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Senhor das RunasCAP. 1222 MIN

— Colocar o distrito de volta no lugar.

Ren baixou o rádio devagar.

Atrás dele, um edifício de nove andares avançava sobre a avenida com a lentidão inevitável de uma geleira. As janelas do quarto andar passavam acima de um semáforo sem tocá-lo, enquanto dois trilhos elevados atravessavam a fachada e desapareciam entre apartamentos que, vinte minutos antes, ficavam a quase cem metros dali.

— Me explica como — pediu Ren.

John observou os pontos que aprendera a reconhecer. Sete estavam confirmados, talvez mais escondidos sob as estruturas já convergentes.

— A Catedral obedece a uma regra. Está tentando manter tudo no lugar.

Cael acompanhou a direção do olhar dele.

— Arrancando prédios das fundações.

— Porque a referência está errada.

John apontou para o edifício quarenta e dois.

— O núcleo aumentou a força disponível. A Catedral começou a reorganizar massa procurando estabilidade. Toda vez que encontra uma relação que não satisfaz o comando, muda outra coisa.

Ren examinou a avenida deformada.

— E você quer convencê-la de que terminou.

— Quero dar uma configuração que ela aceite.

Elias abriu a lateral do peitoral de John.

— Antes disso, alguém precisa explicar ao seu traje que ele já cumpriu jornada dupla.

John ignorou.

Ren não.

— Quanto ele ainda tem?

Elias examinou as ligações internas.

— A rota inferior direita morreu. Conter acabou junto com a placa. Distribuir está conduzindo acima do que eu recomendaria para qualquer pessoa que eu não deteste. A malha está queimada em três pontos e…

Pressionou uma conexão.

Calor se espalhou pela lateral das costelas de John.

— …isso está frouxo.

Ren manteve os olhos em Elias.

— Quanto?

— Pouco.

John tornou a olhar para a Catedral.

— Basta.

Ren apontou para Elias sem sequer virar o rosto para John.

— Não foi você que eu perguntei.

Uma vibração atravessou o chão. O edifício em movimento parou por meio segundo e retomou o avanço.

Ren levou o rádio à boca.

— Todo mundo fora da avenida central. Equipes três e cinco, mantenham evacuação pelo noroeste. Ninguém corta fundação, trilho ou parede antiga sem autorização direta.

Soltou o botão.

— Agora me dá o plano.

John indicou os pontos.

— Esses sete precisam continuar conectados. Não necessariamente na posição atual. Conectados.

Cael se aproximou.

— E o centro?

John olhou para a massa de estruturas convergindo em torno do núcleo. Não conseguia vê-lo fisicamente dali, mas já sentira a maneira como a Catedral organizava as cargas ao redor dele.

— Precisamos tirar pressão do centro e devolver para os caminhos antigos.

Cael franziu a testa.

— Eu consigo mudar três vetores.

— Então eu encontro os três certos.

Ren apontou para os demais pontos.

— E os que vocês não alcançarem?

John ficou olhando para ele por um instante.

Horas antes, teria tentado resolver aquela parte sozinho: sete pontos de carga para um único corpo sustentar, a mesma ideia ruim que quase o desmontara mais de uma vez naquela noite.

Dessa vez, não.

— Suas equipes mantêm as áreas livres. Não precisam usar Manifestação. Só impedir que alguma coisa rompa as conexões enquanto mudamos a carga.

Ren assentiu imediatamente.

John levou um instante a mais para perceber que não precisaria argumentar.

Ren virou-se para Elias.

— Faz o traje sobreviver.

Elias olhou para o peitoral aberto.

— Finalmente uma ordem razoável.

Levaram menos de quatro minutos.

Foram quatro minutos em que o Distrito Sete tentou se dobrar sobre si mesmo.

Ren transformou os pontos de John em setores. Agentes correram entre cruzamentos deformados, retirando os últimos civis das rotas que poderiam receber carga. Uma equipe abandonou uma passagem recém-aberta quando John identificou uma fundação residual sob ela; outra removeu um veículo de emergência preso sobre um trilho que precisaria conduzir força.

John e Elias trabalharam no chão, sem oficina, bancada ou peças adequadas.

Elias removeu uma cobertura que já não protegia nada, isolou a rota morta e passou uma tira metálica por baixo da braçadeira esquerda.

— Não coloca nada aqui.

John observou a ligação.

— Eu poderia usar—

— Não.

John ergueu os olhos.

— Elias.

— A rota está morta. Você pode argumentar com metal quando ele aprender a argumentar de volta.

John deixou a peça.

Na braçadeira direita, Elias reposicionou Distribuir e reforçou a presilha com um parafuso retirado da greva. Sustentar permaneceu no peitoral, Aderir na manopla esquerda e Impulsionar na greva ainda funcional.

Conter estava perdido e, daquela vez, não haveria improviso para substituí-lo.

John passou a mão pelo tecido verde preso à gola. A faixa que usara para esconder parte do rosto estava rasgada e coberta de poeira, com uma extremidade pendendo pelas costas.

Elias tentou prendê-la.

— Deixa.

— Vai enroscar.

— Corta.

Elias puxou a faca.

Ren gritou do outro lado da avenida:

— Movimento no setor cinco!

O chão inclinou.

Elias guardou a lâmina.

— Depois eu cobro isso.

John se levantou. A costela respondeu com uma pontada funda, suficiente para lembrá-lo de que ainda estava ali.

Ele continuou mesmo assim.

O primeiro ponto ficava sobre a antiga linha de manutenção.

John ajoelhou junto ao trilho e tocou o metal sem abrir Compreender por inteiro. Bastava uma leitura curta.

A Marca Residual continuava integrada à fundação, funcionando apenas como referência.

— Primeiro caminho pronto — informou John.

Ren repetiu a informação pelo rádio.

Cael estava vinte metros adiante, com uma mão apoiada numa coluna inclinada.

— Segundo vetor está puxando sudoeste.

John tocou o trilho novamente e acompanhou a relação em verde.

— Não corrige ainda.

Cael olhou para a coluna acima de si.

— Ela vai romper.

— Se mandar para o norte, joga carga no setor quatro.

Uma sacada inteira estava comprimida contra o edifício vizinho.

Cael apertou a mão contra o concreto.

— Então escolhe rápido.

John acompanhou o caminho da força pelo trilho, pela base e pela parede transversal até encontrar outra fundação antiga marcada por Reforçar.

— Leste. Pela parede.

— Ela aguenta?

John reconheceu a assinatura.

— Já aguentou mais.

Cael mudou a posição da mão.

A coluna estalou.

A força que a puxava para sudoeste desviou e entrou na parede transversal. Poeira explodiu das juntas enquanto o trilho sob John vibrava com a chegada da carga.

Distribuir.

A inscrição na braçadeira acendeu.

John espalhou o impacto pelos dois caminhos antigos.

A primeira etapa funcionou.

No rádio, Ren confirmou:

— Setor dois estabilizando. Equipe quatro, mantenha distância.

John desligou Distribuir.

O verde permaneceu sobre sua visão por dois segundos e desapareceu.

— Próximo.

Cael já estava se movendo.

O terceiro ponto falhou.

Sem aviso.

John havia marcado uma viga antiga ligada à base do edifício quarenta e dois. Ren esvaziara o cruzamento, e Cael estava pronto para desviar a força descendente para dois apoios laterais.

John ativou Sustentar.

Cael redirecionou.

A viga recebeu a carga.

E rompeu vinte centímetros abaixo da inscrição.

O estalo foi seco.

Sustentar perdeu a relação no mesmo instante.

— Desliga! — gritou Elias.

John cortou a runa.

Tarde demais.

O retorno atravessou o peitoral e o lançou de ombro contra o chão. A costela quebrada transformou a inspiração seguinte numa tentativa curta e inútil.

Elias correu até ele.

— John!

John se apoiou no cotovelo.

— A viga?

Elias parou.

— Você caiu e perguntou da viga.

— Elias.

O técnico olhou para a abertura.

— Rompeu.

Cael chegou à borda e examinou o interior.

— Perdi o caminho.

John se levantou usando a parede.

A Catedral respondeu à falha como uma regra procurando outra solução. A carga que deveria atravessar a viga desviou para uma relação diferente, e uma torre inteira começou a girar alguns graus.

O movimento era lento, mas centenas de janelas refletiram o céu ao mesmo tempo.

A voz de Ren entrou pelo rádio.

— John, o setor seis está movendo.

John observou a torre.

— Eu vi.

— Tenho duas equipes na saída oeste.

John havia tentado devolver a estrutura à configuração anterior. A viga antiga deveria estar ali; a carga, passar por ela.

Só que a viga já não existia como relação contínua.

Sustentar não reconstruía matéria rompida, e a Catedral se preocupava com estabilidade, não com a posição de um prédio nove anos antes.

John olhou para a base da torre.

— Tira as equipes da saída oeste.

Ren não perguntou por quê.

— Equipes dois e seis, abandonem oeste. Norte, agora.

Cael virou-se para John.

— Mudou o plano?

— A referência estava certa. Eu usei errado.

John apontou para a torre.

— Não precisamos devolver tudo à posição anterior.

Cael acompanhou o giro.

— Só a carga.

John corrigiu:

— As relações.

Um prédio podia terminar deslocado. Um trilho podia continuar arqueado e uma parede permanecer inclinada. Se cada força encontrasse apoio, se os vetores deixassem de convergir e o núcleo parasse de encontrar relações instáveis para corrigir, o comando teria o que queria.

MANTER TUDO NO LUGAR.

A questão era qual lugar.

Não precisava ser o anterior.

Precisava funcionar.

John voltou os olhos para Cael.

— Deixa a torre girar.

— Quanto?

John acompanhou a geometria da base.

— Até encontrar o apoio norte.

— E depois?

— Para ela.

Cael correu.

John foi atrás.

A segunda tentativa parecia menos uma correção e mais cirurgia durante um terremoto.

Ren desistiu de preservar ruas utilizáveis e passou a preservar caminhos de carga. Setores inteiros foram esvaziados para que estruturas pudessem se acomodar alguns metros sem atingir ninguém.

Cael deixou uma parede cair quarenta centímetros porque aquela distância colocava seu peso sobre uma fundação capaz de recebê-lo. John distribuiu impacto por trilhos que jamais voltariam a ser retos, sustentou uma junção apenas até outra assumir a carga e aderiu uma placa de concreto a uma coluna pelo tempo necessário para impedir que deslizasse durante uma transferência.

Nada voltava ao normal.

Mas começava a parar.

Por alguns minutos, pareceu suficiente.

Então a Catedral inteira se moveu.

John sentiu primeiro pelas botas.

Um tremor grave percorreu o chão, fez janelas vibrarem e curvou ainda mais os trilhos arqueados acima da avenida. No centro do distrito, os edifícios começaram a convergir simultaneamente.

Dessa vez, tudo se fechava ao mesmo tempo.

— Ren!

O coordenador já estava no rádio.

— Evacuação total do centro! Todas as equipes para o perímetro externo. Repito: ninguém permanece nos setores um a cinco!

Uma sirene ainda ativa mudou de tom quando o poste que a sustentava inclinou.

A avenida começou a estreitar. Duas fachadas avançaram uma contra a outra, o edifício quarenta e dois desapareceu parcialmente atrás de uma massa de concreto e o memorial sumiu de vista.

John tocou o trilho.

Compreender.

Abriu apenas o suficiente para enxergar o conjunto.

Mesmo assim, o verde tomou a rua.

A Catedral encontrara uma solução própria: comprimir massa ao redor do centro até reduzir o número de relações instáveis.

Estabilidade do jeito errado.

Se completasse aquela configuração, talvez realmente parasse — com pessoas, ruas e estruturas esmagadas dentro dela.

Ren se aproximou.

— Quanto tempo?

John viu os caminhos fechando.

— Menos de dois minutos.

Ren ergueu o rádio.

— Última retirada. Noventa segundos. Depois ninguém entra.

Cael voltou para perto deles.

— Três vetores estão convergindo no centro.

John acompanhou cada um.

— Preciso dos três.

Cael franziu a testa.

— Eu também.

John apontou para o primeiro caminho.

— Edifício quarenta e dois para norte. Os trilhos para leste. O terceiro…

Seguiu a relação até a linha de manutenção.

O caminho passava por ele.

— Terceiro em mim.

Cael virou o rosto imediatamente.

— Não.

— Pela linha de manutenção.

— Vai atravessar você antes.

John tocou a braçadeira.

— O traje distribui.

Elias chegou a tempo de ouvir.

— O traje não assinou esse acordo.

John abriu a braçadeira. Distribuir estava escurecida nas bordas, mas ainda havia continuidade.

— Quanto tempo aguenta?

Elias examinou a inscrição.

— Se eu soubesse, teria colocado um relógio.

— Estimativa.

— Poucos segundos em carga alta.

John olhou para a Catedral.

— Preciso de vinte.

Elias ergueu o rosto.

— Então precisa de outra placa.

Não havia outra.

John fechou a braçadeira.

— Vou reduzir a carga.

Cael entendeu primeiro.

— Como?

John apontou para os pontos de estabilidade.

— Não vou receber tudo.

Cael sustentou o olhar dele por um instante e apoiou uma mão no trilho, a outra na coluna.

— Finalmente.

John não perguntou.

Não havia tempo.

Ren limpou a área.

Elias prendeu John ao trilho principal com um cabo físico enquanto Aderir ainda permanecia desligada.

— Se sua perna falhar, isso impede você de cair no vão.

John olhou para o cabo.

— E se o trilho sair?

Elias apertou a presilha.

— Aí teremos uma discussão curta.

John apoiou a manopla esquerda no metal.

Cael estava na coluna central, ligado por uma armação metálica aos pontos que precisaria alcançar. Ren permanecia além da zona de carga, com o rádio em uma mão e os olhos alternando entre suas equipes e o movimento dos prédios.

Um drone da ANE passou entre duas fachadas. A luz da câmera piscou e sumiu atrás de uma estrutura. Outro permanecia próximo ao perímetro.

John registrou a presença deles e voltou a atenção para a Catedral.

Mais um metro de compressão.

Ren ergueu a voz.

— Agora!

John ativou Aderir.

A manopla fixou-se ao trilho.

Primeira.

Sustentar veio em seguida. A junção principal parou de deformar e, pela primeira vez em vários segundos, o metal deixou de ranger sob sua mão.

Segunda.

Distribuir.

A carga começou a se abrir pelos caminhos marcados. Calor subiu pela braçadeira, concentrando-se perto da conexão que Elias havia reforçado.

Terceira.

O primeiro tremor surgiu na mão direita.

John fechou os dedos.

Responderam.

Por enquanto.

— Cael!

Direção Absoluta revelou-se pelo efeito: a torre que convergia para o centro desviou alguns graus. O peso atravessou uma parede, encontrou a fundação norte e desceu.

O segundo vetor veio pelos trilhos.

Distribuir recebeu a carga e espalhou parte dela pelos caminhos que John havia marcado. A braçadeira aqueceu mais.

Ren acompanhava os setores pelo rádio.

— Quatro está parando!

Então o terceiro vetor atingiu.

O som desapareceu do lado esquerdo de John sem qualquer transição. Num instante, Ren, Elias, concreto e sirenes ocupavam o mesmo mundo; no seguinte, metade dele havia ficado silenciosa.

John viu a boca de Elias se mover.

Não ouviu a palavra.

A Catedral continuava puxando.

Uma massa de concreto presa entre dois prédios mantinha o centro sob tensão. Enquanto não alcançasse o apoio lateral, a rede encontraria mais uma relação para corrigir.

John olhou para a greva.

Impulsionar.

Quarta.

A força atravessou sua perna.

A massa deslocou-se cinco centímetros.

Depois dez.

O joelho quase dobrou, mas Aderir manteve sua mão presa ao trilho, Sustentar segurou a junção e Distribuir espalhou o retorno enquanto Impulsionar empurrava a massa.

Quatro relações simultâneas.

O verde começou a invadir as bordas da visão.

Cael gritava alguma coisa.

John não entendeu.

A massa parou antes do apoio.

Faltavam menos de trinta centímetros.

John aumentou Impulsionar.

A greva vibrou, mas o concreto permaneceu no mesmo ponto.

O ângulo estava errado.

Precisava enxergar a relação inteira, não apenas a massa ou o trilho.

O conjunto.

Compreender.

John hesitou pelo tempo de medir o custo. Sabia exatamente o que aquela ativação significava.

Quinta.

Elias apareceu diante dele e agarrou a borda do peitoral.

— Não.

A audição voltou parcialmente como um ruído abafado.

Havia sangue sobre a manopla; só então John sentiu o calor escorrendo do nariz.

— Falta a conexão.

Elias olhou para as quatro inscrições acesas.

— Você já perdeu uma rota.

— Preciso ver uma vez.

— E depois?

John olhou para Cael.

O agente mantinha os três vetores, corpo inclinado contra a armação e as mãos firmes nos pontos de contato.

A Catedral avançou mais alguns centímetros.

O cabo de segurança esticou.

— Depois ele carrega a direção.

Cael ouviu.

Os olhos cinza encontraram os de John.

— Faz.

Elias virou-se para ele.

— Vocês dois ficaram insuportáveis muito rápido.

John ativou Compreender.

Quinta.

O mundo abriu.

Dessa vez, cidade e corpo chegaram juntos.

O trilho continuava sendo metal sob a manopla, mas também era uma linha de tensão atravessando sua palma. A coluna existia como concreto e compressão. A costela quebrada entrou no mesmo desenho como uma relação defeituosa, enquanto o sangue descendo sobre sua boca possuía temperatura, movimento e peso.

Tudo fornecia informação.

Informação demais.

A sensação da mão direita desapareceu e começou a subir pelo antebraço. A voz de Ren perdeu significado, reduzida a uma vibração distante, enquanto as cinco inscrições queimavam em diferentes pontos do corpo.

Aderir.

Sustentar.

Distribuir.

Impulsionar.

Compreender.

O Cavaleiro I inteiro parecia tentar desmontá-lo.

Então John encontrou a relação que faltava.

O problema estava no trilho abaixo da massa. A carga lateral continuava convergindo para o centro porque ainda não possuía um caminho de descida.

Debaixo de tudo, o padrão residual de Reforçar atravessava a fundação e preservava informação estrutural: a resposta de um sistema que, nove anos antes, já precisara suportar peso através daqueles mesmos caminhos.

John seguiu a relação pela fundação antiga, pela linha de manutenção e pela parede transversal até encontrar a coluna norte.

Ali.

— Cael!

A própria voz pareceu vir de outro lugar.

Cael manteve as mãos nos pontos de contato.

— Para onde?

John apontou com a mão que ainda sentia.

— O terceiro. Não manda em mim. Norte, depois para baixo.

Cael acompanhou o ângulo.

— Fecha a avenida.

Ren respondeu primeiro:

— Avenida central limpa!

Cael mudou o vetor.

A força que deveria atravessar John desceu pela direção escolhida, conservando intensidade suficiente para fazer a rua afundar.

Uma rachadura de vinte metros abriu o asfalto.

A fundação recebeu a carga.

Distribuir tentou puxar parte dela de volta para a rede ligada ao traje.

John interrompeu o caminho.

Pela primeira vez naquela noite, ele deixou de se oferecer como o lugar onde tudo precisava terminar.

— Mais quatro graus!

Cael ajustou.

A massa de concreto deslizou os últimos centímetros e encontrou o apoio.

O impacto percorreu o distrito.

Sustentar piscou.

A braçadeira de Distribuir deformou.

Elias enfiou uma ferramenta entre a placa e o encaixe.

— Não desliga! A conexão soltou!

Pressionou a presilha com as duas mãos até o metal voltar a encostar.

Distribuir reacendeu.

A perna esquerda desapareceu da percepção de John.

Continuava fisicamente ali — Aderir e o cabo garantiam isso —, mas seu cérebro já não recebia qualquer confirmação útil.

Ren ergueu a voz pelo rádio.

— Setor dois está estável!

Uma equipe respondeu.

Outra entrou logo em seguida.

As palavras já não chegavam completas a John.

No verde, porém, os pontos continuavam claros.

O quarto recebeu a carga e deixou que ela descesse. O quinto resistiu. O sexto estabilizou.

O sétimo tremia.

John ajustou Distribuir.

A placa queimou através da malha. Sua visão começou a escurecer no centro, deixando o verde mais forte nas bordas.

Cael gritou seu nome.

John encontrou o último caminho.

A posição do prédio deixara de importar; bastava permitir que o peso terminasse de assentar.

— Solta o segundo vetor.

Cael hesitou.

— Vai cair.

— Quarenta centímetros.

Cael olhou para a estrutura.

— Tem certeza?

John acompanhava a relação entre peso e apoio.

— Sim.

Cael soltou.

O edifício caiu.

Quarenta centímetros.

As janelas explodiram até o terceiro andar. Concreto bateu contra concreto e o chão saltou sob John.

A dor da costela atravessou todo o lado direito de seu corpo. Um grito tentou sair, mas a respiração não ofereceu ar suficiente.

A fundação recebeu o peso.

O vetor convergente desapareceu.

A Catedral procurou outra correção.

John viu o comando atravessar a rede.

MANTER TUDO NO LUGAR.

A torre inclinada finalmente tinha apoio; os trilhos ofereciam descarga e a parede transversal sustentava a compressão. Com a massa central assentada, já não havia motivo para continuar avançando.

Os pontos antigos permaneciam conectados numa configuração diferente da de nove anos antes, porém funcional no presente.

A Catedral procurou uma relação ainda instável.

Não encontrou.

John começou a desligar as runas.

Impulsionar primeiro.

Quatro.

O calor na perna diminuiu.

Sustentar.

Três.

A junção permaneceu.

Distribuir.

Duas.

A placa morreu com um estalo.

Aderir.

Uma.

A manopla soltou-se do trilho.

Por último, Compreender.

Nenhuma.

O verde desapareceu.

E o Distrito Sete ficou imóvel.

John não percebeu o silêncio imediatamente.

Primeiro veio sua própria respiração, curta e irregular. Depois o som do metal esfriando e de uma pedra rolando pela avenida até bater num fragmento de concreto.

Uma sirene ainda tocava ao longe.

Só então John entendeu o que havia desaparecido.

As estruturas haviam parado de ranger e deslizar. Nenhuma fachada continuava avançando, e os trilhos arqueados permaneciam presos nas posições impossíveis que haviam assumido.

Os prédios continuavam inclinados e encaixados uns contra os outros. Veículos permaneciam presos acima do solo, a avenida central havia afundado e um edifício bloqueava metade do céu.

Nada daquilo parecia normal.

Mas estava parado.

John soltou o trilho.

As pernas falharam.

Cael o segurou por baixo do braço antes que atingisse o chão, embora John ainda terminasse de joelhos.

Tentou apoiar a mão direita no asfalto.

Não sentiu a superfície.

Olhou para os dedos.

Continuavam ali.

Elias se ajoelhou ao lado dele.

— John.

Foi direto para a braçadeira. A placa de Distribuir estava deformada.

— Não toca.

John afastou a mão.

— Eu não estava—

— Estou falando com a placa.

Elias soltou o encaixe usando a ferramenta. O metal caiu no chão irradiando calor.

Cael ainda segurava John pelo braço. Primeiro conferiu as inscrições apagadas; o olhar subiu então para a Catedral.

— Isso foi cinco?

John demorou para contar.

— Foi.

Cael respirou pelo nariz.

— Não faz parecer repetível.

John tentou responder.

A costela decidiu por ele.

Ren surgiu entre a poeira com o rádio junto ao ouvido.

— Repete.

Uma voz respondeu.

Ren olhou para o distrito enquanto escutava.

— Leituras gravitacionais caindo. Movimento estrutural abaixo do limiar. Equipes externas confirmam estabilidade nos setores dois, quatro e seis.

Outra transmissão entrou.

— Último grupo civil cruzou o perímetro.

Ren baixou o rádio.

Não sorriu. Ficou alguns segundos observando a arquitetura impossível que agora ocupava o Distrito Sete.

— Parou.

John preferiu aquela palavra.

Parou.

Não vencida nem morta.

Apenas parada.

Um drone passou novamente, dessa vez baixo o suficiente para que John erguesse o rosto.

A lente estava apontada diretamente para ele.

Elias também percebeu.

— Temos câmeras.

John acompanhou o drone. Havia outro próximo ao perímetro e, além das barreiras, pessoas mantinham telefones erguidos. Uma câmera municipal ainda presa a um poste inclinado girava em movimentos curtos.

Ren percorreu com os olhos as câmeras e os telefones.

— Temos desde antes da convergência.

John baixou os olhos para si mesmo.

Placas escuras. Malha queimada. Pequenos reflexos verdes permaneciam nos sulcos onde o metal ainda não esfriara.

A faixa presa à gola caía pelas costas e o vento ergueu a extremidade rasgada.

Parecia uma capa.

Uma bastante ruim.

Elias acompanhou o movimento.

— Isso vai ficar bonito nas imagens.

John olhou para o sangue espalhado sobre o peitoral.

— Defina bonito.

Um agente se aproximou carregando um visor portátil.

— Ren.

O coordenador recebeu o aparelho.

Na tela, uma transmissão pública mostrava os últimos segundos da estabilização.

John quase não se reconheceu.

A distância escondia o tremor, a mão que já não respondia e a dificuldade para respirar. A imagem mostrava apenas um cavaleiro de placas escuras preso a um trilho enquanto cinco inscrições verdes brilhavam em diferentes pontos de seu corpo.

Atrás dele, edifícios inteiros mudavam de direção.

Cael aparecia parcialmente na lateral da imagem.

A faixa verde chicoteava ao vento.

Uma legenda corria sob a transmissão:

CAVALEIRO DESCONHECIDO USA INSCRIÇÕES DURANTE INCIDENTE NO DISTRITO SETE

Ela atualizou diante dos olhos deles.

“SENHOR DAS RUNAS” DOMINA TRANSMISSÕES APÓS ESTABILIZAÇÃO DO COLOSSO

John encarou as palavras.

Elias inclinou um pouco a cabeça.

— Rápidos.

Ren devolveu o visor ao agente.

— A internet estava evacuada para um lugar seguro.

John quase respondeu.

O terminal criptografado preso ao colete de Ren vibrou.

Ele olhou para a tela.

A expressão mudou pouco, mas o suficiente para chamar a atenção de Cael.

— O que foi? — perguntou ele.

Ren não respondeu.

O terminal vibrou novamente.

Dessa vez, o comunicador de Cael acompanhou.

Outros agentes começaram a verificar seus próprios dispositivos.

Elias olhou primeiro para Ren e, em seguida, para Cael.

Quando voltou para John, o humor havia desaparecido de sua voz.

— John.

John tentou levantar.

Cael não o impediu nem ofereceu ajuda.

Usando o trilho como apoio, John conseguiu ficar de pé. A perna esquerda voltava em pontadas, mas a mão direita continuava quase sem sensibilidade.

Ren permanecia diante do terminal.

— Central atualizou sua identificação.

Alguma coisa fria atravessou o estômago de John.

— Qual identificação?

Ren ergueu a tela.

John leu.

Ali estava seu nome completo, exposto onde poucos segundos antes existia apenas o apelido criado pelas transmissões.

JOHN JONATHAN JUNIOR

Abaixo dele, o registro anterior aparecia marcado como reaberto por autoridade superior.

O campo seguinte já carregava outra classificação.

IRREGULAR — RISCO INDETERMINÁVEL

John ficou sem respirar por um segundo.

O terminal atualizou.

DETENÇÃO AUTORIZADA.

Mais uma linha surgiu.

ORDEM DE CAPTURA ATIVA.

Ao redor deles, os agentes começaram a receber a mesma atualização.

John percebeu a mudança antes que qualquer arma se movesse. Posturas se fecharam; olhares que até então acompanhavam a Catedral voltaram-se para ele, e mãos abandonaram rádios para se aproximar de outros equipamentos.

Ren baixou lentamente o terminal.

Cael permanecia diante de John.

Minutos antes, John havia colocado três forças nas mãos daquele homem sem saber se o próprio corpo sobreviveria.

Agora Cael tinha uma ordem oficial na tela.

Os olhos cinza percorreram o traje queimado, a mão imóvel e a Catedral parada atrás dele. Quando voltaram ao rosto de John, ninguém falou.

Acima, o drone continuava filmando.

John olhou uma última vez para a transmissão pública.

O mundo já tinha escolhido um nome para a figura vestida de verde.

A ANE havia escolhido outro.

Irregular.

Risco indeterminável.

John ergueu os olhos para os agentes que começavam a fechar o espaço ao redor dele.

Salvar o Distrito Sete não o tornara legal.

Só tornara impossível continuar anônimo.

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