Capítulo 26 — O Lobo
por Sonhado acordado— Onde está Níctimo?
A pergunta ficou sobre a mesa.
Licaão ouviu o estalo do fogo na outra extremidade da sala, passos de um servo no corredor e a própria respiração, pesada demais para o silêncio que se formara. Agetor continuava olhando para ele. Não para Mélas. Não para a passagem por onde Níctimo poderia entrar a qualquer momento.
Para ele.
Durante um instante, Licaão pensou em mentir. Poderia dizer que o filho adoecera, que trabalhava em outro pátio, que saíra e só retornaria pela manhã.
A mentira morreu antes de chegar à boca.
Agetor sabia.
E fora exatamente para isso que Níctimo morrera.
Uma satisfação curta atravessou Licaão. Tão curta quanto vergonhosa. Mesmo assim existiu.
O teste funcionara.
Meses de perguntas, o silêncio do céu, as discussões com Agelau, as árvores do bosque, a fumaça no altar, tudo terminava diante daquele prato. Agetor sabia o que nenhum homem deveria saber.
Mélas pronunciou o nome do rei quase sem voz.
— Licaão…
Ele não se virou.
— Como?
Agetor continuou quieto.
— Como sabe?
O estrangeiro baixou os olhos para o prato.
— Isso ainda importa?
— Importa.
— Para você, sem dúvida.
Licaão inclinou-se sobre a mesa.
— Não tocou na carne. Não aproximou o prato. Nem sequer cheirou.
— Não precisei.
— Então me diga como.
Agetor ergueu os olhos.
Nada mudara em seu rosto. A mesma barba curta, o mesmo corpo de viajante, a mesma roupa simples com que entrara pelo portão. Ainda assim, Licaão percebeu que algo desaparecera da relação entre os dois.
Durante todos aqueles dias, presumira que Agetor precisasse explicar-se.
Agora isso terminara.
O homem diante dele já não demonstrava qualquer interesse em ser compreendido.
— Onde está seu filho?
Mélas se levantou. O banco arrastou na pedra.
— Chega.
Licaão virou-se.
— Sente-se.
— Não vou me sentar.
— Mélas.
— Você teve a resposta pela qual destruiu esta casa. Escute-a.
O conselheiro nem precisou olhar para o prato.
Licaão tornou a encarar Agetor.
— Ainda não me respondeu.
Agetor não desviou.
— Níctimo está morto.
Não perguntou.
Licaão sentiu um frio subir pela nuca.
Mélas fechou os olhos.
Agetor continuou:
— Não havia sentença contra ele. Não atacou você, não ameaçou sua casa nem colocou seu reino em risco.
Licaão permaneceu sentado.
— Não.
— Então morreu para que isto fosse servido.
Agetor indicou o prato.
Licaão respondeu depressa, antes que as palavras se fixassem de vez na sala.
— Eu precisava saber.
— Precisava?
A pergunta era simples demais para tudo o que custara.
— Sim.
— Por quê?
Licaão encontrou a resposta que repetira tantas vezes dentro da própria cabeça.
— Porque, se existe uma autoridade acima de mim, não posso governar fingindo que ela não existe.
— E para descobrir isso matou seu filho.
— Eu não sabia quem você era.
Agetor deixou passar alguns segundos.
— E agora sabe?
Licaão ficou imóvel.
Ali estava a pergunta que procurara desde o primeiro encontro na estrada.
Mélas esperava também.
Licaão finalmente a pronunciou.
— Você é um deus?
Nenhum trovão respondeu.
A lamparina continuou queimando. O fogo ainda consumia lenha. A casa permaneceu de pé.
Agetor pousou as mãos sobre a mesa.
— Você me chamou muitas vezes.
Licaão não respirou.
A voz continuava humana, mas a frase pareceu grande demais para aquela garganta.
— Não.
Agetor levantou-se.
Mélas recuou.
Licaão sentiu o corpo preparar-se para fazer o mesmo e permaneceu onde estava.
O homem não cresceu. Sua pele não brilhou. O teto não se abriu. Ainda assim, todas as explicações que Licaão inventara para ele nos últimos dias começaram a parecer ridículas.
A familiaridade com reis.
O olhar que não baixava.
A calma perto de armas.
A ausência de medo.
Agetor nunca demonstrara pouca deferência.
Simplesmente nunca tivera motivo para oferecê-la.
Mélas pronunciou o nome.
— Zeus.
Foi quase um sopro.
Agetor virou o rosto para ele.
Mélas caiu de joelhos.
Não se lançou ao chão. As pernas apenas deixaram de sustentá-lo.
Licaão permaneceu em pé.
Zeus voltou a atenção para ele.
— Você chamou.
O velho calor subiu pelo peito de Licaão.
— E você não veio.
Mélas ergueu a cabeça.
— Licaão…
O rei não parou.
— Leonte chamou por você.
Zeus permaneceu quieto.
— Mandei que chamasse outra vez. Você ouviu?
— Ouvi.
A resposta atingiu Licaão com uma força que uma negação não teria.
— E deixou aquilo acontecer.
— Sim.
Licaão riu, embora nada tivesse graça.
— Então eu estava certo.
Mélas se virou para ele.
— Certo?
— Ele ouviu.
Licaão apontou.
— Ouviu e não fez nada.
Zeus permaneceu onde estava.
— Você queria que eu aparecesse naquele dia.
— Queria saber se havia alguma coisa acima de mim.
— Não.
Licaão sentiu a irritação voltar.
— Não?
— Queria saber se existia alguém capaz de fazer com você aquilo que fazia com os outros.
— Isso é autoridade.
— É uma parte dela.
— É a parte que importa quando alguém recusa uma ordem.
Zeus o observou.
— Foi assim que governou?
Licaão avançou um passo.
— Caminhou pelas minhas terras. Viu com os próprios olhos.
— Vi.
— Então diga.
Zeus levou algum tempo.
— Vi estradas onde homens agora viajam sem pagar guardas para acompanhá-los. Mercadores que seguem depois do entardecer porque esperam chegar vivos. Vi disputas pararem antes que alguém pegasse um bastão. Famílias atravessando passagens onde, anos atrás, um encontro entre desconhecidos poderia terminar com sangue.
Licaão não esperara aquilo.
Zeus continuou:
— Ouvi homens agradecerem pelo que você fez.
Mélas ergueu lentamente os olhos.
— Também encontrei quem pagou por essas mesmas decisões.
Licaão não respondeu.
— Casas com menos braços porque o trabalho da coroa veio na época errada. Gente que aprendeu a responder depressa porque tinha medo de descobrir o preço de uma resposta lenta. Homens usando seu nome para fazer uma cobrança parecer maior do que era. “O rei quer” tornou-se uma frase útil até para quem não sabia o que o rei queria.
Licaão lembrou-se de Myrine.
Ou talvez Zeus falasse de outra casa.
Provavelmente havia muitas.
— Vi Theron.
Licaão tornou-se atento.
— Ele falou de mim?
— Falou de si.
— O que disse?
— Que uma ordem não elimina as escolhas de quem a cumpre.
A mão de Damon voltou à memória de Licaão.
Theron em pé diante dele.
O incômodo que aquela conversa deixara.
— Veio até aqui decidido a me condenar?
— Não.
Licaão esperou mais.
— Foi por isso que caminhei pela Arcádia — continuou Zeus.
— Para inspecionar minhas estradas?
— Para saber o que suas decisões faziam quando você não estava presente.
— E encontrou um reino funcionando.
— Encontrei.
A concordância doeu mais do que uma acusação.
Licaão abriu as mãos.
— Então entende.
— Entendo.
— Não parece.
Zeus voltou os olhos para a mesa.
— É por isso que não pronunciei julgamento antes desta noite.
Licaão acompanhou o olhar.
— Então tudo se reduz a isto?
— Isto encerrou o que começou muito antes.
O deus apontou para o prato.
— Agelau avisou você.
Licaão lembrou-se do sacerdote.
— Dia também.
A esposa.
— Mélas passou meses tentando fazê-lo ouvir.
O conselheiro permanecia de joelhos.
— Theron encontrou limites que nunca quis encontrar.
Zeus voltou os olhos para Licaão.
— E seu filho disse não.
A palavra atingiu onde todas as anteriores haviam falhado.
— Todos poderiam estar errados.
— Poderiam.
A resposta veio imediata.
Licaão perdeu por um instante o que pretendia dizer.
Zeus continuou:
— Isso era o que você já não conseguia suportar: que alguém pudesse estar certo antes de possuir a prova que exigia.
Licaão fechou as mãos.
— Reis decidem sem certeza todos os dias.
— Sim.
— Então por que me condenar por buscá-la?
— Porque em algum momento deixou de procurar certeza para governar melhor.
Zeus olhou outra vez para o prato.
— Passou a procurá-la para satisfazer você.
A sala ficou silenciosa.
Licaão tentou recuperar terreno.
— Damon mentiu.
— Mentiu.
— Merecia punição.
— Merecia.
— Então…
— Você escolheu a medida.
Licaão viu a mão de Damon.
— Funcionou.
— Funcionou.
A concordância voltou a ferir.
Licaão continuou:
— O depósito precisava de madeira.
— Precisava.
— Então o bosque—
— Havia outra madeira.
Licaão se calou.
Zeus não precisou elevar a voz.
— Escolheu aquela porque queria uma resposta.
Licaão desviou os olhos.
— Níctimo tentou impedir você.
— Ele não entendia.
— Entendia o bastante.
— Era meu filho.
A frase saiu alta.
— Sim.
Alguma coisa apareceu no rosto de Zeus. Não ira. Talvez compaixão, e Licaão preferiria mil vezes ter recebido ira.
— Era.
A palavra quase o dobrou.
— Eu o amava.
Mélas baixou a cabeça.
Zeus permaneceu em silêncio.
Licaão repetiu:
— Eu o amava.
— Eu sei.
— Não sabe.
— Ele acreditava que você pararia.
Licaão ficou imóvel.
Porque conheço você.
Por um instante, viu sangue nas próprias mãos outra vez.
— Ele disse isso?
Zeus não respondeu.
Não precisava.
Licaão encontrou a mesma frase que vinha usando desde a morte do filho.
— Eu precisava saber.
Agora soou pequena.
Quase pobre.
Zeus inclinou levemente a cabeça.
— E agora sabe.
Licaão levantou os olhos.
— Então me diga.
— O quê?
— O que existe acima de um rei.
Mélas fechou os olhos.
Zeus ficou olhando para Licaão por tanto tempo que a sala pareceu se estreitar ao redor dos dois.
— Você ainda espera que a resposta seja um rei maior.
A raiva voltou.
— Você é rei dos deuses.
— Sou.
— Pode me punir.
— Posso.
— Então essa é a resposta.
— É a resposta que passou meses procurando.
— Porque é isso que autoridade significa.
Zeus deu um passo.
— Você cruzou limites porque nenhuma mão veio imediatamente puni-lo.
Licaão não respondeu.
— Tratou demora como permissão.
Outro passo.
— Tratou capacidade como direito.
Zeus indicou o prato.
— Podia fazer isto.
O estômago de Licaão se contraiu.
— E fez.
A mesa inteira se tornou repugnante.
Pão.
Vinho.
Carne.
Tudo colocado ali sob as mesmas regras que Licaão aprendera antes mesmo de governar.
Água ao viajante.
Teto.
Proteção.
Alimento.
Hospitalidade.
Licaão se agarrou à única defesa que encontrou.
— Você entrou na minha casa escondendo quem era.
— Entrei como hóspede.
— Deu um nome falso.
— Dei um nome pelo qual pudesse me chamar.
— Isso é mentira.
Zeus tocou o pão.
— E você me alimentou.
Licaão não entendeu.
— O quê?
— Deu água. Teto. Mandou consertarem minhas sandálias. Impediu que mexessem nas minhas coisas.
Licaão lembrou a conversa com Theron.
Enquanto estiver sob meu teto…
Zeus continuou:
— Conhecia o dever de um anfitrião.
— E cumpri.
Os olhos de Zeus foram para o prato.
— Até decidir que a mesa serviria para outra finalidade.
Licaão afastou-se.
— Não tentei matar você.
— Não.
— Não coloquei veneno.
— Não.
— Não o prendi.
— Não.
— Então não violei—
Zeus tocou a mesa com dois dedos.
O som foi pequeno.
Licaão o sentiu sob os pés.
— Colocou seu filho diante de mim como comida.
O rei parou.
A lamparina mais próxima de Zeus enfraqueceu.
Depois recuperou a chama.
Não houve vento.
Mélas percebeu.
— Licaão…
O rei não olhou para ele.
— Se você realmente é quem afirma—
— Ainda precisa que eu afirme?
A voz mudara.
Pouco.
Não havia eco, nem duas vozes sobrepostas, mas a sala já parecia pequena demais para recebê-la.
E então Licaão sentiu medo.
Verdadeiro.
Não o medo conhecido de uma batalha ruim, de um inimigo armado ou de uma sentença. Era algo físico, anterior à razão. A sensação de descobrir que a coisa diante dele pertencia a uma escala que seu corpo compreendia antes da mente.
Zeus levantou uma das mãos.
Não para golpeá-lo.
A forma de Agetor permanecia humana.
A sombra, porém, já não obedecia inteiramente às chamas.
— Eu ouvi Leonte.
A frase pareceu percorrer as paredes.
— Ouvi Agelau. Ouvi aqueles que pediam que você fosse detido e aqueles que agradeciam pelas estradas que mandou construir. Ouvi homens pedindo sua vitória e homens pedindo sua ruína.
Licaão não conseguia desviar os olhos.
— Desci porque as vozes não bastavam.
Mélas levou as mãos ao chão.
— Caminhei pela sua terra porque um rei não deve ser julgado pela súplica de um único homem.
A pedra sob os pés de Licaão vibrou.
— E entrei em sua casa sem trazer sentença alguma.
Uma lamparina se apagou.
As demais continuaram acesas.
— Você decidiu o que eu deveria encontrar.
A porta abriu com força no corredor.
Dia apareceu.
Parou.
Olhou para Licaão.
Depois para Zeus.
Não se ajoelhou.
Havia sangue seco na parte inferior de sua roupa.
Sangue de Níctimo.
Licaão sentiu o ar faltar.
— Dia.
Ela não respondeu.
Zeus olhou para ela.
Mélas conseguiu falar:
— Ele é…
Dia não desviou os olhos.
— Eu sei quem meu marido pensava que ele era.
Licaão sentiu vergonha.
Não diante de Zeus.
Diante dela.
Passos pesados vieram do corredor. Theron entrou acompanhado de dois homens.
Viu Mélas no chão.
Viu Dia.
Viu Zeus.
A mão foi imediatamente à espada.
— Não — ordenou Licaão.
Theron parou.
Por reflexo.
Ainda obedecia.
Aquele pequeno movimento reacendeu algo no rei.
— Prenda-o.
Theron olhou para ele.
— Meu rei?
— Prenda Agetor.
Mélas ergueu a cabeça.
— Licaão, não.
— Faça.
Theron encarou Zeus.
O deus não se mexeu.
A mão do comandante permaneceu sobre o punho da espada.
— Theron.
Ele voltou a olhar para Licaão.
Havia tristeza em seu rosto.
A mão abandonou a arma.
— Não posso.
— Eu sou seu rei.
Theron levou um instante.
— Era.
O mundo pareceu inclinar sob Licaão.
— O quê?
Theron não repetiu.
A casa respondeu.
Veio primeiro um som distante, fundo demais para qualquer ruído normal. Licaão conhecia trovões. Passara a vida ouvindo tempestades atravessarem montanhas.
Aquilo vinha para um único lugar.
A casa.
Dia ergueu a cabeça.
Mélas conseguiu ficar de pé.
Theron gritou:
— Para fora!
O clarão apagou tudo.
Não houve intervalo entre a luz e o impacto.
A pedra sob Licaão saltou.
A mesa foi lançada para o lado. O teto explodiu em madeira, telhas e poeira. Licaão bateu no chão.
Durante alguns segundos, deixou de ouvir.
Depois o mundo voltou inteiro.
Gritos.
Animais enlouquecidos no pátio.
Madeira quebrando.
Fogo.
Uma coluna rachou perto do centro.
Theron empurrou um dos homens quando parte da cobertura desabou.
— Saiam! Todo mundo para fora!
Mélas agarrou Dia.
Ela resistiu.
— Níctimo!
— Dia!
— Meu filho!
Uma viga caiu entre ela e o corredor. Faíscas saltaram.
— Por aqui! — Theron gritou.
Licaão tentou levantar-se.
A perna direita demorou a responder.
Zeus permanecia de pé.
Acima dele, o teto desaparecera e deixara um rasgo aberto para o céu.
Não chovia.
As nuvens eram negras demais para aquela hora, concentradas diretamente sobre a casa.
Licaão olhou para elas.
Meses.
Passara meses olhando para aquele céu e esperando.
— Então era isso que queria? — perguntou Zeus.
Licaão conseguiu ajoelhar-se.
A voz custou a sair.
— Destrói minha casa e chama isso de justiça?
Zeus percorreu com o olhar as pedras partidas, a madeira em chamas, os servos correndo.
— Sua casa?
— Minha.
— Seu filho também era?
A pergunta acertou Licaão.
— Não use Níctimo contra mim.
Dia ouviu.
Virou-se.
A expressão dela fez Licaão desejar que a fumaça o escondesse.
— Contra você?
Ele não conseguiu responder.
Outra parte da cobertura rangeu.
Theron agarrou o braço de Dia.
— Temos de sair.
— O corpo…
— Eu volto.
— Não vai deixá-lo—
— Eu volto. Prometo.
Mélas ajudou a puxá-la.
Dia saiu olhando para Licaão.
Não para Zeus.
Para ele.
Licaão conseguiu ficar de pé.
— Isso prova exatamente o que eu disse.
Zeus permaneceu diante dele.
— O quê?
— Autoridade.
O fogo corria pelas traves restantes.
— Esperou.
Licaão respirava com dificuldade.
— Esperou até eu fazer alguma coisa que lhe desse justificativa.
— Sim.
— Então precisava que eu fizesse.
Zeus permaneceu quieto.
Depois falou:
— Tenha cuidado.
Licaão soltou uma risada amarga.
— Agora me manda ter cuidado?
— Com a última mentira que ainda tenta contar a si mesmo.
Licaão ficou calado.
— Não coloque sua escolha nas minhas mãos.
As chamas estalaram atrás deles.
— Eu não pus a faca na sua mão.
Licaão sentiu os próprios dedos.
— Não fechei a porta daquela sala.
A dependência.
Níctimo.
— Não segurei seu filho.
— Chega.
— Dia tentou impedir.
Licaão recuou.
— Mélas disse não.
Outro passo.
— Theron disse não.
O calcanhar de Licaão encontrou pedra quebrada.
— Níctimo disse não.
— Cale-se.
— Você ouviu todos eles.
— Eu sou rei!
A frase atravessou a sala destruída.
Por um momento, apenas o fogo respondeu.
Zeus olhou para ele.
— Não mais.
A dor começou nos dedos.
Licaão baixou os olhos para a mão direita, imaginando que algum fragmento de pedra o tivesse atingido. Os dedos se contraíram.
Tentou abri-los.
Não conseguiu.
As articulações puxavam para dentro.
— O que…
A dor passou pelo pulso. Os ossos pareciam comprimidos dentro da pele.
A outra mão começou a sofrer a mesma transformação.
Os dedos se curvaram.
As unhas engrossaram.
— Pare.
Zeus não se moveu.
— Pare!
A palavra ainda saiu humana.
Licaão tentou erguer-se.
A coluna arqueou.
Alguma coisa estalou dentro de suas costas.
A dor o derrubou sobre as mãos.
As pernas dobraram fora do ângulo esperado. Os joelhos já não encontravam os lugares conhecidos. O quadril puxou violentamente, e o tecido da túnica rasgou.
— Zeus…
Disse o nome entre os dentes.
O deus apenas observava.
Sem prazer.
A ausência de satisfação enfureceu Licaão ainda mais.
— Eu sei quem você é!
A mandíbula começou a doer.
A frase seguinte não se formou.
Os dentes pressionaram o interior da boca. Licaão tentou tocar o rosto.
A mão já deixava de ser uma mão.
Os dedos haviam encurtado. As unhas estavam duras e curvas.
— Não…
O som saiu grosso.
Os ossos do rosto avançavam lentamente, empurrando nariz, dentes e língua. Quando tentou gritar, a voz se rompeu entre dois sons: humano no início, animal no fim.
Mélas apareceu novamente entre os destroços da entrada.
Parou.
Licaão o viu.
— Me…
A palavra morreu antes de ganhar forma.
Mélas ficou branco.
— Licaão.
O rei tentou responder.
A língua já não obedecia.
A coluna curvou-se ainda mais. Pelos escuros surgiram pela pele molhada de suor, cobrindo braços, peito, pescoço.
Licaão tentou ficar de pé.
As pernas não serviam mais para isso.
Caiu.
O mundo desceu.
E então vieram os cheiros.
Com violência.
Fumaça.
Madeira queimada.
Sangue.
Suor.
Medo.
Mélas.
Theron no pátio.
Dia.
Outro cheiro dentro da casa.
Níctimo.
Licaão congelou.
O corpo respondeu antes de qualquer pensamento.
Fome.
Aquilo foi tão terrível que por alguns segundos a transformação pareceu pequena.
Não.
Tentou afastar o cheiro.
Ficou mais intenso.
Carne.
Humana.
O estômago contraiu.
Licaão recuou e tentou respirar pela boca.
Piorou.
O cheiro entrou mais fundo.
Não.
Zeus falou:
— Vá.
Era uma ordem.
Licaão reconheceu-a.
A fúria respondeu por reflexo.
Ninguém o mandava sair de sua casa.
Avançou.
O teto rangeu.
Uma viga caiu atrás dele, e o fogo tomou a passagem.
Zeus permaneceu onde estava.
— Sua casa acabou.
Licaão tentou dizer minha.
Saiu um ruído quebrado.
— Sua voz acabou.
Outro rosnado.
— Seu filho morreu por sua mão.
Licaão avançou novamente.
O novo corpo parou sozinho antes de alcançar Zeus.
Instinto.
Medo.
Alguma coisa animal reconhecia aquilo que o rei passara meses recusando-se a reconhecer.
Licaão odiou o próprio corpo por compreender primeiro.
Theron apareceu no pátio.
— Mélas!
— Aqui!
O comandante viu Licaão.
Sacou a espada.
Licaão parou.
Theron também.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois soube como agir.
Licaão tentou chamar:
— Theron.
Saiu apenas som animal.
O comandante apertou o punho da espada.
Então os olhos mudaram.
Reconhecimento.
— Meu rei?
Licaão avançou.
Theron ergueu a lâmina, mas não atacou.
Licaão parou.
Meu rei.
Queria responder.
Mandá-lo baixar a espada.
Ordenar que retirasse todos dali.
Mandar buscar Dia.
Salvar Níctimo.
Não.
Níctimo estava morto.
O cheiro voltou.
A fome também.
Licaão recuou tão depressa que as patas deslizaram sobre a pedra quebrada.
Theron percebeu.
Não poderia saber o motivo.
— Vá! — gritou Mélas.
Licaão se virou.
Dia estava do outro lado do pátio, perto do muro. Dois servos tentavam mantê-la longe das chamas.
Ela o viu.
Licaão esqueceu Zeus.
O fogo.
Theron.
Tudo.
Caminhou em sua direção.
Um dos servos tentou colocar-se diante dela.
Dia afastou-o.
Ficou olhando para o animal.
Licaão se aproximou devagar.
O cheiro dela era conhecido.
Óleo.
Fumaça.
Sal.
Casa.
Dia.
Tentou pronunciar o nome.
A boca produziu um gemido grave.
Ela encarou os olhos do lobo.
Licaão esperou.
Uma palavra.
Qualquer coisa.
Dia virou o rosto.
Olhou para a abertura da casa onde Níctimo continuava.
Não para ele.
Chamou Theron.
— Meu filho.
O comandante baixou a espada.
— Vou buscá-lo.
— Agora.
— O teto ainda está cedendo.
— Agora.
Theron chamou dois homens.
Passou por Licaão sem pedir passagem, sem aguardar ordem, sem sequer olhar novamente para ele.
Mélas também passou.
Servos corriam com recipientes de água. Outros libertavam animais dos estábulos. Um homem gritava para afastarem as ânforas de óleo. Outro mandava derrubar uma cobertura menor antes que o fogo chegasse ao depósito.
Ordens vinham de todos os lados.
Nenhuma vinha de Licaão.
Mesmo sem ele, a casa funcionava.
O lobo recuou.
Zeus permanecia entre as ruínas. A forma humana ainda podia enganar de relance.
Só de relance.
Licaão o encarou uma última vez.
Passara meses exigindo uma resposta.
Agora a possuía.
O céu existia.
Zeus ouvira.
Havia autoridade acima de um rei.
Nada naquela certeza devolvia Níctimo. Não reconstruía o teto. Não fazia Dia voltar a olhar para ele. Não colocava Theron ou Mélas novamente à espera de sua ordem.
A resposta que julgara tão necessária não lhe servia para coisa alguma.
Abriu a boca.
Talvez quisesse acusar Zeus.
Talvez implorar.
Talvez nem soubesse.
Saiu apenas um uivo curto e áspero.
Homens no pátio se viraram.
Um deles ergueu uma lança.
Theron levantou a mão.
— Não.
Licaão olhou para o comandante.
Theron não o chamou novamente de rei.
As chamas subiram pela lateral da casa.
Uma parede cedeu e lançou pedra e madeira entre Licaão e o lugar onde vivera.
Ele correu.
Atravessou o pátio enquanto homens se afastavam, agora por medo dos dentes. Passou pelo portão lateral rachado e desceu pela estrada.
As patas encontraram terra.
Pedra.
Poeira.
A mesma estrada por onde tantas ordens haviam partido daquela casa.
Ninguém chamou seu nome.
Ao alcançar as primeiras árvores, Licaão parou e olhou para trás.
O palácio queimava contra a encosta. A fumaça cobria parte do céu. Homens pareciam pequenos entre os pátios, passando água de mão em mão. Theron organizava os servos. Mélas surgia e desaparecia entre as chamas.
Dia estava em algum lugar lá dentro.
Níctimo também.
Licaão tentou chamá-lo.
O nome permanecia inteiro na cabeça.
Níctimo.
Abriu a boca.
O som que atravessou a mata não continha palavra alguma.
Licaão ouviu o próprio uivo.
Então fugiu.
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