Senhor das RunasCAP. 523 MIN

— Então é melhor encontrar antes que ele decida cobrar de você também — advertiu Garrick.

John ouviu a alça de uma das caixas raspar no metal.

Permaneceu comprimido entre a coluna e a máquina abandonada, com o ombro esquerdo encostado numa superfície fria. O joelho ainda tremia por causa da vibração que recebera minutos antes. Na tela do celular, uma única barra de sinal aparecia, desaparecia e voltava sem permanecer tempo suficiente para completar uma chamada.

Garrick sabia que ele estava no complexo.

Talvez ainda não soubesse exatamente onde.

Aquela vantagem tinha prazo curto.

O antigo elevador hidráulico que servia de esconderijo ocupava quase metade do galpão. Tubulações desciam da máquina até uma canaleta no piso e, depois da área cercada por grade, desapareciam sob a parede. Do outro lado, uma placa enferrujada indicava uma saída de manutenção.

O problema era o caminho.

Para chegar até ela, John teria de passar a menos de dez metros de Garrick.

Baixou os olhos.

A canaleta seguia na mesma direção.

Havia uma barra solta entre os tubos. Conseguia alcançar uma das extremidades sem abandonar o esconderijo, mas teria de se abaixar.

O quadril protestou assim que apoiou um joelho no chão. John puxou o marcador da mochila e estendeu o braço direito até a canaleta. A ponta tocou o metal coberto por graxa.

Desenhar sem enxergar direito já seria ruim. Fazer isso com os dedos tremendo tornava a tarefa consideravelmente menos elegante.

John passou o marcador pela barra.

A primeira linha falhou, interrompida por uma crosta de sujeira. Esfregou a manga sobre o metal e tentou novamente, acompanhando a geometria que surgia entre as relações verdes.

Não precisava de força suficiente para ferir ninguém.

Só precisava mandar a barra para longe.

Do outro lado da máquina, o intermediário recusou:

— Eu não vou atrás do terceiro.

John completou Impulsionar diretamente sobre a barra e apoiou dois dedos junto à inscrição.

Direção.

Pela canaleta.

Até a grade distante.

O verde correu pelas linhas.

A barra disparou.

Raspou no fundo do canal, ganhou velocidade e atingiu a grade quase vinte metros adiante. O impacto ecoou pelo galpão e deformou a parte da inscrição que ficara mais próxima da extremidade.

A luz se desfez.

— Merda — praguejou o intermediário.

Garrick se virou para o ruído.

John saiu do esconderijo.

Não correu nos primeiros metros. Obrigou-se a caminhar depressa, apesar da vontade de disparar até a porta. Correr faria barulho, e o joelho ainda não merecia tamanho voto de confiança.

Chegou à abertura de manutenção quando ouviu Garrick perceber o engano.

— Ei! — gritou ele.

John atravessou a porta.

O corredor era estreito e recebia apenas a pouca luz que escapava do galpão. Armários quebrados ocupavam uma das laterais. A placa enferrujada conduziu John até uma porta de emergência presa por uma corrente grossa.

Segurou uma das folhas e puxou.

Nada.

A corrente passava pelas duas alças, sem folga suficiente para alcançar o fecho. A moldura estava cravada diretamente no concreto, e não havia passagem pelas laterais.

Uma vibração entrou na parede atrás dele.

John soltou a porta.

Fratura atravessaria tanto o concreto quanto o metal. Se permanecesse ali, a corrente logo perderia o posto de principal inconveniente.

Procurou outra saída.

Encontrou uma janela basculante próxima do teto.

Alta demais.

Tirou uma das placas da mochila, pressionou-a contra a parede abaixo da janela e pegou o marcador. A ponta escapou entre seus dedos dormentes.

— Anda — murmurou.

Começou a desenhar Aderir diretamente no metal. A linha inferior saiu torta porque sua mão perdeu força no meio do movimento.

Passos entraram no corredor.

John corrigiu a geometria e pressionou a placa contra o concreto. As duas superfícies se tornaram uma relação única sob sua palma.

A inscrição acendeu.

Ele retirou a mão.

A placa permaneceu aderida à parede.

John colocou o pé sobre a borda e subiu. O joelho quase dobrou ao receber seu peso. Agarrou a moldura da janela com a mão direita, mas o ombro esquerdo participou do movimento por reflexo.

A dor veio forte o bastante para abrir seus dedos.

John bateu o peito contra a parede.

A placa permaneceu presa.

Garrick apareceu na outra extremidade do corredor.

— Você — rosnou.

John alcançou a janela novamente.

Garrick não correu. Apenas encostou a palma esquerda na parede.

John viu o contato.

— Filho da—

A vibração entrou no concreto.

Ele arrancou o pé da placa.

Um instante depois, o aço aderido sacudiu com violência. O reboco sob a inscrição se partiu, levando consigo a camada à qual Aderir estava conectada.

A placa caiu.

John já atravessava a janela.

Desceu do outro lado sem qualquer controle. Atingiu uma caçamba, escorregou pela lateral e caiu sentado no asfalto.

A dor no quadril subiu pelas costas.

Levantou-se antes de decidir se conseguia.

O celular recuperara o sinal.

John abriu a conversa com Ren enquanto atravessava o pátio.

Complexo industrial desativado em Hark. Dois núcleos roubados. Garrick Dren está aqui.

Parou com o polegar sobre a tela.

Ren perguntaria como sabia.

Isso vai render.

John anexou a localização e enviou.

A mensagem saiu.

Guardou o aparelho e continuou andando.

Ren ligou antes que John chegasse em casa.

Ele observou o nome na tela até o quarto toque.

— Onde você está? — perguntou Ren assim que a chamada foi atendida.

John entrou numa rua mais movimentada.

— Indo para casa — respondeu.

— De onde?

— Hark.

Houve uma pausa curta.

— Você acabou de me enviar a localização de um suspeito procurado e a informação de que ele está com dois núcleos de propriedade estatal. Quero que pense antes de responder à próxima pergunta — avisou Ren.

John já tinha preparado uma versão no ônibus. Na própria cabeça, parecera melhor.

— Certo.

— Como você sabe?

— Vi Garrick entrando no complexo.

— Por que estava em Hark?

— Vi a notícia sobre os danos.

Ren foi direto ao ponto:

— E decidiu investigar sozinho?

— Fui olhar.

O agente não respondeu imediatamente. John ouviu vozes ao fundo e o ruído de uma porta fechando.

— Você está afastado por lesão — lembrou Ren.

— Eu sei.

— Mesmo assim, encontrou um homem procurado por um ataque estrutural, seguiu esse homem até uma instalação abandonada e descobriu exatamente quantos núcleos havia no local.

John ficou calado.

Ouvir a sequência inteira tornava suas escolhas um pouco menos defensáveis do que ele preferiria.

— Estou tentando separar o que você viu da parte que continua omitindo — prosseguiu Ren.

— Ouvi uma conversa.

— Dentro do complexo?

— Sim.

— Garrick viu você?

John olhou para a própria mão.

— Viu — admitiu.

A pausa seguinte foi maior.

— Ele sabe seu nome?

— Acho que não.

— Acha? — repetiu Ren.

— Eu não falei.

— Isso não foi o que perguntei.

John fechou os olhos por um instante.

— Não sei.

Ren respirou perto do microfone.

— Volte para casa. Não procure Garrick outra vez. Uma equipe está indo para Hark.

— Existe um terceiro núcleo — acrescentou John.

— Explique.

— Eles tinham três, mas só dois chegaram.

Ren ficou em silêncio.

— Quem são “eles”, John? — questionou por fim.

— Não sei.

Era verdade, mas não inteira.

— Existe um comprador — acrescentou John.

— Você ouviu isso também?

— Sim.

— Vou precisar de outro depoimento.

John quase riu. Não encontrou energia nem para isso.

— Imaginei.

— E, John?

— O quê?

A voz de Ren perdeu parte da irritação.

— Se Garrick viu você, isso deixou de ser apenas uma questão de depoimento.

A ligação terminou pouco depois.

John guardou o telefone.

As placas na mochila pareciam mais pesadas do que quando saíra de casa.

A conclusão de que precisava de equipamento melhor não veio diante do caderno.

Veio quando tentou tirar a proteção do antebraço e descobriu uma faixa arroxeada onde a correia comprimira a pele.

A placa improvisada girava quando ele se movia e prendia o tecido da jaqueta. Pior: se Aderir conectasse aquela peça a uma estrutura atingida por Garrick, a correia transformaria seu braço na continuação mais próxima do caminho da vibração.

John largou a peça sobre a mesa.

Elena apareceu na porta da cozinha.

Olhou para o metal e depois para o joelho dele.

— Caiu de novo? — perguntou.

— Mais ou menos.

Ela se aproximou e manteve a mão a poucos centímetros da lateral do joelho. Não precisou encostar. John conhecia aquela concentração em seu rosto desde criança.

— Está mais quente que o outro — observou.

— Eu percebi.

— Percebeu antes ou depois de continuar usando?

John não respondeu.

A pergunta, por inconveniente que fosse, não sofria de falta de precisão.

Elena baixou a mão. Seus olhos encontraram o sangue seco perto da narina, mas ela não perguntou de onde vinha.

Pegou a caixa de ferramentas que estava sobre uma cadeira e a colocou do outro lado da cozinha.

— Hoje você terminou — decretou.

— Mãe…

— Hoje.

John deixou o braço cair.

Elena pôs comida perto dele e saiu. Não pediu que comesse, porque isso transformaria o gesto numa discussão.

John esperou a porta do quarto fechar antes de olhar novamente para a placa.

Precisava de articulações flexíveis e pontos de soltura que não dependessem dos dedos machucados.

Também precisava de alguém que soubesse fabricar aquilo direito.

Elias ouviu a explicação sem levantar a cabeça.

— Proteção para inspeção estrutural — repetiu.

A esmerilhadeira estava desligada, mas ele ainda mantinha os óculos de proteção sobre o cabelo ruivo. Sardas atravessavam o nariz e desapareciam sob manchas de poeira metálica.

— Isso — confirmou John.

— Você trabalha numa estação.

— Tem estrutura na estação.

Elias marcou uma chapa com giz.

— Também tem cadeira. Quer que eu coloque rodas?

John permaneceu calado.

Elias esperou um pouco antes de concluir:

— Foi o que pensei.

A oficina ocupava o fundo de uma assistência técnica onde ele consertava desde painéis industriais até aparelhos domésticos que já deveriam ter recebido o direito de descansar em paz. John o conhecia havia alguns anos, primeiro por pequenos reparos na estação. Continuara procurando o lugar porque Elias cobrava menos quando podia reaproveitar material.

O ruivo pegou uma das placas.

— Quem cortou isso? — perguntou.

— Eu.

— Dá para ver.

Passou o polegar perto de uma borda.

— Se você cair sobre essa quina, sua inspeção termina dentro de você.

— Por isso vim.

Elias enfim ergueu os olhos.

— O que você quer?

John mostrou o desenho.

O peitoral aparecia dividido para não bloquear seus movimentos. Havia proteções nos antebraços e placas menores para as pernas. Algumas peças deveriam se soltar com um puxão curto.

Elias examinou a folha.

— Pontos destacáveis.

— Preciso conseguir abandonar uma peça se ela prender em alguma coisa.

— Durante uma inspeção.

— É.

Elias continuou olhando para ele.

John não tentou melhorar a mentira.

— Certo. Não quero saber — decidiu o ruivo.

— Obrigado.

— Não agradece ainda. Isso aqui está péssimo.

O primeiro peitoral realmente ficou péssimo.

Elias recusou a ideia de uma chapa única assim que percebeu que John mal conseguia elevar o braço esquerdo. Dividiu a proteção sobre uma base de tecido grosso, deixando a região central flexível. As presilhas abriam com um puxão para baixo, sem exigir que John levantasse o cotovelo.

As primeiras grevas também não serviram. A curva do metal pressionava o joelho sempre que ele agachava.

— Para de compensar — ordenou Elias.

— Compensar o quê?

— Você joga o peso para a direita toda vez que desce.

John tentou outra vez.

O movimento doeu menos.

— Melhor.

Elias arqueou uma sobrancelha.

— Não falei que ficou melhor. Falei que você está torto.

Retirou a greva e voltou para a bancada.

Enquanto trabalhava, sua mão esquerda tocava cabos e carcaças quase por hábito. Quando uma fonte começou a oscilar, ele apontou para o equipamento antes que a luz indicadora falhasse.

— Capacitor.

— Você nem abriu — comentou John.

— Não preciso abrir para saber onde a corrente está se perdendo.

A Eletrossensibilidade de Elias terminava onde os circuitos terminavam. John confirmou isso sem fazer perguntas.

Deixou uma placa com uma inscrição incompleta sobre a bancada.

Elias a pegou, virou e tornou a largá-la.

— Vai gravar decoração?

— Marca de referência.

— Feia — avaliou.

Nada mais.

John sentiu parte da tensão nos ombros diminuir.

A semana não se organizou como ele pretendia.

Uma correia arrebentou durante o primeiro teste com movimento e lançou a proteção do antebraço contra uma porta.

Elias cobrou outra correia.

John tentou manter Sustentar numa barra rachada enquanto uma pequena placa, encaixada sob pressão numa emenda, permanecia presa por Aderir. As duas inscrições ficaram acesas por poucos segundos. Depois, as linhas verdes começaram a se misturar à própria visão.

Ele desativou as runas e vomitou na pia da oficina.

— Isso faz parte da inspeção? — perguntou Elias do outro lado do cômodo.

John abriu a torneira e esperou a água levar o gosto ácido de sua boca.

— Não.

— Excelente. Eu cobro limpeza — resmungou o ruivo.

Quando tentou novamente, John já havia perdido a conta dos dias pelo estado das roupas. Dormira com cheiro de marcador nas mãos e acordara com a correia do peitoral marcada no peito.

Dessa vez, sentou antes do teste.

Aderir mantinha uma placa encaixada na emenda de um suporte metálico. Sustentar estava inscrita diretamente sobre a barra rachada.

Duas relações diferentes.

As linhas verdes existiram ao mesmo tempo.

A pressão atrás dos olhos cresceu, mas John ainda sabia onde terminava sua mão e onde começava a estrutura.

Encerrou Aderir primeiro.

A placa se soltou e caiu.

Sustentar permaneceu ativo na barra.

John sorriu sem perceber.

Elias observou a cena com evidente desconfiança.

— Isso é preocupante.

— O quê?

— Você sorrindo para sucata.

John passou os dedos sob o nariz e encontrou sangue.

O sorriso desapareceu.

As anotações pioraram conforme os testes avançaram.

duas dá

Ele acrescentou uma palavra e a riscou.

não com dor

Mais abaixo, depois de uma mancha de sangue:

soltar peça ANTES

Uma seta apontava para:

tecido quebra caminho? não confiar

O equipamento cresceu ao redor dos erros.

O peitoral recebeu superfícies substituíveis e encaixes que podiam ser presos a uma estrutura sob carga. As braçadeiras ficavam separadas das placas maiores por tecido grosso. As grevas protegiam as canelas sem formar um caminho rígido através dos joelhos.

John podia retirar uma peça antes que a força atravessasse o restante da proteção.

Pelo menos em teoria.

A teoria, como sempre, desfrutava da vantagem de não precisar levar pancadas.

O conjunto continuava pesado e desconfortável. Sob uma jaqueta larga, o peitoral criava um volume impossível de esconder por completo.

Elias apertou a última presilha.

— Se isso for mesmo para inspeção, quero conhecer o prédio que exige armadura.

John movimentou o braço direito.

— Melhor não.

Elias esperou alguns segundos.

— Você está metido nos ataques?

John parou.

A oficina permaneceu cheia do zumbido de uma fonte aberta.

— Não do jeito que você está pensando.

— Eu nem disse como estou pensando — rebateu Elias.

John não respondeu.

O ruivo voltou para a bancada.

— Quando isso explodir na sua cara, tenta não falar que fui eu que fiz.

Ren forneceu a pista sem perceber.

Durante o segundo depoimento, não perguntou novamente se existia um terceiro núcleo. Queria saber de onde ele saíra, quem deveria recebê-lo e até que ponto John havia escutado a conversa em Hark.

John repetiu que só ouvira uma parte. O terceiro não chegara junto das outras caixas.

Ren consultou as próprias anotações.

— Quando falaram que ele não chegou a Hark, mencionaram de onde havia saído?

— Da estação.

— Isso já sabemos — respondeu Ren.

John ergueu os olhos.

O agente percebeu o que revelara e ficou imóvel por uma fração de segundo.

Foi suficiente.

A ANE sabia onde estava o terceiro núcleo.

John saiu da agência com aquilo preso na cabeça.

Não conhecia o endereço, mas sabia a rota original.

O aviso operacional da estação enviara o material pelo corredor H-4. Hark recebera apenas parte. O restante havia sido recolhido antes.

Segurança municipal.

O intermediário dissera isso.

John cruzou os registros públicos de interdição com os depósitos temporários usados naquela noite.

Restaram dois locais.

O primeiro ficava dentro de uma instalação da ANE. Garrick não pisaria lá sem um plano suicida.

O segundo era um pátio de apreensão municipal perto da Linha 6.

John enviou uma mensagem a Ren.

Se o terceiro estiver no pátio da Linha 6, Garrick vai tentar pegar antes da entrega.

Ren respondeu dois minutos depois.

Como chegou à Linha 6?

John guardou o celular.

Pergunta difícil.

O pátio parecia vazio quando ele chegou.

Não estava.

John reconheceu o primeiro agente da ANE dentro de um veículo descaracterizado e entendeu que Ren transformara o núcleo em isca.

Quase foi embora.

Uma seção do muro lateral rachou antes que desse o primeiro passo para trás.

Garrick entrou.

A mão direita estava envolvida numa tala mais rígida. Ele usava a esquerda para tocar o concreto.

Agentes saíram dos veículos.

— Garrick Dren! Mantenha as mãos visíveis! — ordenou um deles.

Garrick golpeou o piso com a palma.

A vibração correu pelo pátio.

Dois agentes perderam o equilíbrio. O para-brisa de um veículo trincou quando a força alcançou sua base de concreto.

Garrick correu em direção ao depósito.

John entrou pelo lado oposto.

A decisão pareceu ruim antes mesmo de ele completar dez passos.

Garrick o viu.

— Você de novo — rosnou.

O olhar desceu para o volume das placas sob a jaqueta.

— Melhorou o brinquedo.

John puxou o marcador.

— Um pouco — respondeu.

Garrick tocou uma coluna.

John saiu da linha de continuidade antes que a vibração a percorresse. O piso tremeu ao lado, mas a junta de borracha entre duas placas de concreto interrompeu parte da propagação.

Garrick percebeu.

Mudou de direção e bateu a mão esquerda numa grade metálica.

John viu o caminho verde antes da força chegar. A grade se ligava ao suporte de um corrimão que acompanhava uma escada.

A mão direita de John estava apoiada naquele corrimão.

Ele soltou.

A vibração passou.

Garrick estreitou os olhos.

— Você enxerga.

John não respondeu.

Garrick avançou.

Uma barra caída estava entre os dois. John se abaixou, ignorando a fisgada no quadril, e arrastou o marcador diretamente pelo metal.

Garrick acelerou.

John completou Impulsionar sem conseguir conferir a última curva. Apoiou a palma ao lado da inscrição e fixou a direção.

Lateral.

Contra as pernas de Garrick.

A barra disparou pelo piso.

Garrick saltou, mas a extremidade do metal raspou em sua canela e o obrigou a abrir a passada. A inscrição bateu no concreto e perdeu parte do desenho.

O verde apagou.

John recebeu a reação no ombro direito e quase perdeu o marcador.

Garrick recuperou o equilíbrio.

— Fraco — provocou.

— Estou percebendo — retrucou John.

A resposta escapou antes que pudesse evitá-la.

Garrick atingiu o piso.

John viu tarde demais.

A vibração veio pela placa de concreto sob seus pés. Ele saltou para uma plataforma metálica isolada do piso principal por suportes de borracha.

A onda passou abaixo.

Garrick mudou outra vez.

Em vez de atacar John, tocou a base da plataforma.

A vibração subiu pelo suporte metálico.

John puxou a presilha da greva esquerda.

A peça caiu antes que a força encontrasse um caminho contínuo até seu joelho.

Parte da vibração ainda atravessou a plataforma.

Seus dentes bateram.

John caiu de joelhos.

Garrick se aproximou.

— Acabou a caneta — constatou.

John olhou para a mão.

O marcador havia caído a três metros.

Garrick pisou nele.

O plástico quebrou.

John ainda tinha outro preso dentro do peitoral. Precisava alcançar a abertura da jaqueta sem oferecer o braço.

Garrick encostou a mão esquerda numa viga vertical.

Linhas verdes tomaram a percepção de John.

A viga se ligava à cobertura. Travessas atravessavam o teto e sustentavam uma passarela de manutenção sobre Garrick.

Uma das fixações estava corroída.

John compreendeu mais do que pretendia.

O verde atravessou sua visão e, durante um instante, a tensão da viga pareceu continuar dentro de seu braço.

A náusea subiu.

Ele piscou até a estrutura voltar a ser apenas estrutura.

Puxou o segundo marcador.

A passarela possuía um suporte lateral deformado. Havia uma folga estreita entre ele e a chapa que deveria distribuir a carga.

John retirou do peitoral uma das placas substituíveis. Enfiou-a no espaço e bateu com a base da mão até o aço entrar sob pressão.

Agora a peça participava da junção.

Só então desenhou Sustentar diretamente nela.

A inscrição acendeu.

A fixação danificada parou de abrir.

Garrick olhou para cima.

— Vai segurar isso? — questionou.

John não respondeu.

Ao lado da passarela havia um painel metálico preso por uma corrente. Se caísse, bloquearia a saída entre Garrick e o depósito.

John alcançou a lateral do painel e desenhou Impulsionar diretamente na chapa. A ponta do marcador saltou sobre a tinta velha, deixando uma falha que ele precisou corrigir.

Duas runas.

A pressão atrás dos olhos aumentou.

John fixou a direção da força.

Para baixo e atravessada, na direção do corredor.

Impulsionar acendeu.

O painel forçou a corrente.

O primeiro elo resistiu.

John manteve a intenção.

A reação atravessou seu braço direito e atingiu a articulação do ombro. Ele mordeu a parte interna da bochecha para não soltar o marcador.

A corrente se rompeu.

O painel caiu entre Garrick e a saída. Uma das dobradiças inferiores permaneceu presa, mantendo a chapa ligada à estrutura lateral da passarela.

Garrick girou e bateu a palma contra o metal.

Era isso.

A Fratura entrou no painel e subiu pela dobradiça. Alcançou a estrutura lateral, seguindo em direção à fixação corroída.

Sustentar manteve a junção unida.

Garrick percebeu tarde demais que sua própria vibração havia chegado à estrutura acima dele.

John ainda precisava impedir que o painel fosse afastado.

Arrancou a placa destacável da greva direita.

A mão tremia tanto que a primeira linha de Aderir saiu curta. John passou o marcador por cima, pressionando com força excessiva.

A ponta começou a secar.

— Agora não — resmungou.

Sacudiu o marcador, recuperou a tinta e terminou a geometria.

Abaixou-se junto à base do painel. Havia uma abertura entre a chapa caída e um trilho metálico preso ao piso.

John inseriu a placa naquele espaço, prendendo uma parte sob o painel. A outra extremidade entrou na folga do trilho.

A peça passou a tocar as duas estruturas.

Ele ativou Aderir.

Três inscrições verdes queimaram ao mesmo tempo.

Sustentar preservava a fixação da passarela.

Impulsionar continuava forçando o painel contra a rota de Garrick.

Aderir mantinha a chapa ligada ao trilho, impedindo que ele simplesmente a arrancasse do caminho.

A visão de John se encheu de relações.

O peitoral apertou seu tórax quando tentou respirar. O braço direito tremia com a reação de Impulsionar. A pressão de Aderir chegou por meio da placa encaixada e pareceu fechar-se ao redor de seus dentes.

Por um instante, John perdeu a sensação dos dedos.

Garrick golpeou o painel novamente.

A Fratura percorreu o metal aderido e entrou na base. A vibração subiu pela estrutura que ele mesmo havia comprometido.

Quando tentou interromper o contato, Garrick já tinha transmitido força demais.

A reação atingiu sua mão esquerda.

Ele gritou.

Dois dedos se deslocaram num ângulo errado.

A visão de John se estreitou. A borda do pátio desapareceu sob o verde, e sangue quente atravessou seu lábio.

Precisava encerrar as runas numa ordem que não derrubasse a passarela sobre Garrick.

Aderir primeiro.

John puxou a placa da junção.

Ela não saiu.

A conexão permanecia ativa.

A pele de seus dedos parecia cheia de agulhas. Ele encontrou a pequena alça presa à placa e puxou com a mão direita.

O metal se desprendeu do trilho.

Aderir apagou.

Duas runas.

John redirecionou Impulsionar para manter o painel inclinado, ainda fechando a passagem sem esmagar Garrick.

Depois encerrou Sustentar.

A fixação corroída rompeu.

Um dos lados da passarela desceu e atingiu o piso diante de Garrick.

O impacto fechou a outra rota de fuga.

John desativou Impulsionar.

O painel parou.

Nenhuma runa continuava acesa.

As linhas verdes permaneceram na visão dele.

John piscou.

Não adiantou.

O sangue escorria do nariz e entrava em sua boca. Tentou ficar de pé, mas a perna direita respondeu tarde.

Garrick ainda estava consciente.

Ajoelhou-se e colocou a mão direita imobilizada contra o chão.

John compreendeu o que faria.

Não conseguiria sair do alcance.

— Garrick!

A voz de Ren veio de trás da estrutura.

— Tire a mão do piso! — ordenou o agente.

Garrick olhou para os agentes que cercavam as duas saídas restantes.

A mão permaneceu no concreto.

— Último aviso.

Garrick olhou para John.

Havia raiva em seu rosto, mas também um desgaste que não estava ali quando invadira a estação. Talvez fosse apenas dor.

Retirou a mão.

Os agentes avançaram.

John tentou se afastar antes que Ren chegasse até ele.

Deu dois passos.

No terceiro, perdeu parte da visão e caiu sentado contra uma coluna.

Ren apareceu diante dele.

Olhou para o equipamento sob a jaqueta, para as inscrições ainda úmidas de marcador e para o sangue no rosto.

— John — chamou.

John tentou limpar o nariz com o punho. Só conseguiu espalhar o sangue pela pele.

— Não consigo levantar agora.

Ren se agachou sem tocá-lo.

Atrás dos dois, Garrick era algemado com contenções especiais. Os agentes mantinham suas mãos separadas e afastadas de qualquer superfície contínua.

— Uma equipe médica está vindo — informou Ren.

John apoiou a cabeça na coluna.

As linhas verdes começaram a enfraquecer, mas não desapareceram completamente.

— Você tem uma explicação muito longa para me dar — acrescentou o agente.

John fechou os olhos.

Ainda conseguia ver a estrutura por dentro.

O aparelho de Ren vibrou.

O agente atendeu enquanto se afastava apenas o suficiente para conversar sem bloquear a passagem dos paramédicos.

— Ren.

A resposta do outro lado fez com que ele parasse.

— Repete.

John abriu os olhos.

Ren escutou por alguns segundos, olhando para Garrick enquanto os agentes terminavam de imobilizá-lo.

— Ele estava sob custódia?

A resposta veio baixa demais para John entender.

Ren passou a mão pelo rosto.

— Isolem o local. Ninguém divulga os outros nomes.

John tentou se endireitar contra a coluna.

— O que aconteceu?

Ren não respondeu. Chamou uma agente e mostrou alguma coisa na tela.

— Confere a lista de Hark. Quero saber quem teve acesso aos nomes.

A mulher pegou o aparelho e começou a verificar os registros.

— Ren.

John precisou repetir:

— O que aconteceu?

O agente olhou para ele.

— O intermediário que você viu no complexo estava sendo transportado para prestar depoimento.

— Ele fugiu?

Ren demorou um pouco.

— Não.

John sentiu a boca secar, apesar do sangue.

— Garrick estava aqui.

— Eu sei.

— Então quem…

— Ainda não sabemos — interrompeu Ren.

O aparelho vibrou novamente na mão da agente. Ela leu a mensagem e se aproximou.

— Outro acesso ao sistema — informou em voz baixa. — Arquivos das testemunhas de Hark.

— Bloqueia tudo.

— Já copiaram.

Ren tomou o aparelho.

Uma lista apareceu na tela antes que ele a inclinasse. John reconheceu nomes de funcionários municipais e do pessoal que trabalhara no complexo.

O seu estava perto do fim.

Ao lado dele havia um endereço.

John deixou de sentir a dor no ombro por um momento.

— Esse é o endereço da minha casa.

Ren olhou para a tela.

Depois, para John.

— Sua mãe está lá?

John já procurava o celular dentro da jaqueta.

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