Capítulo 12 — Acima de Mim
por Sonhado acordadoTheron esperou o homem terminar de trocar as faixas de Damon antes de procurar Licaão.
Não havia necessidade prática para isso. O ferimento já estava fechado, o sangramento controlado e Damon permanecia consciente. Ainda assim, Theron ficou no aposento até o curador apertar o último nó, guardar os panos sujos numa bacia e pedir que trouxessem mais água limpa.
Só então lavou as próprias mãos e seguiu para a sala do rei.
Licaão estava diante de uma mesa baixa, dividido entre duas tábuas. Uma trazia registros de cevada; a outra, nomes de homens convocados para reparar um trecho de estrada danificado pelas chuvas. Mélas permanecia sentado do outro lado, com um estilete entre os dedos.
— Voltou tarde.
Theron parou diante da mesa.
— Damon perdeu muito sangue. Não queria colocá-lo num cavalo antes de ter certeza de que aguentaria a viagem.
Licaão abandonou a tábua.
— Vai viver?
— A ferida foi fechada. Continua consciente. Se não houver febre ou podridão nos próximos dias, deve viver.
Mélas deixou o estilete sobre a madeira.
— E Aletes?
— Sob guarda. Chegou sem ferimento.
Licaão perguntou por Phorbas.
— Não estava na propriedade.
— Então fugiu outra vez.
— Talvez nunca tenha voltado.
— Damon sabe onde ele está?
— Disse que não.
Licaão observou Theron.
— Você acreditou.
Não era exatamente uma pergunta.
— Acreditei.
— Por quê?
Theron pensou na propriedade, nos homens desarmados, em Damon ajoelhado diante da tábua e na calma cansada com que respondera às últimas perguntas.
— Quando chegamos, já tinha decidido se entregar. Deixou a casa ser revistada, deu os nomes de quem estava presente e não tentou impedir Aletes de admitir o ataque a Iason. Se ainda soubesse onde Phorbas estava, esconder a informação já não lhe dava muita vantagem.
Mélas mexeu o estilete, mas não comentou.
Licaão fez um gesto para que Theron continuasse.
Ele contou o necessário.
A propriedade fora revistada. Nenhum homem tentara fugir. Aletes admitira ter quebrado os dedos de Iason com um bastão. Phorbas jogara a pedra que atingira Polemon. Tímon e Echelas estavam presentes, mas ninguém os acusara de atacar os enviados. Damon confirmara que dera abrigo a Phorbas e mentira quando os homens do rei chegaram.
— E a punição? — perguntou Licaão.
Theron sustentou o olhar.
— Cumprida.
Mélas parou de mexer na tábua.
Licaão também ficou imóvel.
— Damon resistiu?
— Não.
— Tentou negociar antes?
— Também não.
— Aletes?
— Quando percebeu o que seria feito, tentou impedir. Dois homens o seguraram.
— Damon ajudou?
Theron demorou um instante.
— A impedir que o irmão avançasse contra nós, sim.
Licaão considerou.
— Então por que demoraram tanto?
— Preferi não fazer com uma lâmina ruim. Mandamos afiar o machado. Depois tivemos de conter o sangramento antes de colocá-lo no cavalo.
A explicação era simples. Theron queria que permanecesse assim.
Licaão, contudo, continuou observando-o.
— Foi você quem cortou?
— Sim.
Mélas baixou os olhos para a mesa.
— Por quê? — perguntou Licaão.
Theron não entendeu de imediato.
— Senhor?
— Mestor estava com você.
— Estava.
— E sabe executar punições.
— Sabe.
— Então por que fez com a própria mão?
Theron sentiu os dedos da direita se fecharem contra a palma. Abriu-os.
— Eu comandava a missão.
— A missão era minha.
A diferença entre as frases ficou clara.
Theron reorganizou a resposta.
— A execução estava sob minha responsabilidade. Eu preferi não entregar a outro homem a parte mais difícil de uma ordem que recebi pessoalmente.
Licaão não comentou.
Mélas agora olhava para Theron, o que era pior.
— Alguma coisa saiu do controle?
Theron pensou em Damon perguntando por que aquela mão precisava ser a dele.
— Não durante a execução.
Mélas levou o estilete até a boca, pensou melhor e tornou a pousá-lo.
Theron percebeu o erro tarde demais.
Licaão também.
— Certo.
Ele não pressionou.
Aquilo quase incomodou mais.
— Damon fica aqui até poder viajar. Aletes será ouvido amanhã; depois decido a pena dele.
— Entendido.
— Tímon e Echelas?
— Permaneceram na propriedade.
— Quero os dois aqui também. Talvez não tenham tocado nos meus homens, mas estavam presentes. Preciso ouvir isso deles.
Theron calculou.
— Quatro homens bastam para buscá-los.
Licaão o encarou.
— Então leve quatro.
Theron demorou um segundo a mais do que devia.
— Eu?
— Há algum motivo para preferir que outro vá?
A pergunta trouxe uma vergonha inesperada.
— Não.
Mélas interveio:
— Amanhã.
Theron virou-se para ele.
Mélas não explicou.
Licaão aceitou.
— Amanhã. Hoje você já fez bastante.
Theron inclinou a cabeça e saiu.
Licaão permaneceu olhando para a porta por onde ele desaparecera.
Mélas retomou o estilete.
— Ele cumpriu exatamente o que você mandou.
— Eu sei.
— Costuma ser uma qualidade apreciada em comandante.
Licaão puxou uma das tábuas para perto.
— Está tentando chegar a algum lugar?
— Ainda estou escolhendo o caminho.
— Faça isso em silêncio.
Mélas marcou alguma coisa na cera.
— Damon não resistiu.
Licaão não ergueu os olhos.
— Theron acabou de dizer.
— E tinha se oferecido para vir.
— Depois de esconder um fugitivo, mentir aos meus homens e deixar a situação terminar com dois deles feridos.
— Também ouvi essa parte.
Licaão largou a tábua.
— Então por que continua repetindo a outra?
Mélas pousou o estilete.
— Porque foi a parte que fez você perguntar a Theron por que ele próprio usou o machado.
— Theron fez o que devia.
— Então não há nada para discutir.
— Ótimo.
— Ótimo.
Licaão olhou para ele.
Mélas ergueu as mãos.
— Viu? Posso concordar quando necessário.
— Está particularmente irritante hoje.
— Dormi muito bem.
Licaão tentou voltar às contas.
Não conseguiu.
Theron executara a ordem exatamente como recebera. Damon cooperara quando já era tarde demais para que a cooperação apagasse o que fizera. A punição não existia para vencer a resistência daquele homem diante de uma tábua. Existia também para o próximo homem que pensasse em esconder outro Phorbas, para o próximo proprietário que recebesse um enviado e precisasse decidir se uma mentira valeria o risco.
Era essa a utilidade.
Colocou a tábua de lado.
— Quero ver Damon.
Mélas ergueu a cabeça.
— Agora?
Licaão levantou-se.
— Está acordado.
— Isso respondeu apenas metade da pergunta.
Licaão já saía.
Mélas recolheu o manto e o acompanhou.
O aposento onde Damon fora colocado ficava numa parte fresca da casa, longe dos pátios de serviço e da movimentação constante das audiências. A pequena abertura na parede dava para um corredor interno. Havia uma bacia de água junto ao leito, panos dobrados e o cheiro metálico de sangue ainda preso no ambiente apesar das ervas espalhadas perto da porta.
O homem que cuidava de Damon levantou-se quando Licaão entrou.
— Meu rei.
— Como está?
— Mais forte do que eu esperava depois da perda de sangue.
— Vai viver?
— Se a ferida permanecer limpa e não houver febre.
Licaão aproximou-se.
Damon estava deitado, mas acordado. O braço direito terminava num volume espesso de tecido abaixo do cotovelo. A ausência de sangue visível tornava a mutilação mais clara, não menos.
Ele percebeu o rei.
— Veio conferir.
A voz estava fraca.
Licaão puxou um banco.
— Conferir o quê?
Damon levantou um pouco o braço enfaixado.
— Se fizeram direito.
Mélas ficou perto da porta.
— Theron fez direito.
Damon acompanhou o próprio braço com os olhos.
— Fez.
Licaão sentou-se.
— Você escondeu Phorbas na sua propriedade.
— Escondi.
— Mentiu aos meus homens quando perguntaram.
— Sim.
— Sabia que levavam uma ordem minha.
— Sabia.
— Depois dois deles acabaram feridos.
Damon ergueu os olhos.
— Seus homens acabaram feridos.
A correção era a mesma que fizera a Theron.
Licaão não gostou mais dela agora.
— Homens que só estavam naquela propriedade porque você decidiu mentir.
— Sim.
— Então ainda acredita que não deveria ter sido punido?
Damon levou algum tempo.
— Nunca disse isso.
— O que diz, então?
Damon moveu o braço enfaixado alguns centímetros.
— A mão já não está comigo. Discutir agora se deveria estar não vai fazer crescer outra.
Mélas desviou a boca para o lado.
Licaão ignorou.
— Por que escondeu Phorbas?
— Conheço ele desde menino.
— Isso explica por que abriu a porta. Não por que mentiu.
— Phorbas disse que queriam prendê-lo por uma ferramenta que não roubou. Eu ia entender primeiro o que tinha acontecido.
— Decidiu que a palavra dele valia mais do que a dos homens que o procuravam.
— Decidi que ele podia dormir sob meu teto até eu saber quem estava dizendo a verdade.
— E, para ganhar esse tempo, mentiu.
Damon fechou os olhos.
— Sim.
— Se todo homem fizer isso quando uma ordem chega à casa dele, para que serve uma ordem?
— Não sei.
— Pense.
Damon abriu os olhos.
— Talvez sirva melhor para homens que não conhecem a pessoa que o senhor manda buscar.
A irritação veio rápida.
— É exatamente por pensar assim que perdeu a mão.
Damon respondeu quase de imediato:
— Não.
O aposento ficou quieto.
Licaão inclinou-se.
— Explique.
Damon sustentou o olhar.
— Perdi porque o senhor mandou cortar.
Não havia acusação na frase. Isso a tornava pior.
Era apenas uma descrição do que acontecera.
Mélas estava atrás de Licaão. O rei sentiu a presença sem precisar olhar.
— Mandaria outra vez.
— Imaginei.
A resposta deveria encerrar o assunto.
Não encerrou.
Licaão levantou-se.
— Quando puder viajar, volta para casa.
Damon olhou para o braço.
— Muito generoso.
— Não confunda isso com perdão.
— Depois de hoje, estou tentando confundir menos coisas.
Licaão virou-se para a porta.
— Rei.
Parou.
— Aletes fez o que fez porque tentou defender Phorbas.
— Sei.
— Vai puni-lo também.
— Vou ouvi-lo antes.
Damon pareceu satisfeito com aquela diferença mínima.
— Certo.
Licaão saiu.
Mélas o acompanhou pelo corredor sem dizer nada.
Andaram até alcançar o pátio.
— Agora fale.
Mélas olhou para ele.
— Sobre quê?
— Está segurando uma frase desde o quarto.
— Tenho várias.
— Escolha a pior.
Mélas passou os dedos pela barba.
— Damon estava certo numa coisa.
Licaão parou.
— Qual?
— A mão dele não caiu sozinha. Você mandou cortar.
— Está sugerindo que Theron escolheu a pena?
— Não.
— Então Damon escolheu quando mentiu?
— Escolheu parte do caminho.
— Aletes escolheu outra quando acertou Iason.
— Sim.
— Phorbas quando fugiu.
— Também.
Licaão abriu as mãos.
— Parece que temos muitos responsáveis.
— Temos.
— E a minha função é decidir o que acontece quando tudo isso chega até mim.
— Exatamente.
— Então terminamos.
Licaão retomou o passo.
Mélas o alcançou.
— Não parece que terminou para você.
— Porque acha que estava tentando aliviar minha consciência.
— Não estava?
— Não.
Mélas diminuiu o passo.
— Só considero saudável saber qual pedaço de uma consequência pertence a cada homem. Damon mentiu. Aletes bateu. Phorbas fugiu. Theron obedeceu.
— E eu mandei.
— Sim.
Licaão olhou para ele.
— Eu sei disso.
Mélas fez um gesto vago.
— Espero.
Níctimo viu Damon antes do meio-dia.
Licaão soube porque encontrou o filho parado no corredor diante do aposento.
— O que faz aqui?
Níctimo se virou.
— Vim procurar Aletes.
— Para quê?
— Queria ouvir a versão dele antes do interrogatório de amanhã.
Licaão quase aprovou imediatamente. Era o tipo de iniciativa que sempre tentara ensinar ao filho.
— E acabou diante do quarto de Damon.
Níctimo olhou para a porta.
— Ouvi a voz dele.
— Entrou?
— Ainda não.
— Por quê?
O filho continuou diante da madeira.
— Não sabia se devia.
— Esta é sua casa.
— Eu sei.
— Então pode entrar.
Níctimo não se mexeu.
Licaão observou-o.
— Já sabe o que aconteceu na propriedade.
Não precisava ser pergunta.
— Sei.
— Theron contou?
— Mestor.
Licaão percebeu o olhar breve do filho para sua mão direita.
— Pergunte de uma vez.
Níctimo ergueu a cabeça.
— Damon se entregou sem lutar.
— Sim.
— E Theron cumpriu a pena lá.
— Cumpriu.
— Precisava ser na propriedade?
Licaão considerou.
— Não.
Níctimo esperou antes da próxima.
— Mas precisava acontecer?
Ali estava a questão.
— Sim.
— Mesmo depois de ele ter se oferecido para vir?
— Entregar-se depois não apaga a mentira.
— Eu sei.
— Nem apaga os ferimentos.
— Aletes quebrou os dedos de Iason.
— E responderá pelo que fez.
Níctimo olhou novamente para a porta.
— Então por que a mão de Damon?
Licaão sentiu a irritação surgir e a conteve antes de falar. Não porque a pergunta fosse injusta. Porque já respondera àquilo para si próprio mais de uma vez naquela manhã.
— Porque Damon mostrou que um homem podia receber minha ordem, mentir enquanto isso lhe fosse conveniente e só cooperar quando a situação já estivesse perdida. Se não há consequência séria, o próximo aprende a tentar também.
Níctimo absorveu.
— Agora houve custo.
— Sim.
O rapaz compreendeu alguma coisa.
— Então foi para servir de exemplo.
— Também.
— Para quem?
— Para todo homem que ouvir a história.
Níctimo ficou calado.
Licaão esperava objeção.
Ela não veio.
— Vai funcionar — disse o filho.
Licaão se surpreendeu.
— Provavelmente.
— Provavelmente bastante.
— Você fala como se isso piorasse a decisão.
Níctimo tocou a nuca.
— Ainda não sei.
— Então não transforme desconforto em certeza.
— Estou tentando não fazer isso.
Licaão percebeu que endurecera o tom.
— Eu sei.
Níctimo apontou para a porta.
— Posso entrar?
— Pode.
O filho abriu.
Licaão não o acompanhou.
Permaneceu no corredor.
Ouviu Damon dizer alguma coisa em voz baixa. Níctimo respondeu. As palavras não chegaram claras.
Dia apareceu na outra extremidade.
Parou assim que viu os dois: Licaão no corredor, a porta aberta, Níctimo lá dentro.
Ela não perguntou.
Licaão preferiria que perguntasse.
— Ele veio sozinho.
Dia se aproximou.
— Eu não disse que o trouxe.
— Está pensando nisso.
— Tenho esse hábito.
Licaão quase sorriu.
Ela não.
— O que quer?
— Nada, agora.
Dia começou a passar por ele.
Licaão segurou-lhe o braço com delicadeza.
— Dia.
Ela parou.
— O quê?
— Fiz o que prometi.
— Sobre Níctimo?
— Não o levei à propriedade. Não mandei que viesse ver Damon.
— Eu sei.
— Então por que está me olhando assim?
Dia indicou a porta aberta.
— Porque desta vez não precisou chamar.
Licaão soltou o braço dela.
Dia seguiu.
Não havia resposta que melhorasse aquilo.
A notícia correu mais depressa do que Theron.
Naquela tarde, dois proprietários chegaram antes do horário marcado para tratar de homens convocados para o reparo de uma ponte. Era uma discussão velha. Uma das famílias alegava já ter fornecido mais trabalhadores nas últimas obras; a outra sustentava que a colheita das azeitonas impediria qualquer retirada de braços naquela semana.
Licaão conhecia o tipo de audiência.
Normalmente, cada homem passaria metade do tempo explicando por que o vizinho devia trabalhar em seu lugar.
Naquele dia, o primeiro entrou, inclinou a cabeça e perguntou:
— Quantos homens precisa da minha casa?
Licaão olhou para Mélas.
O conselheiro também percebeu.
— Quatro seus. Três da outra família.
— Para quando?
— Amanhã cedo.
O homem mexeu os dedos na barra da túnica.
— Entregarei quatro.
Não falou das oliveiras.
Não pediu redução.
Não lembrou trabalhos anteriores.
O segundo proprietário fez praticamente o mesmo.
A audiência terminou antes que servissem o vinho.
Quando a porta se fechou atrás deles, Mélas ficou olhando para a madeira.
— Economizamos uma bela discussão.
Licaão organizou as tábuas.
— Devia agradecer.
— Estou me esforçando.
— Parece exaustivo.
Mélas pegou a taça.
— Ouviram sobre Damon.
— Claro que ouviram.
— Um deles perguntou ao servo da entrada se era verdade.
— E o servo?
— Disse que não sabia.
— Mentiu.
— Por isso continua empregado.
Licaão colocou uma tábua sobre a outra.
— Quatro homens amanhã. A ponte precisa deles.
— Precisa.
— E desta vez ninguém passou meia hora tentando provar que o trabalho devia cair sobre o vizinho.
— Não.
Licaão olhou para a porta.
— Isso evita problema.
Mélas bebeu um pouco de vinho.
— Evita alguns.
— Hoje bastam.
— Essa parte é que começa a me preocupar.
Licaão voltou-se.
— Qual?
Mélas pousou a taça.
— Você está ficando contente demais com qualquer coisa que produza obediência rápida.
— Isso virou defeito num rei?
— Depende de quanto o resto custa.
— A ponte terá sete homens amanhã e eu não precisei ameaçar ninguém.
Mélas fitou-o.
— Hoje.
A palavra permaneceu entre os dois.
Licaão ia responder quando um servo entrou.
— Meu rei.
— Fale.
— Agelau quer saber se a ordem de retirar madeira do bosque amanhã continua.
Licaão precisou recuperar o assunto.
— Que madeira?
Mélas entendeu primeiro.
— O bosque de Zeus.
Licaão lembrou.
Havia uma faixa de mata numa encosta mais ao norte, usada havia gerações sob certas restrições. Não era um grande santuário, não havia templo nem construção importante. Algumas árvores antigas cercavam um ponto onde se realizavam oferendas sazonais, e o corte era evitado nos dias associados ao rito.
Uma tempestade danificara a cobertura de um depósito de grão. Licaão ordenara madeira.
Agelau pedira que o corte fosse adiado por dois dias.
Na ocasião, Licaão deixara a discussão para depois.
— Amanhã é o dia em que não cortam?
O servo respondeu com cuidado:
— Segundo o costume, meu rei.
A correção saiu antes que ele percebesse.
O rapaz empalideceu.
Licaão encarou-o.
— Pode ir.
Ele desapareceu depressa.
Mélas observou a porta.
— Viu?
— Não comece.
— O rapaz corrigiu a palavra “Agelau” para “costume” e quase perdeu a cor depois.
Licaão levantou-se.
— Há madeira em outro lugar?
— Há.
— Quanto mais longe?
— Meio dia para chegar com os homens. Talvez quase um dia inteiro para trazer quantidade suficiente, dependendo da carga.
— Então tiramos do bosque próximo.
Mélas não se moveu.
— Licaão.
— O depósito está sem parte do teto.
— E não vai chover amanhã.
— Tem certeza?
— O céu está limpo.
— E depois?
— Se chover depois, cobre depois.
Licaão encarou-o.
— Quer que eu deixe grão exposto porque Agelau prefere que certas árvores fiquem de pé por dois dias?
— Não.
— Ótimo.
— Quero que busque a madeira no outro vale.
— Custa um dia.
— Meio dia de ida. Talvez mais na volta.
— Homens deixam outro trabalho.
— Poucos homens.
Licaão caminhou até a abertura da sala.
O pátio estava cheio. Carregadores passavam com cestos; dois soldados conversavam junto à entrada. A faixa que Agelau deixara sobre o banco já não estava ali. Licaão mandara guardá-la pela manhã depois de notar servos fazendo curvas ridículas para não chegar perto do tecido.
— Por que exatamente não se corta amanhã?
Mélas aproximou-se.
— Há uma oferenda no bosque.
— E depois?
— Depois o corte pode continuar.
— O que acontece se alguém cortar amanhã?
Mélas parou.
— Agelau dirá que você violou um costume.
— Agelau diz isso com frequência.
— As famílias que usam o lugar também não gostarão.
— Também acontece com frequência.
— E você não ganha nada que não possa conseguir com algumas horas a mais de trabalho.
Licaão se voltou.
— Nada?
Mélas percebeu o interesse.
— Nada que ajude a Arcádia.
A formulação era melhor do que qualquer advertência religiosa.
— Então acha que devo esperar.
— Acho que temos outra fonte de madeira.
— Isso não respondeu.
— Foi a resposta que achei útil.
Licaão voltou à mesa.
— Há um depósito aberto.
— Há madeira no outro vale.
— E um costume que obriga homens a andar o dobro porque certas árvores não podem ser cortadas amanhã.
— Sim.
— Por Zeus.
— Ligado a Zeus.
Licaão ergueu os olhos.
— Interessante correção.
Mélas passou uma mão pela barba.
— Não transforme uma palavra numa abertura outra vez.
— Se existe alguma autoridade acima da minha nesta casa, preciso saber onde começa.
Mélas ficou quieto.
Licaão percebeu que nunca dissera aquilo com tanta clareza.
Continuou:
— Agelau me diz que não devo cortar.
— Diz que o costume proíbe o corte naquele dia.
— E o costume chega até mim pela boca dele.
— Como leis antigas chegam por escribas. Como notícias chegam por mensageiros. Como a condição de uma estrada chega por Theron. Muita coisa depende da boca de alguém.
— Exatamente.
— Isso não torna tudo vazio.
Licaão sentiu a irritação conhecida.
— Então o que torna verdadeiro?
— Não precisamos resolver amanhã.
— Essa resposta está ficando cômoda.
Mélas puxou uma cadeira e não se sentou.
— Cômoda?
— Leonte chama por Zeus e talvez a resposta venha depois. Abro um cesto e talvez a consequência apareça depois. Derramo menos vinho e talvez amanhã alguém descubra por que não devia.
— Está misturando três assuntos.
— Estou vendo o mesmo mecanismo.
— Não é o mesmo.
— Então mostre a diferença.
Mélas colocou as duas mãos sobre o encosto da cadeira.
— O depósito.
Licaão esperou.
— Essa é a diferença. O depósito realmente precisa de madeira. Temos duas fontes. Uma fica perto e tem uma restrição por um dia. A outra demora mais. Essa é a decisão administrativa.
— Exatamente.
— Então use o outro vale.
— Por quê?
Mélas levou algum tempo.
— Porque o custo é pequeno.
Licaão reconheceu o argumento.
— Foi o mesmo que disse quando Agelau exigiu minha presença por causa do carneiro de Eutíades.
— E naquele dia funcionou muito bem.
— Funcionou.
— Então talvez continue servindo.
Era boa política.
Licaão sabia.
Ceder o mínimo, não criar conflito quando a concessão custava menos que a disputa, preservar homens, grão e tempo para assuntos maiores.
Ainda assim, havia algo que se repetia.
— Se sempre cedo quando o preço da concessão é baixo, quem decide?
— Você.
— Não parece.
— Porque está tratando concessão como submissão.
— Para quem recebe, a diferença costuma ser invisível.
— Para o rei não deveria ser.
Licaão passou os dedos pela borda da mesa.
Sempre havia um motivo razoável para não atravessar a linha.
Outra madeira.
Outra estrada.
Mais um dia.
Outra cerimônia.
Esperar era quase sempre barato.
E a mesma dúvida continuava intacta.
— Se Zeus exerce poder sobre esta casa, que o exerça.
Mélas não respondeu.
— Não estou dizendo que ele não existe.
— Eu sei.
— Não proibi oferendas.
— Sei.
— Não toquei em altar algum.
— Licaão…
— Vou cortar a madeira.
Mélas fechou os olhos por um instante.
— Então pare de fingir que é por causa do teto.
Licaão sentiu algo próximo de alívio.
Finalmente.
— O depósito precisa da madeira.
— Pode receber madeira de outro lugar.
— Pode.
— Então diga o restante.
Licaão sustentou o olhar do conselheiro.
— Quero saber se essa proibição tem algum poder além daquilo que os homens atribuem a ela.
Mélas permaneceu calado.
Depois puxou a cadeira e sentou.
— Agora temos uma conversa de verdade.
— Qual é o problema?
— Pela primeira vez desde que começou a mexer nessas coisas, está disposto a impor um custo ao reino porque quer uma resposta para si.
— Meio dia de trabalho.
— Desta vez.
Licaão reconheceu a palavra.
Mélas também.
— Não use isso.
— Foi você quem me ensinou a ouvir palavras repetidas.
— Estamos falando de madeira.
— Não estamos mais. Você acabou de admitir.
Mélas se levantou novamente.
— Use o outro vale.
— Não.
— Cubra o depósito provisoriamente.
— Não.
— Espere dois dias.
— Não.
Mélas abriu os braços.
— Então para que me mantém aqui?
— Não pago você.
— Isso explica a qualidade das condições.
O humor morreu quase imediatamente.
Mélas se aproximou.
— Ouça. Não estou pedindo devoção. Não quero saber se acredita em Agelau, no bosque ou numa punição divina. Estou pedindo que escolha o que serve à Arcádia.
— Estou escolhendo.
— Não. Está escolhendo uma pergunta sua.
Licaão sentiu a raiva chegar.
— Minha autoridade não é uma questão privada.
— O teto do depósito é público. Sua necessidade de saber se Zeus derruba homens porque cortaram árvore no dia errado não é.
O nome ficou entre eles.
Zeus.
Licaão respondeu devagar:
— Se homens podem morrer por isso, preciso saber.
— E se não morrer ninguém?
— Também preciso saber.
Mélas foi até a abertura, como se o ar do pátio pudesse ajudar.
— Aí corta outra árvore no mês seguinte. Depois mexe em outro costume. Depois encontra outra coisa que não produziu resposta.
Licaão não falou.
Mélas se virou.
— É justamente isso que me preocupa.
— O quê?
— Você não definiu qual resposta bastaria.
Licaão sentiu a frase.
— Existe uma que basta.
— Qual?
— Uma autoridade que se comporte como autoridade.
Mélas ficou imóvel.
Licaão continuou:
— Quando um rei manda, a ordem chega. Se alguém a ignora, há consequência. Um pai dá uma ordem e o filho sabe que haverá resposta se desobedecer. Um homem viola um acordo e o outro exige reparação.
Pensou em Damon.
Na mão.
No silêncio dos proprietários naquela tarde.
— Tudo que governa homens precisa agir em algum momento.
— Deuses não são reis humanos.
— Então Agelau não deveria exigir obediência como se fossem.
Mélas balançou a cabeça.
— Você quer que Zeus se comporte como você para admitir que está acima de você.
Licaão abriu a boca.
A frase era insolente.
Também era boa.
— Talvez.
Mélas parecia desejar qualquer resposta menos aquela.
— Não faça isso.
— A madeira será cortada amanhã.
— Licaão.
— Dez homens.
Mélas quase riu.
— O depósito não precisa de dez.
Licaão percebeu.
Seis bastariam.
Talvez cinco.
Mélas percebeu também.
— Oito.
O conselheiro soltou uma risada seca.
— Excelente. Agora estamos negociando quantos homens são necessários para provocar Zeus com eficiência.
Licaão endureceu a voz.
— Cuidado.
Mélas se calou.
Durante alguns instantes ouviram apenas o movimento do pátio.
Licaão chamou um servo.
O rapaz apareceu quase imediatamente.
— Theron está na casa?
— Sim, meu rei.
Licaão pensou no comandante recém-chegado, nas roupas ainda marcadas pela viagem e na mão que empunhara o machado.
— Não. Chame Mestor.
— Sim.
Mélas observou.
Licaão acrescentou:
— Oito homens. Amanhã ao amanhecer. Vão ao bosque buscar madeira para o depósito.
O servo perdeu parte da cor.
Muito pouco.
Licaão viu.
— Alguma dúvida?
— Não, meu rei.
— Sabe qual bosque?
— Sei.
— Então leve a ordem.
O rapaz saiu.
Mélas acompanhou-o com os olhos.
— Viu?
Licaão voltou-se.
— Outra vez isso?
— Ele sabe que amanhã não se corta ali.
— E vai obedecer.
— Vai.
A palavra não trouxe qualquer satisfação à voz de Mélas.
Níctimo apareceu no jantar.
Damon, naturalmente, não.
Aletes também não.
Dia conversava com uma mulher mais velha sobre a quantidade de azeite restante quando Licaão se sentou. Níctimo chegou pouco depois e pediu desculpas pelo atraso.
— Aletes — explicou.
Licaão entendeu.
— Conseguiu falar com ele?
— Sim.
— E?
Níctimo pegou a água.
— Amanhã conto.
Licaão reconheceu um pedido para não continuar diante da mesa inteira.
Não insistiu.
Por algum tempo falaram de coisas menores.
Uma cabra havia escapado outra vez do curral. Uma parede próxima ao depósito precisava de reparo. Um mensageiro de Mantineia chegaria antes do fim da semana.
Dia comentou, com grande satisfação, que Níctimo rasgara outra túnica.
O rapaz pousou o pão.
— Isso foi traição.
— Foi informação administrativa.
— Para quem?
— Seu pai precisa saber quanto tecido perde por ano com você.
Licaão examinou o filho.
— Talvez devêssemos cobrar.
— Então começo a andar nu.
Dia colocou pão na boca antes de responder.
Licaão riu.
Veio fácil.
Por alguns instantes a mesa voltou a ser apenas a mesa da família.
Então Mestor apareceu na entrada.
Não entrou.
Esperou ser chamado.
Licaão fez um gesto.
— Fale.
— Recebi a ordem para amanhã.
Dia olhou para ele.
Níctimo também.
— Oito homens no bosque — continuou Mestor.
— Isso.
Níctimo parou com o pão na mão.
— Amanhã?
Licaão voltou-se para o filho.
— Ao amanhecer.
— Amanhã é o dia da oferenda no bosque.
Dia não disse nada.
Mestor provavelmente preferia estar enfrentando uma fileira de lanças.
— Eu sei.
— Agelau concordou?
— Não perguntei.
O silêncio ocupou a mesa.
Licaão dispensou Mestor.
— Pode ir.
— Sim, meu rei.
O soldado saiu depressa.
Níctimo deixou o pão no prato.
— O depósito precisa daquela madeira amanhã?
Dia fechou os olhos.
A pergunta era a mesma de Mélas.
Licaão respondeu:
— Precisa de cobertura.
Níctimo não deixou passar.
— Perguntei se precisa daquela madeira amanhã.
Licaão sentiu a irritação subir e reconheceu nela algo quase absurdo.
O filho aprendera exatamente o método que ele próprio lhe ensinara.
— Não.
Níctimo esperou.
— Existe madeira em outro lugar?
— Existe.
— Então por que mandar homens ao bosque?
Dia permaneceu em silêncio.
Licaão poderia dar uma resposta suficiente.
O outro vale custava tempo. Os homens teriam de andar mais. O depósito precisava ser coberto. Tudo isso era verdadeiro.
Só não era toda a verdade.
— Porque não vou ensinar esta casa a evitar uma árvore indefinidamente apenas porque ninguém sabe explicar o que realmente acontece se ela for cortada num certo dia.
Níctimo olhou para ele.
— Quer ver o que acontece.
A frase era a mesma do terceiro cesto.
Licaão não desviou.
— Quero.
Dia pousou a taça.
Devagar.
Níctimo olhou primeiro para ela e depois para o pai.
— E se alguma coisa acontecer?
— Então saberemos que havia motivo para a proibição.
— Com oito homens no bosque?
A pergunta atravessou Licaão de maneira diferente.
Não por Zeus.
Pelos homens.
— Não espero que aconteça nada.
Níctimo respondeu com cuidado:
— Mas está fazendo porque admite que pode acontecer.
— Estou fazendo porque não acredito que aconteça.
O rapaz permaneceu quieto.
Dia falou pela primeira vez:
— As duas coisas não são iguais.
Licaão olhou para ela.
Lembrou-se da conversa entre os dois.
Não colocaria Níctimo como testemunha de testes.
Não usaria o filho como aprovação.
Não exigiria que escolhesse entre pai e sacerdote.
Não o estava levando ao bosque.
Mandava outros.
— Mestor não precisa ir — disse Níctimo.
Licaão virou-se.
— O quê?
— Se quer cortar uma árvore para descobrir se Zeus impede, pode ir você mesmo.
Dia olhou para o filho.
Licaão sentiu a autoridade ocupar a voz antes de decidir.
— Cuidado.
Níctimo baixou os olhos.
— Desculpe.
Esperou um momento e tornou a encará-lo.
— Não quis faltar com respeito. Só não entendo por que oito homens precisam fazer a pergunta no seu lugar.
A comida perdeu o gosto.
Licaão afastou a travessa.
— Porque sou rei. Eu não derrubo pessoalmente cada árvore usada num depósito nem assento cada pedra de estrada que mando reparar.
— Entendo.
O respeito estava na resposta.
Havia outra coisa também.
Licaão não conseguiu nomeá-la.
— Coma.
Níctimo tornou a pegar o pão.
Dia não voltou a tocar na taça.
Mestor saiu antes de o sol se erguer por completo.
Levou oito homens.
Licaão não foi.
Mélas também não.
A primeira árvore caiu pouco depois do amanhecer.
Licaão soube antes do meio-dia, quando um mensageiro voltou do bosque. O rapaz estava suado, com pó de madeira preso aos cabelos e à túnica.
— Cortaram?
— Já começamos, meu rei.
— Quantas árvores?
— Três quando saí de lá.
— Algum problema com os homens?
— Nenhum. Todos estão bem.
— Mestor?
— Também.
Licaão esperou.
O mensageiro continuava diante dele.
— Há mais alguma coisa?
— Não, senhor.
— Então volte.
O rapaz se virou.
— Espere.
Parou.
Mélas estava junto à mesa, examinando uma tábua.
Licaão falou para o mensageiro:
— Mande que cortem apenas o necessário para cobrir o depósito. Quando tiverem madeira suficiente, parem.
— Sim, meu rei.
O rapaz saiu.
Mélas continuou olhando para a tábua.
— Diga.
— Não tenho nada a acrescentar.
— Isso é novo.
— Estou tentando conservar energia para o próximo assunto.
Licaão sentou-se.
Pouco depois, entrou um proprietário de terras próximas para tratar de uma entrega atrasada de cevada.
Licaão conhecia o homem. Discutia medidas, prazos e recipientes como se cada grão saísse diretamente do próprio sangue. No dia anterior pedira mais cinco dias.
Naquela manhã, inclinou a cabeça antes mesmo de o rei terminar de explicar o atraso registrado.
— Entregarei tudo até o terceiro dia.
Licaão olhou para ele.
— Sem pedir mais prazo?
— Não, meu rei.
— Ontem queria cinco dias além do prazo.
O homem esfregou uma palma suja na túnica.
— Conseguiremos em três.
— Como?
— Vamos trabalhar até mais tarde. Pedirei ajuda ao meu cunhado. Daremos um jeito.
Licaão percebeu o olhar rápido lançado a Mélas.
Medo.
Talvez prudência.
A mão de Damon.
A discussão com Agelau.
Os homens no bosque.
Provavelmente tudo já se misturara numa mesma história.
— Três dias.
— Sim, meu rei.
O homem saiu.
Mélas continuou estudando a tábua.
Licaão acompanhou a porta se fechar.
— Outra discussão economizada.
Mélas não respondeu.
— Está ficando mal-educado.
— Estou trabalhando.
Licaão permaneceu olhando para a porta.
Uma ordem dada uma vez começava a chegar antes da própria voz. Homens que antes discutiam agora calculavam o risco antes de abrir a boca. O resultado aparecia no prazo de uma entrega, no número de trabalhadores de uma ponte, na rapidez com que um servo dizia sim.
Ao longe, no lado norte, ouviu-se um golpe de machado.
Depois outro.
Licaão continuou diante da mesa.
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