Capítulo 8 — O Preço do Núcleo
por Valmir JoseO ar entrava até certo ponto.
Depois vinha a dor.
John tentou puxar mais uma vez, mas o lado esquerdo do peito respondeu com uma fisgada tão funda que seu corpo desistiu antes dele. Permaneceu curvado sobre o piso, com uma das mãos espalmada no concreto, respirando em porções pequenas enquanto alguma coisa pressionava suas costas.
Uma voz ordenou que não se mexesse. Outra respondeu perto demais, abafada pela proteção facial.
A luz branca atravessou sua visão.
John ergueu o rosto.
Linhas verdes acompanhavam a maca que passava pelo corredor. Multiplicavam-se pelas rodas, subiam pelas mãos de dois agentes e prosseguiam por uma parede com a qual, até onde ele conseguia entender, não deveriam ter relação alguma.
Piscou.
As linhas permaneceram.
Isso não passou.
— Jonathan — chamou uma voz abafada.
John virou a cabeça.
A figura ajoelhada diante dele usava proteção da ANE, mas estava com o rosto descoberto.
Ren.
John tentou falar.
— A mulher…
A costela encerrou a frase por ele. O ar escapou num ruído curto.
Ren baixou os olhos para o peitoral deformado.
— Equipe médica! — gritou.
— Fundidos — insistiu John.
— Encontramos — respondeu Ren.
John procurou a divisória.
Havia agentes espalhados pela plataforma. As luzes portáteis da ANE recortavam bancadas abandonadas e caixas abertas. Um homem estava deitado de bruços perto da antiga sala de controle, com as mãos presas atrás das costas. Mais adiante, dois agentes fotografavam o recipiente térmico rachado.
Darian não estava ali.
John tentou apoiar o pé.
Ren segurou seu ombro direito.
— Fica no chão.
— Estão…
— Vivos — confirmou Ren.
Aquilo bastou para impedir John de levantar por dois segundos.
No terceiro, ele tentou olhar outra vez.
A área médica estava cheia. Uma maca larga havia sido posicionada ao lado da mulher Fundida. Os socorristas não removiam os tubos; levavam o suporte junto.
O rapaz continuava preso à cadeira.
Seu pé bateu uma vez na base.
John soltou o ar devagar.
— Recebeu?
Ren franziu a testa.
— Duas fotografias.
O terceiro arquivo.
John se lembrou da barra incompleta na tela.
— Tinha mais.
— Depois.
— Darian…
— Depois — repetiu Ren, passando os olhos pela placa afundada contra o lado esquerdo do tórax. — Você consegue deitar?
— Consigo.
Tentou.
Não conseguiu.
O movimento fez alguma coisa dentro do peito raspar ou deslocar. John travou no meio, apertou a mandíbula e voltou a ficar curvado.
Ren ergueu a mão para chamar alguém.
— Preciso cortar isso — avisou uma voz feminina atrás de John.
Ele reconheceu a voz antes mesmo de conseguir virar o rosto.
Por um instante, achou que Compreender estivesse inventando outra relação impossível.
Lia Morel colocou uma bolsa médica no chão e se ajoelhou ao lado dele.
As tranças curtas estavam presas para trás de qualquer jeito. Havia poeira no uniforme de socorro e uma mancha escura perto de um dos joelhos. Ela levou um segundo a mais do que deveria olhando para o rosto dele.
— John? — murmurou.
Ele fechou os olhos.
— Oi.
Lia ficou imóvel por um instante. Depois puxou uma tesoura da bolsa.
— Tira a mão daí.
— Lia…
— A mão — repetiu ela.
John afastou os dedos das costelas.
Ela passou a tesoura por baixo da roupa, junto à lateral do peitoral. O tecido estava preso entre uma correia e a pele suada.
— Isso abre? — perguntou.
— A fivela embaixo.
Lia encontrou a peça e puxou.
Nada.
— Está torta — constatou.
— Eu percebi.
Ela ergueu os olhos.
A expressão quase não mudou, mas John conhecia aquele silêncio. Aos onze anos, era o mesmo que surgia antes de Lia decidir se valia a pena discutir com ele ou simplesmente fazer o necessário.
A tesoura resolveu a votação.
Lia cortou a correia.
A placa perdeu tensão.
John conseguiu soltar um pouco mais de ar.
— Melhor? — questionou ela.
— Um pouco.
Lia afastou o metal com cuidado.
A parte interna do peitoral estava deformada para dentro.
Ela parou.
Os dedos tocaram a borda da placa e depois a pele ao redor.
— Quem fez isso?
— É uma pergunta grande.
— Não foi o que perguntei — rebateu Lia.
John olhou para Ren.
Ele ainda estava ali.
— Não olha para ele. Ele não vai salvar você dessa conversa.
Ren se levantou.
— Finalmente alguém entendeu.
John quase respondeu, mas Lia pressionou dois dedos abaixo da costela.
A dor arrancou o ar dele.
— Não faz isso — reclamou.
— Preciso saber onde dói.
— Ali.
— Excelente. Agora descobrimos.
Ela abriu mais a roupa.
As marcas deixadas pelo traje percorriam o tórax. Havia vermelhidão onde as correias haviam comprimido a pele e uma área arroxeada na lateral esquerda. Mais acima, uma queimadura estreita acompanhava parte da conexão de uma placa.
Lia tocou perto dela.
— Isso é de hoje?
John demorou a responder.
Ela mudou a mão de lugar.
— John.
— Parte.
— Parte do quê?
Uma maca passou atrás deles.
O rapaz Fundido estava sendo transportado com a cadeira presa a uma estrutura maior. Um socorrista segurava o tubo que saía de sua lateral para impedir que dobrasse.
John acompanhou o movimento.
— Ele está consciente?
Lia olhou na mesma direção.
— Intermitente.
— Vai sobreviver?
— Se você continuar tentando levantar, talvez eu tenha dois pacientes que não conseguem respirar. Escolhe qual pergunta quer responder primeiro.
O rapaz virou o rosto durante o transporte.
Por um momento, John viu os olhos dele.
Então a maca passou.
Lia colocou a mão no tórax de John.
— Respira devagar.
— Estou respirando.
— Isso é o mínimo necessário para continuar discutindo comigo.
Ela apalpou cuidadosamente o lado lesionado.
John tentou manter o corpo imóvel. Quando os dedos alcançaram a costela quebrada, sua visão escureceu nas bordas.
Lia retirou a mão.
— Provável fratura — avaliou. — Quero imagem assim que sair daqui. Pode ter sangramento interno.
Abriu um compartimento da bolsa.
— Vou usar Estancar.
John olhou para a mão dela.
Já tinha visto Lia usar a Manifestação antes, anos atrás, em ferimentos pequenos.
Nunca nele.
— Se tiver sangramento? — perguntou.
— Desacelera. Não fecha nada.
Ela colocou a palma sobre a lateral do tórax.
A sensação foi estranha. A região pareceu perder parte do pulso interno, como se alguma coisa tivesse sido obrigada a correr mais devagar.
A dor permaneceu.
Lia observava a respiração dele.
— Não tenta inspirar fundo.
— Nem estava nos meus planos.
— Seus planos de hoje parecem excelentes — resmungou ela.
A frase saiu baixa, sem humor.
John ficou quieto.
Lia retirou a mão depois de alguns segundos e pegou uma faixa de estabilização.
— Você já estava machucado.
John acompanhou os agentes passando.
— Garrick.
Os dedos de Lia pararam.
— Você estava lá também?
Ren, que conversava com outro agente alguns metros adiante, virou o rosto.
John percebeu tarde demais.
Lia retomou o ajuste da faixa.
— Depois você me explica por que isso não me surpreendeu.
— Lia…
— Não agora.
Ela apertou a estabilização.
John prendeu o ar.
— Está muito apertado.
— Precisa limitar movimento.
— Também limita respirar.
— Sua costela está fazendo isso sozinha.
A equipe que transportava a mulher Fundida apareceu no corredor.
Quatro pessoas moviam a maca e o suporte como uma única peça. O corpo dela estava quase imóvel entre tubos e componentes. Uma bolsa transparente pendia acima da estrutura. A mesma técnica que lhe dera água no mercado caminhava algemada ao lado, respondendo às perguntas de um agente enquanto indicava conexões que não podiam ser removidas.
John tentou se erguer.
Lia colocou o antebraço contra seu ombro direito.
— Nem pensa.
— Ela…
— Está viva.
— Pediu água.
Lia acompanhou a maca com os olhos.
A mulher passou sem abri-los.
— Então você pode perguntar por ela no hospital quando conseguir respirar sem parecer que alguém está apertando seu pulmão.
John permaneceu sentado.
As linhas verdes voltaram a atravessar a maca.
Ele fechou os olhos.
— Está vendo coisa? — perguntou Lia.
— Luz.
— Que tipo?
John abriu os olhos.
— Das lanternas.
Ela o encarou por alguns segundos.
Não insistiu.
Ren voltou quando dois socorristas preparavam uma maca para John.
— Darian saiu antes de fecharmos o acesso sul — informou.
John olhou para a plataforma.
— Caixa pequena. Duas pessoas para mover.
— Vimos várias.
— Estava perto da linha de carga. Marcação federal raspada. Começava com “GRAV”.
Ren ficou em silêncio.
— Você viu para onde levaram? — questionou.
— Não.
— Tem certeza?
John reconstruiu o último momento. O técnico empurrando a caixa. Darian mandando deixá-la preparada.
— Estava aqui quando eu caí.
Ren assentiu uma vez.
— Vou verificar.
John segurou o braço dele.
A costela protestou, e sua mão perdeu força quase imediatamente.
— As fotos. Tem Hark. Fundidos. Restaurador.
Ren olhou para os dedos presos à manga.
— Eu vi o suficiente para conseguir mandado e equipe. O resto ainda está chegando.
— Darian apagou arquivos.
— Também vimos isso.
— Tem gente de vocês vazando informação.
Ren não respondeu.
Não precisava.
Um socorrista aproximou a maca.
Ren se inclinou antes de sair.
— Quando você conseguir falar sem parar a cada quatro palavras, vamos conversar sobre entrar sozinho num mercado de núcleos ilegais depois de me dizer que não faria exatamente isso.
John soltou a manga dele.
— Eu não disse exatamente isso.
Ren ficou olhando.
John sustentou o olhar por dois segundos.
Desistiu.
— Tá.
— Melhor.
Os socorristas começaram a ajudá-lo.
Ren deu dois passos, mas parou.
— E, Jonathan?
John ergueu o rosto.
— Eu sei que as inscrições são suas.
Lia interrompeu o ajuste da maca.
Ren prosseguiu:
— Ainda não sei o que são. Isso vai mudar.
Foi embora antes que John encontrasse uma resposta.
Lia permaneceu em silêncio enquanto prendia a última faixa.
John evitou olhar para ela.
— Luz das lanternas — murmurou Lia.
— Lia…
— Guarda o ar.
…
A primeira vez que John acordou depois do exame, alguém havia tirado o peitoral de perto dele.
Tentou sentar.
A costela apresentou uma objeção bastante convincente.
John abandonou a ideia.
O quarto era pequeno e separado da área principal por uma divisória. Não parecia uma internação convencional. Havia um monitor preso à parede e uma cadeira ao lado da maca. Sua mão direita estava enfaixada. As queimaduras do antebraço tinham recebido curativos.
Lia estava sentada na cadeira, preenchendo alguma coisa num terminal portátil.
— Onde está o traje? — perguntou John.
Ela continuou olhando para a tela.
— Boa tarde para você também.
John procurou uma janela.
Não havia.
— Quanto tempo?
— O suficiente para você receber analgésico e ainda conseguir acordar preocupado com sucata.
— Lia.
Ela terminou uma linha antes de pousar o aparelho.
— Sua costela está quebrada. Sem perfuração aparente, sem pneumotórax e sem sangramento que exija cirurgia agora. O ombro precisa de repouso. Seu joelho está inflamado e você tem queimaduras que eu ainda quero saber de onde vieram.
John soltou o ar.
— Então posso ir.
Lia inclinou a cabeça.
— Eu devia chamar sua mãe só por isso.
Ele ficou quieto.
Ela percebeu.
— Elena não sabe.
— Não.
Lia levantou-se e conferiu o curativo da mão.
— E eu imagino que também não saiba por que metade da ANE estava embaixo de uma linha desativada procurando um homem com luzes implantadas no corpo.
John olhou para o teto.
— Não.
— Ren sabe?
— Agora sabe parte.
— Eu perguntei sobre sua mãe.
— Ah.
Lia apertou a gaze um pouco mais do que precisava.
John fez uma careta.
— Isso foi de propósito.
— Foi — admitiu ela.
Soltou o curativo.
— Quando você sumia quando era criança, pelo menos tinha a decência de voltar antes de sua mãe perceber.
— Eu tinha doze anos.
— E aparentemente mais bom senso.
John virou o rosto.
Sobre uma mesa havia um saco transparente com suas roupas. O celular estava em cima.
— Posso?
Lia entregou o aparelho.
Havia mensagens de Ren, uma de Elena e quatro de Elias.
John abriu a de Elena primeiro.
Ren disse que você se machucou numa operação. Me liga quando acordar.
Ele fechou a mensagem.
Lia viu.
— Ela já sabe que se machucou.
— Não sabe como.
— Isso vai funcionar muito bem quando você aparecer com o peito preso.
John abriu a conversa de Elias.
As mensagens começavam irritadas e ficavam progressivamente mais curtas.
Você fez o quê com o peitoral?
Depois:
A ANE trouxe as peças.
Outra:
John.
A última tinha apenas:
Vem aqui quando conseguir andar.
John fechou os olhos.
Essa conversa vai doer também.
— O traje está com Elias? — perguntou.
— Ren mandou as peças para a oficina porque Elias consta como fabricante. Estão fotografadas, lacradas e continuam sob custódia. Tem um agente esperando o relatório do lado de fora.
— Por que não usaram um técnico da ANE?
Lia cruzou os braços.
— Imagino que nenhum deles saiba explicar por que uma armadura feita com sucata acendeu dentro de um mercado clandestino.
John sabia que havia mais.
A ANE tinha as imagens das inscrições e as provas enviadas por ele. Também precisava entender como o traje havia conduzido energia suficiente para deformar uma placa sem queimar completamente o usuário.
Mandar as peças para Elias não era devolução.
Era parte da investigação.
Lia pegou a bolsa.
— Você recebeu liberação provisória com restrição de esforço e retorno obrigatório se tiver falta de ar piorando, tontura, sangue ao tossir ou dor diferente da atual.
John colocou os pés no chão.
— Isso é liberação?
— É o hospital reconhecendo que você provavelmente vai sair mesmo se amarrarem a maca.
Ele tentou ficar de pé.
O joelho vacilou.
Lia segurou seu braço direito.
— Devagar.
— Estou bem.
— Eu literalmente tenho imagens provando o contrário.
John conseguiu se equilibrar.
Lia não o soltou imediatamente.
A proximidade trouxe uma lembrança curta de duas bicicletas abandonadas junto a um canal, anos antes, e Lia segurando seu pulso depois de ele abrir a palma numa grade.
A expressão dela agora era quase a mesma.
Só o uniforme tinha mudado.
— Aquilo verde — começou Lia.
John sentiu a mão dela afrouxar em seu braço.
— Ren falou demais.
— Ren falou uma frase. Eu vi queimaduras com formato que não acompanham nenhum circuito do seu traje. Vi uma placa dobrada para dentro e você perguntando por duas pessoas antes de perguntar se tinha furado o pulmão.
John não respondeu.
Ela esperou.
Quando percebeu que não conseguiria mais nada, pegou a jaqueta dele.
— Quando resolver contar, tenta começar antes da parte em que eu preciso cortar sua roupa no chão.
Entregou-a.
John vestiu apenas o lado direito. O esquerdo ficou solto sobre o ombro.
— Você está brava?
Lia ajeitou a alça da bolsa.
— Estou trabalhando.
— Você saiu do turno.
Ela sustentou o olhar dele.
— Então talvez esteja brava.
Foi tudo que ele conseguiu dela.
…
Quando o analgésico começou a perder força, a oficina de Elias já cheirava a isolamento queimado.
John entrou devagar.
Um veículo escuro estava estacionado do outro lado da rua. O agente sentado ao volante não fez qualquer esforço para esconder que o observava atravessar a entrada.
Dentro da oficina, o peitoral estava aberto sobre a bancada. Um lacre numerado da ANE permanecia preso a uma das placas, e pequenas etiquetas identificavam cada peça retirada.
Elias Venn tinha desmontado metade das conexões.
Uma placa lateral descansava na morsa. As correias cortadas estavam empilhadas perto dela, e a peça que recebera o retrocesso de Conter permanecia virada com a parte interna para cima.
Elias não o cumprimentou.
Passou uma ferramenta pela deformação.
— Fecha a porta.
John fechou.
— Como você está?
— Uma costela.
Elias ergueu os olhos.
— Não perguntei quantas você tem.
John encostou-se à bancada.
— Quebrada.
Elias largou a ferramenta.
O cabelo ruivo estava preso de maneira ruim atrás da cabeça. Havia uma mancha de graxa perto de uma das sardas.
— Eu fiz isso.
John olhou para o peitoral.
— Não.
— Cortei a placa.
— Eu desenhei a inscrição.
Elias apoiou as mãos na bancada.
— Então vamos tentar outra vez. Eu cortei uma placa para equipamento de inspeção. Fiz encaixes para equipamento de inspeção. Passei uma semana ouvindo você pedir articulação, reforço e espaço para placas removíveis porque supostamente ia entrar em estrutura ruim.
John não respondeu.
Elias puxou o terminal para perto.
Uma imagem congelada mostrava Garrick no chão.
Ao fundo, John aparecia com o traje.
— Esta é minha presilha — apontou Elias.
Mudou a imagem.
A passarela da estação.
Luz verde.
Depois outra gravação, mais recente, mostrando uma figura de peitoral improvisado atravessando uma área industrial.
— Essa correia eu costurei porque você reclamou que a primeira prendia o ombro. A greva direita tem uma diferença de quatro milímetros porque você mexeu no molde depois que eu cortei.
Elias desligou a tela.
— Quer continuar chamando de inspeção?
John apoiou a mão boa na bancada.
— Não.
— Ótimo.
O silêncio se alongou.
Elias voltou ao peitoral.
— O que aconteceu aqui?
John apontou para a deformação.
— A força voltou por uma inscrição.
— Que força?
— Energia acumulada.
Elias franziu a testa.
— Isso continua não sendo uma unidade de medida.
— Calor, pressão… parte virou carga sobre a estrutura. Eu estava mantendo uma fronteira.
— Mantendo como?
John tirou o marcador do bolso.
Elias acompanhou o movimento.
John encontrou uma placa pequena, já usada em testes anteriores, e desenhou Sustentar.
A dormência no indicador fez o último traço sair torto.
Corrigiu.
Quando ativou, o verde apareceu.
Elias ficou imóvel.
A luz percorreu a inscrição e se integrou à peça.
John deixou um pequeno peso cair sobre a borda já rachada.
A placa segurou.
Desativou logo depois.
— É isso.
Elias olhou para a placa.
Depois para John.
— Você é o sujeito da estação.
John assentiu.
— Terminal Leste também.
Outro assentimento.
— Garrick.
— Sim.
Elias passou a mão pelo rosto.
— E eu construí sua armadura.
— Parte dela.
— Obrigado pela precisão — resmungou.
Ele caminhou até o outro lado da oficina.
John esperou.
Elias abriu uma gaveta, fechou sem pegar nada e voltou.
— A ANE sabe que eu fiz?
— Sabe agora.
— Criminosos?
John pensou em Darian mostrando imagens das peças.
— Um deles sabe que existe alguém ajudando.
— Meu nome?
— Não sei.
Elias soltou uma risada curta, sem humor.
— Excelente.
John tentou endireitar o corpo.
A costela recusou a negociação.
— Se quiser parar…
— Não decide isso por mim de novo — cortou Elias.
John fechou a boca.
Elias puxou o peitoral para o centro.
— Me mostra onde entrou a força.
John indicou a placa frontal esquerda.
— Aqui.
— E saiu?
— Em mim.
— Eu percebi essa parte.
Elias virou a peça.
— A placa espalhou impacto mecanicamente. Pouco. O encaixe daqui travou.
Apontou para uma junção.
— Essa correia segurou mais do que devia. A carga encontrou o ponto rígido e empurrou tudo para dentro.
John observou.
Compreender surgiu aos poucos.
Ele não queria ativá-la.
As linhas vieram mesmo assim, acompanhando a placa e o encaixe. Depois alcançaram a correia e a região onde seu corpo estivera.
O retorno de Conter não havia encontrado um conjunto.
Encontrara um caminho estreito.
— Foi tudo para cá — murmurou John.
— Sim.
Elias pegou duas placas menores.
— Se eu fosse resolver só impacto, começaria com uma malha atrás das placas. Também mudaria esses encaixes para a carga encontrar outro caminho. Mas, se essa sua coisa verde conduz energia, eu não sei o que ela vai considerar uma ligação válida.
John tocou a placa.
As relações se aprofundaram.
— Precisa estar conectado.
— Fisicamente?
— Sim.
Elias assentiu.
— Isso eu consigo fazer.
Abriu uma caixa e retirou uma faixa metálica flexível.
Prendeu a placa central a duas laterais, deixando folga suficiente para movimento. Acrescentou outra ligação para uma peça inferior.
— Se entrar aqui, mecanicamente uma parte passa para as laterais. Outra desce.
John acompanhava com Compreender.
A geometria começava a aparecer.
O traço inicial representava a entrada. A partir dele, caminhos menores se abriam para dividir a carga.
Ela não precisava desaparecer.
Esse tinha sido o erro de Conter.
John dera à energia um limite e alimentara esse limite até o próprio corpo virar parte da saída.
No traje, precisava fazer o contrário.
Dar mais de uma rota.
O conceito surgiu antes do símbolo.
Espalhar a carga entre superfícies ligadas, deixando cada uma receber apenas uma parte, mas aceitando que todas ainda precisariam suportá-la.
John pegou o marcador.
— Espera.
Elias afastou as mãos.
John desenhou sobre a placa central.
O primeiro traço avançou até a junção.
Dali, ramificou-se.
Uma das linhas ficou curta demais.
Compreender mostrou a carga concentrando-se nela.
John apagou o trecho com solvente.
— O que aconteceu? — questionou Elias.
— Ia mandar demais para uma placa.
— Você consegue ver isso?
John hesitou.
— Às vezes.
Elias pareceu querer perguntar mais.
Não perguntou.
John redesenhou.
A geometria ligou a entrada às ramificações e reconheceu as placas laterais como destinos possíveis. Havia também uma rota inferior, presa à estrutura do peitoral.
Quando terminou, a palavra que cabia naquela relação já estava formada.
Distribuir.
John ativou.
O verde percorreu o símbolo e avançou pelas ligações metálicas.
Elias se inclinou.
— Isso não estava nos vídeos.
— É nova.
— Você inventou agora?
— Não sei se “inventar” é a palavra.
Elias estreitou os olhos.
— É uma resposta péssima.
— É a que tenho.
Elias olhou ao redor e pegou um pequeno martelo de borracha.
— Teste.
John fez uma careta.
— Com isso?
— Sua alternativa é esperar outro criminoso bater em você.
Elias posicionou o conjunto sobre a bancada, com a placa central integrada às laterais.
— Sem vestir.
— Ainda não sei ativar essa sem usar meu corpo como ancoragem — explicou John. — Preciso sentir por onde a carga vai passar.
— Então põe a mão aqui. Se começar a sangrar pelo nariz, eu paro.
John encostou a palma na placa inferior.
Elias ergueu o martelo.
— Leve.
— Eu sei usar martelo.
— Estou falando comigo.
O golpe atingiu a placa central.
John sentiu a carga entrar.
Distribuir respondeu.
A vibração correu pelas ligações. A placa da direita tremeu. A esquerda recebeu outra parte, enquanto a conexão inferior transferia o restante para a bancada.
O impacto chegou à mão de John mais fraco, mas espalhado pelo antebraço.
Uma chave deixada perto da borda pulou.
Elias olhou para ela.
— Foi para a bancada.
— Parte.
— E o resto?
John apontou para as placas laterais.
Uma das presilhas estava torta.
Elias tocou-a.
— Se o impacto fosse maior, isso soltava.
— E a outra placa receberia mais.
— Ou as duas falhariam.
John desativou a runa.
A visão verde demorou a desaparecer.
Elias percebeu.
— Chega.
— Mais um.
— Você está branco.
— Sempre fui meio…
Elias olhou para o rosto dele.
Depois para o braço.
Voltou ao rosto.
— Você não é branco.
John encarou Elias.
O martelo apontou para a cadeira.
— Senta.
Era difícil argumentar contra alguém armado com ferramentas e fatos.
John sentou.
A costela pulsava sob a faixa.
— Funciona.
— Funciona para esse impacto — corrigiu Elias.
Ele retirou a presilha deformada.
— Se você jogar energia demais aqui, pode transformar uma placa quebrada em quatro peças quebradas. E, se eu ligar isso ao corpo inteiro sem isolamento, você pode trocar uma costela quebrada por vários lugares machucados.
John olhou para o peitoral.
— Precisa de rotas que terminem fora de mim.
Elias puxou uma folha e começou a desenhar encaixes.
— Agora você está falando uma língua útil. Posso criar pontos de descarga para peças externas. Algumas conexões podem soltar antes de transferirem tudo para o tórax. Talvez uma rota para as grevas, se o piso puder receber.
— Se eu estiver no ar, não.
O lápis de Elias parou.
Ele ergueu lentamente os olhos.
— Você pretende estar no ar?
— Foi exemplo.
Elias não respondeu de imediato.
Havia perguntas que melhoravam bastante quando ninguém acreditava na resposta.
— Certo — murmurou ele, voltando ao desenho.
O celular de John vibrou.
Ren.
Ele abriu a mensagem.
Preciso que veja isto.
Abaixo havia duas imagens.
Na primeira, o corredor de testes aparecia depois da operação. O carrinho onde a caixa marcada parcialmente como GRAV… estivera estava vazio.
A segunda mostrava um túnel de serviço.
John ampliou.
As marcas das rodas atravessavam a poeira e seguiam até uma porta de manutenção aberta. Perto da saída, o trajeto desaparecia sob uma mancha escura no concreto.
Uma terceira imagem começou a carregar.
Mostrava uma seção rachada do piso.
Ren enviou outra mensagem.
Inventário federal confirmou. Núcleo gravitacional experimental. Recuperado de operação estatal há onze meses. Não está no Subnível.
John leu outra vez.
O humor que ainda restava na oficina desapareceu.
Digitou com o polegar.
Darian?
A resposta demorou menos de um minuto.
Imagem parcial do acesso sul. Altura e implantes compatíveis. Saiu antes do bloqueio.
John mostrou o telefone a Elias.
— Isso é ruim? — perguntou ele.
John voltou à fotografia do túnel.
Outra mensagem apareceu.
Rota provável segue para o Distrito Sete.
A terceira imagem terminou de carregar.
John ampliou.
Uma das rodas do carrinho havia atravessado a camada superior do concreto.
Ele ficou olhando para a marca.
Peso.
Não apenas o peso de uma caixa.
Alguma coisa capaz de alterar quanto aquela caixa pesava.
A costela pulsou quando John se inclinou um pouco mais para a tela.
Quanto ele consegue aumentar?
Dessa vez, Elias não repetiu a pergunta.
Não era necessário.
O que você achou deste capítulo?
para reagir.


— Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
— Evite spoilers do capítulo ou da história.
— Comentários ofensivos serão removidos.
Use os comentários para conversar sobre a leitura sem estragar a experiência de quem ainda está acompanhando.