Capítulo 6 — Abaixo da Linha
por Valmir Jose— Elena está em casa? — perguntou Ren.
John procurou o celular entre a jaqueta rasgada e a borda do peitoral. O indicador direito tocou o aparelho, mas não conseguiu prendê-lo. O telefone deslizou, bateu numa placa e só não foi ao chão porque ele conseguiu esmagá-lo contra o quadril no último instante.
O ombro esquerdo repuxou em resposta.
John ficou imóvel por um segundo, esperando a dor baixar o bastante para respirar sem sentir que alguma coisa dentro dele tentava se separar.
— Está — respondeu.
Ren já se virava para dois agentes.
— Equipe no endereço residencial. Aproximação sem sirene. Olhem a rua antes de entrar no prédio — ordenou.
John errou a senha do celular.
As linhas verdes apareceram sobre o vidro, finas demais para serem reflexo. Contornaram seus dedos, a pressão da palma contra a capa e até o ponto exato onde o polegar sustentava o aparelho.
Ele fechou os olhos.
A luz persistiu atrás das pálpebras como uma mancha.
O sangue do nariz chegava à boca aos poucos. John engoliu o gosto de ferro, respirou pelo canto dos lábios e tentou a senha novamente.
Elena atendeu no terceiro toque.
— John?
— Tranca a porta — pediu ele.
— Boa noite para você também — rebateu Elena.
— Mãe, tranca.
A mudança na voz dele bastou.
Passos atravessaram o apartamento. A televisão ficou distante. Então veio o ruído metálico da fechadura girando.
— Pronto. Agora me explica — exigiu ela.
— Apaga a luz da sala e sai de perto da janela.
— Tem alguém na rua?
— Talvez.
— “Talvez” o quê?
John olhou para Garrick.
O Abalador permanecia de joelhos entre dois agentes. As contenções mantinham suas mãos afastadas de qualquer superfície contínua. Sangue escurecia a roupa e formava manchas quase negras sob a iluminação do pátio.
Ao redor deles, a luta ainda estava espalhada em pedaços: uma passarela caída, concreto rachado e fragmentos das placas que John perdera durante o confronto.
— Acessaram os dados das testemunhas — explicou.
— Que testemunhas?
John passou a língua pelos dentes.
— Da estação. De Hark.
— E por que você está ligando para mim?
Ele demorou um instante.
A pergunta tinha chegado exatamente ao ponto que ele vinha tentando contornar.
— Nosso endereço estava no arquivo? — perguntou Elena.
— Estava.
Do outro lado da ligação, um interruptor estalou.
Elena não respondeu por alguns segundos. John ouviu apenas o atrito da roupa dela contra a parede.
Então sua mãe murmurou:
— Tem um carro ligado lá embaixo.
Ren ergueu a cabeça imediatamente.
— Faz quanto tempo? — perguntou John.
— Não sei. Bastante.
— Você viu?
— Não preciso ver o motor.
Ren indicou o comunicador de um agente. O homem começou a transmitir a informação enquanto se afastava alguns passos.
— Consegue sentir mais alguma coisa? — questionou John.
Elena respirou devagar.
Um homem da equipe médica chamou John, mas ele levantou a mão, pedindo que esperasse.
— Tem alguém no corredor — avisou ela.
Os dedos de John apertaram o telefone.
— Onde?
— Perto da escada. Está parado.
Ren se aproximou o suficiente para falar junto ao aparelho.
— Senhora Jonathan, afaste-se da entrada. Vá para um cômodo que possa fechar — orientou.
— Quem é você?
— Agente Ren, da ANE.
— Meu filho está com você?
Ren observou o sangue seco no rosto de John. A jaqueta aberta deixava parte do peitoral exposta.
— Está — confirmou.
— Então por que ele parece estar falando com a boca cheia de sangue?
John limpou o lábio com o polegar.
— Não estou—
A maçaneta do apartamento se mexeu.
John congelou.
Conhecia aquele som.
Tinha ouvido a mesma peça emperrar em manhãs úmidas e Elena reclamar, mais vezes do que qualquer proprietário merecia, que o dono do prédio nunca mandava alguém consertá-la.
Desta vez, porém, não era umidade.
Alguém pressionava a maçaneta do lado de fora.
— Mãe? — chamou John.
— Estou ouvindo — respondeu Elena.
A voz chegava baixa. Quase sem ar.
A maçaneta tornou a descer.
Ren levou o comunicador à boca.
— Pessoa junto à porta. Tempo da equipe?
A resposta veio abafada.
John conseguiu distinguir duas palavras.
Quarenta segundos.
O homem tentou novamente.
— Elena, afaste-se — ordenou Ren.
— Já estou longe.
Uma gaveta abriu no apartamento.
John franziu a testa.
— Não vai para a cozinha — pediu.
— Estou pegando minha bolsa.
— Deixa isso.
— Meus documentos estão nela.
John fechou os olhos.
A pressão atrás deles pulsava no mesmo ritmo do joelho.
Agora, isso.
— Mãe…
— Se vocês querem me tirar de casa no meio da noite, eu não vou sem documento — rebateu Elena.
Ren não desperdiçou tempo tentando vencer uma discussão contra uma mulher que aparentemente considerava documentação pessoal parte do equipamento obrigatório de evacuação.
— Pegue a bolsa e feche-se no cômodo mais próximo — instruiu.
O apartamento ficou quieto.
John ouvia apenas a respiração de Elena e, ao redor de si, as vozes distantes dos agentes no pátio.
Então ela murmurou:
— Ele saiu da porta.
— Para onde foi?
— Está descendo.
Uma porta bateu no prédio.
Logo depois, vozes explodiram através do telefone.
— ANE! Pare!
Passos desceram a escada depressa.
John tentou se endireitar. O joelho, imóvel havia tempo demais, cedeu logo no início do movimento. Ele alcançou uma mesa próxima e segurou a borda antes que o corpo acompanhasse a perna.
Ren escutava a perseguição pelo comunicador.
— Suspeito saindo pelos fundos. Veículo em movimento — transmitiu uma voz.
John esperou.
Ren não repetiu o restante, mas o maxilar endureceu.
— Perderam? — perguntou John.
— Ainda estão acompanhando — respondeu Ren.
Não soou convincente.
Alguns segundos depois, o agente guardou o comunicador.
— Agora perderam.
O gosto de sangue na boca de John ficou mais forte.
…
A equipe encontrou a fechadura da entrada manipulada por dentro do mecanismo.
Atrás da caixa do interfone havia uma peça achatada, encaixada entre os cabos antigos.
John acompanhou a retirada por uma chamada de vídeo enquanto uma paramédica limpava o sangue de seu rosto. O pequeno aparelho não continha explosivos. Captava os acionamentos do sistema da porta e repetia parte dos sinais para um receptor externo.
Alguém vinha registrando os horários dos moradores.
Talvez houvesse dias.
Elena apareceu atrás do agente que embalava o dispositivo. Tinha a bolsa atravessada no ombro e prendia uma pasta contra o peito.
— Isso estava no nosso corredor? — perguntou.
— Estava — respondeu John.
— Desde quando?
Ele olhou para o agente na tela. O homem continuou fechando o saco de evidências sem participar da conversa.
— Ainda não sabem.
Elena apertou a pasta contra o corpo.
— E querem me levar para onde?
Uma voz fora da imagem respondeu:
— Um endereço protegido, senhora.
— Isso não é endereço — retrucou Elena.
John quase conseguiu imaginar a expressão do agente do outro lado. Explicar protocolos de segurança para Elena dificilmente apareceria nos manuais como tarefa simples.
— Vai com eles — pediu John.
Ela voltou o celular para o rosto.
— Você vem?
John procurou Ren.
O agente falava com outra equipe a alguns metros dali e não precisou ouvir a pergunta. Bastou um pequeno movimento negativo de cabeça.
— Assim que terminar aqui — respondeu John.
— Terminar o quê?
— O depoimento. O atendimento.
A imagem oscilou quando Elena mudou o telefone de mão.
Numa chapa metálica atrás dela, John viu o próprio reflexo reproduzido pela tela: rosto sem cor, gaze manchada sob o nariz e jaqueta mal fechada sobre o traje.
Elena também viu.
— O que você está vestindo? — perguntou.
John puxou a lateral da jaqueta.
— Proteção.
— Eu percebi que não é um suéter.
A paramédica entregou-lhe uma gaze limpa.
— Pressiona aqui — orientou.
Ele levou a gaze ao nariz.
— Mãe, vai com a equipe.
Elena continuou olhando para ele.
— Você vai me explicar isso.
Não perguntou quando.
Também não esperou que ele prometesse.
A chamada terminou quando os agentes a conduziram para fora do prédio.
A paramédica apontou para a maca.
— Deita.
— Consigo ficar sentado — respondeu John.
Ela indicou a gaze.
Uma mancha vermelha já atravessava o centro.
John olhou para ela por um momento.
Argumento encerrado.
Deitou-se.
O joelho estava mais inchado que antes da luta. O ombro mal passava da metade do movimento, e respirar fundo fazia uma dor estreita percorrer as costelas do lado esquerdo. Quando a paramédica apalpou o quadril, John precisou segurar a borda da maca.
A dormência no indicador e no médio não havia aumentado.
A visão preocupava mais.
— Ainda aparecem luzes? — perguntou a paramédica.
Ela moveu uma lanterna diante do rosto dele.
John viu a mão antes de ver a claridade.
Linhas verdes acompanhavam o encaixe dos dedos no cilindro e desciam pelo punho, mostrando como ela sustentava o peso da lanterna.
Ele piscou duas vezes.
O verde se desfez.
— Às vezes — respondeu.
— Agora apareceu?
— Não.
Ela abaixou a lanterna e o encarou com evidente desconfiança.
O analgésico aliviou a pontada no quadril e deixou um peso desagradável no estômago. John bebeu água, esperou alguns minutos e levantou antes que alguém resolvesse transformar observação médica em ordem formal.
O joelho demorou a firmar.
Ren estava diante de uma mesa coberta por equipamentos. Falava ao comunicador enquanto alternava informações entre duas telas. A manga direita, suja de poeira até o cotovelo, deixava uma marca escura toda vez que roçava na superfície.
Ele encerrou a chamada ao ver John.
— Sua mãe saiu do prédio — informou.
— Para onde levaram?
— Não vou dizer aqui.
Ren fechou uma janela e abriu outra.
— O intermediário de Hark morreu durante a transferência.
John parou de ajustar o peso sobre a perna boa.
— Como?
— A escolta encontrou uma ocorrência de trânsito bloqueando a rota. Dois homens vestidos de socorristas chegaram antes de a equipe confirmar quem havia pedido apoio. Um deles quebrou a janela do veículo e aplicou alguma coisa no intermediário.
Ren mostrou parte de uma fotografia.
John viu vidro espalhado sobre um banco e uma mancha no pescoço do homem antes de a imagem desaparecer.
— Garrick está vivo? — perguntou John.
— Está.
— E as outras testemunhas?
— Estamos localizando quem apareceu no arquivo.
— Quantas?
Ren fechou o registro.
— Você não precisa dessa lista.
— Meu nome estava nela. O endereço da minha mãe também — rebateu John.
— Por isso ela já está fora de casa e você deveria continuar na maca.
Uma nova janela apareceu na tela.
Ren a cobriu quase no mesmo instante.
Quase.
John leu o código no canto.
MX-BR17 / ACESSO REMOTO LEGADO
— BR17.
A mão de Ren parou sobre o controle.
— Reconheceu? — perguntou.
— Parece código antigo.
— De onde?
John lembrava de placas técnicas que permaneciam nas paredes décadas depois de os mapas terem mudado. Ninguém as substituía enquanto ainda fosse possível descobrir a que setor pertenciam.
— Ferrovia, talvez.
Ren fechou a janela.
— “Talvez” não me ajuda.
— Eu trabalho com infraestrutura ferroviária — lembrou John.
— Numa estação. Não com invasão de sistema.
John apoiou as mãos na mesa.
Sob o indicador dormente, o metal parecia coberto por uma camada grossa de tecido.
— Se entraram por uma rede de manutenção desativada, pode haver acesso físico.
— Minha equipe já está cruzando o código.
— Com plantas atuais?
Ren o encarou.
— Você entrou sozinho em Hark, mentiu em dois depoimentos e apareceu hoje usando uma coisa que ninguém aqui sabia que existia. Depois ajudou a prender Garrick e quase caiu desacordado. Agora alguém foi à casa da sua mãe.
John desviou os olhos para a tela apagada.
Ren esfregou a sobrancelha com o polegar.
— Eu não preciso arrancar todos os seus segredos esta noite para perceber que continuar desse jeito não está funcionando.
— E se o vazamento estiver dentro da ANE? — questionou John.
— Estamos tratando como se estivesse.
John tornou a encará-lo.
Ren continuou:
— O endereço para onde Elena foi não passou pelo canal comprometido. A transferência também não aparece no sistema comum. Quatro pessoas conhecem o destino final.
— Você confia nelas?
— Em graus diferentes.
A resposta não era reconfortante.
Por isso mesmo, funcionou melhor que uma garantia vazia teria funcionado.
— Vá ficar com sua mãe — orientou Ren. — Se lembrar de algo concreto sobre o código, me liga.
John se afastou sem concordar.
— Jonathan — chamou Ren.
Ele parou.
— Não faça eu precisar procurar você também.
…
O apartamento seguro ficava sobre uma clínica fechada.
O prédio conservava pequenos ruídos do estabelecimento mesmo sem pacientes ou funcionários: o estalo do metal se contraindo num refrigerador desligado, água percorrendo uma tubulação e os vidros do térreo vibrando quando veículos pesados passavam pela avenida.
Elena havia organizado os documentos sobre a mesa.
A comida diante dela permanecia quase intocada.
John sentou do outro lado. Não tinha fome, mas mastigou mesmo assim. O analgésico pesava no estômago, e o cheiro da comida aumentava a náusea que ele tentava ignorar.
Elena empurrou um legume pelo prato.
— A fechadura da entrada estava mexida — comentou.
— Vi no vídeo.
— O agente disse que o aparelho anotava quando as pessoas entravam.
John levou outra garfada à boca.
Ela pousou o garfo.
— Você disse que estava na lista porque testemunhou o ataque.
— Foi o que aconteceu — respondeu John.
— O homem no corredor não parecia interessado em perguntar o que você viu.
John bebeu água.
O espaço entre uma pergunta e outra se alongou.
Nenhuma resposta surgiu nele por boa vontade.
— Mataram outra testemunha hoje — revelou.
Elena ergueu os olhos.
John não pretendia contar aquilo.
Tarde demais.
— Quem? — perguntou ela.
— Um homem ligado a Hark.
— E o que liga você a Hark?
John tornou a pegar o copo, embora estivesse vazio.
Elena observou a manga da jaqueta. A braçadeira criava um volume duro sob o tecido, largo demais para passar por curativo.
Ela não perguntou o que havia ali.
Em vez disso, estendeu a mão.
— Me dá sua mão direita.
— Para quê?
— Me dá.
John apoiou a mão sobre a mesa.
Elena aproximou os dedos antes de tocá-lo. A testa se contraiu.
— Ainda está quente — constatou.
— Pode ser o remédio.
Ela segurou o pulso.
— Só nesta mão?
John puxou o braço devagar.
— Eu sei que está estranha.
Elena recolheu a própria mão e voltou ao prato.
— Senior também respondia “eu sei”.
John não tocou mais na comida.
Ela cortou um pedaço pequeno demais e o deixou preso nos dentes do garfo.
— Quando queria que eu parasse de falar, dizia exatamente assim.
A tubulação estalou sob o piso.
John esperou que ela continuasse.
Elena levou o garfo à boca, mastigou sem pressa e empurrou o comprimido na direção dele.
— Termina de comer antes de tomar.
Ela preferira mudar de assunto.
John teria lidado melhor com outra pergunta.
Quando Elena foi para o quarto improvisado, ele abriu no celular uma cópia dos mapas usados pela manutenção.
Pesquisou BR17.
O sistema devolveu referências recentes. Nenhuma estava ligada a ramais antigos.
Com um hífen, apareceu uma casa técnica demolida durante a expansão leste.
John abriu a planta e encontrou uma tabela de equivalência.
Na documentação antiga, o código não começava por BR.
Começava por B-R.
Ele tentou separar os caracteres da maneira usada nos setores décadas atrás: nível, ramal e número da instalação.
B-RK-17.
Um arquivo digitalizado surgiu com o título quase apagado.
RAMAL DE RETORNO / CASA DE RELÉS
John ampliou a imagem.
O ramal passava sob uma linha desativada na parte antiga de Meridian. Na planta atual, os corredores de serviço terminavam antes do quarteirão seguinte.
Uma cópia mais velha mostrava outra coisa.
O túnel prosseguia sob uma área de carga e encontrava a drenagem municipal.
BR17 não era B-RK-17.
Podia ser coincidência.
Também podia ser uma abreviação mal preservada num registro herdado de outro sistema.
Hark estava cercada por rotas industriais antigas e instalações que permaneciam fisicamente no lugar muito depois de desaparecerem dos mapas públicos.
John abriu a conversa com Ren e digitou:
BR17 pode ser B-RK-17. Ramal antigo sob a linha desativada.
O polegar ficou sobre o botão de envio.
O vazamento dentro da ANE não tornava Ren culpado. Tudo o que John vira naquela noite sugeria o contrário.
Mas a mensagem ainda teria de atravessar algum sistema.
E ele não sabia quem estava olhando.
Apagou o texto.
Assim que a caixa ficou vazia, a decisão já lhe pareceu ruim.
Esperou vinte minutos.
Na janela, não tocou na cortina. Usou o reflexo do vidro para acompanhar a rua. Um carro permanecia parado do outro lado, mas um agente saiu dele quando outra viatura discreta passou.
John voltou à mesa.
Deu mais tempo ao trânsito, observou os faróis refletidos no teto e tentou identificar algum veículo que surgisse duas vezes.
Quando pegou a mochila, Elena continuava no quarto.
Ele escreveu:
Preciso verificar uma coisa. Ren sabe onde estou. Volto assim que puder.
Leu a mensagem.
Ren não sabia.
Excelente ideia.
John enviou antes que o próprio bom senso conseguisse apresentar recurso.
…
Caminhou quatro quarteirões antes de chamar transporte.
A cada semáforo, o joelho endurecia durante a espera e protestava nos primeiros passos.
Pegou um ônibus. Desceu seis paradas depois e entrou numa farmácia, onde permaneceu entre as prateleiras até o veículo desaparecer no trânsito. Depois chamou um carro por aplicativo e desceu longe do endereço.
O restante fez a pé.
Usou vitrines, janelas e vidros de veículos estacionados para conferir o movimento atrás de si.
Não viu perseguidor algum.
Isso não provava coisa nenhuma.
Vestiu o traje no banheiro de uma estação de serviço parcialmente fechada para reforma.
Colocou as grevas sentado e precisou apoiar a perna ruim sobre a lixeira para alcançar a presilha inferior. O peitoral foi pior. Uma correia raspou a pele machucada sobre as costelas, e John parou no meio do ajuste, respirando curto até a dor recuar.
Quando terminou a braçadeira direita, suor escorria pelo queixo.
O tecido sob as placas grudava no corpo.
Desmontado, o traje parecia menos uma armadura e mais um conjunto de peças negociando entre si a possibilidade de formar uma: metal reaproveitado, encaixes corrigidos por Elias e presilhas que ainda prendiam quando recebiam peso no ângulo errado.
John fechou a jaqueta.
O acesso B-RK-17 ficava atrás de um portão coberto por soldas antigas. A placa municipal perdera tinta suficiente para tornar o aviso ilegível.
Ele contornou o prédio.
Parafusos novos prendiam uma grade de ventilação velha na lateral. Um cabo recente entrava por uma abertura próxima ao chão.
John se ajoelhou para examiná-lo.
Para levantar, precisou usar a parede.
O joelho latejou até a coxa.
O cabo o conduziu a uma entrada de manutenção. A fechadura principal havia sido substituída, mas uma porta lateral conservava um encaixe antigo, do mesmo tipo usado nos armários técnicos da estação.
A ferramenta escapou de seus dedos uma vez.
Depois outra.
Quando a porta finalmente cedeu, John já respirava depressa.
A escada descia além do alcance da luz externa.
Após poucos degraus, ele virou o corpo e passou a manter a perna ruim quase reta. O corrimão deixava ferrugem na palma.
Lá embaixo, o ar grudava na pele.
Ferrugem úmida. Água parada. E o cheiro adocicado de isolamento elétrico aquecido.
Um gerador trabalhava em algum ponto adiante.
As luminárias ferroviárias estavam mortas. No lugar delas, lâmpadas domésticas pendiam de conduítes improvisados e lançavam uma claridade desigual pelas paredes.
O corredor desembocou numa plataforma abandonada.
John permaneceu na entrada até entender o movimento.
Um homem empurrava caixas num carrinho sobre chapas colocadas entre os trilhos. Compradores esperavam diante das antigas salas de manutenção, agora transformadas em balcões. A lateral de um vagão sem rodas havia sido cortada para servir de porta.
As pessoas escondiam o rosto.
Quase ninguém, contudo, demonstrava interesse em descobrir quem estava sob os outros capuzes.
John entrou no fluxo.
Um vendedor abriu uma caixa acolchoada. Dentro dela, uma peça metálica avançou alguns centímetros, parou e retornou pelo mesmo caminho.
— Quanto tempo ainda dura? — perguntou o comprador.
— Depende do uso — respondeu o vendedor.
— Já está degradando.
— E o preço já caiu.
A tampa se fechou antes que John visse mais.
Perto dali, o ar tremia sobre um recipiente grosso. Uma mulher aproximou um medidor e retirou a mão depressa.
— Está vazando — reclamou.
O comerciante continuou sentado.
— Pouco.
— Pouco ainda queima.
— Então não carrega no colo.
O calor alcançou o rosto de John quando ele passou.
O lugar negociava objetos, mas o que importava estava preso dentro deles: movimento que não terminava, calor sem fonte aparente, efeitos arrancados de algum ponto e mantidos ali até perderem força.
Mais adiante, caixas cinzentas ocupavam uma estante de metal.
Os selos governamentais tinham sido raspados, deixando marcas claras na pintura. Uma delas ainda conservava parte do número de controle.
Era o mesmo tipo levado para Hark.
John diminuiu o passo.
Um guarda percebeu.
— Continua — ordenou.
John continuou.
Na passagem para a plataforma seguinte, outro homem se colocou diante dele.
— Pulseira.
John olhou para o pulso vazio.
— Manutenção.
— Pulseira.
— Chamaram por causa da alimentação do corredor.
— Quem chamou?
John levantou os olhos para ganhar tempo.
Uma mancha marrom cercava a saída de dois cabos numa caixa de derivação. O isolamento, esmagado contra a borda metálica, começava a se deformar.
O cheiro de plástico quente vinha dali.
— Se eu soubesse quem montou isso, começava cobrando dele — respondeu John.
O guarda acompanhou seu olhar.
John se aproximou.
— Não toca — advertiu o homem.
— Então desliga o setor.
— Está funcionando.
— Por enquanto.
John apontou para a saída do cabo.
— A borda já atravessou a primeira camada. Quando alcançar o condutor, a caixa inteira fica energizada. Isso se o disjuntor improvisado abrir antes.
A lâmpada acima deles oscilou.
O guarda olhou para o painel preso à parede e depois tornou a encarar John.
— Você trouxe ferramenta?
— Trouxe. Preciso de fita.
— Manutenção sem fita?
— Não me disseram que o reparo daqui era feito com lixo.
O homem abriu a gaveta do posto e jogou-lhe um rolo.
John soltou a tampa.
O indicador direito falhou na cabeça do parafuso, obrigando-o a trocar a posição da ferramenta.
Não podia corrigir a instalação sem interromper a energia. Fez o possível: afastou o cabo da borda e reforçou a capa danificada.
— Isso só impede que piore hoje — avisou.
— Vai durar até amanhã?
— Se ninguém puxar o cabo.
O guarda tomou a fita de volta.
— Cinco minutos. Corredor técnico. Se perguntarem, você não passou por mim.
John avançou.
Trinta metros depois, encontrou outra porta com controle próprio.
Dois carregadores esperavam para atravessar. Quando uma técnica saiu empurrando uma maca vazia, John segurou a porta com o ombro e entrou atrás deles.
Ela lançou-lhe um olhar irritado, ocupada demais com uma roda travada para perguntar quem ele era.
O cheiro de desinfetante dominava o corredor.
Por baixo dele havia suor velho, umidade e algo que lembrava um curativo mantido tempo demais sobre uma ferida.
Uma placa identificava a primeira sala:
ÁREA DE ESTABILIZAÇÃO
Equipamentos médicos reaproveitados ocupavam o interior. Tubos sem marca corriam entre suportes e recipientes escondidos atrás de uma divisória.
Uma mulher estava incorporada à estrutura central.
John parou.
A lateral do tronco dela desaparecia numa massa escura atravessada por metal e partes translúcidas. A perna direita permanecia reconhecível até o joelho.
Abaixo dele, corpo e máquina já não ofereciam uma separação clara.
John encontrou a palavra numa placa presa ao suporte.
CLASSIFICAÇÃO: FUNDIDO
A mulher abriu os olhos.
— Água — murmurou.
Uma técnica ajustava uma válvula na base.
— A pressão caiu de novo — avisou para alguém no corredor.
Ninguém veio.
— Água — repetiu a mulher.
John parou junto à entrada.
A técnica ergueu a cabeça.
— Se veio avaliar, espera.
— Avaliar o quê?
Ela o examinou por um instante.
— Então você não veio avaliar.
Voltou à válvula.
A mulher pediu água outra vez.
Havia uma garrafa vazia caída perto do suporte.
— Ela consegue beber? — perguntou John.
— Não direito.
— Por que ninguém—
A técnica puxou um tubo para conferir o encaixe.
— Porque ela pede mesmo quando não consegue.
As linhas verdes surgiram antes que John decidisse se aproximar.
Começaram nos suportes.
Mostraram o peso do corpo sobre a armação e a pressão presa nas junções.
Então atravessaram a mulher.
John seguiu uma delas.
Sua perna esquerda apertou dentro da greva.
Ele baixou os olhos.
Não havia nada prendendo-a além das correias.
A pressão, porém, permaneceu.
Funda.
Ao redor de um osso que não era o dele.
A língua secou.
Seu braço direito pareceu atravessar a palma e prosseguir para dentro do metal.
John tentou recuar.
O corpo respondeu com movimentos desencontrados.
Por um instante curto demais para medir, ele não soube se a perna imóvel era sua ou da mulher.
A pressão alcançou as raízes dos dentes.
Sangue quente tocou seu lábio.
John bateu a mão na parede.
A pancada acordou a dor no ombro.
Concreto sob a palma.
O joelho ruim tremendo.
O peitoral comprimindo suas costelas.
Seu corpo.
John afastou-se da conexão.
O verde perdeu força, mas a náusea permaneceu.
— Ei — chamou a técnica. — Seu nariz.
Ele limpou o sangue com a manga.
— Já estava assim.
Ela olhou para o curativo em sua mão, depois para o traje mal escondido sob a jaqueta.
Decidiu que talvez aquela noite já tivesse perguntas suficientes.
John pegou a garrafa que carregava.
— Não despeja na boca — advertiu a técnica. — Ela pode aspirar.
Ele molhou os dedos e tocou os lábios da mulher.
Os olhos dela se fecharam.
A mão esquerda abandonou o repouso e procurou a garrafa, errando a distância por poucos centímetros.
John saiu antes que a técnica o expulsasse.
Na sala seguinte, um rapaz estava preso a uma cadeira larga.
Parecia ter idade próxima à dele. Placas saíam do encosto e encontravam o corpo perto das costelas. Tubos seguiam da base para recipientes do outro lado da parede.
A ficha pendurada no suporte dizia:
CAPACIDADE ÚTIL: 61%
QUEDA PROJETADA: 4 DIAS
O rapaz batia a ponta do pé contra a cadeira.
O equipamento respondia com um ruído baixo.
Alguns segundos depois, o pé tornava a bater.
John permitiu que Compreender tocasse apenas a superfície daquela relação.
O núcleo implantado mantinha o conjunto estável.
O corpo fornecia alguma coisa que os tubos retiravam.
Quando o fluxo enfraquecia, a cadeira enviava um estímulo.
O ciclo recomeçava.
O rapaz ergueu os olhos.
— Saída?
John demorou um instante para perceber que a pergunta era dirigida a ele.
— Tem uma saída — respondeu.
O rapaz olhou para o corredor.
— Eu tava… indo…
O equipamento vibrou.
O pé atingiu a base e os olhos dele perderam o foco.
— Saída?
John segurou a lateral da porta.
Compreender mostrava as ligações.
Não mostrava onde poderiam ser rompidas sem matar quem estava preso a elas.
Remover o núcleo podia libertar os dois Fundidos.
Ou podia apenas apressar o que as fichas chamavam de queda.
Ele não tinha como saber.
Dois funcionários passaram pelo corredor.
— Krell quer o lote revisado antes de fechar — comentou um deles.
O outro diminuiu o passo.
— Hoje?
— Foi o que mandaram.
John reteve o nome.
Krell.
Na plataforma, o movimento das pessoas mudou.
Ninguém parou.
Ainda assim, caixas saíram do caminho e as conversas diminuíram.
Um homem atravessava o lugar acompanhado por duas pessoas.
Sua roupa escura tinha um corte preciso demais para aquele ambiente. Sob a pele do pescoço, pequenos pontos luminosos apareciam quando ele passava pelas lâmpadas.
Um comerciante interrompeu uma discussão no meio da frase.
Outro baixou os olhos.
John fez o mesmo.
Esperou o grupo entrar num corredor e aproveitou a porta técnica que eles haviam deixado entreaberta.
A sala guardava caixas empilhadas e uma tela conectada à rede interna.
O equipamento era antigo.
Marcas claras nas teclas mostravam que alguém ainda o usava com frequência.
John tocou no controle.
A tela reuniu lotes, transferências e registros de origem. Alguns números de série estavam riscados. Outros permaneciam ligados a órgãos públicos.
Ele filtrou pela data.
Encontrou Hark.
RECUPERAÇÃO PARCIAL — 2/3
Dois números correspondiam às caixas tomadas por Garrick.
O espaço reservado ao terceiro continuava vazio.
John retirou o celular.
O suor nos dedos impediu o desbloqueio na primeira tentativa.
Tentou de novo.
Fotografou a tela.
Passos atravessaram o corredor.
John manteve o telefone junto ao corpo até o som se afastar.
Outro arquivo registrava Fundidos por códigos. Ele viu percentuais e datas, mas não permaneceu tempo suficiente para organizar o que significavam.
Desceu a página.
LOTE 9 — NÚCLEOS E HOSPEDEIROS COMPATÍVEIS
A mão tremia quando aproximou o celular.
John tirou a fotografia.
Então leu a linha seguinte.
DESTINO: RESTAURADOR
Tentou abrir o registro.
Nada.
Nenhum nome visível.
Nenhum endereço associado.
Os passos retornaram.
Desta vez, pararam diante da sala.
A tela apagou.
As lâmpadas morreram junto com ela.
John recuou e bateu o quadril na mesa.
Um mecanismo correu dentro da porta.
Ele agarrou a maçaneta e girou.
Travada.
Uma voz atravessou o metal:
— Tem um intruso na área de estoque.
John guardou o celular.
As linhas verdes surgiram pelas paredes.
Subiram pelo concreto.
Espalharam-se pelo teto.
Quando alcançaram a porta, revelaram o mecanismo de trava penetrando cada vez mais fundo na estrutura.
O que você achou deste capítulo?
para reagir.


— Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
— Evite spoilers do capítulo ou da história.
— Comentários ofensivos serão removidos.
Use os comentários para conversar sobre a leitura sem estragar a experiência de quem ainda está acompanhando.