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Senhor das RunasCAP. 320 MIN

John conseguiu passar o braço direito pela manga sem dificuldade.

O esquerdo parou na metade.

Tentou erguer o cotovelo mais um pouco, e a distensão no ombro respondeu com uma dor funda, suficiente para fazê-lo prender a respiração. A camisa ficou torcida nas costas. Ele puxou o tecido com a mão direita, conseguiu vestir-se e só então percebeu Elena observando da porta da cozinha.

Ela segurava uma caneca.

— Vai sair assim? — perguntou.

John baixou o braço devagar.

— Assim como?

— Levando quase um minuto para vestir uma camisa.

— Não contei — rebateu.

— Eu contei.

A gaze na palma já tinha sido substituída por um curativo menor, preso com fita para deixar os dedos livres. A queimadura continuava sensível, mas o vermelho diminuíra desde a estação. O quadril ainda doía quando ele permanecia sentado por muito tempo e piorava nos primeiros passos depois de levantar.

A licença terminara.

O afastamento administrativo da estação, não.

Uma mensagem recebida naquela manhã informava que os funcionários presentes durante o ataque só poderiam retornar após nova avaliação das áreas afetadas. A folha do hospital, porém, precisava ser entregue pessoalmente num posto de atendimento trabalhista da companhia de transporte. A alternativa era esperar mais quatro dias pela reabertura do setor administrativo da estação.

Quatro dias significavam quatro dias até saber se as horas seriam pagas.

John pegou a mochila.

— Vou entregar o documento e voltar.

Elena bebeu um pouco do café.

— Qual posto?

— Central Leste.

— De ônibus? — questionou ela.

— É mais barato.

Elena olhou para o ombro dele, depois para a mochila.

— Está levando ferramenta para entregar atestado?

John sentiu o peso do caderno lá dentro.

Também havia colocado o marcador permanente no bolso lateral naquela manhã. Não porque esperasse precisar dele. Apenas não gostava da ideia de deixá-lo no quarto, perto da tábua cortada e dos papéis riscados.

— Tem coisa minha aí — respondeu.

Elena não perguntou qual. Foi até a bancada, abriu um pote e colocou dois comprimidos dentro de um pedaço dobrado de papel-alumínio.

— Meio-dia.

— Tomei às oito.

— Eu sei fazer conta.

Ela enfiou o embrulho no bolso frontal da mochila.

John ajustou a alça no ombro bom.

Quando chegou à porta, Elena falou novamente:

— Se a ANE estiver lá, você me liga.

Ele parou com a mão na maçaneta.

— Por quê?

— Porque da última vez você falou com eles sozinho e passou o resto do dia fingindo que não tinha acontecido.

John ficou tentado a perguntar como ela sabia.

A vontade durou pouco.

— É só documentação — afirmou.

Elena ergueu uma sobrancelha.

— Foi o que você falou da estação quando começou a trabalhar lá.

— Era documentação.

— No primeiro dia.

John abriu a porta.

— Volto antes do almoço.

Elena não respondeu.

Quando ele saiu, ela ainda estava com a caneca nas mãos.

Meridian parecia ter esquecido o ataque mais depressa que John.

As linhas interrompidas tinham sido substituídas por ônibus extras. Telões nos prédios anunciavam os desvios, propagandas da Vanguarda ocupavam parte dos painéis de informação e, numa avenida elevada, operários já trabalhavam numa junta estrutural sob a proteção de dois despertos licenciados.

A cidade continuava funcionando porque parar custava mais.

John entrou no ônibus pela porta central para evitar a catraca estreita. Escolheu um lugar em pé próximo a uma barra vertical; sentar fazia o quadril endurecer e depois era pior levantar. O veículo estava cheio o bastante para que ninguém prestasse muita atenção nele.

Mesmo assim, puxou a manga sobre parte do curativo.

A tela acima da porta alternou entre as próximas paradas e uma notícia curta sobre Garrick Dren.

BUSCAS CONTINUAM APÓS ATAQUE À ESTAÇÃO CENTRAL

A imagem do rosto de Garrick apareceu por quatro segundos.

Em seguida veio uma propaganda de seguro contra danos por Manifestação.

A sequência tinha certa eficiência comercial.

John desviou os olhos.

A frase do caderno voltava de tempos em tempos desde a noite anterior.

a marca precisa

Ele não a completara.

Ligação parecia parte da resposta. Compreender o que estava tentando manter também. Mas ainda não sabia por que o símbolo tinha continuado ativo depois que afastara a mão, nem de onde viera a energia que segurara a tábua.

Sabia apenas que seu corpo não fornecera aquilo sozinho.

Se tivesse fornecido, não fazia sentido uma rachadura permanecer estável durante tanto tempo depois que ele retirara a mão.

O ônibus desceu uma rampa para o nível intermediário da cidade.

John apertou a barra quando o motorista freou.

A mão esquerda falhou por uma fração de segundo, e seus dedos escorregaram. Ele compensou com a direita antes de bater em outro passageiro.

Ainda não tinha sensibilidade normal no indicador e no médio.

Excelente timing.

Descobrir um poder que exigia desenhar enquanto dois dedos se recusavam a colaborar parecia o tipo de coincidência que ninguém havia solicitado.

Central Leste ficava num terminal construído entre duas vias elevadas, menor que a estação onde John trabalhava e muito mais antigo. Quatro plataformas de ônibus se distribuíam ao redor de um corredor interno. O posto administrativo ocupava o segundo piso.

John entregou o documento em menos de dez minutos.

A funcionária digitalizou a folha, confirmou o protocolo e avisou que o pagamento dependia da conclusão da análise do incidente.

— Quanto tempo? — perguntou John.

— Não tenho prazo.

— Uma semana?

Ela inclinou a cabeça.

— Eu realmente não tenho prazo.

John guardou o protocolo.

— Certo.

Quando desceu novamente para o terminal, eram onze e vinte e três.

A primeira coisa estranha que percebeu foi um estampido metálico.

Algumas pessoas olharam para a plataforma três.

Outras continuaram andando.

John também teria seguido se o som não tivesse se repetido no mesmo intervalo e quase com a mesma intensidade.

Virou-se.

Na plataforma três, um carrinho de carga usado por funcionários do terminal estava tombado perto da faixa de embarque. Duas caixas plásticas haviam caído ao lado. Um homem de colete amarelo puxava o carrinho para longe de um trilho metálico embutido no piso.

— Travou de novo — comentou alguém perto dele.

O funcionário colocou o carrinho de pé.

Uma das rodas girou.

O carrinho avançou sozinho por cerca de dois metros.

Bateu na coluna.

O estampido ecoou pelo terminal.

O funcionário recuou.

— Que porra…

O carrinho voltou.

Não rolou para trás por inclinação.

Foi puxado pelo mesmo trajeto que acabara de percorrer, as rodas saltando nas juntas do piso até retornar ao ponto inicial.

Um passageiro soltou uma risada nervosa.

O carrinho avançou outra vez.

Mais rápido.

O funcionário tentou segurá-lo pelo guidão. O impacto contra a coluna quase arrancou seus braços. Ele soltou e tropeçou para trás.

O som reverberou entre as plataformas.

John sentiu pressão atrás dos olhos.

Ficou imóvel.

A mesma percepção que surgira diante da tábua apareceu nas bordas do movimento. Não tão clara quanto na passarela. Havia uma linha esverdeada seguindo o trilho no piso, indo do ponto de partida até a coluna e depois retornando.

O carrinho recuou.

Algumas pessoas começaram a se afastar.

Um alarme curto tocou nos alto-falantes.

— Atenção, passageiros da plataforma três. Afastem-se da faixa de embarque e aguardem orientação dos funcionários — anunciou uma voz.

John conhecia aquele tipo de aviso.

Não dizia o que estava acontecendo porque, muito provavelmente, ninguém ainda sabia.

O carrinho avançou pela quarta vez.

A roda dianteira atingiu a coluna e entortou.

A energia do impacto não desapareceu.

John viu a linha verde comprimir-se por um instante contra o metal.

Depois retornar pelo trilho.

O carrinho foi puxado de volta com a roda torta raspando o piso.

Movimento repetido.

Nenhuma pessoa controlando.

Nenhum desperto visível.

Nenhum gesto.

Nenhum contato.

Uma Marca Residual.

John conhecia o termo das campanhas públicas da ANE. Todo uso de Manifestação deixava algum tipo de efeito residual. Na maior parte do tempo, dissipava.

Em alguns lugares, não.

Um agente de segurança correu para a plataforma e gritou para que todos recuassem.

O carrinho avançou novamente.

A roda deformada aumentou a resistência.

O resultado não foi desaceleração.

O trilho vibrou.

John viu a linha verde engrossar. A resistência da roda não reduzia o movimento. O traço se espalhava pelo piso, misturado às vibrações dos ônibus e dos passos, mas ele não conseguia distinguir o que alimentava o efeito.

Só percebeu uma coisa.

O próximo impacto seria pior.

O carrinho bateu na coluna.

Uma placa de acabamento se soltou.

Agora ninguém ria.

O fluxo de passageiros se comprimiu em direção à saída central. Uma mulher deixou uma sacola cair e voltou para buscá-la. Um homem segurou a porta lateral para impedir que fechasse sobre as pessoas. Dois adolescentes filmavam até um funcionário mandar que saíssem dali.

John deveria fazer o mesmo.

A ANE sabia que ele trabalhava na estação do primeiro incidente.

Já tinha mentido a um agente.

Havia câmeras por todo o terminal.

Ele se afastou da plataforma três.

Deu seis passos.

Então ouviu alguém gritar:

— Mila!

John olhou para trás.

Uma menina de talvez sete anos estava do outro lado da faixa de embarque. Segurava uma mochila infantil por uma alça.

A mulher que gritara tentava voltar contra o fluxo, mas um segurança a mantinha atrás de uma barreira móvel.

— Minha filha está ali! — berrou ela.

A menina provavelmente tinha soltado a mão da mãe para recuperar a mochila. Ou ficara para trás quando todos correram.

John não vira.

Agora ela estava entre um banco de metal e a linha seguida pelo carrinho.

— Mila, vem pra cá! — chamou a mulher.

A criança deu um passo.

O carrinho voltou ao ponto inicial.

Ela congelou.

John viu a sequência.

O carrinho partia junto ao trilho e percorria dois metros e meio até a coluna. Retornava depois de um intervalo de pouco mais de quatro segundos.

A menina ainda não estava exatamente na trajetória.

O problema era a roda torta.

No último avanço, ela fizera o carrinho desviar alguns centímetros para a direita.

Na próxima repetição, podia desviar mais.

— Não corre! — gritou um segurança.

— Vem pra mamãe! — a mulher chamou ao mesmo tempo.

A menina olhou para um.

Depois para a outra.

Deu um passo na direção errada.

John já estava voltando antes de decidir.

Passou por baixo da fita móvel.

— Senhor! — alguém gritou.

Ele ignorou.

O quadril doeu no segundo passo. No quarto, o ombro começou a acompanhar o movimento da corrida e a distensão protestou.

O carrinho partiu.

John alcançou a lateral da plataforma quando ele passou.

Metal contra coluna.

A roda dianteira se deformou ainda mais.

John chegou à menina.

— Vem — ordenou.

Ela recuou.

— Minha mochila.

— Traz ela.

A menina agarrou a alça com as duas mãos.

O carrinho começou a retornar.

John segurou o braço dela com a mão direita e tentou puxá-la para trás do banco.

Ela resistiu.

A mochila tinha prendido sob um dos pés do assento.

— Solta — pediu John.

— Não!

Ele puxou a alça.

O tecido não saiu.

O carrinho retornou ao ponto inicial.

Quatro segundos.

John olhou para a trajetória.

O banco estava fixado ao piso por duas bases metálicas.

Sustentar surgiu como a única ideia disponível: manter o carrinho no ponto inicial, prendê-lo à estrutura, impedir o novo avanço.

Sua mão foi para o bolso lateral da mochila.

O marcador estava lá.

John o puxou.

O carrinho começou a avançar.

Ele empurrou a menina para trás do banco e se colocou ao lado.

O metal passou a menos de um metro.

O impacto fez a coluna vibrar.

Então as relações se abriram diante dele.

A linha de movimento atravessava o carrinho, o trilho e a estrutura sob o piso. A coluna recebia a força e devolvia parte dela. Cada repetição aproveitava movimento existente, mantendo a mesma instrução defeituosa.

Se usasse naquilo o símbolo da tábua, o que sustentaria?

A posição inicial?

A atual?

Mesmo que conseguisse prender o carrinho ao piso, a força não desapareceria. Iria para as rodas ou para o trilho.

Talvez para as fixações sob os pés deles.

O carrinho voltou.

John viu um dos parafusos do trilho subir meio centímetro.

Segurar não resolvia.

A força precisava continuar para algum lugar.

— Moço… — chamou a menina.

— Fica atrás do banco — respondeu John.

Ela chorava agora, mas continuava segurando a mochila presa.

John tentou arrancá-la com a mão esquerda.

Os dedos falharam.

A alça escapou.

O carrinho chegou ao início.

A linha verde se contraiu.

A pressão atrás dos olhos aumentou.

Movimento da esquerda para a direita. Coluna à frente. Saída cheia atrás. À direita da coluna havia um corredor de manutenção, fechado por uma porta metálica.

Um espaço de serviço vazio.

Precisava mandar o carrinho para lá.

A ideia era simples.

A geometria, não.

O padrão de Sustentar fechava-se ao redor de uma relação para preservar o que ainda resistia.

A nova geometria seguia outra lógica.

Abria um caminho para a força.

Exigia direção.

Quando John imaginou o carrinho entrando no desvio, uma palavra se encaixou na forma:

Impulsionar.

O desenho ainda estava incompleto. Uma linha central atravessava a junta, mudava de ângulo e se abria na direção do corredor lateral.

John se ajoelhou.

A dor no quadril quase o derrubou.

Destampou o marcador com os dentes.

— Senhor, saia daí! — gritou o segurança.

John encostou a ponta no trilho.

Ela deslizou sobre uma camada de graxa e deixou uma falha no primeiro traço.

John passou o marcador outra vez, pressionando até sentir a ponta prender na emenda entre o metal e a faixa de borracha.

A linha saiu torta.

Interrompida.

O carrinho partiu antes que ele conseguisse corrigir.

John puxou a menina contra o banco.

O carrinho passou.

Atingiu a coluna com força suficiente para arrancar a placa de acabamento.

Um pedaço de metal caiu onde John estivera segundos antes.

A menina gritou.

O carrinho começou a retornar.

John olhou para a marca.

Errada.

Não bastava indicar uma direção.

Precisava entender por onde a força entrava e qual caminho permitiria sua saída.

A linha verde do Resíduo voltou pelo trilho. John acompanhou a trajetória até a junta metálica que conectava a faixa principal a um pequeno desvio de manutenção, quase coberto por borracha.

Ali havia conexão física.

O trilho lateral seguia para o corredor vazio.

John arrastou a ponta do marcador sobre a junta. A borracha cedeu sob a pressão e desviou o traço para fora da geometria que ele enxergava.

Limpou a graxa com a lateral da mão.

Refazendo apenas aquele trecho, acompanhou o carrinho retornar pelo trilho.

A percepção ficou mais forte.

Forte demais.

Por um instante, John viu movimento em toda parte.

Rodas de ônibus além da parede.

Vibração de passos.

Uma porta automática abrindo.

O carrinho retornando.

A pressão explodiu atrás do olho esquerdo.

John piscou.

Metade das linhas desapareceu.

— Merda — resmungou.

O carrinho chegou ao início.

Quatro segundos.

John terminou a geometria sem ter certeza.

A forma não se fechava como a primeira.

Saía da linha principal.

Atravessava a junta.

Abriria caminho para o desvio.

John pousou a palma perto da inscrição.

Nada.

A intenção ainda era vaga.

Não bastava querer tirar o carrinho dali.

Ele olhou para o corredor de manutenção.

Direita.

Pela junta.

Até o trilho lateral.

Por ali.

A marca acendeu.

O verde correu pelo metal.

O carrinho partiu.

John sentiu a força antes de ver o efeito.

Seu braço foi lançado para trás.

O ombro lesionado recebeu o recuo inteiro.

A dor veio tão forte que sua mão abriu e o marcador voou.

O carrinho avançou pelo trajeto habitual por menos de um metro.

Então virou.

Não como um veículo guiado.

As rodas foram arrancadas lateralmente da linha que vinham repetindo. A dianteira bateu na junta e saltou. O corpo do carrinho girou para a direita, entrou no desvio e atravessou a porta do corredor de manutenção.

A chapa cedeu com um estrondo.

O carrinho continuou.

Partiu uma barreira de plástico.

Tombou contra a parede do corredor.

John foi jogado para o lado oposto.

As costas atingiram o banco.

O ar saiu de seus pulmões.

Por um segundo, não ouviu nada além de um zumbido.

Depois os sons voltaram de uma vez.

Gritos.

Alarmes.

A mãe chamando pela filha.

Alguma coisa metálica ainda girava no corredor.

John tentou levantar.

O braço esquerdo não respondeu.

A dor bloqueava o movimento antes que ele conseguisse erguer o cotovelo.

A menina finalmente largou a mochila.

John segurou a parte traseira da camisa dela com a mão direita.

— Agora vem — pediu.

Dessa vez, ela veio.

Passaram por baixo da fita.

A mãe puxou a menina para os braços e se ajoelhou com ela no chão, falando depressa demais para John acompanhar.

Não chegou a olhar para ele.

Um segurança agarrou John pelo braço esquerdo.

A dor fez sua visão escurecer.

— Não nesse — conseguiu murmurar.

O homem soltou imediatamente.

— Você está ferido?

John tocou o nariz.

Sangue.

— Já estava.

O segurança encarou-o.

John percebeu o problema no mesmo instante.

Talvez aquela resposta precisasse de mais contexto do que ele estava disposto a oferecer.

— Senta ali — ordenou o homem.

— Estou bem.

— Você acabou de ser jogado contra um banco.

John não discutiu porque, naquele momento, o quadril resolveu participar da decisão.

Sentou.

Do corredor de manutenção veio outro ruído.

O carrinho se moveu.

Algumas pessoas recuaram.

Ele bateu contra a parede uma vez e foi puxado alguns centímetros na direção do antigo trajeto.

Parou.

A roda girou no ar.

A repetição não desaparecera por completo.

A nova direção apenas a retirara da área cheia.

John olhou para a junta.

A marca verde ainda brilhava, muito fraca.

Uma funcionária do terminal percebeu.

— O que é aquilo? — perguntou.

John virou o rosto.

Havia celulares apontados para a plataforma.

Uma câmera fixa estava instalada diretamente acima do corredor.

Péssimo.

Ele recuperou o marcador do chão, guardou-o no bolso e pressionou um lenço contra o nariz.

O segurança se aproximou da junta.

— Não toca — alertou John.

O homem parou.

— Por quê?

John demorou uma fração de segundo.

— Está quente.

Não sabia se estava.

Funcionou.

O segurança chamou pelo rádio e pediu isolamento completo da plataforma.

John permaneceu sentado enquanto duas equipes do terminal evacuavam a área. A criança e a mãe foram levadas para outro lado. Um passageiro discutia porque sua mala ficara próxima ao banco. Uma senhora reclamava que precisava pegar uma conexão. Ninguém parecia saber se podia atravessar a faixa verde no piso.

John sabia menos ainda.

A luz diminuiu durante os minutos seguintes.

Quando desapareceu, a dor no braço permaneceu.

Ele tentou fechar a mão esquerda.

O indicador respondeu.

O médio veio depois.

O ombro pulsava. A força atravessara a articulação como se alguém tivesse tentado arrancar seu braço para trás.

Se abrisse o caderno naquele momento, só conseguiria registrar duas coisas:

mudou a direção

recuo

Não sabia o que mais havia feito.

A ANE chegou antes que a ambulância deixasse o terminal.

John soube pelas roupas. Os agentes usavam jaquetas cinza-escuras com identificação discreta no peito, bem diferentes dos uniformes chamativos das agências privadas.

Dois foram direto para o corredor de manutenção.

Uma mulher começou a recolher os nomes dos passageiros que permaneciam perto da plataforma.

John considerou sair.

Olhou para a porta.

Depois para o segurança que já havia registrado seus dados.

Seu documento estava no sistema do terminal porque ele o apresentara no posto administrativo menos de uma hora antes. Ir embora transformaria uma coincidência ruim em comportamento suspeito.

Ficou.

Um paramédico examinou seu ombro e perguntou sobre a lesão anterior.

— Distensão há três dias — explicou John.

— E você resolveu correr?

— Não foi planejado.

— Normalmente não é — retrucou o paramédico.

O homem apalpou com cuidado a região próxima à clavícula.

John conteve uma reação.

— Sem deformidade aparente. Precisa refazer a imagem se continuar sem conseguir elevar o braço.

— Consigo elevar.

Tentou.

O braço parou antes da metade.

O paramédico ergueu as sobrancelhas.

— Excelente demonstração.

John deixou o braço cair.

Ao menos o diagnóstico ganhara uma apresentação prática.

Do outro lado da plataforma, um agente ajoelhava junto à marca. Tinha um aparelho pequeno na mão.

John reconheceu o formato.

Não o modelo.

A função.

Um leitor de assinatura.

O agente aproximou o sensor da junta metálica.

A tela piscou.

Ele afastou o aparelho.

Tentou novamente.

Uma mulher que recolhia depoimentos foi até ele. Os dois conversaram baixo.

John não conseguiu ouvir.

O agente apontou para a marca e depois para o aparelho.

A tela piscou outra vez.

Um sinal vermelho apareceu.

O estômago de John apertou.

A mesma coisa tinha acontecido na estação.

Um efeito que o aparelho não classificava.

A mulher olhou ao redor.

John desviou os olhos antes que ela encontrasse os dele.

O paramédico prendia uma faixa provisória em seu ombro quando outro agente se aproximou.

— John Jonathan Junior?

Ele reconheceu a voz antes de reconhecer o rosto.

Era o homem da ligação.

John levantou os olhos.

— Sim.

— Falamos por telefone ontem.

— Eu lembro.

O agente observou o curativo na mão.

Depois a faixa no ombro.

— Você estava na estação durante o ataque de Garrick Dren.

Não era uma pergunta.

— Estava — confirmou John.

— E estava aqui quando o incidente começou?

John sentiu o sangue secando sob o nariz.

— Estava no terminal.

— Onde exatamente?

— Saindo do posto administrativo.

— Viu o início?

— Ouvi o carrinho bater. Quando olhei, já estava se movendo.

O agente anotou.

— Alguém tocou nele antes da primeira repetição?

— Não vi.

— Algum desperto próximo?

— Não que eu tenha identificado.

A mesma resposta.

Desta vez, até John percebeu como soava.

O agente levantou os olhos.

John manteve o rosto neutro.

Atrás dele, dois técnicos da ANE colocaram marcadores numerados junto à junta. Um fotografou a inscrição de vários ângulos.

— Você entrou na área isolada — observou o agente.

— A menina ficou presa.

— Eu sei. Temos gravação.

John não respondeu.

— O que aconteceu com o carrinho?

— Mudou de direção.

— Sozinho?

A pergunta veio simples demais.

John olhou para o corredor destruído.

— Eu estava atrás do banco quando aconteceu.

Verdade.

Só não inteira.

O agente escreveu mais alguma coisa.

— Precisaremos de um depoimento formal.

— Hoje? — perguntou John.

— Provavelmente.

John pensou em Elena.

Depois no caderno dentro da mochila.

— Preciso ir ao hospital.

O paramédico, ainda ao lado, respondeu antes do agente:

— Precisa mesmo.

O agente fechou o dispositivo de anotações.

— O hospital pode nos informar quando você for liberado, se autorizar o contato.

John não autorizaria.

Não achou necessário anunciar isso.

Uma voz chamou o agente do outro lado da plataforma.

— Ren.

Ele virou.

O técnico do leitor segurava o aparelho.

— Vem ver isso.

Ren fez um gesto para John permanecer onde estava e atravessou a área isolada.

John levantou-se apenas o suficiente para ficar mais perto da maca e ouvir.

— Rodou duas vezes — explicou o técnico. — Mesmo erro.

— Mesmo código?

— Mesmo retorno vazio.

Ren olhou para a junta.

— Resíduo?

— O Resíduo tem assinatura. A inscrição não.

John sentiu a mão queimar sob o curativo.

O técnico passou o dedo pela tela do aparelho.

— Puxei o pacote da Central.

Ren voltou os olhos para ele.

— Garrick?

— O segundo efeito.

O técnico virou a tela.

John não conseguia enxergar os dados, mas viu duas imagens lado a lado.

À esquerda, a chapa do apoio três.

À direita, a junta metálica da plataforma.

Duas geometrias diferentes.

O mesmo verde.

Ren permaneceu alguns segundos olhando.

— Confiança?

— Assinatura classificável, zero. Resposta do sensor, igual. Espectro visual dentro da margem.

— Coloca no mesmo caso.

O técnico confirmou na tela.

John desviou o rosto antes que qualquer um dos dois olhasse para ele.

Seu celular vibrou dentro do bolso.

O nome de Elena apareceu na tela.

Por um instante, pensou em deixar tocar.

Ren voltou na direção dele.

John atendeu.

— Oi.

— Você disse antes do almoço — lembrou Elena.

Ele olhou para o relógio do terminal.

Passava de meio-dia.

— Vai demorar um pouco.

Ren parou ao lado da maca, perto o bastante para que o dispositivo ficasse à altura dos olhos de John. Abriu novamente o formulário de testemunha e manteve a tela inclinada enquanto esperava que ele terminasse a ligação.

Acima do formulário, John conseguiu ler duas linhas:

INCIDENTE CENTRAL — EFEITO SECUNDÁRIO NÃO CLASSIFICADO

INCIDENTE LESTE — VINCULADO

O sangue pareceu esfriar dentro dele.

Ren percebeu o ângulo.

Virou o dispositivo para o próprio corpo.

A voz de Elena veio pelo telefone:

— John?

Ele continuou olhando para a tela agora escondida.

— Estou aqui.

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