CAPÍTULO 11 — O peso do morto
por Valmir JoseReforçar.
John conhecia aquela assinatura. O problema era que reconhecer alguma coisa dentro da Trama não significava conseguir sair dela.
Sua mão permanecia sobre o trilho, mas os dedos já não pareciam dedos. Eram pontos de contato: pressão entre pele e metal, compressão atravessando a manopla, tensão correndo pelo antebraço e entrando no ombro antes de se espalhar pelo peitoral.
A costela quebrada também havia mudado. A dor perdera significado ali dentro; John percebia apenas uma falha estreita numa estrutura que deveria transferir carga e não conseguia.
Por alguns segundos, o próprio corpo deixou de parecer seu. Era apenas mais uma relação no Distrito Sete.
Ao redor, fundações, trilhos, vigas, cabos e tubulações se conectavam em verde sob camadas de asfalto e concreto. Décadas de construção se sobrepunham como se a cidade tivesse sido desmontada e deixada aberta diante dele.
E, enterrada no meio de tudo aquilo, a marca de Reforçar ainda resistia: fraca, antiga, gravada nas relações estruturais.
A Catedral pressionou uma fundação a quase dois quarteirões dali.
A assinatura respondeu.
A resistência aumentou.
O coração de John perdeu o ritmo por uma batida.
Pai?
Uma pressão atingiu seu ombro, dessa vez vinda de fora da Trama.
— Jonathan.
A voz chegou depois da vibração transmitida pela placa. John piscou e encontrou linhas verdes atravessando um corpo diante dele.
Cael.
Ou talvez estivesse ao lado. A distância já não parecia confiável.
Cael apertou mais o ombro. — Jonathan. Solta o trilho.
John tentou responder, mas a mandíbula obedeceu tarde demais.
— Não.
Outra mão fechou em torno de seu pulso. Elias puxou uma vez, encontrou resistência e parou.
— Sua opinião acabou de perder o direito a voto.
John fechou os dedos com força.
— Não!
Elias congelou.
Cael se abaixou até ficar na altura do rosto dele. Os olhos cinza eram uma das poucas coisas que ainda não haviam se transformado em relações verdes. — O que acontece se soltar?
John tentou separar a voz do ruído que atravessava as fundações.
— Perco… a relação.
— E se continuar?
John abriu a boca, mas nenhuma resposta veio.
Não sabia.
A hesitação pareceu suficiente.
Ren estava alguns metros atrás, com o rádio junto ao rosto. — Elias, tira ele daí.
Sem esperar confirmação, virou-se para a avenida. — Setor quatro, mantenham o corredor noroeste. Equipe seis, recuem para a interseção anterior. Ninguém cruza a avenida central.
A Catedral gemeu.
Milhares de toneladas de concreto mudavam de carga ao mesmo tempo, e o som percorreu o distrito pelas fundações. A vibração entrou pelo braço de John, alcançou o maxilar e, por um instante, ele ouviu o ruído dentro dos próprios dentes.
Cael segurou a lateral da manopla. — Jonathan. Olha para mim.
John piscou novamente. — Estou.
Cael aproximou o rosto alguns centímetros. — Não está.
Elias passou os dedos pela borda da manopla. — Quando ele soltar, você desliga.
— Compreender — corrigiu John.
Cael olhou de relance para Elias. — Então desliga Compreender.
Elias fez uma careta. — Não incentive o nome.
— Eu precisava chamar de alguma coisa.
John tentou mover a mão sozinho.
Os dedos não obedeceram como deveriam. Por um instante, o trilho pareceu responder antes deles, e a sensação atravessou seu braço na ordem errada.
Aquilo o assustou mais do que o sangue.
Mais do que a dor.
— Agora — murmurou.
Cael abriu seus dedos à força enquanto Elias puxava o braço.
A conexão rompeu.
O Distrito Sete desapareceu.
John caiu.
Cael o segurou pelo peitoral antes que seu rosto encontrasse o asfalto e, no instante seguinte, o corpo voltou inteiro.
A costela, o joelho, a queimadura sob a malha, a dormência na mão e o gosto de sangue sobre os lábios chegaram quase juntos. A dor atrás dos olhos veio por último, forte o bastante para clarear o céu.
John tentou inspirar fundo e parou na metade.
Elias se agachou diante dele. — Senta.
John demorou dois segundos para perceber que estava ajoelhado. — Estou no chão.
— Pela primeira vez hoje, resolveu uma instrução sem discutir.
As linhas verdes ainda permaneciam nas bordas dos prédios, semelhantes aos rastros deixados depois de encarar uma luz forte. John fechou os olhos e imediatamente se arrependeu; a impressão ficou pior no escuro.
Abriu-os de novo.
Cael continuava segurando uma das placas do peitoral e não parecia disposto a soltá-lo.
Elias ergueu três dedos. — Quantos?
John olhou para a mão dele. — Não faz isso.
— Quantos?
— Três.
Elias abaixou a mão e abriu a lateral do traje. — A rota esquerda está quente. A inferior direita continua morta. Distribuir quase cozinhou o encaixe.
John passou a língua pelo sangue no lábio. — Quase?
Elias lançou-lhe um olhar curto. — Não use isso como autorização.
Ren se aproximou ainda falando ao rádio.
— Corredor noroeste aberto por mais dois quarteirões. Quero equipes móveis nos cruzamentos.
Desligou a transmissão e olhou para John.
— O que você encontrou?
John passou o punho sob o nariz. O sangue voltou quando ele olhou para o edifício quarenta e dois e depois para o trilho.
— Reforçar.
Ren franziu a testa.
Cael não. Ele indicou o memorial com um movimento curto da cabeça. — A Manifestação do seu pai.
John ergueu os olhos para ele.
Cael fizera a ligação.
— Sim.
Elias parou de mexer no peitoral. A mão permaneceu sobre a presilha. — Aqui?
John assentiu. — Na fundação.
Ren olhou para o chão. — Uma Marca Residual?
— Sim.
O distrito tremeu. Mais adiante, uma fachada se aproximava lentamente da torre vizinha. Três carros estavam presos entre as duas, um deles quase vertical contra a parede.
Ren acompanhou aquilo por menos de um segundo antes de voltar a atenção para John. — Isso muda alguma coisa agora?
A pergunta era brutalmente prática.
John agradeceu por isso.
— Não sei.
Ren apontou para o trilho. — Descobre sem fazer aquilo de novo.
John passou os olhos pela avenida. — Preciso ler.
— Então lê menos.
John não respondeu.
Elias fechou a placa lateral com força desnecessária. — Gostei dele.
Ren ignorou. — Cinco minutos atrás você estava respondendo para um trilho. Encontra outro jeito.
John olhou para a própria mão. Dois dedos ainda formigavam.
Talvez houvesse um.
…
Ele não tocou o trilho novamente.
Escolheu um suporte exposto na borda da avenida, onde uma fundação antiga encontrava uma coluna acrescentada décadas depois. Era uma relação menor, limitada o bastante para que John apoiasse dois dedos no metal sem entregar o distrito inteiro à própria cabeça.
Cael permaneceu a menos de um braço de distância. Elias ficou do outro lado, com o leitor voltado para o traje.
— Se a temperatura subir, acabou.
John assentiu.
Compreender.
Dessa vez, não abriu tudo. Procurou apenas a junção.
Metal e concreto apareceram primeiro, seguidos pela compressão e por uma força lateral tentando deslocar a base. John acompanhou uma única relação para baixo. A visão ganhou uma camada verde, mas a avenida permaneceu visível.
Melhor.
A fundação surgiu. A Catedral pressionava o bloco para leste e, sob aquela força, havia resíduos menores, misturados e quase indistinguíveis.
Mais fundo estava Reforçar.
A assinatura não ocupava um único ponto. Percorria a fundação.
John seguiu apenas o suficiente para confirmar o caminho. Quando a pressão atrás dos olhos aumentou, retirou a mão.
Cael observava a coluna. — E?
John flexionou os dedos. — Espalhou.
— Quanto?
— Não sei.
Ren falava ao rádio alguns metros atrás.
John apontou para outro suporte. — Preciso de mais dois pontos.
Elias soltou o ar pelo nariz. — Você encontrou uma versão menor da mesma péssima ideia.
John começou a andar. — Funciona.
Elias o acompanhou. — Essa palavra já causou prejuízo suficiente hoje.
O segundo ponto ficava na base do edifício quarenta e dois.
John não olhou para o memorial ao passar. Não precisava; sabia onde estava.
Tocou a base.
A assinatura apareceu mais forte ali, seguindo a fundação até pilares diferentes. Não era uma mancha deixada no lugar onde Senior morrera.
Era um caminho.
John retirou a mão e seguiu até o terceiro ponto, numa antiga parede de contenção próxima ao memorial.
A mesma assinatura.
Ligada.
Depois disso, o padrão começou a ficar mais fácil de reconhecer. John já não precisava abrir Compreender até o limite; pequenas leituras em uma fundação, uma junção ou um trecho de trilho bastavam para revelar a mesma característica.
A assinatura surgia sempre em relações que haviam suportado carga juntas.
John ficou olhando para o concreto.
Onze minutos.
Durante anos, aquele número tivera horários ao redor: primeiro chamado, chegada das equipes, primeira falha estrutural, evacuação, última leitura confirmada de Reforçar e, por fim, colapso.
Ele conhecia todos.
Tirou o telefone do bolso com a mão esquerda. A tela levou um instante para entrar em foco.
Cael acompanhou o movimento. — O que está procurando?
— Relatório da Queda.
Cael olhou para o distrito em transformação e depois para o aparelho. — Agora?
John não respondeu.
Encontrou o arquivo salvo.
Elias viu a tela. — Você carrega isso no telefone?
John ampliou a cronologia. — Sim.
Elias abriu a boca.
Desistiu.
John rolou até a linha que procurava.
EVACUAÇÃO DO SETOR LESTE CONCLUÍDA.
Abaixo dela, quarenta e sete segundos depois:
ÚLTIMA LEITURA INSTRUMENTAL ATRIBUÍDA A REFORÇAR.
John ficou imóvel.
Voltou uma linha e leu novamente.
A retirada daquele setor havia terminado. A Manifestação ainda estava sendo registrada.
Aquilo não provava o que Senior pensara.
Não podia.
John não estivera ali, e o relatório não continha intenções. A geometria, porém, preenchia parte do silêncio.
Para Reforçar alcançar os pontos que John acabara de encontrar, Senior teria precisado manter contato com a rede estrutural enquanto a carga migrava entre apoios. Não sustentara apenas um pilar ou uma parede: permanecera conectado a um conjunto inteiro, respondendo a cada mudança de carga com outra relação que precisava resistir.
Onze minutos não eram apenas o tempo até o prédio cair.
Eram onze minutos em contato com aquilo.
John baixou o telefone.
A mão obedeceu tarde.
Elias leu a mesma linha. Depois olhou para a faixa comprimindo o tórax de John, desceu os olhos até as placas queimadas e ficou ali.
John percebeu antes que ele falasse.
— Não.
Elias ergueu os olhos. — Eu não falei nada.
— Não precisava.
Elias pegou o telefone da mão de John e tornou a ler a cronologia. — Quarenta e sete segundos depois da retirada daquele setor — murmurou. Então devolveu o aparelho. — E você acabou de ficar conectado a uma estrutura até eu precisar arrancar sua mão dela.
John voltou os olhos para a fundação. — Não é a mesma coisa.
Elias permaneceu alguns segundos olhando para ele.
— Espero que não.
John fechou a tela.
A comparação ficou entre os dois. Não precisava de mais nada.
O aparelho vibrou antes que ele conseguisse guardá-lo.
Uma chamada.
Mãe.
John ficou olhando para o nome.
Elena.
A mulher que perdera Senior naquele distrito. A pessoa que, durante anos, nunca dissera o nome daquela rua.
O telefone vibrou outra vez em sua mão.
Por um instante, John imaginou atender. Imaginou o silêncio do outro lado e depois a tentativa impossível de explicar.
Encontrei o que ficou dele.
Não havia versão daquela frase que pudesse entregar pelo telefone enquanto a Catedral dobrava o Distrito Sete ao redor deles.
John recusou a chamada e guardou o aparelho.
Cael havia percebido.
Não comentou.
Um impacto atravessou o distrito.
A parede sob a mão de John vibrou e Reforçar respondeu com resistência imediata.
John congelou.
A assinatura havia mudado exatamente quando a Catedral pressionara a fundação.
Seu coração acelerou.
Uma ideia surgiu rápido demais.
Talvez…
John encostou os dedos novamente.
Cael se aproximou. — O que está fazendo?
— Testando.
— O quê?
John manteve os olhos na parede. — Se escolhe.
Cael ficou em silêncio.
Compreender abriu apenas sobre aquela relação. A Catedral puxou e a assinatura resistiu.
John observou a proporção.
Memorizou.
Virou o rosto para Cael. — Pressiona a coluna.
Cael olhou para a base. — Quanto?
— Pouco.
Ele colocou a mão no concreto e empurrou.
Nada sobrenatural. Apenas força física.
A carga mudou.
Reforçar respondeu na mesma relação e na mesma proporção.
John pediu mais.
Cael apoiou o ombro, aumentando a pressão. A resposta cresceu de acordo com a carga, sem qualquer alteração além da necessária para resistir.
Nenhuma escolha.
Nenhuma hesitação.
John mudou a posição da própria mão.
Nada.
— De novo.
Cael repetiu.
O padrão respondeu exatamente como antes.
John retirou os dedos.
O verde desapareceu.
Aquilo não sabia que ele estava ali. Não conhecia seu nome nem reconhecia a mão tocando a mesma estrutura nove anos depois.
Não era alguém.
A constatação doeu mais do que John esperava.
Depois veio outra coisa, menor e quase constrangedora.
Alívio.
Seu pai não estava preso naquele concreto havia nove anos. Não estava esperando. Não estava sozinho em alguma parte da Trama.
John limpou o sangue que chegava ao lábio.
Cael permaneceu diante da coluna. — E então?
John demorou.
— Não é ele.
Cael olhou para a fundação. — Eu não achei que fosse.
John manteve os olhos no concreto.
— Eu achei.
A frase escapou antes que pudesse reduzi-la.
Cael ficou imóvel por um momento. A mão que ainda apoiava na coluna se afastou devagar.
— Entendi.
John não sabia se entendia.
Cael também não tentou provar. Apenas indicou a base.
— E o que ficou aqui?
John passou a mão pela superfície áspera. — O que ficou.
…
O padrão apareceu em sete pontos.
Depois dos três primeiros, John passou a reconhecê-lo nas relações menores sem precisar mergulhar profundamente.
Não havia energia acumulada esperando alguém ativá-la, nem uma Manifestação funcionando havia nove anos. O que permanecera era uma configuração.
Onde a Catedral tentava deslocar certas fundações, a Trama encontrava relações que haviam sido forçadas durante onze minutos a suportar mais do que deveriam e repetia aquela resistência.
A ideia de memória surgiu.
John rejeitou-a.
Memória sugeria intenção, e aquilo não possuía nenhuma. Era mais próximo de metal deformado por carga contínua — só que, na Trama, a deformação preservava uma regra.
John retirou os dedos do sétimo ponto. — Aqui também.
Ren se aproximou. — Quantos?
— Sete confirmados. Deve haver mais.
John apontou para a avenida, seguindo as fundações com o olhar. — Estão conectados.
Ren acompanhou os pontos indicados. — Ao quarenta e dois?
— À rede antiga inteira.
— E isso está fazendo o quê?
John observou uma fundação deslizar alguns milímetros antes de encontrar resistência.
— Dificultando a reorganização.
Cael cruzou os braços. — A Catedral tenta mudar o distrito. Essas marcas mantêm a configuração anterior.
John assentiu parcialmente. — Onde Reforçar alcançou.
Ren olhou para o edifício quarenta e dois. — Há nove anos?
John demorou.
O núcleo levado por Darian era recente.
A rede, não.
Resíduos existiam ali havia anos. Outros poderes, reparos, incidentes, reformas. Reforçar não precisava ser a única coisa mantendo aquilo limitado, mas estava fundo demais para ser irrelevante.
John apontou para uma fundação que acabara de resistir a outro deslocamento. — Faz parte do equilíbrio que segurava isso.
Cael virou o rosto para a Catedral. — Então ela já estava aqui.
— Alguma forma dela — respondeu John. — Limitada.
Elias olhou para os trilhos erguidos. — E o núcleo roubado resolveu dar um empurrão.
John assentiu. — Força suficiente para romper parte do equilíbrio.
Ren acompanhou um edifício deslocar mais alguns centímetros. — Então alguém trouxe a pior peça possível para o pior lugar possível.
Elias guardou o leitor no bolso por um instante. — Em defesa da humanidade, já fizemos planejamentos melhores.
Foi tudo o que o distrito permitiu em matéria de humor.
O rádio de Ren chiou.
— Comando, equipe oito. Precisamos cortar a parede antiga no cruzamento leste. Via bloqueada. Temos carga de demolição leve.
John virou imediatamente.
Cruzamento leste.
Parede antiga.
Um dos sete pontos.
— Não.
Ren já levantava o rádio. — Aguarda.
John se aproximou. — Não podem cortar.
Ren cobriu o microfone com a mão. — Precisamos da rota.
— Se romperem a base, perdem uma das conexões.
Ren encarou John. — Tem certeza?
John olhou para a Catedral. Uma torre avançava lentamente sobre outra; trilhos arqueados desapareciam entre fachadas que já escondiam parte do céu.
— Não.
Ren esperou.
John indicou o cruzamento. — Mas aquela fundação está segurando mais do que a parede.
Ren tirou a mão do microfone. — Equipe oito, cancela demolição. Procurem passagem pelo térreo da estrutura ao norte.
A resposta veio carregada de estática.
— Comando, isso adiciona seis minutos.
Ren olhou uma vez para John e voltou ao rádio. — Então façam em cinco.
Desligou.
John percebeu a decisão.
Não agradeceu.
Ren não pediu.
O chão sacudiu.
Um dos pontos desapareceu da percepção de John.
Ele virou tão rápido que a costela quase o derrubou.
Elias segurou seu braço. — O que foi?
John já se movia. — Uma conexão rompeu.
…
Era a terceira fundação.
A Catedral a puxava para cima. Uma antiga viga de transição saíra parcialmente do concreto, levando consigo dois trilhos enterrados. A estrutura ligava o edifício quarenta e dois a uma base de manutenção sob a avenida.
Reforçar permanecia ali, mas a conexão física estava abrindo.
John tocou a extremidade da viga — uma leitura curta, apenas o suficiente para medir a perda.
A Catedral puxava para cima e oeste. O padrão residual resistia; a junta mecânica, não.
Se rompesse, a Marca poderia continuar existindo.
Sem caminho físico, não serviria para nada.
John retirou a mão. — Preciso manter essa ligação.
Cael se aproximou da viga. — Posso mandar a força para baixo.
John examinou a base inferior. — Não. Já está comprimida.
Procurou outra rota.
Uma coluna antiga à direita se ligava a dois trilhos e, por eles, a uma parede transversal. Reforçar mostrava quais relações haviam suportado carga juntas nove anos antes.
John não podia usar a Manifestação do pai.
Também não precisava.
Podia seguir o padrão estrutural deixado por ela.
Apontou. — Nordeste. Pela coluna.
Cael acompanhou a direção. — Vai receber carga lateral.
— Distribuo pelos trilhos.
Elias segurou sua braçadeira. — Sua placa está rachada.
John olhou para o encaixe. — Ainda conduz.
— Técnicos evitam essa frase por motivos históricos.
John indicou outra placa presa ao peitoral. — Sustentar está intacta?
Elias conferiu o encaixe e a rota. — Está.
— Só duas.
Elias olhou para ele e depois para as placas. — Vai manter em duas?
John assentiu.
Elias soltou a braçadeira. — Vou lembrar dessa promessa.
Ren chegou ao lado deles.
John indicou os trilhos. — Preciso deles livres. Ninguém entre entre a viga e a parede.
Ren girou imediatamente. — Perímetro de dez metros! Todo mundo fora da faixa central. Cael fica.
Os agentes recuaram.
Elias liberou a conexão de Distribuir e encaixou a placa. A rota esquentou quase imediatamente. Sustentar foi presa à viga.
John tocou o metal.
Não precisou decompor o processo em palavras. Conhecia a forma, entendia a relação e sabia exatamente o que queria preservar. A conexão estava ali, física, contínua.
Ativou Sustentar.
A luz verde percorreu a viga e interrompeu a abertura. O metal não retornou à posição anterior nem se reparou; simplesmente deixou de piorar.
A reação atravessou o peitoral.
John perdeu metade da inspiração.
Olhou para Cael. — Agora.
Cael tocou a viga com uma mão e a coluna com a outra. A força mudou de direção e entrou no novo apoio.
— Distribuir! — alertou Cael.
John ativou.
O verde correu pela placa.
A carga atravessou a coluna e encontrou os dois trilhos. John não escolheu os caminhos ao acaso: seguiu as relações marcadas por Reforçar, devolvendo tensão aos mesmos apoios que haviam suportado carga juntos nove anos antes.
O efeito apareceu imediatamente.
Em vez de um único ponto receber tudo, a força se espalhou. O trilho esquerdo gemeu, o direito afundou dois centímetros e uma rachadura atravessou a parede transversal sem fazê-la ceder.
Elias aproximou o leitor. — Temperatura subindo!
John manteve as duas runas.
Sustentar e Distribuir.
Só duas.
Mesmo assim, seus dedos começaram a tremer.
A Catedral puxou outra vez.
Cael ajustou o vetor, e John acompanhou o caminho da carga sem aprofundar Compreender. Já não precisava mergulhar na rede para encontrar a resposta; o padrão residual indicava onde aquela estrutura havia suportado antes.
A ideia atingiu John de maneira errada.
Seu pai não estava guiando nada.
Mesmo assim, o que ele fizera ainda servia de caminho.
A concentração falhou por uma fração de segundo.
— John! — Elias chamou.
A placa queimava sob o tecido.
John voltou a atenção para a viga. — Mais um pouco.
Ren mantinha os olhos na estrutura. — Cael?
Cael pressionou os pés contra o asfalto. — Quase.
A tensão diminuiu.
John desligou Distribuir.
Depois Sustentar.
A viga permaneceu.
Reforçar também: fraco, mecânico, sem consciência, mas conectado novamente à rede.
John recuou um passo.
O joelho cedeu.
Cael segurou seu braço.
— Chega.
John olhou para ele e, pela primeira vez, não discutiu.
Elias ficou alguns segundos encarando-o como se aquela ausência de resistência fosse um sintoma novo.
…
Do cruzamento, a Catedral ocupava quase todo o horizonte.
Prédios formavam paredes onde antes havia ruas, e trilhos erguidos desenhavam arcos entre massas de concreto. Janelas acesas surgiam em ângulos errados. Um caminhão permanecia preso verticalmente contra uma fachada, sustentado por uma direção de peso que não existia meia hora antes.
A cidade tentava completar uma arquitetura que jamais fora projetada.
John observou os pontos.
Agora conseguia reconhecê-los sem mergulhar.
A fundação junto ao quarenta e dois, a parede no cruzamento leste, os trilhos da antiga manutenção e a base sob o memorial. Outros pontos prováveis começavam a se encaixar entre eles.
Um mapa.
Durante onze minutos, Reforçar atravessara aquela rede porque a carga exigira. Senior permanecera em contato enquanto as estruturas mudavam e novas relações precisavam resistir.
Depois ele morreu.
A Manifestação terminou.
A consequência, não.
Durante nove anos, parte daquele padrão continuou integrada ao equilíbrio do Distrito Sete.
Não era o pai de John segurando a cidade.
Era o Distrito Sete ainda carregando a forma de ter sido segurado.
John olhou para o memorial.
Onze minutos.
O número não ficara menor.
Ficara mais pesado.
Cael parou ao lado dele. — Encontrou alguma coisa?
John observou a Catedral. Forças convergiam para dentro enquanto, entre elas, pontos antigos resistiam.
Não precisavam vencer.
Precisavam formar novamente uma configuração estável.
Talvez esse fosse o erro desde o começo. Destruir o núcleo eliminaria a fonte recente, mas não necessariamente aquilo que o distrito havia se tornado.
Se conseguissem devolver carga aos caminhos que a rede reconhecia como estáveis…
John ergueu a cabeça.
Cael percebeu a mudança. — O quê?
John apontou para a primeira fundação, depois para a segunda e a terceira.
Ren se aproximou com o rádio ainda na mão. — Tradução operacional.
John manteve os olhos nas estruturas. — Acho que estamos tentando parar a coisa errada.
Elias acompanhou os pontos indicados. — Isso costuma preceder uma ideia ruim.
John ignorou.
— A Catedral está reorganizando o distrito. Esses pontos são onde ela encontra resistência.
Cael seguiu o desenho invisível com os olhos. — E?
John olhou para a base sob o memorial e depois para o edifício quarenta e dois.
Não tinha o método completo. Ainda faltavam conexões, direções e ordem — provavelmente mais runas do que seu corpo deveria sustentar.
Mas agora existia um caminho.
— Não precisamos derrubar a Catedral.
Cael virou o rosto para ele. — Precisamos fazer o quê?
John fechou devagar a mão dormente.
Seu pai não estava ali.
Só a consequência de uma escolha feita nove anos antes, gravada fundo o bastante para ainda afetar a cidade.
John olhou para as ruas deformadas.
— Colocar o distrito de volta no lugar.
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