechou o aplicativo.

No escuro do quarto, o relógio de pulso continuava a marchar sobre o aparador da sala. Daniel não conseguia ouvir o som das engrenagens àquela distância. Mesmo assim, fechou os olhos e acompanhou mentalmente cada estalo do ponteiro dos segundos, até perder a conta na escuridão.

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