Capítulo 1 — O Rei da Montanha
por Sonhado acordadoO carneiro estava morto havia menos de uma hora quando os dois homens começaram a discutir sobre a água. Licaão percebeu o bastante antes mesmo de alcançar o pátio.
O sangue ainda escurecia as pedras diante do altar de Zeus, misturado à água com que haviam lavado a lâmina do sacrifício. Perto dali, os homens que aguardavam julgamento mantinham uma distância cuidadosa entre si. Um vestia lã grossa apesar do calor que já subia do vale; o outro trazia barro seco até os joelhos e uma faixa de linho enrolada na mão esquerda.
Nenhum dos dois se olhava.
Ao redor deles, a casa seguia sua rotina. Servos recolhiam as tigelas usadas no sacrifício, um menino espantava moscas da carne destinada à cozinha e dois pastores esperavam junto à parede para reclamar de animais desaparecidos. Mais atrás, um homem de Mantineia apertava contra o peito uma pequena bolsa de couro. A posição do sol parecia preocupá-lo mais do que qualquer disputa pela água: ainda tinha metade de um vale pela frente antes do anoitecer.
Além do muro baixo do terraço, a Arcádia descia em encostas verdes e pardas. Oliveiras ocupavam os terrenos menos ingratos; rebanhos apareciam como manchas claras entre pedras e arbustos. Ao longe, uma sucessão de montanhas fechava o horizonte, azulada pelo calor.
Licaão atravessou o pátio. As conversas foram diminuindo à medida que ele passava, até restarem os ruídos do trabalho, o balido ocasional de uma cabra e o arrastar de sandálias sobre pedra.
Níctimo vinha à sua direita com uma tábua encerada e o estilete que Mélas insistira que usasse para registrar nomes, dívidas e decisões importantes. O rapaz provavelmente escrevera pouco naquela manhã. Preferia observar rostos, mãos, o modo como alguém se posicionava diante de outro homem. Licaão nunca o repreendera por isso.
Theron esperava ao lado do assento de madeira sob a cobertura, ainda com poeira nas sandálias e bronze sobre o peito. Devia ter voltado diretamente do caminho do sul.
— São os dois?
— Eutíades e Drímon.
Licaão sentou-se.
— Quem trouxe o animal?
Eutíades adiantou-se.
— Fui eu, meu rei.
Licaão continuou olhando para Theron.
— Onde está?
— Atrás do muro. Os homens deixaram a carcaça à sombra.
Eutíades tinha perto de cinquenta anos, ombros largos e barba curta já salpicada de branco. Drímon era mais jovem, talvez trinta e cinco. O linho enrolado na mão escondia um corte recente.
— Tragam o carneiro.
Eutíades se mexeu.
— Meu rei, não há necessidade. Eu o trouxe apenas para—
Licaão levantou a mão.
— Você subiu a montanha carregando uma prova. Quero vê-la.
Dois soldados desapareceram pelo corredor lateral. Eutíades voltou ao lugar.
A carcaça chegou arrastada sobre uma pele velha. O cheiro a precedeu: sangue, lã suja, entranhas aquecidas pelo dia. Uma abertura escura cortava o pescoço. Havia terra grudada num dos flancos e uma mancha avermelhada perto do focinho.
Níctimo desviou os olhos por um instante. Quando percebeu que o pai o observara, tornou a encarar o animal.
Licaão deixou-o assim.
— Fale, Eutíades.
O pastor avançou.
— Minha família cria animais na encosta de Orneia desde o tempo do meu avô. Foi meu pai quem levou água pelo canal oriental, e nós cuidamos dele desde então. Meus filhos limparam a parte alta nesta primavera. Há quatro dias, Drímon fechou a bifurcação com pedra e barro para mandar quase toda a água aos campos dele. Ontem encontrei vinte e três animais no cercado baixo sem água suficiente. Este aqui morreu pela manhã.
Drímon interrompeu:
— Morreu porque ele deixou o bicho lá mesmo depois de perceber que estava ruim.
— Você terá sua vez — disse Licaão.
Eutíades apontou para o outro homem.
— Ele fez aquilo de noite. Sabe que o canal sempre alimentou primeiro as pastagens. Agora planta cevada onde o pai criava cabras e acha que pode mexer na montanha como mexe num canteiro.
Alguns homens perto da parede riram. Bastou Licaão voltar o rosto para o som morrer.
— Acabou?
— É o que aconteceu, meu rei.
Licaão chamou Drímon.
O agricultor veio para a frente.
— Eutíades fala do canal como se tivesse nascido dentro da casa dele. Não nasceu. A água vem da montanha e passa pelas nossas terras também. Neste verão ela baixou. Eu via a cevada amarelando dia após dia enquanto a maior parte continuava descendo para os animais dele.
— Quanto você perderia?
— Se eu não fizesse nada? Talvez metade. Tenho sete medidas de terra semeada.
— Quem come dessa colheita?
Drímon começou a contar, apontando discretamente enquanto organizava os nomes na cabeça.
— Minha mulher, meus filhos, meus dois irmãos e as casas deles. Há mais duas famílias trabalhando conosco. Vinte e uma bocas, contando as crianças.
— E você decidiu fechar a passagem.
— Decidi salvar o que plantei.
Eutíades não conseguiu ficar calado.
— E minhas cabras bebem poeira enquanto ele salva cevada?
Theron deslocou o peso do corpo. Não precisou tocar a espada.
Drímon respondeu antes que Licaão o impedisse:
— Seus animais podem ser levados à nascente acima da garganta. Você sabe disso.
— Com cordeiros? Por aquele caminho?
Licaão tomou novamente a conversa.
— Quanto leva até essa nascente?
Drímon avaliou a pergunta antes de responder.
— Duas horas para um homem.
— Não perguntei por um homem. Um rebanho com cordeiros.
— Três. Talvez quatro, se estiverem fracos.
Licaão recostou-se no assento. Níctimo já não prestava atenção aos dois homens; estudava a carcaça.
— Theron saiu antes do amanhecer — disse Licaão ao filho. — Por quê?
Níctimo demorou um pouco a perceber que a pergunta era para ele.
— Para ver o canal.
— E o que isso lhe diz?
O rapaz olhou para Theron, depois para Eutíades e Drímon.
— Que o senhor não pretendia decidir ouvindo apenas os dois.
Mélas, que permanecia alguns passos atrás, deixou escapar um ruído divertido.
Níctimo continuou:
— Talvez esperasse que algum deles escondesse alguma coisa.
— Melhor.
— Qual?
— Vamos descobrir.
Licaão indicou Theron.
O comandante descreveu o que encontrara sem enfeite. A nascente ficava acima das terras das duas famílias. Uma bifurcação antiga enviava água para as pastagens de Eutíades; a outra seguia para os campos de Drímon. Havia sinais de reparos antigos nos dois braços e ninguém da região sabia dizer quem abrira o primeiro sulco.
— Meu avô já recebeu o canal daquele jeito — disse Eutíades.
Drímon respondeu:
— O meu também.
Theron prosseguiu antes que começassem outra discussão.
— A nascente baixou bastante desde o início do verão. Pela divisão antiga, os animais recebem água suficiente durante a manhã, mas o volume que chega aos campos depois do meio-dia não basta para toda a área semeada. Mantendo a barragem como está, os campos ficam abastecidos e o braço das pastagens quase seca.
Licaão apontou para a carcaça.
— E o carneiro?
Theron respondeu sem olhar para Eutíades.
— Não morreu de sede.
O pátio ficou quieto.
Licaão chamou um dos soldados.
— Abra a boca.
O homem ajoelhou-se junto à carcaça, segurou a mandíbula e a forçou para baixo.
— Mais.
A boca se abriu. A mancha junto ao focinho ficou evidente.
Theron explicou:
— Sangue na boca, espuma seca. O ventre estava inchado quando chegamos. Conversei com um dos pastores que cuidou do rebanho ontem. Disse que este animal já vinha doente havia dois dias.
Eutíades apressou-se:
— Porque estava fraco. Sem água, qualquer doença piora.
— Pode ser.
— Os animais sofreram, meu rei. Isso ninguém pode negar.
Licaão deixou passar alguns segundos. Uma cabra berrou do outro lado do pátio. Da parte baixa da casa vinha o golpe regular de alguma ferramenta contra madeira, e o cheiro de pão das cozinhas começava a se misturar ao da carne sacrificada.
— Você tinha um carneiro doente — disse ele. — Trouxe a carcaça até aqui e apresentou a morte como consequência da barragem.
— Eu trouxe o animal que perdi.
— Depois de jurar diante de Zeus?
Eutíades olhou para o altar.
Uma voz respondeu junto às colunas:
— Jurou.
Agelau aproximou-se sem pressa. O sacerdote já lavara as mãos depois do rito, embora uma pequena mancha escura permanecesse na borda da túnica clara. Os cabelos começavam a embranquecer nas têmporas.
Licaão não o convocara para o julgamento. Também não esperara que fosse embora enquanto ele durasse.
— O que Eutíades jurou exatamente?
Agelau parou perto da carcaça.
— Que traria diante do rei prova verdadeira do dano sofrido por sua casa.
Eutíades abriu as mãos.
— E foi isso que fiz. O animal é meu e morreu enquanto o rebanho sofria com a falta de água.
Agelau não se apressou em responder.
— Você sabe o que disse diante do altar. Não tente refazer o juramento agora que descobriu que as palavras lhe custam mais do que esperava.
Licaão observou o sacerdote por um instante. Agelau tinha autoridade própria e não fazia questão de escondê-la. Isso podia ser útil.
Também podia se tornar inconveniente.
— Drímon jurou?
— Jurou que não tomara aquilo que pertencia a outro homem.
— A água não pertence a Eutíades — disse Licaão.
Agelau voltou-se para ele.
— Nem a você.
A atenção no pátio mudou de direção.
Licaão ergueu a mão.
— Chega.
Agelau recuou um passo, permanecendo junto às colunas.
Licaão chamou Eutíades novamente.
— Sua família usa o braço oriental desde quando?
— Desde antes do meu avô, pelo que meu pai dizia. Sempre foi assim.
— E a família de Drímon?
— Recebia o que seguia pelo outro braço.
Drímon resmungou:
— “O que seguia”. É assim que eles dizem. Como se nós ficássemos com a sobra.
— Como você chamaria? — perguntou Licaão.
— Nossa parte.
— Então explique por que fechou a passagem da parte deles.
Drímon não fugiu da pergunta.
— Porque aquela divisão foi feita quando havia mais água. Este ano não há. Eu podia assistir à colheita morrer ou fazer alguma coisa.
— Podia ter vindo aqui.
— A cevada não espera julgamento.
— Você teve quatro dias.
— Quatro dias de calor bastam para estragar um campo.
— E não bastam para subir esta montanha?
Drímon permaneceu calado.
Licaão voltou-se para Mélas.
— Restaure a divisão antiga. O que acontece?
O conselheiro passou a mão pela ponta da barba, estudando os dois homens como quem fazia contas desagradáveis.
— Eutíades leva os animais de volta ao costume que conhece e provavelmente para de nos dar trabalho por alguns dias. Drímon perde parte da cevada. Quanto, depende do tempo. Se continuarmos sem chuva, talvez passe da metade.
— Depois da colheita?
— Menos grão para alimentar a casa, menos para trocar por aquilo que não produz e menos para entregar aqui. Antes que Níctimo diga: sim, isso inclui tributo.
O rapaz, que já preparava a palavra, fechou a boca.
Mélas continuou:
— E, se mantiver a barragem, resolve o problema de Drímon e cria outro. Eutíades terá de subir com os animais, perderá peso no rebanho e provavelmente alguns cordeiros. Há ainda uma consequência que nenhum dos dois parece muito preocupado em mencionar: se um homem muda sozinho um canal antigo e o rei aceita a mudança, amanhã haverá pedras novas em cada curso de água da região.
Níctimo ergueu a voz com cautela.
— E se a água fosse dividida igualmente?
Licaão virou-se para ele. O rapaz percebeu que falara sem ser chamado, mas permaneceu onde estava.
— Explique.
— Metade para cada casa enquanto durar a seca.
— Por que metade?
Níctimo demorou.
— Porque os dois precisam da água.
— Isso explica a necessidade. Não explica a divisão.
O rapaz olhou para as pedras do pátio como se o canal pudesse aparecer entre elas.
— Evitaria uma perda grande para qualquer dos lados.
— Isso já é alguma coisa. Continue pensando.
Licaão voltou aos homens.
— Quem trabalhou no canal neste ano?
Eutíades respondeu:
— Meus filhos limparam a parte alta na primavera. Tiraram barro, folhas, raiz.
Drímon bufou.
— E meus irmãos passaram dois dias retirando pedra depois das chuvas. Ele fala como se os filhos dele carregassem a água nas costas.
A partir dali, Licaão deixou de perguntar quem tinha razão. Quis saber quantos homens haviam trabalhado, quantos dias, em quais trechos, com que ferramentas. Perguntou sobre pedras deslocadas, barro retirado e madeira usada nas pequenas comportas. Theron confirmava o que vira naquela manhã; onde não tinha informação, dizia que não tinha.
As respostas foram tornando a disputa menos conveniente para os dois homens.
A família de Eutíades usava havia gerações o braço oriental e podia invocar o costume, mas não mantinha sozinha o curso de água. Os parentes de Drímon também trabalhavam nele. A seca fizera uma divisão antiga pesar de maneira diferente naquele verão. Drímon resolvera isso carregando pedras até a bifurcação. Eutíades respondera trazendo um animal doente até o altar e apostando que a morte convenceria melhor do que os fatos.
Licaão levantou-se.
— Vamos ao canal.
Mélas inclinou a cabeça para o sol.
— Agora?
— Você tem alguma coisa melhor para fazer?
— Tenho várias. Nenhuma sobreviveria à resposta que eu daria se dissesse isso diante de todos.
Licaão já descia os degraus.
O caminho até a bifurcação levou menos de uma hora a cavalo. O sol estava alto quando deixaram a casa e fazia o cheiro do tomilho esmagado subir das margens da estrada junto ao de esterco seco. Mulheres recolhiam feixes num campo abaixo do caminho. Mais adiante, um carro puxado por mulas teve de se apertar contra uma parede de pedra para dar passagem ao grupo.
Licaão seguia à frente com Níctimo. Theron vinha atrás com quatro soldados, Eutíades e Drímon. Mélas também os acompanhava.
Agelau permanecera na casa.
— Ainda estou pensando na metade — disse Níctimo depois de algum tempo.
— Espero que esteja.
— Não era uma boa resposta.
— Era rápida.
— Quanto tempo eu tinha?
Licaão examinou a descida à frente.
— Menos do que gostaria e mais do que terá quando alguém estiver esperando uma ordem sua.
Níctimo ficou quieto.
O cavalo começou a descer por um trecho de pedras soltas. O rapaz endureceu os joelhos.
— Solte as pernas.
Níctimo obedeceu com cuidado.
— Mais?
— Um pouco.
— Se eu soltar muito, caio.
— Então descubra o limite antes que o cavalo descubra por você.
Níctimo riu.
Por alguns instantes, a disputa pelo canal ficou para trás. Licaão lembrou-se de quando as pernas do filho mal alcançavam os flancos de um pônei. Dia passara uma manhã inteira dizendo que era cedo demais. Antes do meio-dia, Níctimo caíra, abrira o cotovelo e passara um bom tempo garantindo que não choraria.
Então vira o sangue.
Licaão guardava para si a lembrança do choro que viera depois.
— Eu mandaria tirar as pedras — disse Níctimo.
— E depois?
— Mudaria a divisão. Daria mais água aos campos enquanto a nascente estiver baixa, mas faria isso por ordem sua. Drímon não poderia simplesmente escolher quanto fica para ele.
Licaão fez que sim.
— Eutíades reclamaria.
— Ele teria de aceitar.
— O costume está do lado dele.
— Ele tentou enganar o senhor.
— Isso será tratado. O canal continua existindo independentemente do carneiro.
Níctimo absorveu a resposta enquanto cavalgavam.
Abaixo deles, o vale se abria em pequenas faixas de cultivo divididas por muros baixos. Cabras moviam-se por uma encosta quase nua.
— Pai.
— Diga.
— Se Eutíades tivesse trazido o carneiro e contado a verdade sobre ele, o que mudaria?
— Eu não teria de puni-lo por tentar me enganar.
— Mas ainda teria de decidir sobre a água.
— Exato.
Níctimo mexeu na tábua presa ao cinto, mas não a retirou.
Licaão apontou com o queixo para as terras abaixo.
— Quando eu decidir hoje, Drímon e Eutíades não serão os únicos a ouvir. Até o fim da semana, todo homem com um canal, uma nascente ou uma cerca saberá o que aconteceu aqui. Lembre disso quando achar que está julgando apenas as duas pessoas que estão diante de você.
Níctimo ficou em silêncio.
A barragem de Drímon era pequena: meia dúzia de pedras grandes, barro e galhos. Bastara aquilo para alterar a vida de duas famílias.
A água descia clara pela encosta, correndo sobre pedras escuras. Na bifurcação, o braço oriental estava reduzido a um fio, enquanto quase todo o volume seguia pelo sulco que levava aos campos.
Licaão desmontou, agachou-se e mergulhou dois dedos na corrente. A água estava fria apesar do calor. Acima deles, a nascente desaparecia entre árvores e rocha.
— Tire uma pedra — ordenou.
Drímon demorou a entender.
— Eu?
— Foi você quem as colocou.
O homem entrou na água até os tornozelos. Escolheu uma pedra menor e puxou. O barro segurou. Na segunda tentativa, ela se soltou, e uma porção da corrente imediatamente encontrou o braço oriental.
Eutíades acompanhou a mudança com atenção demais.
— Outra.
Drímon retirou mais uma.
— Basta.
Licaão caminhou alguns passos ao lado do braço que seguia para as pastagens. Pouco adiante, raízes, folhas e sedimento estreitavam a passagem.
Ele cutucou com a sandália uma massa endurecida.
— Foi isso que seus filhos limparam na primavera?
Eutíades aproximou-se.
— Eles trabalharam na parte alta.
— Você me disse que sua família mantém o canal.
— Mantemos, meu rei. Há muito trecho e poucos braços. Nesta época o rebanho também exige—
Licaão chutou as folhas para dentro da margem.
— Então pare de falar como se Drímon tivesse encontrado uma obra perfeita e a destruído sozinho.
Eutíades não respondeu.
Níctimo percorria com os olhos o canal, a barragem, os campos e a encosta das pastagens.
Licaão chamou Theron.
— Amanhã, ao nascer do sol, venha com seis homens e ferramentas. A barragem sai inteira.
Eutíades começou a relaxar.
— A divisão antiga volta por três dias — continuou Licaão. — Usem esse tempo para limpar os dois braços e preparar madeira.
Drímon ergueu a cabeça.
— No quarto dia, haverá uma comporta nova. Pela manhã, a água seguirá para as pastagens. Depois do meio-dia, será desviada aos campos. Theron decidirá o ponto da troca depois de medir quanto tempo a água leva para chegar a cada lado.
Mélas caminhou até a margem.
— Vai alternar o curso inteiro, então. Melhor do que tentar repartir um fio de água entre duas valas e passar o verão ouvindo cada família jurar que recebeu menos.
— É o que faremos.
Eutíades se aproximou.
— Meu rei, nossa casa sempre recebeu água durante todo o dia. Os animais estão acostumados ao canal aberto.
— E continuarão bebendo.
— Durante menos horas.
Licaão indicou a corrente estreita.
— Há menos água.
— Mas o costume—
— Se tiver uma maneira de fazer a nascente voltar ao nível da primavera, apresente-a. Até lá, vamos trabalhar com a água que existe.
Eutíades se calou.
Licaão chamou Drímon.
— Você cuidará da comporta até o fim da colheita.
O homem apontou para si.
— Tenho campo para trabalhar.
— E irmãos. Você quis alterar o canal sem esperar por ninguém; agora vai aprender quanto trabalho existe em manter a alteração que pediu. Se não puder vir num dia, um de seus irmãos virá.
Drímon passou os olhos pelos campos.
— Entendi.
— Ainda há outra coisa. Você mudou um uso reconhecido sem procurar julgamento. Vai entregar à minha casa um décimo adicional da colheita deste ano.
A preocupação apareceu imediatamente.
— Um décimo é muito grão, meu rei. Com a seca, talvez eu já colha pouco.
— É por isso que a água continuará chegando aos seus campos. Você não perderá a plantação inteira.
Drímon ficou algum tempo olhando para a corrente.
— Pagarei.
Licaão então se voltou para Eutíades.
O pastor já compreendera que a decisão também chegaria até ele.
— Você tinha motivo suficiente para vir à minha casa. Drímon fechou o canal, seus animais perderam água e o costume favorecia sua reclamação. Mesmo assim, trouxe um carneiro doente e tentou fazer daquela morte uma prova.
— Eu queria que o senhor entendesse o que estava acontecendo lá embaixo.
— Theron desceu antes do amanhecer e entendeu sem precisar de uma carcaça.
Eutíades abriu as mãos, sujas de poeira.
— O animal morreu. Não inventei isso.
— Ninguém disse que inventou a morte.
Licaão apontou para o caminho por onde haviam vindo.
— O carneiro ficará com Agelau. Ele decidirá o que pode ser feito com a carcaça. Você levará ao altar um animal saudável para substituir aquele que apresentou sob juramento.
— Farei isso.
— Seus filhos trabalharão neste canal durante trinta dias, junto dos homens de Drímon.
Eutíades ergueu a cabeça.
— Trinta dias? Preciso deles no rebanho.
— Drímon precisa dos irmãos nos campos e ainda assim um deles terá de vir quando ele não puder. Você diz que sua família cuida deste canal há gerações. Durante o próximo mês, quero que cuide de verdade.
— Meu rei, na parte alta há animais suficientes para—
Eutíades parou.
Theron estava atrás de Licaão. Os soldados ocupavam a margem. Mais abaixo, trabalhadores dos campos haviam começado a se aproximar. Pastores observavam do alto. A notícia daquela decisão viajaria por todo o vale antes que o sol desaparecesse.
Licaão elevou a voz apenas o necessário.
— Ouçam todos. Ninguém fecha um curso de água usado por outras casas porque conseguiu chegar primeiro com pedras. Se a seca tornar um costume antigo impossível de manter, vocês vêm a mim ou a quem eu designar. Não resolvem a disputa durante a noite e esperam que eu aceite o resultado pela manhã.
Alguns homens nos campos se aproximaram mais.
— Drímon pagará porque decidiu sozinho. Eutíades pagará porque tentou conduzir meu julgamento com uma prova que sabia ser falsa. O restante da decisão trata da água. Amanhã vocês começam a trabalhar.
Eutíades perguntou:
— E se a nascente baixar mais?
Licaão olhou para o curso estreito.
— Então volte.
— E o senhor pode mudar a divisão outra vez?
Mélas lançou ao pastor um olhar de advertência, mas Licaão respondeu.
— Posso. Se houver menos água daqui a dez dias, não vou fingir que ainda estamos julgando a mesma situação de hoje.
Eutíades aceitou com uma inclinação da cabeça.
— Sim, meu rei.
Quando regressaram, a poeira da estrada já se agarrava às pernas e à barra das túnicas.
Dia soube dos trinta dias antes que Licaão terminasse de lavar as mãos.
Ela estava sentada junto à abertura para o pátio interno, separando folhas numa pequena tigela de ervas. A luz do fim da tarde atravessava as colunas e tocava o bronze dos braceletes em seus pulsos. Níctimo, diante dela, segurava uma taça.
— Trinta dias? — perguntou Dia.
— Trinta — confirmou Níctimo.
— Seu pai sempre encontra números muito específicos quando alguém o irrita.
Licaão entrou.
— Vejo que já chegou à parte em que sou culpado.
Dia continuou separando as folhas.
— Nosso filho é um narrador eficiente.
— Seu filho.
— Nosso quando acerta, meu quando incomoda?
Níctimo riu dentro da taça.
Dia apontou para ele.
— Hoje é seu. Contou que respondeu mal diante de todos.
— Também respondeu melhor depois.
Níctimo protestou:
— Eu estava chegando nessa parte.
— Naturalmente.
Licaão serviu vinho para si e acrescentou água. Agora que estava dentro da casa, sentia o peso do dia nos ombros. Do lado de fora, animais eram recolhidos e panelas batiam nas cozinhas. No corredor inferior, dois servos discutiam sobre a quantidade de lenha levada para os fornos.
Dia entregou a tigela a uma serva.
— E Mélas? Reclamou muito?
— O suficiente para continuar empregado.
— Então aprovou.
— Mélas aprova qualquer decisão que não produza cadáveres antes da refeição.
Dia pegou a própria taça.
— Considerando o trabalho dele, é um padrão razoável.
Licaão bebeu.
— Ele diria a mesma coisa, usando quatro vezes mais palavras.
— E Agelau?
— Ficou com o carneiro.
— Coitado do carneiro.
Níctimo puxou um banco para perto da parede.
— Agelau disse que Eutíades quebrou o juramento?
— Não com essas palavras — respondeu Licaão. — Repetiu o que ele havia jurado: levar ao rei prova verdadeira do dano sofrido.
— Então Eutíades pode dizer que cumpriu. O carneiro era dele. Morreu durante a disputa.
Licaão pousou a taça.
— Pode dizer muitas coisas. Foi justamente o que tentou fazer no pátio.
Níctimo pensou.
— Mas ele não disse que o carneiro morreu de sede.
— Não.
— Então onde está a mentira?
Dia parou para ouvir.
Licaão respondeu:
— No que ele queria que eu concluísse. Sabia que o animal estava doente, trouxe a carcaça e deixou que todos vissem a morte antes de explicar qualquer outra coisa. Se Theron não tivesse descido ao canal, talvez funcionasse.
Níctimo passou o polegar pela borda da taça.
— Isso é pior do que mentir de verdade?
— Dá mais trabalho para provar.
Dia riu.
— Finalmente uma resposta que não parece uma lição.
— Eu estava tentando jantar em paz.
— Então está falhando.
Níctimo levantou-se, mas permaneceu perto do banco.
— Pai, eu ainda teria dividido a água igualmente.
— Eu sei.
— Teria sido uma decisão ruim?
Licaão estudou o filho. Agora já não havia homens esperando julgamento, soldados ou camponeses acompanhando cada palavra.
— Você teria resolvido a falta de água por um dia ou dois. Depois começariam as perguntas. Quem trabalha mais no canal? Quem precisa de água em qual horário? O que acontece quando a nascente baixar outra vez? E, principalmente, o que acontece com o homem que mudou tudo sozinho?
Níctimo ouviu sem interromper.
— A ideia da metade não era absurda — continuou Licaão. — Só faltava decidir o resto.
O rapaz pareceu satisfeito com isso.
Licaão segurou-lhe brevemente o braço quando ele passou.
— Amanhã você volta ao canal com Theron.
— Para ver retirarem a barragem?
— Para trabalhar.
Níctimo piscou.
— Trabalhar?
— Theron levará seis homens. Você terá braços também.
Dia levou a taça à boca para esconder o riso.
— Ao nascer do sol? — perguntou Níctimo.
— Antes.
— Mas o senhor disse a Theron ao nascer.
— Theron não precisa aprender a chegar antes de uma ordem.
— Isso é injusto.
— Pode explicar a injustiça para ele no caminho.
Níctimo olhou para a mãe em busca de ajuda.
Dia apontou para a porta.
— Vá comer enquanto ainda há comida. Se continuar aqui, seu pai encontra outra tarefa.
O rapaz saiu resmungando sobre reis, canais e horários.
Dia esperou até que os passos desaparecessem pelo corredor.
— Ele quer ser como você.
Licaão olhou para a porta.
— Ainda é jovem. Pode mudar de ideia.
— Licaão.
— O quê?
— Você sabe do que estou falando.
Ela pousou a taça e juntou algumas folhas que haviam ficado sobre a mesa.
— Ele observa quando você decide. Também observa o que acontece com as pessoas depois.
— Por isso vai amanhã.
Dia considerou a resposta.
— Então faça Theron deixá-lo trabalhar de verdade. Nada de pôr o filho do rei numa pedra seca enquanto os outros entram na lama.
— Theron não precisará que eu diga.
— Ótimo.
Licaão terminou o vinho.
— Hoje você está concordando demais comigo.
— Aproveite. Não pretendo transformar isso em hábito.
Um servo chamou do pátio. Mélas queria falar com o rei antes da refeição. Um mensageiro chegara do norte.
Licaão deixou a taça sobre a mesa e atravessou o corredor.
O conselheiro esperava junto a uma coluna externa com uma pequena tábua de madeira nas mãos. O sol já tocava as montanhas de lado; nos caminhos abaixo, homens e animais regressavam às casas, e fios de fumaça começavam a subir dos telhados espalhados pelo vale.
— O mensageiro trouxe problema?
Mélas entregou-lhe a tábua.
— Ainda estou decidindo. Quando um homem cavalga metade do dia para entregar notícias ao rei, costumo presumir que não veio contar que tudo está maravilhoso.
Licaão examinou rapidamente os sinais marcados na madeira.
Mélas permaneceu ali.
— Há outra coisa.
— O canal?
— O canal. Passei a descida inteira pensando na sua decisão, o que prova que estou ficando velho, porque quando era jovem teria passado a descida pensando em vinho.
— E?
— Drímon ficará responsável pela comporta. Os filhos de Eutíades trabalharão ao lado dos homens dele durante um mês. Se uma casa não cumprir a própria parte, a outra sofre junto. Você amarrou dois homens que já se detestam ao mesmo pedaço de madeira.
— Foi deliberado.
— Imaginei. Ainda estou tentando decidir se foi prudência ou crueldade.
— Avise quando descobrir.
Mélas apoiou uma mão na coluna.
— Talvez se odeiem ainda mais daqui a trinta dias. É bastante possível. Eutíades tem talento para lembrar ofensas antigas, e Drímon parece o tipo de homem que consegue transformar uma pedra mal colocada numa disputa de três gerações. Mas todas as manhãs um deles terá de aparecer. Um vai precisar que o outro limpe a margem, carregue madeira, retire sedimento. Se quiserem continuar se odiando, terão de organizar o ódio em torno do trabalho.
Licaão voltou os olhos para o vale.
— Desde que cumpram a ordem.
— Eu sabia que diria isso.
— Então por que veio?
Mélas apontou para a tábua que Licaão segurava.
— Porque o mensageiro do norte provavelmente vai nos fazer sentir saudade de dois camponeses brigando por água.
Licaão começou a ler.
Itens de A Fome de Licaão: O Primeiro Lobisomem
Capa Silicone Transparente Anti-Impacto Galaxy S24/ S24 Plus/ S24 Ultra
PORTA FECHADA.COMR$ 14,90Ver na Shopee ↗BRANCO - Kit Fone de Ouvido Bluetooth Tune 510 + Conjunto Teclado e Mouse Sem Fio
Premium.StoreR$ 264,00Ver na Shopee ↗Fone De Ouvido Bluetooth TWS Pro 3 Com Estojo Carregador Compatível Android iOS
KluvonR$ 70,00Ver na Shopee ↗Os preços podem variar conforme cupons, Pix, promoções e variações do produto.
O que você achou deste capítulo?
para reagir.


— Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
— Evite spoilers do capítulo ou da história.
— Comentários ofensivos serão removidos.
Use os comentários para conversar sobre a leitura sem estragar a experiência de quem ainda está acompanhando.