Capítulo 4 — O Abalador
por Valmir JoseA imagem não mostrou fratura.
John ficou olhando para o próprio ombro em tons de cinza enquanto a médica ampliava uma região que, para ele, ainda parecia apenas osso sobre osso.
— A boa notícia é que você não arrancou nada do lugar — informou ela.
— E a ruim?
A médica afastou a tela.
— Você pegou uma lesão que precisava de repouso e resolveu testar quanto ela aguentava.
John não respondeu.
A médica já tinha lido o relatório do Terminal Central Leste. Não precisava conhecer a parte que ficara fora dele.
A distensão piorara, mas não havia ruptura completa. Mais cinco dias de afastamento, braço sem carga e analgésico se necessário. Deveria retornar imediatamente caso a dormência aumentasse. A sensibilidade alterada nos dedos podia vir da queimadura ou do trauma repetido no membro.
O sangramento no nariz a preocupou menos.
Pressão e exaustão, segundo ela. Esforço demais para alguém que já estava machucado.
John deixou que acreditasse nisso.
A alternativa exigiria uma conversa consideravelmente mais longa.
…
O depoimento à ANE durou quarenta e sete minutos.
Ren perguntou onde ele estava quando percebeu o carrinho, por que entrara na área isolada e quanto tempo permanecera próximo da criança. Quis saber também se John havia tocado alguma estrutura antes de o objeto mudar de direção.
John respondeu com verdades cortadas.
Estava saindo do posto administrativo. Entrou porque a menina ficara presa. Tentou libertar a mochila e se abaixou perto do trilho. Viu a luz depois que o carrinho mudou de direção.
Ren não o acusou.
Também não pareceu convencido.
— Seu registro ainda consta como Nulo — comentou, perto do fim.
John sustentou o olhar.
— Porque eu sou.
Ren anotou alguma coisa.
— Seu último exame foi aos dezessete?
— Sim.
— Alguma mudança desde então? — questionou o agente.
Era quase a mesma pergunta da ligação anterior.
— Não.
A caneta de Ren parou sobre o formulário.
Ele observou John por tempo suficiente para tornar o silêncio desconfortável, mas não insistiu.
— Certo.
Nenhum agente pediu para abrir a mochila. Não havia mandado, prisão ou acusação formal. John saiu do hospital com o caderno, os dois marcadores e o protocolo da ANE exatamente onde os colocara.
Elena perguntou menos quando ele chegou em casa do que esperava.
Viu a nova tipoia, leu os cinco dias no documento e abriu espaço na geladeira para os medicamentos.
— O que você falou para eles? — perguntou.
— O que aconteceu.
Ela fechou a porta da geladeira.
— Tudo?
John demorou um pouco demais.
Elena se virou para a pia.
— Foi o que imaginei.
O assunto morreu ali.
A pergunta, não.
…
No terceiro comprimido que restava na cartela, as bordas das placas já tinham parado de cortar o pano.
John descobrira isso da maneira mais simples: duas delas haviam rasgado uma camiseta velha.
Eram quatro retângulos de aço comum, nenhum maior que sua mão aberta. Comprara duas chapas finas numa loja de material usado da Zona Amarela 14. O restante viera de uma proteção descartada que encontrara numa pilha de sucata vendida por peso.
John lixara as quinas e abrira os furos necessários. Em duas placas, passou tiras de tecido resistente. Uma ficava presa ao antebraço direito; outra, na lateral do tronco. As restantes iam na mochila.
O peso incomodava.
A placa no braço girava quando ele movia o punho. A do tronco pressionava uma costela sempre que se sentava.
Aquilo não era uma armadura.
John confirmara isso ao bater uma das peças contra a mesa e sentir a vibração subir pela mão.
Metal rígido transmitia força muito bem.
Talvez bem demais.
Ainda assim, oferecia algo que papel e tecido não ofereciam: uma superfície sólida que ele podia levar consigo.
Naquela tarde, desenhara Sustentar numa placa e a pressionara contra uma tábua rachada.
Nada.
Tentou compreender a placa como intermediária, imaginando que ela pudesse carregar o efeito até a madeira.
Também não funcionou.
O verde só surgia quando a inscrição participava da relação material correta.
A placa não era um controle remoto.
Metade das ideias rabiscadas no caderno perdeu a utilidade de uma vez. A outra metade, por mérito próprio, já não inspirava muita confiança.
O celular vibrou sobre a mesa.
John esperava outra mensagem da ANE, mas recebeu um alerta de notícias.
NOVOS DANOS INTERDITAM ACESSO AO DEPÓSITO MUNICIPAL DE HARK
Quase dispensou a notificação.
Hark ficava a pouco mais de três quilômetros da estação atacada por Garrick.
John abriu a matéria.
Uma parede de contenção havia se rompido durante a madrugada. Não havia vítimas. Técnicos municipais atribuíam o dano, inicialmente, à passagem de um veículo pesado por uma via de serviço.
A fotografia mostrava o muro.
John ampliou a imagem.
Uma rachadura horizontal partia da altura de um suporte antigo e seguia por quase dois metros antes de se dividir.
Aquilo podia ser qualquer coisa.
Concreto velho quebrava.
Caminhões batiam em estruturas.
Abriu outra notícia.
A mesma parede aparecia de outro ângulo. Na base, havia uma área circular de concreto esfarelado.
John aproximou a imagem até perder definição.
Lembrou-se da passarela.
Da vibração correndo pelo apoio.
Da maneira como Garrick protegera os dedos antes de golpear.
Abriu o mapa.
Hark não ficava apenas perto da estação. O bairro estava ao lado de uma das rotas usadas quando o acesso principal do setor de carga era fechado.
John deixou o telefone sobre a mesa.
Coincidência ainda era possível.
Dez minutos depois, estava diante do computador.
Seu acesso de funcionário continuava ativo apesar do afastamento. Não permitia consultar cargas restritas nem informações sobre agentes. Ainda servia, porém, para acessar avisos operacionais emitidos durante o turno do ataque.
Ele precisava daquele acesso para manutenção.
Encontrou o bloqueio da passarela, a ordem de evacuação e a interdição do setor norte.
Mais abaixo havia um aviso que não se lembrava de ter lido naquela noite.
TRANSFERÊNCIA DE MATERIAL ESTATAL — ACESSO DE CARGA INDISPONÍVEL. REMANEJAMENTO PARA CORREDOR H-4.
Nenhuma descrição do material.
O corredor H-4 seguia para Hark.
John ficou algum tempo olhando para a tela.
Garrick saíra da estação carregando alguma coisa. Se o alvo dele estivesse naquele carregamento, por que atacar Hark depois?
Talvez tivesse deixado algo para trás.
Ou roubado a caixa errada.
John pegou o celular. O número da ANE estava salvo, e o contato de Ren permanecia no histórico.
Digitou:
Possível dano de Fratura em Hark.
Parou.
Como explicaria por que estava procurando?
Funcionários da estação tinham acesso aos avisos. Não havia feito nada ilegal.
Mesmo assim, apagou a mensagem.
Se estivesse errado, entregaria à ANE mais uma ligação entre ele e Garrick.
Se estivesse certo, cada minuto desperdiçado podia—
John fechou os olhos.
Até onde vou com isso?
Aquele raciocínio tinha uma direção bastante previsível, e hospitais já ocupavam espaço demais em sua semana.
O celular vibrou antes que decidisse.
Outro alerta.
EVACUAÇÃO PREVENTIVA EM HARK APÓS SEGUNDO ABALO
John se levantou.
…
Elena encontraria a cama vazia e a tipoia sobre a cadeira.
John só pensaria nisso mais tarde.
Naquele momento, estava dentro de um ônibus, com quatro placas de aço batendo na mochila e uma jaqueta larga escondendo a que prendera ao antebraço.
O ombro suportava o braço desde que ele não o erguesse demais. O quadril melhorara o suficiente para permitir uma caminhada sem mancar nos primeiros metros.
Correr continuava sendo uma ideia ruim.
Por isso, evidentemente, aquela possibilidade não demoraria a aparecer.
Hark era um bairro de depósitos antigos, comprimido entre uma linha elevada de carga e construções residenciais erguidas décadas depois. Oficinas ocupavam galpões abandonados. Caminhões dividiam as ruas com vendedores de comida e moradores dos prédios baixos.
John desceu duas quadras antes do bloqueio.
O primeiro endereço foi inútil.
Encontrou funcionários municipais reunidos perto do muro quebrado. Uma escavadeira permanecia parada junto à calçada enquanto os técnicos discutiam o risco de desabamento.
John observou durante quinze minutos.
Um dos técnicos comentou com outro que alguém entrara num depósito vazio e abrira uma parede interna.
John contornou o quarteirão.
A parede havia sido rompida de dentro para fora.
Talvez tivesse seguido uma pista errada.
Então viu o segundo dano.
Não ficava no depósito, mas num poste de concreto quase cinquenta metros adiante. Uma fissura circular cercava a base. Era pequena demais para justificar uma interdição e distante demais para aparecer nas fotografias.
John tocou o concreto.
A pressão surgiu atrás dos olhos.
Compreender não lhe entregou uma resposta pronta.
Vieram tensão.
Continuidade.
Um resto de vibração dispersando-se pela massa do poste.
A sensação era fraca.
Mas recente.
John retirou a mão.
Garrick estivera ali.
O poste ficava ao lado de um corredor estreito entre duas oficinas.
John entrou.
Encontrou outra marca numa viga baixa. Mais adiante havia uma porta metálica cujo fecho se partira sem que a chapa tivesse sido amassada.
Garrick não destruía ao acaso.
Estava abrindo caminho.
O corredor desembocava numa rua de serviço.
John viu o homem a quase oitenta metros.
Mesmo de costas, era difícil confundi-lo.
Garrick ocupava espaço demais.
Usava um casaco escuro aberto sobre a roupa de trabalho. Uma faixa grossa envolvia sua mão direita, mantendo dois dedos imobilizados. A esquerda também estava coberta por curativos, embora menos.
Ele caminhava depressa.
John recuou antes que Garrick olhasse em sua direção.
Seu primeiro impulso foi pegar o telefone.
Agora tinha certeza suficiente para chamar a ANE.
Tirou o aparelho do bolso.
Garrick atravessou a rua no momento em que um furgão parou junto ao meio-fio. O motorista abriu a porta lateral, e ele entrou.
— Merda — resmungou John.
Guardou o telefone e saiu do corredor.
O furgão arrancou.
Não conseguiria acompanhá-lo a pé.
Um ônibus se aproximava numa via paralela. John correu para o ponto, sentindo o quadril protestar antes de alcançar a metade do caminho. Entrou pela porta traseira quando ela já começava a fechar.
O furgão permaneceu visível por duas quadras.
Depois por mais uma.
Sumiu atrás de um viaduto.
John quase desceu, mas percebeu que a via escolhida por Garrick só possuía duas saídas antes da antiga linha de carga.
Conhecia a região por causa dos mapas de manutenção.
Saltou no ponto seguinte, atravessou por baixo do elevado e cortou caminho por uma passagem de pedestres.
Quando voltou à rua de serviço, encontrou o furgão parado.
Não havia motorista.
A porta lateral permanecia aberta.
Garrick seguia a pé.
John reduziu o ritmo.
Talvez Garrick soubesse que veículos eram fáceis de rastrear. Talvez o motorista simplesmente não quisesse chegar mais perto.
O homem entrou pelo portão de um complexo industrial desativado.
John esperou quase um minuto.
Então foi atrás dele.
…
O complexo havia sido uma central de manutenção de veículos públicos.
Restavam alguns galpões baixos ligados por rampas de concreto. Passarelas técnicas atravessavam antigas valas de inspeção.
John perdeu Garrick no primeiro galpão.
Encontrou-o novamente pelo som de uma pancada abafada.
Depois veio o ruído de concreto cedendo.
John aproximou-se por trás de uma divisória.
Garrick estava diante de um armário industrial embutido na parede. Não golpeava com o punho fechado. Pressionava a base da palma esquerda contra o concreto, protegendo os dedos machucados.
A parede vibrou.
Fissuras contornaram o armário.
Garrick recuou e apertou a mão contra o peito. Sua respiração ficou pesada.
— Abre essa merda — ordenou.
Um homem magro estava ajoelhado diante da fechadura eletrônica.
— Você quebrou a alimentação — reclamou ele.
— Então abre sem ela.
— É fácil falar quando sua ferramenta é derrubar prédio.
Garrick olhou para ele.
O homem voltou ao trabalho sem precisar de outra ameaça.
John permaneceu atrás da divisória.
O carregamento estava ali.
Pensou em ligar para Ren e, dessa vez, realmente pegou o celular.
Sem sinal.
O ícone oscilou antes de desaparecer. Parte do galpão ficava abaixo do nível da rua, cercada por concreto.
John guardou o aparelho.
Podia voltar até o portão.
Devia voltar.
O armário se abriu.
O homem magro retirou duas caixas cinzentas.
Garrick verificou a primeira.
— Só duas?
— Foi o que chegou.
— Eram três.
— Então procura no bolso — rebateu o homem.
Garrick agarrou-o pela camisa com a mão esquerda.
— O terceiro saiu da estação junto.
— Não chegou aqui.
— Chegou.
— Eu recebi duas caixas, Dren.
John se inclinou um pouco mais.
Núcleos?
Ainda não haviam pronunciado a palavra.
Garrick soltou o homem.
— Quem mexeu nisso?
— A segurança municipal recolheu o que encontrou depois do desvio. Parte veio para cá antes de a ANE assumir. Tirei essas duas antes do inventário.
Garrick abriu uma das caixas.
John não conseguiu ver o interior.
O homem magro tornou a fechá-la imediatamente.
— Não abre isso aqui.
— Quero saber se são os certos.
— E eu quero continuar com todos os dedos.
Garrick olhou para as próprias mãos enfaixadas.
— Superestimado.
O outro homem não riu.
John quase compreendeu o motivo.
Recuou.
Tinha informação suficiente.
Precisava sair.
Seu tênis raspou numa porca caída.
A peça rolou pelo chão.
O ruído foi pequeno.
Ainda assim, Garrick virou a cabeça.
John se abaixou atrás da divisória.
Silêncio.
Então vieram passos.
John puxou uma das placas da mochila.
Os passos se aproximaram.
A divisória terminava diante de uma passarela estreita, construída sobre uma vala de inspeção com quase três metros de profundidade. Havia uma escada do outro lado.
John atravessou.
Garrick apareceu atrás dele.
— Ei.
John correu.
A passarela terminava antes de alcançar a escada.
Faltava uma seção de quase um metro, provavelmente removida anos antes.
John parou junto à abertura.
A vala estava cheia de peças velhas.
Garrick vinha atrás dele sem pressa.
Não precisava correr.
John colocou a placa sobre o espaço vazio.
Curta demais.
Uma extremidade ficou apoiada na borda, mas a outra alcançou apenas alguns centímetros do concreto oposto.
Não suportaria uma passada.
John procurou outra saída.
Uma tubulação antiga acompanhava a parede lateral e seguia até a escada. Poderia tentar descer por ela, mas o ombro não aguentaria.
Garrick estava a menos de quinze metros.
John pressionou a placa contra a parede.
Queria que permanecesse ali.
Nada aconteceu.
Faltou alguma coisa.
A inscrição.
Abriu o marcador com os dentes e começou a desenhar Sustentar.
Parou na segunda linha.
Sustentar o quê?
A placa estava inteira.
A parede também.
Não precisava preservar a integridade de nenhuma delas.
Precisava manter o contato.
John olhou para a junção entre o aço e o concreto.
Duas superfícies.
As linhas verdes apareceram em fragmentos.
A pressão de sua mão mantinha a placa contra a parede, mas o peso a puxava para baixo. Não havia atrito suficiente. Assim que soltasse, a relação terminaria.
A nova geometria não se fechava como Sustentar.
Também não apontava como Impulsionar.
Espalhava-se pela área de contato.
John começou a desenhar.
A ponta do marcador falhou sobre uma mancha de ferrugem.
— Anda — murmurou.
Passou a ponta outra vez, usando força suficiente para fazê-la chiar sobre o metal.
Garrick já estava perto o bastante para que John ouvisse sua respiração.
John pressionou a placa contra a parede.
Ficar.
Juntas.
Contato.
O verde surgiu sob seus dedos.
Ele retirou a mão.
A placa permaneceu presa ao concreto.
A palavra chegou incompleta.
Prender.
Fixar.
Aderir.
John colocou o pé sobre a borda.
O metal suportou o peso.
Transferiu o corpo devagar.
A pressão atrás dos olhos aumentou.
A placa gemeu.
Não escorregou.
John alcançou a tubulação com a mão direita. Ainda mantinha um pé sobre o aço quando puxou o corpo para a escada.
— Que diabos… — murmurou Garrick.
Ele tinha visto a luz.
John começou a descer.
Acima dele, Garrick encostou a mão na passarela.
John entendeu o que aconteceria antes do impacto.
— Não.
A vibração entrou no metal.
Percorreu a estrutura.
Chegou à parede.
A placa aderida não interrompeu o caminho.
Transformou-se em parte dele.
A força atravessou o aço e entrou pela bota de John.
O joelho cedeu.
Ele despencou pelos últimos degraus e bateu de lado no piso inferior.
A placa se soltou da parede, levando consigo uma camada superficial de concreto.
Caiu dentro da vala.
A luz se apagou.
John permaneceu no chão, tentando recuperar o ar.
Acima, Garrick observou o ponto onde a placa estivera.
Depois olhou para ele.
— É você nos vídeos? — perguntou.
John conseguiu se levantar.
Não respondeu.
Garrick apoiou a mão na grade.
John recuou no mesmo instante.
— Espera.
A palavra escapou antes que ele encontrasse qualquer coisa para dizer depois.
Até Garrick pareceu estranhar o pedido.
— Por quê?
John abriu a boca.
Nenhuma resposta veio.
Tinha pedido uma pausa no meio de uma luta como se houvesse algum regulamento secreto obrigando Garrick a respeitá-la.
A percepção do absurdo chegou um segundo tarde demais.
Garrick também percebeu.
A palma dele tornou a pressionar o metal, e a primeira vibração entrou na grade.
John pegou outra placa da mochila e a deixou cair diante dos pés.
Impulsionar poderia afastá-lo, mas o recuo atingiria novamente seu ombro.
Sustentar talvez preservasse parte da vala sem impedir que a vibração continuasse avançando.
Pensou em aderir a placa ao piso e sentiu o joelho latejar antes mesmo de completar a ideia.
Acabara de aprender o que uma conexão rígida fazia diante de Fratura.
Oferecia à vibração um caminho direto até seu corpo.
John guardou a placa.
Correu pelo corredor inferior.
A vibração alcançou a parede atrás dele.
Azulejos antigos se soltaram e espalharam cacos pelo chão.
Garrick não saltou atrás.
Preferiu usar a escada do outro lado.
John ganhou distância.
O corredor terminava numa rampa de manutenção. Ele subiu e alcançou o galpão seguinte.
Seu joelho tremia.
A placa presa ao antebraço havia deslizado até o punho. John apertou a correia com a mão direita.
Vozes vieram do galpão anterior.
— Dren!
Era o homem magro.
— Deixa ele!
Garrick parou.
John também.
Não porque quisesse.
A saída diante dele estava trancada.
Tentou o celular.
Uma barra de sinal apareceu.
Discou para a ANE.
A chamada não completou.
Havia uma abertura estreita entre uma coluna e uma antiga máquina industrial. John entrou de lado e permaneceu imóvel.
Passos se aproximaram.
Garrick voltou ao outro homem em vez de continuar procurando.
— Quem era? — perguntou o magro.
— Não sei.
— Então por que ele está aqui?
— Porque você deixou alguém entrar.
— Este lugar tem quatro portões quebrados — rebateu o homem.
Uma caixa bateu contra uma superfície metálica.
John se inclinou o suficiente para enxergar parte do galpão anterior.
Garrick estava a cerca de vinte metros, de costas.
— Pega as duas — ordenou.
O homem magro não se mexeu.
— Não.
Garrick virou-se para ele.
— Como é?
— Você trouxe a ANE para cima da estação. Agora apareceu um garoto desenhando luz na parede. Acabou.
— Não acabou.
— Para mim, acabou.
— Eu paguei.
— Pagou para tirar três núcleos do inventário. Eu consegui dois.
A palavra atingiu John com mais força que o restante.
Núcleos.
O homem continuou:
— O terceiro não veio para Hark. Alguém desviou antes.
Garrick se aproximou. A mão direita continuava protegida junto ao peito.
— Descobre quem.
— Não vou chegar perto daquele material outra vez.
— Vai.
— Não — rebateu o homem.
Garrick bateu a palma esquerda sobre a mesa.
Não ativou Fratura.
O homem recuou mesmo assim.
— O prazo é amanhã — avisou Garrick.
— Problema seu.
— Não é.
— Você quer que eu faça o quê? Invada um depósito da ANE?
Garrick pegou uma das caixas. Os dedos enfaixados falharam ao redor da alça, obrigando-o a segurá-la com o antebraço e a mão esquerda.
— Preciso de três.
— Por quê?
Garrick o encarou.
— Porque venderam três.
— Então devolve o dinheiro.
Uma risada curta escapou de Garrick.
Não havia humor nela.
— Você acha que funciona assim?
O homem magro não respondeu.
Garrick colocou a segunda caixa junto da primeira.
— A entrega já está paga.
— Garrick…
— Descobre onde foi parar o último núcleo.
— Eu não vou morrer por causa do seu comprador.
Garrick puxou as duas caixas para perto.
— Então é melhor encontrar antes que ele decida cobrar de você também.
O que você achou deste capítulo?
para reagir.


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