Capítulo 7 — Colecionador
por Valmir JoseA segunda trava entrou no concreto com força suficiente para John senti-la pela sola da bota. O impacto subiu pela perna ruim e encontrou o joelho inflamado, arrancando dele uma contração involuntária.
Ele se afastou da porta.
A sala de estoque não tinha janelas. Caixas ocupavam quase toda uma parede, empilhadas até uma altura pouco confortável para qualquer pessoa que valorizasse o próprio crânio, enquanto uma mesa permanecia presa ao piso. Diante de John, o terminal que acabara de apagar refletia apenas os indicadores dos equipamentos.
Do lado de fora, alguém testou a maçaneta.
— Continua trancada — informou um homem.
— Foi fechada pelo sistema — respondeu outro.
— Então abre pelo sistema.
A tela diante de John permanecia preta.
Ele tocou o controle. Nenhuma resposta.
Quando apoiou a mão na mesa, as linhas verdes surgiram na estrutura. Parafusos ligavam o tampo ao piso, conduítes desapareciam sob a parede e uma concentração de tensão envolvia a porta.
Compreender ainda vinha fácil demais.
Depois da luta com Garrick, bastava observar alguma coisa por tempo suficiente para que o mundo começasse a se desmontar diante dele. A percepção se fechou sobre a mesa, acompanhada por uma pressão que alcançou seus dentes. Um zumbido fino nasceu no ouvido esquerdo.
John fechou os olhos até as linhas enfraquecerem.
O celular estava dentro do peitoral. Conseguia sentir a borda pressionando a costela, mas retirá-lo exigiria abrir a jaqueta e puxar duas presilhas. Um movimento difícil de justificar quando aqueles homens entrassem.
Passos se aproximaram.
Uma voz diferente interrompeu os demais:
— Não danifiquem a porta.
Os outros se calaram.
Houve um ruído eletrônico. A primeira trava recuou imediatamente; a segunda demorou mais, arranhando o encaixe antes de finalmente liberar.
A porta abriu.
Duas lanternas entraram antes dos homens.
John levantou as mãos, mantendo a direita longe da braçadeira onde escondia o marcador.
— Afasta da mesa — ordenou um segurança.
John obedeceu.
O segundo homem entrou e conferiu atrás das caixas. Usava uma arma curta, sem identificação visível, e respirava pela boca como se tivesse corrido até ali.
— Está sozinho — confirmou.
Então o homem bem vestido apareceu no corredor.
John o reconheceu da plataforma.
De perto, os pontos luminosos sob a pele do pescoço eram mais evidentes. Pequenos implantes acompanhavam a clavícula e desapareciam sob a gola escura. Um deles pulsava devagar.
Darian.
O nome ouvido nos corredores agora tinha rosto.
O olhar de Darian passou pela tela apagada, pelas caixas e terminou em John.
— Você não usa pulseira.
— Esqueci em casa — respondeu John.
Um dos seguranças avançou.
Darian levantou dois dedos, interrompendo-o.
— E entrou na área médica sem autorização, atravessou o corredor técnico e abriu um registro de transferência que não deveria saber procurar.
Ele falava sem pressa. Não precisava elevar a voz; todos ao redor já esperavam que terminasse antes de fazer qualquer coisa.
— Não parece esquecimento — concluiu.
John manteve as mãos visíveis.
— A porta estava aberta.
— Quase todas estavam — rebateu Darian.
Ele entrou na sala e examinou a roupa de John. O volume do peitoral aparecia sob a jaqueta, assim como a borda de uma das braçadeiras.
— Tire o capuz.
John puxou-o para trás.
O reconhecimento não veio imediatamente. Darian estudou seu rosto machucado, o curativo na mão e o sangue seco perto da narina. Depois tornou a olhar para as placas.
— O funcionário da estação.
John não respondeu.
— Central, Terminal Leste, Hark e agora aqui. Você tem uma relação pouco saudável com infraestrutura danificada.
— Faz parte do trabalho — retrucou John.
— Seu trabalho está suspenso.
Os dedos dele esfriaram.
Darian sabia mais do que deveria.
— Revistem — ordenou Darian.
Um segurança tomou a mochila e a esvaziou sobre a mesa. Ferramentas e gaze caíram primeiro. Depois veio uma garrafa quase vazia, seguida por dois marcadores. O homem abriu o caderno, folheou páginas cheias de desenhos e o entregou a Darian.
Ele não demorou nas anotações. Parou numa página em que John havia tentado comparar Sustentar e Impulsionar, aproximou o papel da luz e então olhou para as placas sob a jaqueta.
— Abra.
John não se mexeu.
O segurança atrás dele tocou a arma.
Darian manteve os olhos no caderno.
— Se eu quisesse você morto, Jonathan, não estaria preocupado com seu vestuário.
John abriu a jaqueta.
As placas verdes de marcador estavam gastas pelos testes. Algumas inscrições haviam sido riscadas, corrigidas ou cobertas por novas tentativas. Nada no traje parecia acabado.
O segurança mais próximo soltou um riso curto.
Darian não acompanhou.
Talvez senso de humor não estivesse incluído no pacote de implantes.
Ele se aproximou da braçadeira direita e observou uma runa incompleta.
— Isso fez o carrinho mudar de direção?
John baixou a manga sobre a peça.
— Não sei do que está falando.
— A ANE também não sabe — murmurou Darian. — É o que torna tudo interessante.
Ele devolveu o caderno à mesa.
— Tragam-no.
— Para onde? — perguntou John.
— Para um lugar onde possamos conversar sem você tentar acessar meus registros.
Os seguranças o conduziram para fora.
Ninguém encontrou o celular preso atrás da placa interna do peitoral.
Por enquanto.
…
John tentou memorizar o trajeto, mas o mercado havia mudado.
Portas que antes permaneciam abertas estavam fechadas. Vendedores cobriam caixas, compradores abandonavam negociações e seguranças armados ocupavam os corredores.
Alguma coisa se espalhara pelo Subnível. Talvez a descoberta do intruso. Talvez outro problema.
Um trem passou muito acima. A vibração desceu pelas colunas e fez poeira cair de uma junta no teto.
John viu a Trama por um instante.
As linhas acompanhavam o peso e a continuidade do concreto. Outras corriam pelos cabos presos às paredes.
O zumbido retornou. Dessa vez, trouxe uma pontada atrás do olho esquerdo e o gosto de ferro à boca, embora seu nariz ainda não tivesse voltado a sangrar.
Devagar.
Respirou fundo e deixou a percepção recuar.
Darian o levou até uma antiga sala de controle com vidros voltados para a plataforma. Os painéis ferroviários haviam sido retirados. No lugar deles havia equipamentos novos, recipientes de contenção e uma mesa de metal coberta por instrumentos.
— Deixem-nos — ordenou Darian.
Os seguranças hesitaram.
— Ele estava armado com dois marcadores — acrescentou, olhando para John. — Correrei o risco.
Os homens saíram. Um permaneceu do lado de fora, visível através do vidro.
Darian tirou o casaco e o colocou sobre uma cadeira. Sob a camisa, os implantes continuavam pelos braços. Pequenas placas acompanhavam os tendões dos punhos.
John reparou numa cicatriz grossa perto do cotovelo direito.
— Sente-se.
— Prefiro ficar — recusou John.
— Seu joelho prefere o contrário.
John não se sentou.
Aparentemente, naquela sala até as articulações ganhavam direito a voto.
Darian pegou um recipiente transparente da bancada. Dentro havia uma porca de aço que vibrava contra a base num ritmo curto e insistente.
— Você viu os Resíduos no mercado.
— Vi muita coisa — respondeu John.
— Então sabe o que é isto.
— Movimento preso.
— Uma descrição aceitável — concordou Darian.
Ele colocou o recipiente sobre a mesa e aproximou a mão.
Os pontos no pescoço se iluminaram primeiro.
Depois vieram os do punho.
A porca parou.
O recipiente permaneceu intacto. Nenhuma luz saiu dele, mas John sentiu a alteração na Trama. A relação repetida entre metal e base foi puxada para fora, comprimindo-se em torno dos dedos de Darian.
O puxão não veio da pele.
Veio do movimento sustentado dentro do recipiente.
Darian estendeu a outra mão para uma caixa vazia.
A porca que havia nela começou a saltar contra o fundo, repetindo o mesmo ritmo e a mesma força.
John observou os implantes. Um dos pontos luminosos piscava rápido demais. Uma linha de sangue surgiu sob a manga de Darian e desapareceu quando ele baixou o braço.
— Extrair — concluiu John.
Darian limpou o punho com um lenço.
— Finalmente alguém que não chama de roubo.
— Você tirou um efeito de um objeto e colocou em outro.
— Retirei uma carga residual e a transferi — explicou Darian. — Não posso tomar a Manifestação de uma pessoa, se é isso que está imaginando. Conceitos não cabem em caixas.
John pensou nos Fundidos conectados às estruturas médicas.
— Mas pessoas cabem.
Darian não demonstrou irritação.
— Pessoas são sistemas mais difíceis.
Ele indicou a braçadeira de John.
— Ative uma das inscrições.
— Não.
— Você entrou no meu mercado, acessou meus arquivos e fotografou material sob minha proteção. Recusar uma demonstração é um gesto pequeno diante do restante.
John manteve a mão longe do marcador.
— E se eu não fizer?
— Meus técnicos desmontam o traje. Depois descobrimos se as marcas funcionam separadas de você.
Darian estava blefando sobre parte daquilo.
Talvez não sobre tudo.
John pegou o marcador devolvido à mesa e escolheu uma placa substituível. Desenhou Sustentar, sem ativá-la.
— Preciso de uma falha real.
Darian apontou para um suporte rachado na extremidade da bancada.
John não o havia notado antes. A fissura atravessava a base de uma pequena prensa.
Ele aproximou a placa, mas não a usou como intermediária. Marcou diretamente o suporte, acompanhando a abertura. Quando compreendeu a parte que ainda mantinha a estrutura unida, a runa acendeu.
O verde penetrou no metal.
Darian estendeu a mão.
— Não toca — advertiu John.
Ele parou a poucos centímetros da inscrição.
— Curioso. Você trata o contato como parte do processo.
— Porque é.
— Para você — corrigiu Darian.
Os implantes do punho acenderam.
John sentiu o efeito antes que pudesse interrompê-lo.
Sustentar permaneceu ativo, mas algo foi arrancado de sua relação com o suporte. A runa perdeu intensidade. A dor atravessou a palma, subiu pelo antebraço e encontrou o ombro lesionado.
John afastou a mão.
A luz apagou.
O suporte tornou a ceder.
Darian fechou os dedos como se segurasse algo invisível. Uma placa solta sobre a mesa adquiriu, por poucos segundos, a mesma resistência. Ele a pressionou contra a borda.
O metal recusou-se a dobrar.
Depois, o efeito se desfez.
O sangue sob a manga de Darian aumentou.
— Você não extraiu a runa — constatou John.
— Não.
— Tirou o que ela estava fazendo.
— Uma parte — esclareceu Darian. — A inscrição continua sendo sua linguagem. Eu apenas recolho o resultado.
Ele enrolou outro lenço no punho.
— Seus desenhos produzem efeitos estáveis o bastante para transferência, mas não deixam assinatura classificável. Os leitores da ANE retornam vazio porque procuram uma Manifestação convencional.
John pensou nos aparelhos vermelhos da estação e do terminal.
— Você viu os relatórios.
— Eu coleciono coisas que as instituições não sabem nomear.
A frase não soou como orgulho.
Soou como descrição de trabalho.
Darian abriu uma tela sobre a mesa.
O rosto de John apareceu ao lado de um cadastro novo.
NOME OPERACIONAL: CAVALEIRO VERDE
Havia um registro provisório de atuação, uma classificação ainda em análise e uma tabela de pagamentos.
John soltou o ar, cansado.
— Cavaleiro Verde?
— O nome pode ser alterado — respondeu Darian.
— Espero que sim.
— Funciona para imprensa. O traje ajuda.
John fitou o cadastro outra vez.
Isso é sério?
Darian passou para outra página.
Um apartamento numa Zona Azul apareceu na tela, seguido por documentos de transferência residencial no nome de Elena. Outra pasta continha especificações de oficina e um contrato para Elias, embora o sobrenome ainda estivesse incorreto.
John tornou a olhar o cadastro.
O dinheiro bastaria para tirar Elena da Zona Amarela. Os documentos limpariam seu registro, enquanto os vídeos dos resgates poderiam dar aparência oficial ao que vinha fazendo escondido.
Pela primeira vez desde a passarela, imaginou vestir o traje sem precisar cobri-lo com uma jaqueta.
Darian percebeu a hesitação.
— Você já está agindo como um desperto não registrado. A ANE pode prendê-lo, transformá-lo em objeto de estudo ou colocá-lo sob tutela operacional. Comigo, mantém o controle sobre o que constrói.
— Em troca de quê? — questionou John.
— Trabalho.
— Roubando núcleos?
— Às vezes recuperando materiais. Às vezes impedindo que estruturas matem pessoas — respondeu Darian. — Você gosta dessa parte.
John olhou para a tela do apartamento.
— E os Fundidos?
Darian desligou a imagem.
— Não fazem parte da proposta.
— Fazem parte deste lugar.
— Esta é uma operação, não uma discussão moral — rebateu Darian.
— A mulher pediu água.
— Alguns conservam padrões de fala.
— Ela tentou pegar a garrafa.
Darian apoiou as mãos na mesa.
— Você viu minutos de um processo que meus técnicos acompanham há meses.
— Então leva ela e o rapaz para um hospital.
— Um hospital os desconectaria.
— Talvez seja isso que eles queiram.
— Talvez morram antes de responder — retrucou Darian.
John sentiu o maxilar endurecer.
— Você chama isso de estabilização?
— Chamo de manter vivos recursos que outras pessoas descartariam.
John demorou um instante.
— Recursos.
Darian recolocou o casaco.
— Você é jovem o bastante para ainda achar que mudar a palavra muda o custo.
Ele tocou um controle na parede.
A porta lateral abriu para um corredor de teste.
— Vamos descobrir se sua utilidade compensa sua resistência.
John olhou para o segurança do lado de fora.
— E se eu recusar?
— Então voltamos à sala de estoque e procuramos o telefone que você escondeu no traje.
O aparelho pareceu ganhar peso contra a costela.
John entrou no corredor.
…
A área havia sido construída sobre uma antiga oficina ferroviária. Trilhos curtos atravessavam o piso entre divisórias metálicas. Sensores improvisados ocupavam as paredes, presos por suportes que pareciam ter sido instalados às pressas.
No primeiro trecho, uma barra presa a um carrinho deslocava-se sozinha entre dois limitadores. Batia, voltava e repetia.
Um Resíduo semelhante ao do Terminal Leste, embora muito menor.
No segundo, um recipiente térmico irradiava calor atrás de uma proteção transparente.
— Atravesse — orientou Darian.
John examinou os dois setores.
— Isso é o teste?
— O teste é você impedir que os dois efeitos alcancem a área final.
John olhou além das divisórias.
Cabos seguiam para o corredor dos Fundidos.
— O que tem do outro lado?
— Equipamentos sensíveis.
— Pessoas.
Darian não respondeu.
Não era preciso possuir uma Manifestação rara para perceber aquela omissão.
A barra começou outro ciclo.
John pegou o marcador.
Desenhou Aderir diretamente na base do limitador e prendeu o carrinho ao trilho por tempo suficiente para examinar o movimento.
A relação resistiu.
A força continuou acumulando nas rodas.
John desativou a runa antes que a fixação se tornasse o novo ponto de falha.
A barra disparou.
Ele já havia marcado Impulsionar numa junção lateral. A geometria recebeu o movimento e o desviou para um trilho morto, onde o carrinho atingiu uma proteção de borracha.
O recuo atravessou a braçadeira e puxou o ombro.
John conteve o gemido.
Darian acompanhava tudo de uma sala envidraçada.
— Você poderia ter sustentado o limitador.
— E deixado a força crescer até arrancar o trilho.
— Boa resposta — aprovou Darian.
O recipiente térmico começou a chiar.
Um técnico falou no comunicador de Darian:
— A contenção está subindo acima do previsto.
— Continue.
John tocou a divisória.
O calor atravessava a proteção e avançava pelo metal, procurando conexões. Sustentar impediria uma ruptura, mas não deteria a transferência térmica. Impulsionar não servia para calor da mesma forma que servira para movimento.
O recipiente estalou.
John ativou Sustentar na moldura para impedir que a tampa se abrisse.
Duas runas permaneceram ativas ao mesmo tempo: Impulsionar no desvio e Sustentar no recipiente.
A pressão atrás dos olhos aumentou.
O zumbido cresceu até quase cobrir o ruído do carrinho, e as linhas verdes passaram a deixar rastros sempre que ele movia a cabeça.
Precisava do telefone.
John passou a mão por baixo da jaqueta, abriu a presilha interna e deixou o aparelho cair entre o peitoral e a camisa. A tela acendeu contra o tecido.
Do outro lado do vidro, Darian acompanhou o movimento sob a jaqueta. Seu olhar demorou naquela região, mas o recipiente térmico chiou antes que pudesse falar alguma coisa.
Com o polegar dormente, John abriu a conversa de Ren.
Anexou as fotografias.
O primeiro envio falhou.
O calor aumentou.
A estrutura de Sustentar vibrava sob sua palma.
John encerrou Impulsionar. O movimento já estava preso no trilho morto. Com apenas Sustentar ativa, a visão clareou o suficiente para tentar outra vez.
Uma fotografia saiu.
A segunda ficou carregando.
— O que está fazendo? — perguntou Darian pelo alto-falante.
John guardou o telefone antes que a câmera acima captasse a tela.
— Tentando não cozinhar seu equipamento.
O recipiente térmico abriu uma fissura perto da válvula.
Sustentar mantinha a moldura inteira, mas o calor escapava para uma placa conectada ao piso.
A Trama se espalhou diante de John.
O fluxo térmico não precisava quebrar nada para atravessar o corredor. Bastava encontrar continuidade. O metal levava à divisória seguinte; dali, cabos e tubulações seguiam até a área médica.
— Desliga o teste — exigiu John.
Darian não respondeu.
— O recipiente vai romper.
— Então impeça — ordenou Darian.
John desativou Sustentar.
A tampa não abriu imediatamente, mas a fissura aumentou.
Ele se afastou do recipiente e analisou a moldura entre os setores.
Não precisava reforçar a peça.
Também não precisava empurrar o calor.
Precisava definir até onde aquela relação podia avançar.
A ideia não veio como uma ordem pronta. Surgiu da borda física diante dele: dois ambientes divididos pelo mesmo metal, uma passagem que existia apenas porque a estrutura permitia.
John limpou a graxa da moldura com a manga.
A ponta do marcador falhou na primeira tentativa, deslizando sobre o metal aquecido.
A primeira curva ficou curta.
Ele percebeu o erro antes de concluir o desenho. Daquele jeito, a geometria se fechava sobre a moldura em vez de separar os dois lados.
John esfregou parte da tinta com a manga e espalhou uma mancha preta pela superfície.
A mão dormente prejudicava a pressão do marcador. Precisou apoiar o punho no metal para impedir que tremesse. Refez a curva seguindo o limite que enxergava na Trama, corrigiu a inclinação de outro traço e só então ligou as duas extremidades.
A geometria não fechava sobre o objeto como Sustentar.
Formava um limite.
O calor podia chegar até ali.
Depois, não.
A palavra se encaixou com o último traço.
Conter.
John pressionou a palma contra a inscrição.
A runa acendeu na própria moldura.
O verde percorreu o contorno da divisória e delimitou a passagem.
O calor chegou à fronteira.
Parou.
A temperatura do lado de John aumentou de uma vez.
O efeito não havia desaparecido. Estava se acumulando contra o limite.
— Leitura? — perguntou Darian.
— Crescendo — respondeu o técnico. — A área médica estabilizou, mas o setor de teste está saturando.
John sentiu a pele do rosto arder.
— Desliga o recipiente.
— O mecanismo travou — informou o técnico.
Darian entrou no corredor.
— Saia da moldura.
— Se eu tirar a mão, a fronteira cai.
— Então permaneça.
Darian aproximou-se do recipiente rachado. Os implantes acenderam sob a pele, mais intensos do que antes. Ele estendeu a mão para o fluxo térmico acumulado.
John viu Extrair tocar a relação.
O calor diminuiu perto da válvula.
Ao mesmo tempo, os pontos luminosos no braço de Darian ficaram brancos.
Sangue atravessou a manga e caiu no piso.
— Você não aguenta tudo isso — alertou John.
— Nem você.
Darian transferiu parte da carga para um bloco de contenção vazio.
O material escureceu.
Uma fumaça fina subiu da superfície.
A temperatura permanecia alta, mas deixou de crescer tão rápido.
O celular vibrou contra a costela.
John não podia verificar.
Do outro lado das paredes, um alarme começou a tocar.
Não era o alarme do teste.
Vozes atravessaram o comunicador de Darian, sobrepostas e urgentes.
— Veículos no acesso norte.
— Quantos? — questionou Darian.
— Mais de um. Sem identificação visual.
— Fecha a plataforma superior.
John pensou em Ren.
Talvez as duas fotografias tivessem chegado.
Darian olhou para ele.
Pela mudança em seu rosto, chegara à mesma conclusão.
— Seu telefone.
John manteve a mão sobre Conter.
— Está com seus homens.
Darian se aproximou.
— Você mente mal quando está cansado.
A moldura vibrou sob a palma de John.
A inscrição estava na própria estrutura, mas a conexão ainda passava por ele. Enquanto mantinha a mão sobre o traço, seu corpo regulava a fronteira e recebia parte da pressão acumulada.
O verde começou a oscilar.
— A contenção está saturando — avisou o técnico.
John sentiu a primeira falha como uma fisgada entre as costelas.
O limite permanecia inteiro, porém o calor pressionava cada trecho da geometria ao mesmo tempo.
— Quanto falta para evacuar os Fundidos? — perguntou John.
Darian virou-se para o comunicador.
— Preparar retirada dos lotes ativos.
Uma voz respondeu:
— Não há transporte para todos.
— Então mantém suporte básico. Ninguém desconecta.
John olhou para ele.
— Vai deixar eles aqui.
— Vou impedir que morram durante uma invasão.
— Não é a mesma coisa.
— Hoje é — rebateu Darian.
Homens atravessaram a plataforma além do vidro, levando caixas em direção aos túneis laterais. Uma delas exigia duas pessoas.
John conseguiu ler apenas parte da inscrição federal raspada:
GRAV…
Um núcleo de gravidade.
O comprador queria três.
Darian tinha mais.
O alarme mudou de ritmo.
— Portão norte comprometido — anunciou alguém.
Darian retirou outra parte do calor, mas o braço cedeu.
Ele apoiou o joelho no chão e respirou entre os dentes.
A luz sob sua pele piscou fora de sequência.
— Chega — insistiu John. — Manda desligar tudo.
— Não posso desligar um Resíduo dessa densidade.
— Então rompe a alimentação antes que alcance a área médica.
— A alimentação inclui os suportes deles.
A moldura gemeu.
John percebeu tarde demais.
Conter não estava apenas acumulando calor.
A vibração dos equipamentos e a pressão mecânica também encontravam o mesmo limite. A runa tratava tudo o que atravessava a relação delimitada como algo a ser mantido daquele lado.
Ele compreendera a fronteira.
Não escolhera o que ela barraria.
A visão verde se tornou espessa.
As linhas cobriram o corredor, o corpo de Darian e as paredes além.
John perdeu a sensação do indicador.
— Afasta — ordenou Darian.
— Você acabou de mandar ficar.
— A geometria mudou.
John também viu.
Uma das curvas de Conter tremia perto da junta inferior. O metal começava a deformar.
Se a moldura se separasse, a inscrição perderia integração e apagaria.
Se ele sustentasse a peça, passaria a manter duas runas enquanto já estava no limite.
Escolhe.
John pegou o marcador.
A mão não fechou direito.
O objeto caiu.
Darian tentou alcançá-lo, mas o próprio braço falhou.
A moldura estalou.
A runa não se apagou aos poucos.
A geometria se rompeu inteira.
Tudo o que Conter mantivera represado encontrou, de uma só vez, o caminho ainda aberto entre a moldura, a inscrição e o corpo de John.
O retrocesso atravessou sua palma.
Entrou pelo peitoral.
A placa distribuiu parte da força.
O restante atingiu a lateral esquerda.
A costela dobrou.
Cedeu.
John perdeu o ar e caiu.
O calor atravessou o limite desfeito, mas Darian desviou parte dele para o bloco escurecido. O material rachou ao receber a carga.
Dois técnicos entraram no corredor usando proteção térmica.
— Darian, precisamos sair — alertou um deles.
Darian se levantou com dificuldade. Um dos implantes no pescoço havia apagado. Outro pulsava de modo irregular.
John tentou apoiar o braço esquerdo no piso.
A dor da costela quebrada se espalhou pelo peito e o derrubou novamente.
— Levem as caixas do setor três — ordenou Darian. — O restante fica no suporte.
— E ele?
O técnico olhou para John.
Darian demorou um segundo.
Sirenes atravessaram o teto, abafadas pela cidade e pelas camadas de concreto. Ainda estavam distantes, mas se aproximavam.
— Deixem-no.
O técnico hesitou.
— Ele viu tudo.
— Exatamente.
Darian recolheu o casaco com a mão menos ferida.
Antes de sair, olhou para a moldura marcada e para o sangue de John no chão.
— Quando a ANE perguntar, diga que recusou uma oportunidade.
John conseguiu puxar ar suficiente para responder:
— Cavaleiro Verde continua sendo um nome ruim.
Darian quase sorriu.
— Podemos discutir outro quando você sobreviver.
Ele saiu.
Os técnicos o seguiram.
Pela porta aberta, John viu a caixa marcada com GRAV… ser colocada num carrinho, mas o alarme norte disparou antes que começassem a transportá-la. Um dos homens largou a alça e correu para ajudar no bloqueio.
John tentou alcançar o celular.
A mão direita entrou sob o peitoral.
Cada movimento raspava a costela quebrada por dentro.
Seus dedos encontraram o aparelho, mas não conseguiram puxá-lo além da borda da placa.
A tela acendeu contra a camisa.
Duas notificações.
O envio das fotografias havia terminado.
No corredor dos Fundidos, máquinas continuavam funcionando em suporte mínimo. John ouviu o ritmo de uma delas mesmo através do alarme.
Uma batida.
Uma breve pausa.
Depois outra.
As sirenes estavam mais perto quando sua visão escureceu.
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