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Senhor das RunasCAP. 122 MIN

John Jonathan Junior percebeu o parafuso solto pelo modo como a vibração chegava à ponta dos dedos.

Estava no alto de uma escada de manutenção, com a lanterna presa entre o ombro e a mandíbula, quando o último trem da Linha Três deixou a plataforma. O motor elétrico desapareceu pelo túnel, mas o piso continuou tremendo por alguns segundos.

A estrutura metálica da placa que John segurava respondeu diferente.

Uma batida curta.

Fora do ritmo.

Ele passou a mão pela junção até encontrar a arruela vibrando.

— Merda… — resmungou, procurando a chave certa na bolsa.

O parafuso ainda tinha rosca. John o apertou, testou a placa com dois puxões e desceu. Depois de quase sete horas carregando ferramentas, a alça da bolsa havia deixado uma faixa dolorida sobre o uniforme.

Pegou o celular e marcou a ordem como concluída.

23h16.

Se ninguém resolvesse produzir uma emergência nos quarenta minutos seguintes, ainda pegaria o expresso das 23h46. Perder aquele trem significava esperar mais vinte e oito minutos pelo próximo e caminhar quatro quadras a mais na Zona Amarela 14, porque a linha noturna não parava perto de casa.

Um destino bastante elaborado para quem só queria chegar em casa e tirar as botas.

John empurrou a escada até o armário de serviço.

A estação continuava cheia. Funcionários de restaurantes ocupavam metade dos bancos, quase todos com mochilas no colo. Perto dos elevadores, dois homens de macacão discutiam um jogo transmitido numa tela pequena, enquanto uma mulher de uniforme hospitalar dormia sentada sobre o próprio casaco.

Do lado de fora dos painéis de vidro, chovia sobre Meridian. As luzes da avenida se desfaziam na água, e as vias elevadas formavam sombras largas entre as torres.

Uma tela publicitária ocupava a parede sobre a Plataforma Dois. Atlas surgiu no meio de um viaduto destruído, usando um uniforme branco que, por algum milagre publicitário, continuava impecável.

A imagem logo deu lugar ao anúncio de uma empresa de segurança privada.

John reconheceu o logotipo e voltou ao cadeado. Nenhum plano daquela empresa atendia à Zona Amarela 14 sem uma taxa que sua mãe chamaria de assalto com contrato.

— Moço — chamou uma voz infantil.

John se virou.

Uma menina de talvez sete anos havia parado a poucos passos dele. O pai tentava equilibrar duas malas enquanto procurava alguma coisa no painel de partidas e, por isso, só percebeu a aproximação da filha quando ela apontou para o crachá preso ao uniforme de John.

— Isso quer dizer que você não tem poder? — perguntou ela.

— Sara, deixa o rapaz trabalhar — repreendeu o pai, ainda ocupado com as malas.

John baixou os olhos para o crachá.

Além do nome e do número de funcionário, havia a autorização para áreas técnicas. Mais abaixo aparecia a classificação de Manifestação exigida para quem trabalhava na infraestrutura da estação:

NULO.

— Quer dizer — confirmou John.

Sara aproximou o rosto, como se esperasse encontrar alguma ressalva escondida em letras menores.

— Nenhum mesmo? — insistiu.

O pai chamou por ela outra vez, agora arrastando uma das malas na direção da escada rolante.

John confirmou com a cabeça.

Sara ainda abriu a boca, provavelmente com outra pergunta preparada, mas o homem apontou para o painel e avisou que perderiam o trem. Ela correu atrás dele sem se despedir.

— Desculpa! — pediu o pai por cima do ombro antes de continuar andando.

John terminou de prender o cadeado.

A pergunta já não incomodava como antes. Aos quatorze anos, qualquer dor de cabeça lhe parecera o começo de alguma coisa. Aos quinze, ainda havia outros atrasados na turma. Os exames continuaram por mais dois anos, até chegar aquele em que o médico virou a tela para ele e começou a explicar possibilidades profissionais para Nulos.

Depois disso, até os parentes pararam de perguntar.

A maioria da população também não possuía Manifestação. John sabia disso.

Saber não mudava a maneira como uma criança olhava para o crachá dele.

O rádio preso à cintura chiou.

— Jonathan, está na escuta? — perguntou Miro, da central técnica.

John pegou o aparelho.

— Estou.

— Passarela norte. Apoio três. O sensor voltou a variar — informou Miro.

John olhou para a estrutura que ligava o bloco principal ao terminal elevado. A passarela atravessava quatro plataformas e recebia fluxo dos dois lados.

— Quanto?

Do rádio veio o ruído de teclas.

— Dois vírgula oito acima da faixa. Caiu para dois vírgula quatro, voltou para dois vírgula oito… Agora está oscilando — respondeu Miro.

— Algum trem pesado passou na Linha Um?

— Já conferi.

John esperou.

Miro também ficou em silêncio.

Uma bela disputa para descobrir quem admitiria primeiro que aquilo significava mais trabalho.

— Consegue olhar antes de sair? — completou Miro.

John passou a alça da bolsa pelo ombro.

— Já estou indo.

Não adiantava lembrar ao operador que seu turno acabaria em pouco mais de meia hora. Se o sensor estivesse errado, perderia dez minutos. Se não estivesse, o próximo turno receberia um problema maior.

John subiu pela escada de serviço lateral.

O ruído da estação mudou conforme ganhou altura. Conversas se misturaram aos anúncios e ao som dos trens até formarem um fundo contínuo.

A passarela norte havia sido reformada mais vezes do que John conseguia lembrar. Perfis novos de aço atravessavam o concreto antigo. Alguns conduítes tinham sido presos por cima de suportes que provavelmente estavam ali desde a inauguração da estação. Junto à entrada, uma placa registrava a última inspeção completa: cinco meses antes.

O sensor estava fixado à lateral de uma coluna quadrada, protegido por um painel cinza.

John abriu a tampa e apoiou a lanterna na borda.

Começou pela fiação. Estava seca. Puxou o conector com dois dedos e não encontrou folga. Os contatos também não apresentavam sinais de aquecimento.

Consultou a leitura.

2,6.

O número permaneceu estável por alguns segundos.

Então subiu.

2,9.

— Miro, o sensor parece bom — informou John pelo rádio.

— Parece bom ou está bom? — questionou o operador.

John se abaixou para conferir a fixação inferior.

— Não achei defeito.

— Certo. Vou registrar como “John não achou”. Se cair, o relatório é seu — rebateu Miro.

John ergueu uma sobrancelha.

Generoso.

Um trem entrou na estação abaixo antes que ele respondesse.

John deixou o rádio preso ao ombro e encostou a palma na coluna.

O primeiro tremor veio como esperava. As rodas tocaram as emendas dos trilhos num ritmo conhecido, e a vibração atravessou o concreto antes de perder força.

Mas havia outra pulsação escondida sob ela.

Mais funda.

Sem acompanhar o movimento do trem.

John manteve a mão no concreto.

— Repete a leitura.

Miro demorou alguns segundos.

— Três vírgula dois. O trem acabou de entrar, então deve ser…

— Espera — interrompeu John.

A superfície da coluna estava fria e um pouco úmida. Ele pressionou melhor a palma, procurando a segunda vibração sob o ruído dos trilhos.

Ela cessou antes que conseguisse localizar a origem.

John se abaixou junto à base. Uma fissura antiga havia sido delimitada com tinta amarela durante a última inspeção, e a abertura ainda respeitava a marca. Passou o dedo por ela e depois verificou a junção entre o reforço de aço e o concreto.

Sem deslocamento.

Nada solto.

— Reduz o fluxo pela passarela até o primeiro turno — pediu.

— Para quanto?

John observou as pessoas cruzando acima das plataformas. Devia haver umas quarenta naquele momento.

— Fecha uma das entradas.

Miro soltou o ar perto demais do microfone.

— Vou convencer a operação de que “não achei defeito” justifica fechar metade da passagem.

— A leitura justifica — rebateu John.

— Agora você resolve argumentar.

Um impacto grave atravessou a estação.

John levantou a cabeça.

O som vinha de longe. Seco demais para ser uma explosão.

Alguma estrutura recebera força suficiente para fazer a vibração chegar até ali.

As conversas abaixo diminuíram por alguns segundos.

— Isso chegou aí? — perguntou Miro.

— Chegou.

O segundo impacto veio antes que John tirasse a mão da coluna.

A vibração entrou pela base, subiu até sua palma e fez a tampa do painel bater contra a dobradiça.

Algumas pessoas pararam no meio da passarela.

Um homem se aproximou do guarda-corpo para observar o acesso oeste.

Os alto-falantes reagiram:

— Atenção. Ocorrência de segurança no setor oeste. Evite os acessos C e D e aguarde a orientação dos funcionários.

As portas de contenção começaram a descer nas plataformas inferiores.

— Miro? — chamou John.

Várias vozes se sobrepunham na central. Miro respondeu a alguém antes de voltar ao rádio.

— Invasão no setor oeste. A segurança pediu bloqueio total — informou.

John fechou o painel.

— E a passarela?

— A operação ainda não respondeu.

O terceiro impacto sacudiu o piso sob as botas de John.

A transmissão morreu.

Gritos surgiram nas plataformas inferiores.

John correu até o guarda-corpo.

Pessoas saíam da passagem que levava ao setor oeste, enquanto dois funcionários tentavam desviá-las para as escadas do lado oposto. Uma porta de contenção havia parado pela metade. Um homem passou por baixo dela.

Outros o imitaram.

Naturalmente, bastava uma pessoa fazer algo perigoso para aquilo se transformar numa sugestão coletiva.

Um corredor se abriu no meio da fuga.

Por ele avançava um homem enorme.

John precisou de alguns segundos para reconhecê-lo.

Garrick Dren.

O Abalador.

Aparecera várias vezes nos noticiários nas últimas semanas. Nas gravações, quase sempre estava coberto de poeira, com a cabeça raspada e as mãos envolvidas em faixas.

Ao vivo parecia maior.

Havia fissuras na pele dos punhos. Sangue escorria entre os dedos.

Garrick alcançou uma barreira de concreto que separava o acesso público da área de carga.

Em vez de saltá-la, apoiou a mão esquerda no topo.

Golpeou a lateral com a direita.

A barreira não se rompeu no ponto atingido.

As rachaduras viajaram pelo concreto.

Surgiram metros adiante, exatamente onde a peça se unia a uma coluna.

A junção abriu.

O bloco inteiro tombou de lado com um estrondo.

Garrick recolheu a mão. Dois dedos haviam entortado. Ele os apertou contra o peito por alguns segundos e continuou avançando.

— Miro, fecha a passarela — ordenou John.

— Já mandei…

— Tem gente vindo pelo oeste.

John seguiu para a entrada mais próxima.

Um grupo avançava no sentido contrário, fugindo do setor atacado. A sinalização suspensa mandava seguir para leste, mas parte das pessoas tentava descer pela primeira escada que encontrava.

Uma mulher segurou o braço de John.

— É por aqui? — perguntou, ofegante.

— Continua para leste. Próxima escada — orientou ele.

Ela puxou o adolescente que estava consigo e desapareceu no fluxo.

John encostou o cartão no leitor do painel manual.

A tela demorou a responder.

ACESSO RESTRITO — COMANDO EM PROCESSAMENTO.

Uma vibração atravessou o piso antes que o comando fosse concluído.

A tela apagou.

As luzes da passarela piscaram.

Então o alarme estrutural começou a tocar em pulsos rápidos.

John conhecia aquele som dos treinamentos.

Nunca o ouvira fora deles.

As pessoas também perceberam a diferença.

Um homem começou a correr. Duas mulheres foram atrás, e o restante do fluxo se apertou diante da escada leste.

— Não corre! — gritou um funcionário mais adiante. — Tem espaço. Continua andando!

Ninguém parou para ouvi-lo.

John procurou o apoio três.

A fissura delimitada pela tinta havia crescido alguns milímetros.

Voltou à coluna e encostou a mão.

Dessa vez, não precisou esperar a passagem de um trem.

A vibração vinha de algum ponto distante e se espalhava pela estrutura.

Frequência baixa.

Intervalos irregulares.

Transmissão pelo conjunto oeste.

Garrick atingira alguma coisa conectada à passarela.

— Miro, tira todo mundo daqui — exigiu John.

— Estamos tentando. A ANE foi acionada.

— Quanto tempo?

Miro respondeu a outra pessoa antes de voltar.

— A equipe está a caminho.

— Eu perguntei quanto tempo.

— Eu ouvi — resmungou Miro.

John esperou.

A central continuou cheia de vozes.

Miro não acrescentou nada.

John abriu com uma chave pequena o compartimento de emergência do painel e encontrou a alavanca de liberação mecânica.

— Se eu abrir a saída leste, consegue travar a entrada oeste?

Nada veio do rádio.

John puxou a alavanca até a metade.

— Miro?

— Estou tentando. A entrada oeste sumiu do sistema. Não tenho câmera, não tenho trava, não tenho…

Outra voz o interrompeu ao fundo.

— Faz o que der — pediu John.

A alavanca resistiu.

Ele puxou com mais força.

Ela cedeu num solavanco.

Um funcionário do outro lado percebeu o destravamento e abriu as duas folhas, aliviando o gargalo. Os passageiros começaram a descer com mais rapidez.

Outro impacto veio do setor de carga.

O aço deformou sob o piso, produzindo um ruído baixo e comprido.

John se voltou para o apoio três.

A junção inferior havia se deslocado.

Parte da carga agora passava pelos reforços laterais. O da esquerda ainda trabalhava. O da direita estava cedendo. Uma abertura estreita surgira entre duas chapas que deveriam permanecer encostadas.

— Saiam da passarela! — gritou John.

Algumas pessoas olharam para ele.

Um senhor continuou caminhando devagar, talvez sem compreender.

Perto do guarda-corpo, uma jovem havia parado para filmar o tumulto.

John apontou para a escada.

— Desce. Agora.

A jovem viu a abertura entre as chapas.

O celular desapareceu imediatamente.

Aparentemente, certas informações estruturais eram mais convincentes do que qualquer funcionário uniformizado.

O piso inclinou alguns centímetros.

Uma mala de rodinhas começou a deslizar sozinha e bateu na perna de um passageiro.

A pouca organização que restava desapareceu.

Um homem de mochila empurrou John contra o guarda-corpo. Ele recuperou o equilíbrio e tentou manter espaço diante da escada, mas dois passageiros se chocaram na entrada.

Uma mulher caiu.

Quando tentou levantar, alguém pisou na barra de sua saia e a puxou de volta para o chão.

John agarrou o braço de um homem que tentava passar por cima dos outros.

— Para de empurrar! — ordenou.

— Isso vai cair! — retrucou o homem.

— Então destrava a escada.

O homem se soltou e desceu.

John levantou a mulher. Outro passageiro apanhou a bolsa dela e abriu caminho sem esperar agradecimento.

Restavam pouco mais de vinte pessoas quando um estalo partiu do apoio três.

Dois parafusos se soltaram da chapa lateral.

Um deles ricocheteou no piso.

Uma vez.

Duas.

Então desapareceu pela abertura junto ao guarda-corpo.

John sentiu a boca secar.

— Miro, o apoio três está cedendo.

O rádio devolveu estática.

— Repete — pediu Miro.

— A junção abriu. Preciso bloquear…

A transmissão morreu.

As luzes se apagaram por meio segundo e voltaram mais fracas.

John verificou os dois lados.

Passageiros ainda chegavam pelo oeste.

A saída leste permanecia aberta, mas congestionada.

No centro da passarela, uma menina de mochila vermelha girava em torno de si mesma, chorando e chamando pelo pai.

Do outro lado da escada, um homem tentava subir contra o fluxo.

Um funcionário o segurava pela cintura.

— Minha filha está lá! — berrou o homem.

A menina deu dois passos na direção dele.

A passarela afundou quase vinte centímetros.

Os gritos explodiram de todos os lados.

A criança caiu de joelhos e começou a escorregar pela inclinação.

John correu.

Abaixou-se.

Agarrou a alça da mochila antes que ela alcançasse a lateral.

— Segura em mim! — ordenou.

Ela se prendeu ao uniforme dele.

O ruído sob o piso piorou.

Viga principal.

Deformação na ligação inferior.

Sobrecarga migrando para o lado leste.

John conhecia aqueles sinais por inspeções e treinamentos. Conhecê-los sentado numa sala era uma coisa. Estar sobre a estrutura enquanto aconteciam era outra bem diferente.

Tentou puxar a menina para a saída.

O piso tornou a se mover.

Uma placa do forro despencou à frente dos dois.

John ergueu o braço e protegeu a cabeça da criança. Pó e pedaços de isolamento atingiram seu cabelo.

Então uma dor aguda surgiu atrás de seus olhos.

Ele levou a mão à testa, procurando algum corte.

Não encontrou.

A sensação vinha de dentro.

E a estação mudou.

A coluna diante dele continuava sendo concreto. A passarela ainda estava inclinada. Havia gente correndo, gritando, tropeçando.

Os alarmes permaneciam altos demais.

Mas, sobre tudo aquilo…

Traços verdes percorriam as vigas.

Dobravam-se nas junções.

Atravessavam o concreto.

John piscou.

Continuavam ali.

Que diabos é isso?

O peso das pessoas descia por linhas que se comprimiam a cada passo. A vibração do setor oeste chegava por outro caminho e encontrava a região já danificada.

John conseguia acompanhar o movimento por alguns metros.

A dor atrás de seus olhos aumentou.

A menina falava com ele, mas as palavras se perdiam no alarme.

John tocou o nariz.

Sangue.

— Senhor? — chamou a criança.

— Fica perto de mim — murmurou ele.

Tentou andar.

Quase caiu.

Apoiou a mão no piso.

A percepção se intensificou de uma vez.

A tensão da viga subiu pelo braço como uma cãibra profunda.

Junção inferior aberta.

Reforço direito falhando.

O esquerdo ainda preso por quatro fixações.

Talvez três.

John não conseguia distinguir.

Tirou a mão do piso.

As linhas enfraqueceram.

A viga estalou outra vez.

Havia um padrão se repetindo nas partes que continuavam resistentes. Os traços verdes fechavam-se ao redor dos pontos de tensão e desapareciam quando alcançavam algo já rompido.

A geometria mudava depressa.

Mesmo assim, John percebia onde uma linha deveria encontrar a seguinte.

Não sabia o que era aquilo.

Também não tinha tempo para decidir se estava vendo algo real.

O padrão não oferecia conserto.

Trabalhava apenas com o que restava.

Sustentar.

Era a palavra mais próxima.

John levou a menina até uma coluna.

— Fica aqui — orientou.

— Meu pai…

— Eu vou levar você. Não sai.

Abriu a bolsa de ferramentas com os dedos trêmulos e encontrou um marcador industrial.

Arrastou-se até a placa metálica do apoio três.

Tentou reproduzir o padrão.

Primeiro traço.

Ângulo.

Curva.

Ligação.

A linha saiu torta.

John completou o desenho.

Nada aconteceu.

O piso cedeu mais um pouco.

Ele olhou para a marca.

Depois para a junção aberta.

Estava tentando imaginar a chapa inteira, encaixada como aparecia nos manuais de inspeção.

Mas aquela peça já não existia daquele jeito.

John riscou o desenho.

Começou novamente.

Dessa vez, acompanhou as linhas que atravessavam o reforço ainda preso.

Pressionou a palma esquerda contra a chapa para não perder a percepção.

A dor atrás dos olhos voltou imediatamente, acompanhada por uma pressão que percorreu o braço até o ombro.

John continuou.

Mais um traço.

Outro.

A ligação.

Completou o desenho pensando apenas nas pessoas que ainda estavam na passarela.

A marca acendeu.

John congelou.

A luz verde percorreu o desenho e entrou na chapa.

A dor atravessou seu braço com tanta força que seus dedos se fecharam sobre o marcador. O ombro se contraiu.

Durante alguns segundos, ele deixou de sentir a mão esquerda.

A passarela continuou quebrada.

O piso permaneceu inclinado.

A fissura no concreto não diminuiu.

Mesmo assim…

O movimento parou.

A carga do apoio três encontrou resistência nos reforços ainda conectados. A vibração se espalhou pela estrutura em vez de continuar forçando a junção aberta.

A chapa tremia sob a palma de John.

Seus dentes batiam.

O braço cedeu por um instante.

A luz oscilou.

O piso afundou mais alguns milímetros.

John apoiou parte do próprio peso sobre a mão.

— Tira eles daqui! — gritou.

O funcionário perto da escada viu a menina e subiu dois degraus.

— Manda ela vir! — berrou ele.

John puxou a criança pelo braço.

— Vai até ele. Devagar.

Ela deu um passo.

O piso estalou.

A menina parou.

— Não consigo — chorou.

A dor já alcançava o peito de John. O sangue de seu nariz escorria até a boca.

— Olha para ele — pediu. — Só continua olhando para ele.

O funcionário estendeu a mão.

— Vem. Estou aqui — incentivou.

A menina avançou.

Um passo.

Depois outro.

Dois passageiros passaram por John. Um deles sustentava um senhor que mancava. Perto da saída oeste, uma mulher ajudava outra pessoa a se levantar.

Ninguém parecia compreender por que a passarela havia parado de cair.

John também não.

A menina alcançou a escada.

O pai a agarrou antes que descesse o último degrau.

— Últimos! — gritou o funcionário.

Ainda havia cinco pessoas.

Duas passaram quase juntas.

O homem que arrastava a perna esquerda demorou mais e precisou ser puxado no começo da escada.

Então ele alcançou o outro lado.

A passarela estava vazia.

Celulares permaneciam erguidos nas plataformas inferiores. Uma passageira filmava a estrutura. Outro aparelho estava apontado diretamente para o apoio três.

Para John.

Para a marca.

A luz era visível.

— Pode soltar! — gritou o funcionário.

John tentou tirar a mão da chapa.

Não conseguiu.

A marca resistiu.

Ele puxou o braço outra vez.

Uma dor cortante atravessou seu antebraço. A luz aumentou por um instante e começou a falhar.

John tentou novamente.

Na terceira vez, a ligação se rompeu.

Ele caiu de costas.

A passarela voltou a se mover.

A viga principal desceu com um estrondo.

O apoio três rachou de cima a baixo.

Uma seção do piso afundou em direção à linha inferior, arrastando John pela superfície inclinada até seu quadril bater contra o guarda-corpo.

Sua mão esquerda encontrou uma barra.

O restante do corpo passou pelo vão.

John ficou pendurado acima da plataforma.

Uma perna presa entre dois suportes.

Os dedos escorregando no metal molhado.

Alguém gritou para que não se mexesse.

John apertou a barra.

Ficou onde estava.

A mão ardia. O ombro suportava quase todo o peso, embora parecesse prestes a sair do lugar. No antebraço, uma faixa avermelhada acompanhava parte do desenho feito na chapa.

A marca ainda emitia um brilho fraco.

Pouco a pouco, apagou.

As linhas espalhadas pela estação desapareceram junto com ela.

Outro golpe sacudiu o setor de carga.

John virou a cabeça.

Conseguiu ver Garrick entre duas colunas.

O Abalador retirava alguma coisa de um compartimento aberto. A distância e os destroços impediam John de identificar o objeto.

A mão direita de Garrick pendia num ângulo ruim.

Ele carregou o que havia encontrado com o braço esquerdo, atravessou uma porta de serviço e sumiu.

Dois agentes de emergência chegaram por baixo da passarela.

Um deles prendeu uma linha de segurança ao guarda-corpo e subiu pela estrutura lateral até John.

— Consegue sentir a perna? — perguntou.

John moveu o pé preso.

O agente observou o movimento.

— Isso é um sim?

— É — confirmou John.

— Então para de mexer.

Foram necessários vários minutos para retirá-lo dali.

Quando o colocaram numa maca, as sirenes já enchiam a avenida.

A equipe levou John até uma área de triagem improvisada na plataforma. Ele tentou permanecer em pé, mas um paramédico apontou para a maca sem discutir.

John sentou-se.

Imobilizaram seu ombro. Colocaram gaze sob seu nariz. Uma bolsa fria foi pressionada contra o quadril dolorido.

Um agente da ANE aproximou-se com um tablet.

— John Jonathan Junior? — confirmou.

John assentiu.

— Você trabalha na manutenção desta estação?

Ele mostrou o crachá.

O agente conferiu o nome, registrou o número funcional e parou na classificação de Manifestação.

NULO.

Não comentou.

— Estava na passarela quando o apoio rompeu? — questionou.

— Estava.

O agente escreveu alguma coisa no tablet.

— De onde veio o primeiro impacto?

John indicou o setor oeste.

— Dali.

— “Dali” é o acesso de carga, a plataforma ou a via de serviço? — insistiu o agente.

— Acesso de carga. Não vi o ponto exato.

O homem registrou a correção.

— Quantos impactos antes do alarme estrutural?

John tentou reconstruir a sequência.

— Dois. Talvez três.

A mão do agente parou sobre a tela.

— Dois ou três?

— O terceiro veio junto com o alarme. Não sei qual aconteceu primeiro — esclareceu John.

O agente anotou sem comentar.

Depois ergueu o tablet na direção da passarela quebrada.

— E o apoio três?

— A junção inferior abriu. A carga passou para os reforços laterais.

— Você viu isso acontecer?

— Eu estava com a mão na coluna.

O agente olhou para ele pela primeira vez desde o início do depoimento.

— Isso não responde.

John mexeu os dedos da mão direita, sentindo a graxa seca sob as unhas.

— Eu senti a vibração mudar. Quando olhei, a chapa já estava afastando.

O agente registrou a resposta.

— Certo. Depois continuamos.

Não perguntou por que a passarela havia parado de cair.

Talvez ainda não tivesse visto a gravação.

Um paramédico se aproximou e retirou a bolsa fria do quadril de John para examinar sua mão esquerda.

— Abre — ordenou.

John obedeceu.

A palma estava vermelha, com uma queimadura irregular junto à base dos dedos.

O paramédico segurou seu pulso e virou a mão para a luz.

— Cabo energizado?

— Não.

— Algum metal quente?

— A passarela estava caindo.

O paramédico levantou os olhos.

Pressionou com cuidado a pele próxima da queimadura.

— Não foi isso que perguntei.

John sentiu a ardência subir pelo antebraço.

— Não sei.

— Melhor. Consegue sentir isso?

O homem tocou a ponta de seu indicador.

— Consigo.

— E isso?

John não respondeu imediatamente.

O toque no dedo mínimo parecia distante.

Abafado.

O paramédico repetiu a pressão.

— John?

— Quase nada — murmurou.

A expressão do homem mudou.

Ele apoiou a mão de John sobre uma compressa e chamou outro profissional com um gesto.

Foi então que as pessoas perto da entrada começaram a abrir caminho.

Cael Ordan atravessou a fita de isolamento acompanhado por dois agentes da ANE.

John reconheceu o uniforme antes de lembrar o nome civil.

Vetor.

Aparecia em propagandas da Vanguarda redirecionando destroços e desviando veículos de multidões. Ali, molhado pela chuva, parecia menos alto do que nas telas.

Também chegara depois que a passarela havia caído.

A publicidade certamente escolheria outro enquadramento.

— Continua olhando para mim — ordenou o paramédico.

John voltou a atenção para ele.

— Estou olhando.

— Não estava. Mexe o dedo mínimo.

John tentou.

O dedo respondeu pouco.

O paramédico segurou a mão dele aberta enquanto outra pessoa preparava o curativo. John acompanhou Cael pelo canto dos olhos.

Dois técnicos conduziram Vetor até o apoio três.

A chuva molhara parte do piso, e a poeira cobria a chapa, mas o desenho feito com o marcador permanecia visível.

Havia uma linha escurecida ao redor de alguns traços.

Um técnico apontou para a marca.

Cael examinou a rachadura antes de se abaixar. Conferiu os reforços. Os pontos de fixação.

Em seguida, pediu um aparelho retangular e passou-o sobre o desenho.

Uma luz vermelha acendeu no visor.

O técnico pegou o aparelho, mudou a configuração e tentou novamente.

Vermelho.

Outro agente se aproximou com um tablet.

Na tela, uma gravação mostrava a passarela iluminada de verde ao redor da mão de John.

— Não fecha os dedos — advertiu o paramédico.

Cael deixou de observar a chapa.

Virou-se para a plataforma.

Seus olhos começaram a percorrer as pessoas reunidas na triagem.

John baixou a mão para o colo.

O paramédico segurou seu pulso e tornou a levantá-la.

— Aberta.

John obedeceu.

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