Capítulo 2 — A Medida do Medo
por Sonhado acordadoNíctimo descobriu que “antes” significava escuro.
Não a penumbra azul que precedia o sol, quando os muros da casa começavam a se separar das encostas e o caminho deixava de ser apenas uma faixa negra sob os pés. Theron o queria de pé quando ainda era preciso carregar uma lamparina pelo corredor. Níctimo descobriu isso ao acertar o joelho na borda de uma arca enquanto procurava a túnica.
A dor terminou o trabalho que o servo à porta havia começado.
— Meu pai mandou me acordar?
O rapaz ficou no corredor, esperando que ele terminasse de prender o cinto.
— Foi Theron, senhor. Disse que devíamos estar nos estábulos antes da partida.
— Claro que foi.
O servo teve o bom senso de não comentar.
Níctimo pegou o manto e atravessou a casa. O frio do pátio mordeu-lhe o rosto. Durante o dia, o calor se acumulava entre as pedras e fazia o ar parecer imóvel; àquela hora, a montanha devolvia tudo em vento gelado. Três tochas iluminavam os estábulos, projetando sombras compridas sobre homens, cavalos e ferramentas.
Theron já estava montado.
Níctimo começava a suspeitar que o comandante dispensava o sono como dispensava quase todo conforto que não servisse a uma marcha.
Os seis soldados escolhidos para acompanhá-lo prendiam ferramentas e cordas às montarias. Havia picaretas, enxadas, pás curtas e uma marreta de madeira. Numa das mulas pendia um saco de couro pesado de pregos de bronze.
Níctimo parou diante do carregamento.
— Vamos retirar seis pedras ou construir um templo?
Theron conferiu a correia de uma das ferramentas antes de responder.
— Seu pai mandou retirar a barragem e deixar uma comporta funcionando.
— Eu vi a barragem ontem. Caberia metade disso tudo dentro dela.
— E, se a margem ceder quando tirarmos as pedras, você pretende sustentá-la com as mãos?
Níctimo puxou o manto contra o corpo.
— Não.
— Ótimo. Monte. Quero chegar antes que os homens de Drímon comecem a trabalhar nos campos.
A resposta encerrou o assunto de maneira mais eficiente do que qualquer ordem.
Partiram sob a luz das tochas. Os cascos batiam secos contra o caminho de pedra, e a casa de Licaão desapareceu atrás deles assim que a estrada mergulhou entre árvores. Níctimo cavalgara por ali no dia anterior, ao lado do pai.
Solte as pernas.
A lembrança veio quando o cavalo iniciou uma descida estreita. Ele afrouxou os joelhos.
Theron percebeu, mas continuou cavalgando.
Níctimo teria preferido uma correção.
O vento subia do vale carregando cheiro de terra úmida, folhas e fumaça de alguma casa onde o fogo já fora aceso. Em certos trechos, as árvores fechavam o céu; em outros, ainda se viam estrelas entre os cumes. Os soldados economizavam conversa e força. Um deles cavalgava inclinado sobre a sela, outro mantinha uma das mãos sobre a corda que prendia as ferramentas à mula.
Depois de algum tempo, Níctimo aproximou sua montaria da de Theron.
— Quantas vezes você cumpriu uma ordem do meu pai longe dele?
— O bastante para saber que uma ordem simples costuma ficar complicada quando chegamos ao lugar.
— Isso não responde.
— Responde a parte útil.
Níctimo insistiu:
— Quero saber se já precisou mudar uma ordem.
Theron passou os olhos pelo trecho pedregoso à frente antes de conduzir o cavalo para a parte mais firme.
— Já precisei decidir coisas que ele não podia prever. Uma ponte caída. Um homem doente. Comida que não chegou. Gente que resolveu resistir quando disseram que não resistiria. Se eu tivesse de voltar à casa toda vez que o mundo mudasse um pouco, seu pai precisaria de outro comandante.
Aquilo era mais do que Níctimo esperava conseguir.
— E ele aceita?
— Quando a decisão funciona.
— E quando não funciona?
— A conversa é mais longa.
Um dos soldados atrás deles tossiu. Theron continuou:
— Seu pai mandou você observar hoje. Aproveite. Há seis homens aqui que sabem trabalhar com pedra, dois que já abriram canais durante campanha e um que consegue fazer uma comporta com madeira ruim se for obrigado. Pergunte depois de olhar o que fazem.
— Posso fazer os dois.
— Pode. Só não presuma que consegue fazer os dois igualmente bem.
Níctimo decidiu guardar a próxima pergunta.
Quando o céu começou a clarear, os campos de Drímon apareceram abaixo do caminho. A cevada tinha uma cor cinzenta naquela luz e ondulava devagar sob o vento. Muros baixos separavam as áreas cultivadas. Um homem já estava numa vala com uma enxada, e interrompeu o trabalho quando viu o grupo passar. Mais adiante, outro surgiu diante de uma casa. Depois um terceiro.
Ninguém se aproximou.
— Drímon contou a todos?
— Não precisou. Seis soldados subindo antes do amanhecer fazem notícia suficiente.
A casa do agricultor ficava abaixo do canal, no limite onde o terreno ainda aceitava cultivo antes de subir para as pastagens. Era uma construção simples de pedra e madeira, com um curral lateral. Quando chegaram, a família já os esperava.
Drímon estava à frente. Dois homens parecidos com ele deviam ser os irmãos. Atrás deles havia uma mulher mais velha, duas mais jovens e várias crianças. Um menino segurava uma pá quase do próprio tamanho.
Drímon cumprimentou Theron primeiro.
— Comandante.
Theron desmontou.
— Trouxe seus irmãos?
— Os dois. Separei madeira também.
Só então Drímon reparou em Níctimo. Endireitou-se e baixou a cabeça.
— Senhor.
Níctimo desceu do cavalo.
— Níctimo basta.
Drímon claramente não pretendia arriscar.
— Como preferir, senhor.
Níctimo deixou para lá.
Theron entregou as rédeas a um soldado.
— Onde estão os homens de Eutíades?
— Ainda não apareceram. Nós estamos prontos desde que ouvi os cavalos na estrada.
Drímon indicou os irmãos e, em seguida, o filho com a pá.
Theron apontou para a criança.
— O menino fica fora do canal.
— Ele trabalha comigo. Sabe usar uma pá.
— Acredito. Hoje vai carregar água, corda ou qualquer coisa que não o coloque entre pedras que pesam mais do que ele.
Drímon observou o filho. A avó já estendia a mão para a ferramenta.
— Vá com ela.
O menino entregou a pá sem protestar, embora não parecesse satisfeito.
Theron começou a conferir o material separado junto à casa.
— Duas tábuas não bastam para a comporta.
— Tenho mais madeira guardada, mas é a que usamos para reparar o telhado.
— Traga quatro peças boas. Se não precisarmos de todas, voltam para o telhado.
Drímon chamou um dos irmãos, que correu para dentro.
Subiram até a bifurcação.
Ao amanhecer, a barragem parecia ainda menor do que Níctimo lembrava. Pedra, barro e galhos; duas das pedras haviam sido retiradas no dia anterior diante do rei. Mesmo assim, quase toda a água continuava seguindo para os campos.
Theron examinou o canal e os dois braços.
— Esperamos Eutíades.
Drímon plantou os pés na margem.
— E se ele resolver não vir? Minha cevada não ganha nada com homem atrasado.
— Ele recebeu a mesma ordem que você.
— E eu estou aqui.
— Então, quando ele chegar, começará atrasado e terminará depois de você.
A resposta pareceu agradar um pouco a Drímon.
Pouco depois, Eutíades surgiu pelo caminho alto acompanhado de três homens. Dois eram jovens o bastante para serem seus filhos; o terceiro trazia um cesto com cordas e ferramentas.
Theron não precisou consultar o céu.
— A ordem era ao nascer do sol.
Eutíades apontou para a montanha, cuja sombra ainda cobria parte do vale.
— Aqui embaixo o sol mal apareceu, comandante. Saímos quando dava para enxergar o caminho sem quebrar uma perna.
Theron indicou o cume dourado atrás dele.
— Quando a luz chega lá, o sol nasceu. Amanhã, se ainda estivermos trabalhando, use aquela pedra como relógio.
Eutíades pareceu disposto a discutir astronomia por alguns instantes, mas um dos filhos já entrava no canal.
— Estamos aqui. Vamos trabalhar.
— É para isso que vieram.
Os homens começaram pela parte mais fácil. Retiraram pedras menores com as mãos, arrancaram galhos presos no barro e abriram passagem para que a água voltasse ao braço das pastagens. A cada pedaço removido, o curso ganhava alguns dedos de largura.
Níctimo permaneceu algum tempo na margem. Observou onde os homens apoiavam os pés, como usavam as cordas e de que maneira evitavam puxar uma pedra contra a corrente. Theron raramente precisava orientar os soldados; Drímon, ao contrário, opinava sobre tudo que os outros faziam.
A primeira dificuldade surgiu com uma pedra grande assentada fundo na margem.
Dois irmãos de Drímon tentaram deslocá-la. Um dos filhos de Eutíades entrou para ajudar.
— Peguem por baixo — disse Drímon. — Se puxarem daí, vão levar barro junto.
O rapaz continuou prendendo a corda.
— Eu sei trabalhar com pedra.
— Então devia saber que essa foi colocada para segurar a lateral.
— Foi você que a pôs aí.
— Para não perder a colheita.
Eutíades, na margem, soltou uma risada.
O filho voltou-se para ele.
— Pai, se vai ficar aí rindo, pelo menos segure a outra ponta.
Drímon largou a corda.
— Se a manhã for para isso, tenho cevada esperando.
Theron caminhou até a borda.
— A cevada continuará esperando. Você fica até terminarmos.
Drímon percebeu que os outros haviam parado para ouvir.
— Foi só maneira de falar.
— Então economize a próxima. Precisamos tirar a pedra.
Theron pegou uma segunda corda, entregou-a a um dos soldados e indicou onde prendê-la. O trabalho recomeçou sem que ninguém precisasse ser lembrado outra vez.
Três homens puxaram. A pedra cedeu alguns dedos.
— Mais uma vez. Sem arrancar de uma vez; deixem a água soltar o barro.
Puxaram novamente.
Um dos filhos de Eutíades perdeu o apoio. Caiu de joelhos, e a mão desapareceu entre duas pedras. O grito veio antes que a corda tocasse o chão.
Níctimo desceu a margem.
— Deixe eu ver.
— Foi só um corte, senhor. Posso continuar.
O sangue escorria pela base do indicador e se espalhava pela palma.
Níctimo reconheceu a vontade de responder como o pai. A frase chegou pronta e ele a engoliu.
— Se entrar barro aí e a mão inchar amanhã, você não trabalha nem aqui nem com seu rebanho. Vá até a água limpa, lave bem e enrole isso.
O rapaz ainda examinou a pedra.
— Posso ajudar a tirar primeiro.
— Há seis homens inteiros em volta dela. Vá cuidar da mão.
Dessa vez ele obedeceu.
Eutíades se aproximou.
— Ele está acostumado, senhor. Desde pequeno trabalha comigo. Corte assim fecha rápido.
— Melhor. Então amanhã estará de volta.
— Não quero que pense que estamos tentando fugir do serviço.
Níctimo percebeu de onde vinha a preocupação. Theron estava ali; soldados também. O homem fora condenado no dia anterior a trinta dias de trabalho e agora um dos filhos saía do canal minutos depois de começar.
— Eu vi o que aconteceu. Ninguém vai contar isso como falta.
Eutíades pareceu procurar alguma coisa na expressão dele.
— Agradeço.
— Só mande o rapaz limpar direito. Não quero vê-lo amanhã com a mão podre porque quis provar que trabalha mais do que Drímon.
Um dos homens riu. Eutíades também, embora com menos vontade.
— Isso ele tentaria provar até com dois dedos a menos.
O rapaz ferido ouviu da parte alta:
— Estou escutando!
— Então lave a mão!
A tensão no canal cedeu por alguns instantes.
Quando voltaram à pedra, porém, a margem trouxe outro problema.
Ela saiu de repente.
Barro, cascalho e raízes secas deslizaram para dentro do curso. A água ficou turva e começou a escavar a lateral aberta.
— Todos para fora! — Theron apontou para terreno firme. — Ferramentas também. Não deixem nada na água.
Drímon praguejou ao ver a abertura.
— Eu avisei que aquela pedra segurava a margem.
— E agora vai ajudar a pôr outra no lugar — respondeu um dos filhos de Eutíades.
— Se vocês tivessem puxado como eu disse—
— Chega — Theron cortou. — Quem quiser discutir pode fazer isso carregando pedra.
Ele se agachou perto da ruptura, mediu com a mão a profundidade do barro e chamou dois soldados.
— Tragam as maiores que conseguirem mover sem animal. Precisamos fechar o curso antes de reconstruir a lateral.
Drímon apontou para o braço que levava aos campos.
— Fechar tudo? Por quanto tempo?
Theron examinou o estrago.
— Duas horas. Talvez três se o barro continuar cedendo.
— Três horas agora acabam com a parte mais quente da manhã. Há cevada que já está amarelando.
— Se não consertarmos, amanhã você pode não ter canal nenhum.
Drímon não discutiu isso. Em vez disso, procurou Níctimo.
— Senhor, seu pai dividiu o dia entre os campos e as pastagens. Se o canal ficar fechado três horas, de qual lado essas horas saem?
A pergunta fez Eutíades abandonar a ferramenta.
— Não vão sair do nosso. A margem caiu por causa da barragem dele.
Drímon se virou.
— A margem caiu quando seu filho puxou a pedra.
— Pedra que você enterrou ali.
— O canal é seu quando tem água e meu quando precisa de conserto?
Níctimo entrou antes que a discussão ganhasse força.
— Parem. Primeiro fechamos a passagem. Depois decidimos as horas.
Eutíades apontou para o curso.
— Com respeito, senhor, depois a água já foi perdida.
Níctimo olhou para Theron.
— Como você resolveria?
— Fecharia agora, reconstruiria a margem e devolveria o tempo perdido depois.
— Para quem?
Theron indicou Drímon.
— A interrupção começa quando os campos deveriam receber. Eu devolveria essas horas aos campos e atrasaria a abertura das pastagens pelo mesmo tempo.
Eutíades protestou:
— Então eu pago pelo erro da barragem.
Theron respondeu:
— Você recebe suas horas. Só recebe mais tarde.
— Meus animais não sabem contar hora.
— Nem a cevada dele.
Níctimo observou o sol. A pedra clara que Drímon usava como referência seria alcançada em menos de uma hora. O pai não estava ali para responder, e mandar um homem de volta à casa para perguntar transformaria um conserto de três horas num problema de um dia inteiro.
— Fechem tudo. Consertem a margem primeiro. Quando a água voltar, os campos recebem o tempo que perderam. Depois disso, as pastagens recebem a parte inteira delas, mesmo que seja preciso trabalhar até mais tarde para fechar a comporta.
Drímon fez a conta.
— Vai escurecer antes de eu terminar.
— Então hoje você aprende onde fica a madeira no escuro. Amanhã já saberá.
Um soldado riu enquanto erguia uma pedra.
Drímon não.
— Está bem, senhor.
Eutíades ainda não parecia satisfeito.
— Quero ver a água correndo para cima antes de levar meus filhos embora.
— Vai ver. E, se o conserto atrasar, vocês ficam até ver.
Isso lhe deu menos motivo para continuar reclamando.
Pedras começaram a chegar. Barro foi comprimido nos espaços; pedaços de madeira sustentaram a lateral enquanto os homens refaziam o trecho que cedera. Níctimo entrou no canal sem esperar que alguém lhe desse função.
A água fria alcançava os tornozelos e doía depois de alguns minutos.
Um dos soldados mostrou como firmar uma pedra menor contra a base. Níctimo tentou encaixá-la. Drímon, trabalhando ao lado, apontou.
— Mais para a esquerda.
Níctimo moveu a pedra.
— Aqui?
— Um pouco mais.
Ele empurrou. A peça ficou torta.
Drímon parou.
— Não. Desculpe, senhor. Mais abaixo.
Níctimo soltou a pedra.
— Você sabia que não cabia aí?
— Achei que talvez desse.
— Você acabou de dizer que não.
Drímon limpou barro dos dedos na própria túnica.
— Quando o senhor perguntou “aqui?”, pensei que fosse onde queria pôr.
Níctimo ficou olhando para a pedra entre as mãos.
— Estou tentando consertar seu canal. Se eu fizer errado, diga que está errado.
— Certo.
— Onde ela entra?
Dessa vez Drímon se aproximou, abaixou-se e mostrou a cavidade.
— Aqui. A ponta fica presa naquela maior. Se deixar alta, a corrente cava por baixo.
Níctimo colocou como ele indicara.
A pedra assentou.
— Assim serve?
Drímon empurrou com o pé e verificou a base.
— Agora serve.
Níctimo continuou trabalhando.
Aquilo o incomodou mais do que gostaria. Drímon conhecia o canal. Conhecia aquela margem melhor do que qualquer soldado ali e, ainda assim, preferira concordar com uma posição ruim porque a pergunta viera do filho do rei.
Duas horas depois, a lateral estava firme o bastante para receber a estrutura da comporta.
Ela era simples: madeira encaixada entre pedras, com uma peça móvel capaz de interromper quase todo o fluxo de um dos braços. Theron examinou cada junção antes de mandar Drímon operar o mecanismo.
— Abra.
Drímon levantou a peça.
— Agora feche.
A madeira desceu.
Theron agachou-se e observou a água procurando passagem pelas laterais.
— Abra outra vez. Devagar.
Drímon obedeceu.
Na terceira repetição, já estava irritado.
— Comandante, está funcionando.
— Eu sei. Quero saber se continuará funcionando depois que você estiver cansado, com lama até os joelhos e pouca luz.
Drímon tornou a fechar a comporta. Dessa vez a madeira emperrou perto da base.
Theron apontou.
— Aí. Limpe.
Um pequeno fragmento de cascalho havia entrado na guia.
Drímon retirou-o.
Na tentativa seguinte, a peça desceu sem prender.
— Agora está melhor.
Drímon não reclamou da quinta repetição.
Quando o sol alcançou a formação clara na encosta, Theron autorizou a abertura para os campos.
A água entrou no braço sul e correu entre as margens reconstruídas. Drímon acompanhou o avanço até onde o sulco desaparecia entre a cevada. O rosto continuava cansado, mas por alguns instantes toda a atenção dele ficou na água.
Eutíades se aproximou de Níctimo.
— Quanto tempo vamos esperar?
Níctimo calculou.
— O mesmo que os campos perderam.
— Isso nos leva quase ao escuro.
— Eu sei.
— O rei falou em metade do dia.
— A margem caiu. Se meu pai estivesse aqui, também teria de decidir o que fazer com essas horas.
Eutíades chutou um torrão para fora da água.
— Só quero que amanhã ninguém diga que aceitei perder minha parte.
— Theron está aqui. Eu estou aqui. Seus filhos também. Ninguém vai dizer isso.
O homem considerou a resposta e voltou ao trabalho.
A tarde já avançava quando finalmente desviaram o curso para as pastagens. Eutíades caminhou alguns metros acompanhando a água, como Drímon fizera antes. Um dos filhos foi mais longe para verificar se o fluxo alcançava o trecho superior do rebanho.
A barragem antiga havia desaparecido. A margem estava reconstruída e a nova comporta funcionava. As duas famílias tinham trabalhado lado a lado durante quase todo o dia, ainda que boa parte desse trabalho tivesse sido feita entre reclamações.
Theron conferiu a madeira uma última vez.
— Amanhã volto.
Drímon, coberto de barro até as canelas, apoiou as mãos na cintura.
— Não vou mexer.
— Espero que mexa. Vai precisar abrir e fechar isso todos os dias. Só não mude os horários.
Drímon soltou uma risada cansada.
— Entendi.
Perto dos cavalos, Níctimo encontrou o filho de Eutíades recolhendo ferramentas.
— Como está a mão?
O rapaz ergueu o tecido sujo enrolado nos dedos.
— Continua presa no braço. Acho que é bom sinal.
— Troque esse pano quando chegar em casa.
— Minha mãe vai trocar mesmo que eu não queira.
— Melhor ainda.
O rapaz sorriu.
— Boa viagem, senhor.
Dessa vez o sorriso não desapareceu quando Theron se aproximou para montar.
Níctimo guardou isso.
Partiram com as sombras já compridas sobre o vale. Durante algum tempo, ninguém falou. Os soldados estavam cansados e os animais seguiam num ritmo mais lento. Poeira grudava na pele úmida das pernas.
Níctimo cavalgou até alcançar Theron.
— Quando você põe a mão perto da espada, pretende usá-la?
— Nem sempre.
— Hoje, quando Drímon e o filho de Eutíades começaram a discutir?
Theron ajeitou a correia da espada, que havia afrouxado durante o trabalho.
— Não pretendia sacar.
— Então por que fez aquilo?
— Porque os dois estavam olhando um para o outro e esquecendo que havia uma margem caindo ao lado deles.
— Você podia ter mandado parar.
— Podia. Talvez bastasse.
— Mas preferiu que vissem a espada.
Theron não demonstrou incômodo com a acusação.
— Preferi que lembrassem que não estavam sozinhos no canal. Eu tinha homens dentro da água, ferramentas no chão e uma pedra grande ainda solta. Uma briga ali podia quebrar uma perna antes que eu terminasse a primeira ordem.
Níctimo olhou para a estrada.
— Eles ficaram com medo.
— Ficaram atentos.
— Não é a mesma coisa.
— Para um comandante, às vezes a diferença importa menos do que para quem está olhando de fora.
Níctimo não respondeu imediatamente.
— Isso não incomoda você?
Theron levou algum tempo para falar, mas não porque procurasse uma frase boa. Precisou conduzir o cavalo ao redor de uma pedra antes de continuar.
— Se um soldado teme atravessar uma ponte ruim, eu escuto. Se teme um inimigo, preparo melhor a linha. Se teme a mim o bastante para não começar uma briga no meio de um trabalho, uso isso. O problema começa quando o medo impede o homem de me dizer alguma coisa que eu preciso saber.
Níctimo pensou em Drímon e na pedra.
— Hoje aconteceu.
— O quê?
— Ele sabia onde uma pedra devia ficar. Eu coloquei no lugar errado e ele disse que estava certo porque achou que eu queria ouvir aquilo.
Theron virou-se para ele.
— E o que você fez?
— Mandei dizer onde deveria ficar.
— Funcionou?
— Depois.
Theron continuou cavalgando.
— Então lembre disso da próxima vez que alguém concordar rápido demais.
Níctimo esperou uma conclusão. Theron não ofereceu nenhuma.
A casa surgiu ao longe quando o sol já descia atrás das montanhas. Vista do vale, parecia menor do que pela manhã, assentada sobre a elevação entre campos, muros e caminhos que se espalhavam abaixo dela.
O trabalho daquele dia dera certo. A barragem fora retirada, a margem reconstruída, a comporta abria e fechava. Drímon teria água para a cevada; Eutíades a teria para os animais. Os dois lados haviam recebido o tempo determinado pelo rei.
Níctimo sabia que Licaão perguntaria pelo canal assim que chegasse. Perguntaria se a decisão funcionara, se Drímon obedecera, se Eutíades trabalhara e se Theron precisara intervir.
A essas perguntas ele já tinha resposta.
O que ainda não sabia explicar era a pedra.
Drímon passara a manhã defendendo cada gota de água que julgava necessária para manter a família e a colheita. Conhecia aquela terra, sabia onde o barro cedia e onde uma pedra precisava ser assentada.
Mesmo assim, bastara o filho do rei perguntar aqui? para que ele preferisse uma resposta errada.
Níctimo continuou olhando para a casa enquanto o cavalo subia.
Talvez contasse isso ao pai primeiro.
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