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OverlordCAP. 29 MIN

Era o ano de 2138 DC, e o termo DMMO-RPG não apenas existia, mas também era cada vez mais comum. Sendo o acrônimo para Dive Massively Multiplayer Online Role Playing Game, descrevia um jogo interativo onde uma pessoa era capaz de jogar em um mundo virtual como se fosse a vida real, conectando um console dedicado a neurônios de nano interface, uma rede de nano computadores intracerebrais compostas a partir da quintessência da cibernética e nanotecnologia. Era como se literalmente entrasse no jogo.

Dentre uma infinidade de DMMO-RPGs que foram desenvolvidos, houve um título que se destacou de forma brilhante: YGGDRASIL.

Um jogo que um famoso desenvolvedor japonês lançou 12 anos atrás, no ano de 2126. Não importava com qual DMMO-RPG que fosse comparado, YGGDRASIL oferecia um nível extremamente elevado de liberdade para os jogadores.

O número de profissões que formavam a base do jogo facilmente superava 2000 quando somadas as profissões normais e as profissões de alta classe. Todas as profissões tinham um nível máximo de 15, ou seja, um jogador tinha que ter pelo menos 7 profissões ou mais para alcançar o nível máximo global de 100.

Além disso, o jogador era capaz de simplesmente ter um pouco de várias profissões, desde que fosse satisfeita tal condição geral. Apesar da ineficiência, era possível ter 1 nível em 100 profissões diferentes se assim o jogador quisesse. Em outras palavras, era um sistema onde era impossível ter personagens completamente idênticos, a menos que intencionalmente alguém desejasse assim.

Este nível de liberdade também era aplicado aos visuais. Se os jogadores usassem ferramentas de criação que eram vendidas separadamente, seriam capazes de alterar a aparência de armas e armaduras, dados de interiores, visual do personagem e as configurações detalhadas da moradia de um jogador.

O que aguardava os jogadores que partiram para aventuras em um mundo assim era um mapa colossal. Nove mundos que consistiam em Asgard, Alfheim, Vanaheim, Nidavellir, Midgard, Jotunheim, Niflheim, Helheim e Muspelheim. Um vasto mundo, inúmeras profissões e visuais totalmente personalizáveis.

Isso inflamara o espírito artesão dos jogadores japoneses e causou um fenômeno que viria a ser chamado de “Popularidade Visual”. Com tal popularidade os impulsionando, o jogo atingira um nível de aclamação onde YGGDRASIL, o DMMO-RPG, foi considerado como único mesmo no Japão.

—Mas isso era a história de uma geração passada.

Uma grande mesa circular com um brilho obsidiano estava no centro do Hall da Guilda, cercado por 41 assentos luxuosos. Mas a maioria estava vago. Outrora todos os membros utilizavam para se sentar, mas agora apenas duas silhuetas eram visíveis.

Uma delas usava um manto elaborado, roupa acadêmica negra adornada com bordas douradas e violetas. A decoração em torno de seu pescoço parecia um pouco excessiva, mas, estranhamente, era bastante adequada. No entanto, a pessoa que estava vestindo tal indumentária era nada mais do que um crânio, desprovido de pele e carne. Havia um brilho vermelho escuro no interior das órbitas vazias e um objeto parecido com um halo escuro brilhava por trás de sua cabeça.

O outro indivíduo sentado em outro lugar não era um ser humano. Era um pedaço de gosma preta. Sua superfície, uma reminiscência de alcatrão de carvão, ondulava e nunca mantinha uma forma consistente, nem mesmo por um segundo.

O primeiro era um Overlord, um ser Undead de classe Elder Lich — Magic Casters que se transformaram em Undeads na busca do ultimato da magia. O último era um Elder Black Ooze, uma raça com poderosas habilidades ácidas que estava perto de ser o mais forte entre os tipos de Slimes.

No entanto, eles não eram monstros. Eles eram os personagens dos jogadores.

O Overlord — que estava falando no momento — não movia a boca. Isso porque até mesmo os mais avançados DMMO-RPGs da época ainda não conseguiram superar o obstáculo tecnológico de modelar adequadamente as mudanças no rosto de um personagem em resposta a emoções e fala.

“Uwo, já faz bastante tempo, Herohero-san. Mesmo que seja o último dia em YGGDRASIL, sinceramente não esperava que alguém fosse realmente aparecer.”

“Concordo. Já faz bastante tempo mesmo, Momonga-san.”

Os dois falavam com vozes de homens adultos, mas em comparação com a voz do primeiro, as palavras do último não tinham entusiasmo, ou talvez pudesse dizer que lhe faltava energia.

“Você parou de entrar on-line depois que mudou de trabalho NMR, então quanto tempo faz… uns dois anos?”

“Ah— é por aí mesmo — wah, já faz tanto tempo… que droga. Fiz tanta hora extra recentemente, que meu senso de tempo tá começando a ficar uma bagunça.”

“Isso é muito ruim, não? Como tem passado?”

“Meu corpo? Bem, é uma bagunça. Ainda não precisei consultar um médico, mas estou quase lá, é muito ruim. Muitas vezes, sinto que quero fugir de tudo, mas depois penso em como preciso de dinheiro pra viver, aí volto a trabalhar feito um escravo condenado.”

“Caramba…”

O Overlord — Momonga — abaixou a cabeça em um gesto de “não aguento”.

“Isso é terrível.”

Como se seguisse o comentário de Momonga, Herohero fez um monólogo sombrio, suas palavras atadas a uma realidade inimaginável. Os dois explanaram em alto tom as tolices que encontravam em suas vidas profissionais. Subordinados que não sabiam relatar, comunicar e discutir coisas, planilhas que mudavam a cada dia, repreensões de seus superiores por não conhecerem vários KPIs, trabalharem até tarde, até não conseguirem voltar para casa, ganhando peso por causa de seus estilos de vida irregulares. Fora a quantidade crescente de remédios que eles precisavam tomar todos os dias.

As mágoas de Herohero irromperam como uma represa quebrada, e Momonga deu ouvidos a todas. Muitas pessoas eram contrárias a discutir a realidade em um mundo virtual. Era normal que as pessoas não quisessem falar sobre suas vidas offline enquanto estivessem no jogo.

No entanto, isso não era assim para os dois. A guilda a qual pertenciam — um grupo que foi fundado e gerenciado por jogadores, Ainz Ooal Gown — tinha duas condições que cada um dos seus membros tinha de cumprir. A primeira era que todos tinham que ser um membro da sociedade que trabalhava. O outro era que eles tinham que jogar com personagens heteromorfos.

Por causa dessas regras, os tópicos discutidos geralmente giravam em torno de seus trabalhos no mundo real. Qualquer membro da guilda colocaria essas questões em debate e, como tal, a conversa entre os dois poderia ser considerada padrão para a guilda.

Após cerca de 10 minutos, a torrente de palavras que fluíam de Herohero diminuiu para um gotejamento.

“…Desculpe por te fazer ouvir minha choradeira. Não dá pra reclamar muito NMR.”

O lugar correspondente à cabeça de Herohero parecia balançar, como se ele estivesse se curvando em desculpas. Assim, Momonga respondeu:

“Relaxa, Herohero-san. Eu que insisti pra entrar online apesar de estar ocupado, então ouvir suas reclamações é algo a se esperar. Eu vou ouvir o que tenha a dizer, não importa o que seja.”

Herohero parecia ter recuperado parte de sua energia de antes, e com uma risada um pouco mais ativa, ele respondeu:

“Ah, muito obrigado mesmo, Momonga-san. Fico feliz em poder encontrar um amigo ao entrar aqui.”

“Também fico feliz em ouvir isso.”

“…Mas, já tá na hora de sair.”

O tentáculo de Herohero balançou no ar, como se estivesse operando alguma coisa. De fato, ele estava operando um menu.

“É, tem razão, tá ficando muito tarde…”

“Sinto muito por isso, Momonga-san.”

Momonga suspirou gentilmente, como se não quisesse que Herohero sentisse o arrependimento em seu coração.

“Bem, se é assim, então é uma pena… o tempo voa rápido quando estamos nos divertindo.”

“Eu realmente queria ficar com você até o fim, mas estou quase desmaiando de sono.”

“Ah— bem, você parece bem cansado. Então é bom sair logo e ter um bom descanso.”

“Eu sinto muito mesmo… Momonga-san. Quanto tempo pretende ficar, Chefe de Guilda?”

“No momento eu pretendo ficar até que eu seja desconectado automaticamente quando os servidores forem desligados. Como ainda está longe, talvez alguém possa aparecer nesse meio tempo.”

“Entendi… ainda assim, eu realmente não esperava que esse lugar estivesse tão bem preservado.”

Neste momento, Momonga estava grato por não ter como mostrar suas expressões. Se o fizesse, Herohero provavelmente teria visto o rosto dele se torcer. Mesmo assim, sua voz o trairia e mostraria como ele realmente se sentia, então Momonga ficou quieto, a fim de suprimir os sentimentos surgindo dentro de si.

Ele tinha trabalhado arduamente para manter a guilda, precisamente porque ele havia construído junto com todos os outros, mas ouvir palavras como essas de um dos membros da guilda desencadeou uma mistura de emoções complexas em seu coração. No entanto, esses sentimentos se dispersaram como neblina enquanto o Herohero continuava.

“Momonga-san, você manteve a guilda como um líder, para que pudéssemos voltar a qualquer momento. Muito obrigado.”

“…Foi uma guilda construída por todos, então é meu trabalho como Chefe de Guilda manter as coisas funcionando para que os membros possam voltar sempre que quiserem.”

“Sim. Nós nos divertimos tanto com o jogo porque você foi o nosso líder, Momonga-san… Espero que quando nos encontraremos novamente, que seja em YGGDRASIL II.”

“Eu não ouvi nada sobre um segundo jogo… mas é como diz, eu ficaria feliz se sair um jogo assim novamente.”

“Espero que sim! Estou com dificuldades pra ficar acordado… acho que vou ser o primeiro a sair. Fico feliz em poder encontrá-lo hoje. Boa noite.”

Momonga queria dizer alguma coisa, mas ele hesitou por um momento e depois falou:

“Fiquei muito feliz em encontrá-lo. Boa noite também.”

Um smiley apareceu perto da cabeça de Herohero. Como os personagens em YGGDRASIL não podiam expressar emoções através de suas expressões faciais, eles usavam emoticons. Momonga mexeu em sua interface de controle e produziu um smiley similar.

As últimas palavras de Herohero foram ditas:

“Vamos nos encontrar de novo em algum lugar.”

—E assim, havia desaparecido o último dos três membros da guilda que entraram on-line esta noite.

O silêncio reinou mais uma vez — era como se ninguém jamais tivesse estado aqui antes. Nada foi deixado para trás.

Momonga olhou para o lugar onde Herohero estava sentado e murmurou as palavras que queria dizer:

“Hoje é o último dia do jogo, eu sei que está cansado, mas nós nunca teremos uma chance como essa de novo, por que não ficamos juntos até o final—?”

Claro, não houve resposta, porque Herohero já havia retornado à realidade.

“Haahh—”

O suspiro de Momonga veio do fundo do seu coração. No final, era melhor que não tivesse sido dito.

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