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Senhor das RunasCAP. 1419 MIN

As sirenes mudaram de tom pela segunda vez. John não esperou pela terceira.

Saiu da passagem sob o viaduto e cortou a rua de serviço entre dois pilares monumentais. Acima dele, Meridian empilhava-se em três planos de concreto e aço: a via expressa a quinze metros de altura, uma passarela de pedestres cruzando-a na transversal e, no topo de tudo, a linha férrea suspensa apontada para a região central. À esquerda, a via antiga descia em direção aos bairros residenciais; à direita, uma rampa técnica subia para a avenida superior.

Ele escolheu a rampa. Havia memorizado aquela rota nas últimas semanas, não pensando exclusivamente na ANE, mas em qualquer contingência que tornasse o retorno para casa inviável — só não contava precisar dela tão cedo.

Venceu os degraus de dois em dois enquanto o receptor captava fragmentos táticos da rede pública: equipes de contenção mantendo os níveis inferiores e civis sendo retirados às pressas pela estação oeste. A saída óbvia para se misturar à multidão acabara de ser lacrada.

Unidade três, não avance pela rampa norte — chiou o rádio.

John estancou. Norte era exatamente onde estava.

Olhou para trás e para frente: pista vazia, nenhum agente à vista. A ANE deixara aquele corredor desimpedido de propósito. Ele tocou o guarda-corpo metálico, compreendendo a armadilha — Cael não precisava adivinhar a rota de fuga; bastava fechar todas as outras.

Abandonou a escada imediatamente, saltou a mureta e cravou a manopla em uma coluna lateral com Aderir ativo. A luva fundiu-se ao concreto. Encontrou uma junta de dilatação com a bota, subiu dois metros e alcançou a viga horizontal que sustentava o viaduto. O ombro lesionado latejava pelo esforço da fuga do quarto, mas ele ignorou o tranco.

Abaixo, os batedores surgiram na entrada da rampa sem erguer armas; um deles apenas tocou o comunicador no capacete.

A viga terminava no vazio sob as pistas, separada por seis metros de ar da plataforma de manutenção presa ao pilar seguinte — uma queda livre de doze metros até o pavimento.

Impulsionar na greva esquerda deu conta do salto: a força mecânica catapultou seu corpo através do vão em arco limpo. No zênite da trajetória, porém, o vetor mudou sem aviso. Não fora o vento nem uma oscilação de gravidade: o impulso simplesmente foi desviado para a esquerda.

A plataforma passou batida à sua direita.

— Merda—

O ombro bateu contra a quina de uma placa de sinalização. John disparou Aderir no reflexo, travando a mão na haste de aço antes de despencar. A chapa oscilou violentamente sobre o abismo.

Três metros acima, uma figura recolheu a mão do corrimão da passarela de pedestres.

Cael Ordan.

O uniforme escuro da Vanguarda trazia apenas proteções de kevlar nas articulações e botas de sola emborrachada para combate urbano, desprovido de qualquer ornamento desnecessário. O cabelo preto rente mal se agitava com o vento, e os olhos cinza fixavam-se em John com tranquilidade calculada.

Cael ainda mantinha contato residual com a ferragem ligada ao suporte da placa. Ele não criara energia nem dissipara o salto; apenas tomara a força produzida por John e redefinira sua direção no ar.

John içou o corpo para a passarela, apoiando-se no parapeito.

Cael desceu os últimos degraus com as mãos espalmadas e baixas: — Jonathan. Podemos resolver isso sem você quebrar o pescoço lá embaixo.

John avaliou a queda e a selva de pilares em volta. — Escolheu uma estrutura curiosa para propor moderação.

— Você escolheu a rota.

— Não completamente — rebateu John, os olhos varrendo o cerco invisível.

— Entrega voluntária. Eu assumo sua custódia e garanto sua integridade.

— Continua sendo uma cela.

— E continua sendo melhor do que uma equipe de assalto tentando adivinhar como neutralizar cinco inscrições clandestinas quando você entrar em choque.

A memória muscular do esforço na Catedral repuxou os antebraços de John como uma queimadura fantasma. — Eles já viram o que as cinco fazem.

— Viram o resultado externo — corrigiu Cael, indicando a braçadeira de ferro que despontava sob a manga rasgada do casaco. — Eu sei como o circuito funciona na prática.

Esse era o maior perigo: Cael o observara operar. Sabia onde ele precisava tocar, como buscava apoio mecânico e que Impulsionar dependia de uma superfície física para gerar aceleração.

— E minha mãe? — exigiu John.

— Não é alvo da ordem de captura. Se vier comigo agora, garanto que nenhum agente volta a pisar naquela residência.

A mandíbula de John cerrou-se. A oferta era autêntica, mas exigia confiar na mesma máquina burocrática que ressuscitara seu processo por conveniência operacional — confiar que registros não seriam apagados e que ele não viraria um ativo descartável da Vanguarda.

Cael percebeu o olhar de John descendo para a junção da passarela. — Não tente isso.

— Você sabe que vou tentar.

A greva acendeu. John disparou Impulsionar contra o corrimão para ser arremessado dois metros para trás, em direção à plataforma inferior.

Cael agiu na mesma fração de segundo: soltou o contato com a estrutura superior e tocou o corrimão metálico. Ele não acumulava forças simultâneas além do limite; trocava prioridades de contato.

O vetor inverteu-se no metal. A força que deveria afastar John arremessou-o de costas ao longo do piso da passarela; ele rolou pelo gradil e ativou Distribuir no segundo impacto, dissipando parte da onda de choque pelas vigas de aço antes de travar de joelhos.

Cael avançava a passos largos, sem afobação: — Impulsionar sempre exige um ponto de partida mecânico.

John ergueu-se com dificuldade. — Agradeço a consultoria estrutural.

— Estou tentando poupar a avaliação médica.

John disparou em corrida.

A passarela desembocava na estação suspensa. Pelo saguão envidraçado, os últimos civis evacuavam pelas portas do oeste, enquanto agentes de contenção mantinham a plataforma norte isolada. Ele não podia atravessar sem transformar transeuntes em alvos; mudou a passada antes das catracas, pulou a divisória de serviço e entrou no corredor técnico paralelo aos trilhos.

O espaço tinha menos de um metro de largura, confinado entre alvenaria nua e uma grade de alta tensão, com uma composição desativada parada à frente.

John tocou a parede lateral em plena corrida: acionou Aderir, subiu dois passos na vertical pela alvenaria para desviar de um painel elétrico saliente e aterrissou à frente. Ganhou alguns metros, mas o portão no fim do túnel estava trancado a cadeado.

Além da grade havia uma escada metálica que descia para as docas.

Ele sacou a chapa auxiliar com o traço de Atrair ainda rascunhado. Tocou o trinco com a mão esquerda e abriu Compreender no limite mínimo: o conjunto de mola, tambor e tranca metálica revelou-se em linhas verdes. Pressionou a placa na borda do mecanismo e ativou a runa.

A distância colapsou: o trinco recolheu-se com estalo seco, arrastando junto uma arruela e uma chave fixa presa ao suporte de ferramentas, que ricocheteou contra a grade.

John escancarou o portão no exato instante em que Cael alcançava o corredor.

Sem parar, John desferiu um chute contra a folha de metal para esmagá-la contra o herói. Cael abandonou a relação de força anterior e tocou a chapa no ar: o impacto do chute virou um vetor vertical e a porta abriu para cima com violência, quase acertando o próprio John no queixo.

Cael cruzou o vão sem perder o equilíbrio: — Agora conheço essa também.

John despencou pelas escadas técnicas.

A perseguição foi empurrada para cima nos minutos seguintes.

Os acessos subterrâneos estavam bloqueados por patrulhas, drones monitoravam as garagens em espiral e cada duto lateral conduzia John invariavelmente para os níveis superiores. Quando se deu conta, estava trinta metros acima do nível da rua, na avenida expressa superior parcialmente interditada.

O vento ali em cima soprava cortante. Quatro pistas de asfalto estendiam-se quase desertas sob a iluminação fria dos postes; à direita corria a linha férrea elevada, e à esquerda a mureta de proteção dava diretamente para o abismo.

John emergiu pela escotilha de serviço. Cael surgiu logo atrás.

Dessa vez, John não tentou correr: respirou fundo e analisou a dinâmica.

Direção Absoluta exigia contato físico contínuo. Cael não gerava forças do nada nem manipulava objetos à distância; ele controlava o vetor das cargas às quais se conectava estruturalmente. E, ao transferir o foco para uma nova relação mecânica, precisava descartar uma das anteriores.

Na Catedral, Cael sustentara três forças simultâneas no limite da exaustão — nunca quatro. O segredo não era anular o poder do homem, mas saturar sua capacidade de seleção.

John tocou o pavimento e cravou Sustentar em uma trinca sob os pés, estabilizando a vibração da pista — primeira relação. Disparou Impulsionar na greva — segunda relação. Desferiu um golpe contra uma barreira plástica de trânsito cheia de água — terceira relação.

Cael reagiu no reflexo: espalmou uma mão no asfalto para desviar o vetor de Impulsionar e usou a outra para descarregar o peso da barreira móvel para o acostamento.

John viu o ombro do herói ceder um milímetro: uma das conexões estruturais anteriores fora abandonada. Três não era um número absoluto; era o limite de processamento por fração de segundo.

John cortou Sustentar, ativou Aderir na bota sobre o corrimão metálico e aproveitou o próprio desvio vetorial para girar sobre a mureta externa como um pêndulo — quarta relação.

Cael tentou manobrar o braço, mas chegou tarde: John contornou a proteção pelo lado de fora e aterrissou no asfalto a três metros de distância de suas costas.

Cael precisou girar o corpo inteiro para restabelecer a guarda.

— Quatro — soltou John, recuando.

— Não se entusiasme — rebateu Cael, tocando o guarda-corpo metálico.

A vibração pesada de uma carreta na pista contrária foi canalizada pela ferragem da barreira: o corrimão chicoteou para dentro e atingiu a canela de John.

Ele perdeu o passo. Cael avançou em bote curto, mirando a articulação do cotovelo para imobilizar a braçadeira de comando sem desferir golpes letais. John bloqueou a pegada com a blindagem do antebraço; Cael fechou os dedos sobre a placa no mesmo instante em que a greva esquerda ainda vibrava com Impulsionar ativo.

Erro de cálculo. Cael tinha contato tátil direto com a fonte da força.

O herói descartou a sustentação da pista e redefiniu o vetor do salto no próprio corpo de John: a força desceu em noventa graus, cravando o joelho do garoto contra o asfalto com impacto que irradiou pela bacia até as costelas.

Cael torceu a braçadeira para trás, forçando o ombro em chave de braço.

John disparou Aderir na mão livre e plantou a palma no asfalto.

Cael puxou para cima, mas o braço não cedeu: a mão de John estava soldada ao solo. O movimento emperrou porque Cael agora precisava controlar a chave articular, manter o próprio centro de massa e gerenciar a carga residual de Impulsionar tudo ao mesmo tempo.

Naquela fração de segundo de sobrecarga, John manteve a palma presa ao chão, girou o quadril e desferiu uma rasteira seca na base da perna de apoio de Cael.

Não foi um golpe para fraturar, apenas para quebrar o alinhamento do peso.

Cael largou a braçadeira para recuperar a postura antes de tombar. John desativou Aderir, rolou pelo asfalto e ficou de pé. Três metros de distância voltavam a separá-los.

Cael massageou a articulação da perna, os olhos semicerrados: — Você aprende rápido.

— Estou tentando não apodrecer numa cela.

— Uma motivação bastante funcional.

Cael avançou outra vez e John disparou para a rampa de acesso à linha ferroviária.

A plataforma superior resumia-se a um ramal técnico desativado que ligava o trem suspenso ao antigo terminal de cargas: uma fita estreita de concreto armado estendida a quarenta metros do solo. Sem acostamento, sem veículos e sem margem para erro.

O ar rarefeito queimava nos pulmões de John. Ativar inscrições isoladas já era natural, mas a sequência frenética cobrava juros altos: o joelho latejava, o ombro ferido ardia e a respiração esbarrava na fratura do tórax. Cael mantinha a mesma passada mecânica, implacável e metódica.

A pista interrompia-se cinquenta metros à frente, separada por um vão de três metros da passarela de manutenção do terminal.

John calculou a parábola e acionou Impulsionar na greva.

Cael percebeu a intenção no mesmo instante: mergulhou de peito no concreto e tocou a borda de ferro da junta de dilatação antes que o salto completasse o arco. O impulso horizontal de John foi refratado para cima em noventa graus: seu corpo subiu reto no ar, a passarela passou por baixo de suas botas e a sustentação acabou.

Ele despencou no vazio.

Um cabo de sustentação de aço pendia entre a via e o pilar da passarela. John estendeu a mão em desespero e raspou os dedos na cordoalha; cravou a chapa auxiliar de Atrair contra o metal oxidado.

A distância colapsou, desviando sua trajetória em direção à passarela, mas a massa de seu corpo e a inércia da queda eram excessivas: ele bateu o antebraço contra o gradil externo e a mão escorregou no esmalte descascado.

Cael saltou para o parapeito e lançou o braço no vazio: — Segura!

As luvas colidiram no ar. Cael agarrou a braçadeira de John com força esmagadora, mas o peso combinado ameaçou arrastar os dois para o abismo.

Cael espalmou a mão livre no corrimão da passarela, descartou o contato anterior e assumiu a inércia da queda de John: redirecionou o vetor descendente para a horizontal, jogando o corpo do garoto contra o piso gradeado da passarela.

O impacto metálico tirou o resto de ar dos pulmões de John, mas a queda cessou. Cael salvara sua vida — e continuava segurando seu pulso contra o ferro.

— Chega — ofegou o herói, a respiração finalmente pesada. — Você quase morreu para evitar um processo administrativo.

John olhou pelo piso vazado da grade: quarenta metros de ar até a avenida inferior.

— Não é o processo.

Cael apertou a pegada: — Então me dá uma base factual com a qual eu possa argumentar na comissão.

— Meu arquivo estava arquivado e revogado. Alguém reabriu o registro no momento em que eu passei a ser um problema de imagem pública.

A mão de Cael manteve a pressão, sem recuar: — Isso pode ser contestado judicialmente.

— Depois que eu estiver trancado numa cela subterrânea.

Cael não desviou os olhos: — Sim.

Pelo menos não mentia.

A chapa auxiliar com a inscrição de Atrair permanecia presa ao outro antebraço de John. Se uma runa encurtava a distância entre duas referências materiais, o inverso precisava existir: uma relação que forçasse a separação imediata entre os pontos, sem depender de direção pré-definida.

Ele puxou o giz de solda com os dentes.

Cael viu o movimento: — Não faça isso!

John riscou a chapa metálica em um traço invertido: referência material, separação de massa. A compreensão estrutural fechou o circuito em verde elétrico antes que Cael pudesse torcer seu braço.

Repelir.

O recuo explodiu entre a chapa e a luva de Cael: a força de repulsão arrancou o corpo de John para trás com violência desmedida, partindo a pegada do herói. O tranco estalou o pulso e o ombro de John, projetando-o no vazio a uma velocidade incontrolável.

Céu, concreto, o abismo rodopiando em torno de seu eixo.

Quarenta metros de queda livre.

John ativou Impulsionar no desespero, apontando o vetor para uma via intermediária à esquerda. O pulso apenas acrescentou deslocamento lateral sem anular a aceleração da gravidade: seu corpo continuou caindo em parafuso, o ombro direito respondendo com atraso à rotação.

Um pilar de sustentação surgiu em sua rota de descida. Aderir e Atrair eram inúteis sem contato inicial; o concreto aproximava-se rápido demais. No último instante, John chocou a chapa auxiliar contra a face do pilar:

Repelir acendeu em clarão verde.

A força de repulsão empurrou seu tronco para fora da linha de choque, livrando sua cabeça do concreto, mas o quadril e as pernas continuaram na trajetória original. A rotação piorou, o recuo mecânico distendeu os ligamentos de seu cotovelo em uma dor cega e o giz escapou de seus dedos, perdendo-se no ar.

Ele caía de costas, desorientado. A via intermediária passava veloz ao lado, não abaixo — mover-se não significava ter controle de prumo.

Nenhum apoio. Cabos distantes, muretas fora de alcance.

No limite da percepção, avistou uma barra de ancoragem técnica que se projetava da borda da pista de concreto. Estendeu o braço esquerdo e ativou Aderir no instante do contato: os dedos agarraram a barra e a queda livre transformou-se instantaneamente em um arco centrífugo violento.

O ombro suportou a desaceleração de todo o peso do corpo; a visão de John escureceu pela força centrífuga, mas ele segurou a consciência até seus pés passarem para o ponto mais baixo da curva.

Desativou Aderir no ápice do balanço para não arrebentar a articulação.

A cobertura de zinco de uma subestação técnica aproximava-se veloz sob seus pés. Ele disparou um pulso mínimo de Impulsionar na greva — não para frear, apenas para nivelar o ângulo de entrada —, bateu a placa de Repelir contra uma coluna de sinalização durante a passagem para dissipar inércia e acionou Distribuir na placa reserva do peitoral a três metros do telhado.

Aterrissou de lado sobre o metal.

A onda de choque espalhou-se pelas treliças da subestação; a chapa substituta de Distribuir partiu-se na solda e a cobertura afundou com estrondo ensurdecedor. Quadril, ombro e a lateral do crânio rasparam na chapa corrugada até ele estacar a menos de um palmo da beirada.

O mundo apagou por dois segundos.

Voltou em poeira, estática e o peito travado sem conseguir puxar ar. John tossiu com força, sentindo as costelas protestarem, até que os pulmões finalmente abriram em uma respiração sibilante.

Ficou deitado de costas, encarando os quarenta metros de concreto empilhado que acabara de cruzar. A mão direita tremia sem controle, a greva esquerda apresentava uma rachadura na lateral e o sangue escorria morno do nariz até a garganta — não pelo uso isolado de runas, mas pela violência física do recuo de uma inscrição instável utilizada no vazio.

Ele estava vivo.

Uma vibração metálica ecoou no topo das estruturas. John ergueu o queixo: a silhueta de Cael recortava o céu no parapeito superior, ainda observando o ponto de impacto. O receptor captou a transmissão do herói pela rede de emergência:

Prioridade de socorro médico imediato no setor inferior. Queda de grande altitude. Suspeita de politraumatismo.

Cael estava acionando resgate para o mesmo alvo que recebera ordens de capturar — o que comprava a John dois minutos de vantagem operacional, não mais que isso.

Ele rolou para o lado, ignorando a dor aguda na caixa torácica, e apoiou-se na parede com Aderir até que a vertigem passasse. Cruzou a escotilha de manutenção entreaberta da subestação e desceu as escadas metálicas de serviço lance após lance, amparando o peso no corrimão quando o joelho falhava.

Cortou um corredor de tubulações no nível térreo, forçou uma porta de emergência enferrujada e mergulhou na galeria pluvial que corria sob a fundação das vias expressas.

Somente ali, no breu úmido dos canos subterrâneos, permitiu-se encostar as costas no concreto frio e deslizar até sentar.

As sirenes ecoavam distantes na superfície.

Ele puxou a placa auxiliar do antebraço: o traço de Repelir estava lascado na borda do metal.

Atrair colapsava o espaço entre dois pontos. Repelir ampliava a separação. Impulsionar aplicava força mecânica pura. Três formas distintas de gerar aceleração cinética, mas nenhuma garantia controle sobre a orientação do corpo no espaço.

No solo, o piso resolvia metade das equações: fornecia atrito, reação normal, alinhamento e ponto de apoio. No ar, sem contato físico, aplicar força em uma direção significava girar descontroladamente em outra.

Cael dominava a luta porque não tentava apenas acelerar; ele manipulava o equilíbrio das massas envolvidas. John apenas atirava o próprio corpo feito um projétil cego.

O comunicador vibrou no bolso interno. Elias.

John atendeu com a voz rouca: — Fala.

— O canal da ANE está despachando ambulâncias para uma queda livre de quarenta metros — começou Elias, sem rodeios. — Preciso saber se compro remédios ou um caixão.

John olhou para a greva rachada, para a placa partida de Distribuir e para a mão trêmula: — Fugindo.

Elias soltou o ar ruidosamente pelo microfone: — Eles têm drones vasculhando os acessos pluviais. Vão fechar o cerco se você continuar se arrastando nesse estado.

— Preciso de reparos.

— Essa deveria ser minha linha. O que sobrou do equipamento?

— Distribuir rachou de ponta a ponta. A greva trincou na carcaça. Os ombros continuam no lugar.

— O fato de você precisar confirmar o estado dos ombros me apavora. Se eu tiver sucata compatível, levo algumas horas; se o circuito neural tiver derretido, só amanhã.

John fixou os olhos na chapa marcada: — Não é só manutenção mecânica. Encontrei outra runa.

Silêncio do outro lado.

— É claro que encontrou — suspirou Elias. — O que ela faz?

— Repelir. Amplia a distância de um ponto material.

— Impulsionar invertido?

— Não — cortou John, a certeza forjada no impacto recente. — Impulsionar define força em um vetor. Repelir estabelece do que o corpo precisa se afastar. É uma relação de repulsão pura.

— E por que você soa como quem testou isso pulando de um viaduto?

John encarou as gotas de água que pingavam do teto da galeria: — Porque foi exatamente o que precisei fazer.

A linha emudeceu por cinco segundos inteiros.

— John…

— O traje precisa mudar, Elias. Não adianta só consertar as placas que quebraram.

— Você quase se partiu ao meio! Já tínhamos chegado a essa conclusão antes de você sair de casa!

John recostou a nuca na parede fria, o eco da queda ainda reverberando nos músculos:

— Eu sei me projetar no espaço. Consigo me afastar de uma parede e consigo alterar a trajetória enquanto caio. Mas continuo caindo sem governo.

Elias manteve o silêncio, atento.

John ergueu-se devagar, apoiando-se na alvenaria úmida do túnel: — Impulsionar entrega potência, Atrair puxa, Repelir afasta. Nenhuma delas ensina o corpo a manter o prumo no ar.

Ele guardou a chapa danificada sob as dobras do sobretudo e deu o primeiro passo rumo à escuridão da galeria:

— Eu aprendi a gerar movimento. Agora preciso aprender a dominar o vetor.

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