CAPÍTULO 13 — O Homem procurado
por Valmir JoseJohn encostou dois dedos no sulco escuro da braçadeira.
Sustentar acendeu: a luz verde percorreu a inscrição entalhada no ferro, seguiu pelas pequenas linhas de conexão e estabilizou na borda da placa. Ele manteve a mão imóvel por dez segundos cronometrados mentalmente. A bancada permaneceu áspera sob as pontas dos dedos, sem gosto metálico na língua nem pressão acumulando atrás dos olhos.
Desligou a runa, deixando apenas o desenho escuro gravado no metal.
Quase três semanas haviam passado desde que o Distrito Sete parara de se mover — tempo suficiente para o sangue clarear nos olhos, para a mão direita voltar a obedecer na maior parte do tempo e para Meridian transformar uma catástrofe em transmissão, a transmissão em debate e o vulto borrado das gravações em estampa de camiseta infantil.
A ANE, contudo, não esquecera seu nome.
John ativou Sustentar novamente: sem marcador, sem precisar corrigir a geometria antes do uso. A runa física já existia no ferro. Ele ainda precisava compreender o que pretendia ancorar, reconhecer a conexão material e fornecer intenção, mas a economia de segundos era nítida — e aprendera recentemente que frações de segundo decidiam a própria sobrevivência.
— Trinta e dois — anunciou Elias pelo comunicador.
John olhou de relance para o aparelho sobre a bancada improvisada. — Você está contando?
— Conto quantas vezes você repete o mesmo gesto esperando encontrar uma física alternativa.
John desligou a inscrição. — Trinta e três.
— Agora estou torcendo pela ANE — devolveu Elias após um breve silêncio.
O canto da boca de John quase esboçou reação. A antiga área de serviço sob o prédio comercial abandonado não merecia o título de oficina: resumia-se a uma bancada torta, eletricidade puxada de uma linha supostamente inativa, duas cadeiras gastas e um teto baixo o bastante para lembrar que se tratava de um esconderijo.
Nas últimas semanas, bastara.
A braçadeira diante dele também era remendada. Elias salvara o possível do Cavaleiro I, descartara placas retorcidas e trocara encaixes queimados. A peça original de Distribuir virara sucata na Catedral e Conter continuava sem placa dedicada, mas três inscrições agora tinham entalhes estáveis no equipamento: Sustentar, Aderir e Impulsionar. Distribuir ocupava uma chapa provisória na qual John ainda não confiava plenamente.
A palavra permanente começava a incomodá-lo: nada ali era definitivo, apenas significava que o traço dispensava redesenho manual. A carga neural continuava dependendo inteiramente de seu corpo.
Ele ativou Aderir na manopla e prensou a palma contra a lateral da bancada. Puxou o braço com força; a madeira rangeu, mas os dedos não cederam um milímetro. Desativou sem vestígio de dor de cabeça.
Duas runas conhecidas em sequência já não travavam batalha contra seu sistema nervoso, e ativá-las simultaneamente tornara-se manejável sob condições controladas. Três exigiam foco absoluto. Quatro ainda cobravam pedágio pesado.
E cinco… John flexionou a mão direita. A dormência quase sumira, embora o dedo mínimo às vezes atrasasse uma fração de segundo para fechar o punho. Ele não testara cinco inscrições juntas desde a Catedral; não pretendia transformar curiosidade mórbida em rotina.
— O que está aprontando agora? — perguntou Elias.
John puxou uma chave de boca para o centro da mesa. — Testando outra coisa.
— Essa frase perdeu qualquer capacidade de me tranquilizar.
Ele ignorou o aviso. Em uma chapa presa à borda oposta, havia traçado uma inscrição experimental derivada da lógica de Impulsionar. Se Impulsionar projetava força em um vetor compreendido, a dedução lógica seria invertê-la.
Nos primeiros testes, o resultado fora desastroso: ferramentas atiradas contra alvenaria e duas arruelas perdidas no entulho. O erro não estava no desenho, mas na premissa conceitual — John pensava na ação humana de “puxar”, e a Trama não operava com verbos linguísticos.
Ele tocou a marcação e espalmou a outra mão na bancada. Abriu Compreender no limite mínimo: metal, massa, contato e distância. A chave repousava sobre a mesma superfície conectada à placa. Não era necessário invocar uma tração invisível; a relação física já existia entre o objeto, a base e o espaço que os separava. O comando não devia puxar a ferramenta, mas colapsar a distância entre ela e a inscrição.
Ajustou um traço. A runa respondeu em verde suave.
A chave deslizou cinco centímetros e travou.
Do outro lado do canal de áudio, Elias calou-se.
— Você viu? — perguntou John.
— Pela câmera.
John alimentou o traço novamente. A chave correu mais vinte centímetros até estalar contra a placa, arrastando junto uma arruela e um parafuso miúdo que repousavam no mesmo plano. Ele cortou o fluxo. A pressão craniana surgiu branda, insignificante perto do desgaste de leituras profundas.
— Atrair — murmurou.
— Um monumento à inventividade — ironizou Elias.
John espalhou duas ferramentas e repetiu o processo: ambas deslizaram em bloco, puxando a arruela no intervalo. Cortou o sinal.
— Ela puxou o conjunto inteiro — observou Elias, aproximando o rosto da lente.
— Puxou tudo que estava integrado na mesma superfície de contato — corrigiu John, avaliando a área. — Ela não seleciona alvos isolados.
— Então evite acionar isso perto de caixas de pregos.
John recuou a chapa um metro. Ao ativar, a chave apenas tremeu: a distância atenuava o efeito exponencialmente. Trocou a ferramenta por um bloco de aço maciço e a resposta caiu ainda mais, demonstrando a relação com a massa. Ele anotou as variáveis no caderno.
— Não entalhe isso no metal ainda — advertiu Elias.
— Não era o plano.
— Você disse o mesmo antes de furar a greva para Impulsionar.
— Funcionou.
— E a bancada ganhou uma canaleta funda.
A conversa encerrou-se logo depois. John desmontou o circuito de teste, guardou a chapa de Atrair e vestiu o sobretudo sobre a couraça. Ao içar a mochila, o lado direito do peito protestou: não com a fisgada aguda das costelas quebradas, mas com uma rigidez surda que servia de lembrete constante.
Três semanas não apagavam fraturas ósseas, sobrecargas nos nervos e a insanidade de ter servido de condutor estrutural para um Colosso; apenas ensinavam a fronteira exata entre cicatrizar e cometer outro erro grave.
Apagou a lâmpada, checou a câmera de segurança da saída — rua deserta — e ganhou a noite fria.
…
Em Meridian, o Senhor das Runas havia virado onipresença.
No vagão do metrô, um garoto vestia uma camiseta verde com cinco símbolos inventados cercando uma figura blindada com o dobro de sua compleição física real. O menino apontava os ícones para o pai, garantindo que o primeiro manipulava gravidade e o segundo cuspia labaredas. John passou ao largo sem fitá-los.
Na plataforma, o monitor público transmitia debates inflamados sobre os segundos finais da Catedral: as placas escuras travadas no trilho, o brilho esmeralda, a faixa rasgada chicoteando ao vento. O corte do vídeo sempre congelava antes que suas pernas dobrassem; nunca mostravam o colapso físico, o sangue lavando o queixo ou Elias arrancando metal fervente de sua carne.
Uma bancada vendia cartelas de adesivos não autorizados com runas estilizadas das quais John mal reconhecia duas. Na internet, teorias afirmavam que ele gerara a própria anomalia, enquanto outras sustentavam que três indivíduos distintos operavam o mesmo equipamento — esta última soava quase vantajosa: dividir a culpa entre três parecia mais prático.
Desembarcou duas paradas antes da sua. Cortou ruelas, cruzou uma galeria comercial pelas portas dos fundos, trocou de condução e monitorou reflexos de vitrines sem virar o pescoço. Não dominava contraespionagem; apenas refinava o instinto de sobrevivência.
Quando alcançou sua rua, a luz âmbar da cozinha de casa recortava a calçada úmida. O veículo estacionado do outro lado mantinha o motor frio e o interior vazio; a câmera pública da esquina realizava seu ciclo normal de varredura a cada oito segundos. Tudo em ordem aparente — uma normalidade que quase permitia o conforto da paranoia.
Entrou em silêncio.
…
Elena cortava legumes na tábua de madeira.
— Demorou.
Ele deixou a mochila encostada ao rodapé. — O metrô atrasou na linha leste.
A lâmina parou. Elena ergueu os olhos castanhos, firmes: — Você não pegou o trem. Sempre volta cheirando a fuligem de freio quando usa essa linha. E o seu cartão de transporte ficou esquecido sobre a cadeira ontem à noite.
John fitou o bilhete esquecido sobre o assento. — Fiz parte do trajeto a pé.
— Percebi que faltava um pedaço no relato. — Ela virou os cubos de cenoura na panela. — Como estão as costelas?
— Melhores.
— Melhores de verdade ou melhores para encerrar o assunto?
— A primeira opção.
Elena sustentou o olhar por dois segundos antes de voltar ao fogão. Na televisão pequena apoiada sobre o refrigerador, o noticiário repisava a crise do Distrito Sete, exibindo imagens da faixa verde esvoaçante sob o título de Irregular sob investigação. Ela desligou o aparelho no botão manual.
— Não aguento jantar ouvindo palpiteiros decidirem se alguém deve apodrecer na cadeia sem sequer saberem o que aconteceu de fato — desabafou, a colher parada na borda da panela.
— A atuação dele foi clandestina — pontuou John, enchendo um copo d’água na pia.
— E isso anula o que ele evitou?
— Não.
— Então uma coisa não apaga a outra. — Ela o encarou com atenção redobrada. — Você sempre fica evasivo quando esse assunto entra na roda.
— A cidade inteira só fala disso.
— A cidade inteira não se senta à minha mesa.
Três batidas firmes na porta interromperam o diálogo. Elena abriu, dando passagem a Lia, que trazia uma sacola de padaria e o uniforme de socorrista salpicado pela garoa.
— Pão fresco, antes que o John convença a casa de que mercados deixaram de existir.
Elena recebeu o pacote com um suspiro conformado: — Ele também declarou guerra aos horários normais.
Lia acomodou-se à mesa, os olhos pousando por um instante na manga comprida do casaco de John, que cobria a braçadeira de ferro. Ele repuxou o tecido para o punho de forma quase imperceptível. Lia notou o gesto, mas guardou silêncio: desde Krell e o desastre do Distrito Sete, havia um abismo de perguntas acumuladas entre os dois.
O jantar durou apenas seis minutos.
John parou o garfo no ar ao notar um detalhe pela janela: o led vermelho da câmera externa fixara-se em um único ângulo. A varredura de oito segundos havia cessado. Nove, dez, onze segundos — nenhum giro.
Um sedã escuro sem identificação cruzou a via em velocidade mínima, seguido por uma van utilitária. O mostrador de sinal do celular sobre a mesa zerou instantaneamente.
— O sinal caiu aí também? — estranhou Elena, conferindo a tela.
John ergueu-se de pronto, a dor residual nas costelas ignorada pela adrenalina. Espiou pela fresta da cortina: um homem em trajes civis permanecia junto ao portão vizinho, o olhar voltado para o alto em direção à lente pública; uma mulher no meio da calçada pressionava o ponto eletrônico no ouvido, enquanto o reflexo de um drone tático descia entre os telhados vizinhos.
ANE. Eles não precisavam investigar endereços; bastara cruzar registros civis e escolher o momento do cerco.
— John? — chamou Elena.
Ele soltou o tecido. — Vão para a cozinha. Agora.
— Por que esse tom, Jonathan?
O megafone rompeu o silêncio da rua com eco metálico:
— John Jonathan Junior. Agência Nacional de Emergências. Permaneça no interior do imóvel e mantenha as mãos visíveis.
Elena perdeu o ar, a cor esvaindo-se do rosto. Lia ergueu-se em alerta absoluto.
— Jonathan… por que a ANE está cercando nossa casa?
Ele calculou as saídas em frações de segundo: o beco dos fundos estaria monitorado; restava a janela do quarto, a quatro metros da passarela de serviço do edifício vizinho — uma rota precária, mas viável.
— Preciso sair daqui antes que forcem a entrada.
Elena segurou seu braço com força desesperada: — Você não vai a lugar nenhum sem me explicar o que está acontecendo!
— Se eu ficar, eles invadem com vocês aqui dentro.
— Eles vieram por você! O que você fez? Colocou vidas em risco?
— Não. — A resposta saiu sem hesitação, límpida.
Elena leu a sinceridade em seus olhos, mas o pavor não diminuiu: — Então por que fugir feito um criminoso? Se você não fez nada errado, por que não confia em mim para dizer a verdade?
Uma pancada surda estremeceu a fechadura da frente.
John desvencilhou-se com cuidado: — Eu não posso falar agora.
Ela recuou, abatida. O alto-falante repetiu o aviso. John correu para o quarto.
…
No fundo falso do guarda-roupa, o Cavaleiro I aguardava: malha de contenção, peitoral, grevas e manoplas. Ele vestiu as peças com a agilidade adquirida em semanas de aperto mecânico, ajustando as presilhas de pressão sob a respiração acelerada. A faixa verde rasgada permaneceu intocada na prateleira inferior.
A porta estalou sob novo impacto no corredor da sala:
— Senhor Jonathan! Evite confronto, abra a porta e mantenha as mãos à mostra!
A porta do quarto abriu-se de supetão. Lia entrou e parou, petrificada: o casaco dele aberto revelava o peitoral blindado e a inscrição de Sustentar reluzindo no ferro da braçadeira.
Semanas de pontas soltas amarraram-se em um único choque de compreensão.
— Era você — sussurrou ela.
John puxou os zíperes externos. — Agora não, Lia.
— O incidente de Krell… você apareceu na triagem com as costelas arrebentadas e sumiu logo em seguida. Depois as transmissões da Catedral mostraram o mesmo homem com os mesmos ferimentos. E essa placa…
— Lia, eles vão derrubar a porta.
— Eu passei semanas achando que estava enlouquecendo ao ligar os fatos — continuou ela, a voz contida pela indignação e pelo choque. — E você sabia.
Ele sustentou o olhar, sem argumentos que pudessem abrandar a quebra de confiança. Na sala, a voz aflita de Elena chamou por Lia.
Lia respirou fundo, engolindo o debate para uma ocasião futura: — Sua mãe faz ideia disso?
— Nenhuma.
— Evidente que não. — Ela deu passagem para a janela. — Há dois batedores no beco dos fundos. Vi a movimentação quando cheguei; achei que cercavam outro imóvel.
Informação crucial. John recalculou o salto. — Leve minha mãe para a cozinha, longe das janelas externas.
Lia segurou o batente: — Você me deve cada detalhe dessa história.
Ele assentiu.
…
A janela dava para o poço de ventilação: quatro metros de ar livre separavam sua janela da escada de incêndio recolhida no prédio vizinho, com uma queda de três andares até o pavimento. No topo, o zumbido de um drone tático cobria a rota superior.
A fechadura da sala cedeu em estrondo de madeira partida; vozes de comando ecoaram pela casa:
— ANE! Todos parados!
Não havia tempo para recuar. John avistou o cabo de ancoragem de aço oxidado que ligava o suporte de sua janela à trava da escada metálica retraída. Havia continuidade física — precária, mas presente.
Ele cravou a chapa experimental no suporte de ferro.
Compreender mapeou o circuito em um lampejo esmeralda: cabo, fixação, massa metálica.
Ativou Atrair.
A runa pulsou com força excessiva. O cabo esticou em tensão máxima e a articulação emperrada da escada vizinha rangeu até a trava arrebentar. A estrutura de ferro despencou em arco na direção de sua janela — trazendo consigo uma chapa solta e dois parafusos arrancados que cruzaram o ar como estilhaços.
John abaixou o tronco no reflexo. O metal rasgou o ar, perfurando a alvenaria interna do quarto, enquanto um parafuso riscou seu ombro através do couro do casaco. Desativou a runa no susto. A escada bateu com estrondo contra o peitoril externo.
No beco abaixo, os agentes avistaram o movimento: — Contato no terceiro pavimento!
John estancou o sangramento no ombro com os dedos e avaliou o dano: Atrair não falhara; ele falhara na delimitação da relação material. A runa colapsara a distância de tudo o que estava frouxo no suporte.
Ele agarrou o corrimão de ferro e ativou Aderir na manopla: a luva imantou-se ao metal com segurança imediata.
Ao colocar a perna sobre o peitoril, ouviu os passos rápidos no quarto. Elena surgiu no vão da porta, amparada por Lia:
— Jonathan!
Ele estancou, metade do corpo suspenso no vazio. Pela abertura do sobretudo, as placas escuras e a luz esmeralda das runas tornavam impossível qualquer mentira.
— Mãe, fica com a Lia.
— O que é tudo isso? — A voz dela quebrou em desespero.
— Preciso ir. Desculpa.
Ele soltou o apoio interno e desceu em queda controlada pela escada. O peso do corpo repuxou o ombro ferido, mas Aderir sustentou o tranco até suas botas encontrarem os degraus inferiores.
Um disparo de contenção não letal pulverizou o reboco a meio palmo de sua canela. John fixou os olhos na cobertura do prédio vizinho e disparou Impulsionar na greva: o vetor de força explodiu por sua perna, catapultando seu corpo para cima em trajetória íngreme. O ombro chocou-se contra a mureta superior com dor lancinante, mas ele desativou Aderir no tempo exato de rolar para o terraço, erguendo-se antes que o drone mergulhasse sobre sua posição.
Cruzou a laje em disparada. Uma tubulação de exaustão conectava o telhado ao bloco residencial adjacente; ele saltou sobre o vazio, cravou Aderir no duto para amortecer o balanço do corpo e soltou a pegada no zênite do arco. Aterrissou sobre uma marquise dois metros abaixo: Distribuir acendeu no impacto das solas, dissipando a onda de choque pela estrutura metálica sem quebrar as juntas de dilatação.
Correu pelo parapeito, extraiu a chapa auxiliar e traçou o padrão de Atrair em movimento. Ajustou o desenho na segunda tentativa e disparou o efeito contra o cabo de serviço da fachada oposta: o cabo voou em sua direção e ele cortou a energia antes que uma ferramenta enferrujada presa à roldana o atingisse em cheio.
Agarrou o cabo no ar, descreveu um pêndulo longo sobre a rua lateral e liberou o aperto no ponto cego dos holofotes. Um pulso milimétrico de Impulsionar corrigiu sua trajetória, fazendo-o atravessar a vidraça aberta de uma lavanderia no segundo pavimento.
Bateu com o quadril no batente, rolou pelo piso de cerâmica e absorveu o impacto antes de levantar em corrida contínua. Desceu pelos acessos de serviço do prédio comercial, contornou a casa de máquinas e emergiu em uma ruela três quarteirões ao norte, fora do alcance visual imediato.
Parou atrás de uma caçamba para recuperar o ar, a respiração queimando na fratura recente das costelas e o corte no ombro empapando o tecido interno do casaco.
Ao olhar para trás, entre as linhas dos telhados, a janela da cozinha de sua casa ainda exibia sua claridade familiar — a luz que durante anos sinalizara abrigo, agora violada pelo feixe tático de um drone estacionário.
Elena estava lá, sem respostas. Lia estava lá, carregando o peso da revelação. O endereço deixara de ser lar; tornara-se o ponto de origem de um mandado de captura ativo.
Ele ligou o receptor do comunicador na frequência de emergência. A estática logo deu lugar a ordens táticas cifradas:
— Alvo rompeu o cerco pelo setor leste. Equipes de contenção quatro e seis em deslocamento.
John apressou o passo pelas sombras.
— Interceptador primário autorizado para engajamento — entrou outra voz na rede.
— Confirmar designação do operador.
Houve uma pausa de três segundos. John atravessou a pista deserta e mergulhou sob as vigas de sustentação da linha expressa elevada. A transmissão retornou:
— Vetor confirmado. Ordan assume a interceptação.
John estancou por um instante, o pulso acelerando.
Cael.
Ele olhou para a teia de concreto armado sobre sua cabeça: viadutos sobrepostos, pilares monumentais, trilhos suspensos e tráfego pesado. O pior ambiente imaginável para enfrentar alguém capaz de redefinir o vetor de três massas simultâneas.
Puxou o capuz para cobrir o rosto e acelerou sob a estrutura, enquanto as sirenes ao redor mudavam de tom e convergiam para o mesmo quadrante.
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