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Senhor das RunasCAP. 221 MIN

A primeira coisa que John fez ao chegar em casa foi derrubar a cartela de comprimidos no chão.

Tentara segurá-la com a mão esquerda enquanto destrancava a porta com a direita. Os dedos enfaixados colaboraram até o momento em que precisou apertar. Então a cartela escapou, bateu no rodapé e deslizou para debaixo do pequeno móvel onde Elena guardava os sapatos.

A orientação do hospital tinha sido simples: repouso, gelo no quadril e analgésico caso a dor aumentasse. Também deveria retornar se a dormência nos dedos piorasse. O ombro não estava deslocado, mas sofrera uma distensão. A queimadura na palma tinha aparência incomum o bastante para exigir uma segunda avaliação, embora ninguém tivesse encontrado fragmentos nem sinais de descarga elétrica.

Os médicos também haviam repetido duas vezes que ele não deveria trabalhar naquele dia.

John se abaixou para alcançar o remédio.

A dor começou no quadril e subiu pela lateral do corpo.

Talvez os médicos soubessem alguma coisa.

Ele segurou o móvel com a mão direita até conseguir se ajoelhar. Quando esticou o braço esquerdo, a faixa no ombro repuxou e os dedos formigaram.

— Maravilha — resmungou.

Conseguiu puxar a cartela com a ponta do tênis.

A luz da cozinha acendeu.

John permaneceu agachado por um instante antes de olhar para trás. Elena estava descalça, usando uma calça larga e uma camiseta antiga. O cabelo castanho, normalmente preso com mais cuidado, formava um coque que parecia ter sido montado durante uma emergência e abandonado antes da conclusão.

Ela conferiu o relógio da parede.

— São quatro e vinte — informou.

— Percebi no caminho — respondeu John.

Elena se aproximou e pegou a cartela antes que ele tentasse alcançá-la novamente.

— Senta.

— Consigo levantar — rebateu.

— Não falei que não consegue.

John apoiou a mão no móvel e ficou de pé devagar. O quadril reclamou antes de o joelho se endireitar por completo.

Elena não comentou.

O silêncio, naquele caso, conseguiu ser bastante eloquente.

John atravessou a cozinha e sentou-se à mesa. A bolsa de ferramentas estava no chão junto à porta, devolvida por um supervisor quando o hospital o liberara. O uniforme ainda carregava poeira nas mangas. Perto da barra havia uma mancha onde o sangue resistira à limpeza feita durante o atendimento na estação.

Elena encheu um copo de água.

— Me ligaram às duas — murmurou.

John recebeu o comprimido da mão dela.

— Meu celular morreu.

— Eu sei. Liguei quatro vezes antes de alguém da estação atender.

Ele tomou o remédio.

Elena permaneceu do outro lado da mesa, observando a faixa do ombro. Depois seus olhos desceram até a mão enfaixada.

— Isso queimou? — perguntou.

— Parece.

Ela estendeu os dedos.

— Posso?

John ofereceu a mão. Elena aproximou os dedos da gaze sem tocá-la. Sua expressão mudou antes que ele dissesse qualquer coisa.

— Está mais quente que o resto do braço.

— O médico falou que pode acontecer.

— O médico mediu?

John bebeu a água.

Uma resposta extremamente hidratada.

Elena afastou a mão.

— O que aconteceu? — questionou.

Ele havia preparado uma explicação durante o trajeto. Parecera razoável dentro da própria cabeça. Ao precisar pronunciá-la, perdeu boa parte da qualidade.

— Eu estava na passarela quando começou a ceder. Ajudei a tirar algumas pessoas e fiquei preso quando uma parte caiu. Bati o ombro. O quadril também.

Elena esperou.

John conhecia aquele silêncio. Era o espaço que ela deixava para respostas incompletas.

Não o preencheu.

— E a mão? — insistiu ela.

— Encostei numa chapa.

Ela continuou esperando.

— Durante a queda — acrescentou John.

— Eu entendi quando aconteceu.

Ele puxou o copo para perto, embora já estivesse vazio.

— Era uma chapa quente? — perguntou Elena.

— Não sei.

— Você trabalha naquela estação há quase um ano.

— Havia muita coisa acontecendo.

Elena tornou a aproximar os dedos do curativo. Não precisava tocá-lo para perceber que a temperatura estava errada. John viu quando ela comparou a mão ferida com a outra, repetindo o gesto de um lado para o outro.

Perto do fogão, a chaleira ainda guardava algum calor. Elena desviou os olhos para ela por reflexo antes de voltar à queimadura.

— Não parece metal quente — murmurou.

John demorou um pouco demais para responder.

— Foi o que eu falei no hospital.

— Você falou que não sabia.

— Também falei isso.

Ela poderia ter insistido. Em vez disso, puxou a receita que saía do bolso do uniforme.

— Três dias afastado.

— Dois.

Elena virou o papel para ele.

— Aqui diz três.

— Hoje já conta.

— Você chegou às quatro da manhã.

— Tecnicamente continua sendo hoje.

Ela pousou a receita sobre a mesa.

— Você vai ficar em casa.

John não respondeu.

— John.

— Estou ouvindo.

— Não é a mesma coisa.

Elena abriu o armário sobre a pia e começou a procurar alguma coisa entre as caixas de chá. John acompanhou seus movimentos até notar o próprio reflexo na janela escura. O cabelo ainda estava sujo de poeira. Uma pequena faixa cobria o ponto da sobrancelha atingido durante o resgate. As olheiras tinham ficado mais fundas.

Sob a gaze, quatro linhas finas atravessavam sua palma.

Elena colocou uma bolsa de gelo enrolada numa toalha sobre a mesa.

— No quadril. Quinze minutos.

— O hospital falou vinte.

Ela olhou para ele.

— Então por que está discutindo?

John pegou a toalha.

Não encontrou uma resposta suficientemente boa para aquela pergunta.

Elena voltou para o quarto sem fazer outra. John esperou a porta fechar e examinou a mão enfaixada.

Não havia contado sobre a luz.

Nem sobre as linhas que atravessaram a passarela.

Esconder aquilo seria muito mais fácil se ele soubesse o que estava escondendo.

Dormiu pouco mais de três horas.

A dor no ombro o acordou quando tentou virar de lado. John permaneceu encarando o teto até perceber que não voltaria a dormir. O celular carregava sobre uma caixa junto à cama e vibrava a cada poucos minutos.

Havia mensagens da estação e de colegas. Alguns números ele não reconheceu.

Ignorou todos.

Abriu as notícias.

O ataque ocupava praticamente toda a tela. As primeiras gravações mostravam Garrick rompendo a barreira do setor oeste. Um vídeo filmado de uma plataforma inferior registrava a vibração avançando pelo concreto antes de uma seção ceder. Em outro, Garrick deixava o local por um corredor de serviço, embora o objeto carregado sob o braço aparecesse apenas como um volume escuro.

John passou pelas gravações até encontrar uma feita da plataforma inferior.

A miniatura mostrava a passarela inclinada.

E alguém ajoelhado junto ao apoio três.

John abriu o vídeo.

A imagem tremia tanto que ele demorou a localizar a própria posição. Viu as pessoas descendo pela escada e o piso cedendo sob elas.

Então surgiu a luz verde perto de sua mão.

John parou o vídeo.

Na memória, o brilho parecera concentrado no desenho. A gravação mostrava outra coisa. A luz se espalhava quase um metro pela chapa e entrava nas junções ao redor.

Voltou alguns segundos.

Reproduziu novamente.

A luz aparecia quando ele completava o símbolo.

A estrutura ainda se movia.

Um instante.

Dois.

Então parava.

A pessoa que gravava gritava alguma coisa, mas o áudio era ruim demais para distinguir as palavras.

Seu rosto não aparecia.

O uniforme, sim.

Isso complica.

John ampliou a imagem até os pixels perderem a forma. A identificação no peito virara um borrão escuro, mas o corte e a cor denunciavam que ele trabalhava na estação.

Desceu para a reportagem.

A ANE confirmava dois efeitos de Manifestação no local: Fratura, associada a Garrick Dren, e um segundo fenômeno ainda não classificado. A agência procurava testemunhas e solicitava as gravações originais feitas entre 23h20 e meia-noite.

John releu aquele trecho.

Uma especialista entrevistada por um canal sugeria que o efeito poderia ter vindo de um desperto não registrado. Outro comentarista atribuía a luz a algum equipamento de emergência da estação.

John preferia a segunda versão.

O curativo em sua mão parecia ter opinião diferente.

Abriu os comentários e desistiu poucos segundos depois. Havia quem jurasse ter visto um herói de máscara. Outros culpavam a Vanguarda pela demora. Um homem garantia que Garrick carregara uma bomba nuclear numa caixa de quarenta centímetros.

John encarou o comentário.

Uma bomba nuclear.

Numa caixa de quarenta centímetros.

A internet continuava funcionando exatamente como esperado.

Ele fechou a página.

Uma mensagem nova apareceu:

CENTRAL DE MANUTENÇÃO — funcionários presentes durante o incidente devem aguardar contato da ANE. Não retornar ao local até nova liberação.

A queimadura começou a coçar sob a gaze.

John desfez o curativo e examinou a palma.

A pele estava avermelhada. Quatro linhas finas atravessavam sua mão e continuavam por alguns centímetros em direção ao punho. Não pareciam tinta nem tinham a coloração de uma cicatriz recente.

Ele tocou a extremidade de uma delas.

Nada.

Pressionou um pouco mais.

O formigamento nos dedos aumentou.

John afastou a mão e esperou a sensibilidade voltar.

O desenho da chapa surgiu em sua memória junto com a percepção da estrutura. Recordava as vigas sob tensão e o peso atravessando as junções, embora não conseguisse reconstruir tudo de uma vez.

Pegou um caderno velho na gaveta.

A primeira tentativa do símbolo saiu errada. No desenho seguinte, a curva ficou curta demais. John começou uma terceira versão e parou no meio.

Quanto mais corrigia, menos sabia se estava reconstruindo uma lembrança ou inventando uma forma mais limpa.

Voltou à segunda tentativa e completou o que faltava.

Esperou.

O papel não respondeu.

John virou a folha e escreveu:

estação — fiz direto no metal

Abaixo, começou uma frase sobre a luz, riscou metade e deixou apenas:

acendeu quando terminei

Ficou algum tempo com a caneta sobre o papel.

Por fim, acrescentou:

por quê?

O celular ainda exibia a reportagem pausada. John abriu uma nova busca e tentou descrever o que havia ocorrido:

Meridian estrutura reforçada Manifestação contato

Os resultados mostraram empresas de reparo, propagandas de despertos e notícias sobre inspeções públicas. Ele acrescentou “colapso” e recebeu mais reportagens sobre a estação.

Contato contínuo.

Estrutura sob carga.

Resistência.

As palavras o incomodaram antes que entendesse o motivo.

John apagou a busca.

Então escreveu o nome do pai.

John Jonathan Senior

A primeira página apresentou uma fotografia conhecida.

John fechou o navegador.

Não largou o telefone.

Depois de alguns segundos, tornou a abrir.

A matéria tinha nove anos. A fotografia mostrava Senior meses antes da Queda do Distrito Sete. Parecia mais jovem do que John costumava lembrá-lo, com a barba curta e o uniforme de serviço.

A matéria não era sobre ele.

Usava sua imagem num retrospecto das vítimas.

John desceu até encontrar uma referência:

Operário desperto manteve estrutura ocupada estável durante evacuação.

Abriu o texto.

A página antiga carregou mal, cheia de espaços onde imagens já não existiam. Durante a Queda, parte de um edifício residencial havia perdido sustentação. John Senior, cuja Manifestação registrada era Reforçar, permanecera em contato com uma coluna principal enquanto as equipes retiravam os moradores.

Onze minutos.

Senior morreu antes de ser retirado.

O texto terminava pouco depois.

John conhecia a história básica. Elena nunca a escondera, mas quase nunca entrava em detalhes. Quando criança, ele sabia apenas que o pai ajudara pessoas durante a Queda. Mais tarde descobrira que Reforçar aumentava a resistência daquilo que Senior tocava.

Aos quinze anos, parara de procurar.

Agora abriu outra fonte.

Depois outra.

Os textos repetiam quase as mesmas informações. Uma página mencionava o edifício residencial; outra se concentrava na evacuação.

Todas traziam os onze minutos.

Todas terminavam na morte.

Um arquivo de televisão conservava trinta segundos de uma reportagem da época. John iniciou o vídeo.

A imagem tinha resolução ruim. Poeira ocupava metade da rua, e equipes corriam perto de um prédio inclinado.

Alguém permanecia ao fundo, junto a uma coluna.

John aproximou o celular do rosto.

Não dava para reconhecer o pai.

A legenda fazia isso por ele:

JOHN JONATHAN SENIOR — MANIFESTAÇÃO: REFORÇAR

A passarela voltou à memória.

A mão contra a chapa.

A dor subindo pelo braço.

A certeza de que se afastar cedo demais faria tudo ceder.

John verificou o horário registrado no primeiro vídeo do ataque e depois o instante em que a passarela colapsava.

Menos de três minutos.

Tentou imaginar onze.

Não conseguiu.

Deixou o telefone sobre a cama.

O primeiro teste aconteceu no fim da tarde.

Não produziu resultado.

John escolheu uma caixa de papelão guardada na área de serviço. Colocou dois livros dentro e dobrou a tampa para que o peso pressionasse uma lateral já amassada. Copiou o símbolo numa folha do caderno, apoiou-a sobre a caixa e colocou a mão por cima.

Esperou enquanto pensava na passarela e no papelão deformando sob os livros.

A única reação veio do ombro, que começou a doer por ele permanecer curvado.

John escreveu:

papel em cima: nada

Observou a anotação e acrescentou:

talvez desenho errado

Passou algum tempo corrigindo as proporções. Refez uma linha, alterou a curva e tentou novamente.

Nada.

Na quarta tentativa, percebeu que havia parado de reconstruir o símbolo.

Estava apenas deixando-o mais bonito.

Na estação, a forma saíra depressa, com um marcador industrial e uma passarela cedendo sob seus joelhos. Não exatamente as condições ideais para caligrafia.

Amassou a folha e tentou jogá-la no cesto.

Errou.

A bola de papel bateu na parede e caiu atrás da cadeira.

John observou o resultado.

Até o lixo se recusava a colaborar.

Elena apareceu na porta da área de serviço enquanto ele procurava outra folha.

— O que você está fazendo? — perguntou.

John fechou o caderno sobre os desenhos.

— Testando uma coisa.

— Eu imaginei essa parte.

Ela carregava uma sacola de mercado.

John se levantou para ajudá-la e se arrependeu quando o quadril puxou. Elena percebeu e não lhe entregou a sacola.

— Posso carregar — protestou.

— Também pode ficar sentado.

— Uma coisa não impede a outra.

— Impede enquanto você estiver mancando — rebateu Elena.

Ela seguiu para a cozinha.

John recolheu os papéis do chão antes de ir atrás. Escondeu os desenhos debaixo do caderno e deixou a caixa amassada na área de serviço.

Durante o jantar, a televisão reprisou imagens da estação. John manteve os olhos no prato até ouvir o nome de Garrick.

— Ainda não encontraram ele — comentou Elena.

— Vi.

— A ANE falou com você?

— Ainda não.

Ela empurrou parte da comida de um lado para o outro.

— Vão falar.

— Eu estava trabalhando lá. Faz sentido.

Elena ergueu os olhos para a mão enfaixada.

— Você vai voltar ao hospital?

John empurrou a comida com o garfo.

— Mandaram voltar se piorasse.

— Eu sei o que mandaram. Perguntei se você vai.

Ele levou o copo à boca.

Vazio.

De novo.

John olhou para dentro dele como se a água pudesse ter cometido uma falha administrativa.

— Ainda está igual — respondeu.

Elena largou o garfo.

— Igual a quando?

John se levantou com o copo na mão.

— Quer água?

Ela acompanhou sua saída da mesa, mas não repetiu a pergunta.

Quando John voltou, Elena já havia mudado o canal.

Quando uma faixa de sol alcançou sua cama, a prateleira quebrada já ocupava metade da mesa.

Elena vinha pedindo havia semanas que ele consertasse aquela peça. Uma rachadura atravessava a madeira perto do suporte, embora os dois lados ainda permanecessem unidos.

John começou colocando sobre a tábua uma folha com o símbolo.

Nada.

Prendeu o papel com fita e tentou novamente.

O resultado permaneceu o mesmo.

Depois da quarta tentativa, já não sabia qual desenho pertencia a qual hipótese. Havia duas folhas presas à madeira e outra caída sob a cadeira. Uma marca feita diretamente na tábua permanecia perto da rachadura, mas John não lembrava se a testara com a mão esquerda ou com a direita.

Tentou organizar tudo no caderno.

Escreveu:

papel não funciona

Parou.

Riscou “não funciona”.

Aquilo era certeza demais para uma sequência de tentativas ruins.

Embaixo, anotou:

papel não respondeu

A fita ainda prendia uma das folhas à madeira. John a arrancou com mais força do que precisava, levando junto uma camada fina da superfície. O símbolo veio no papel. A tábua ficou marcada pela cola.

Começou outra anotação.

Parou antes de terminar a primeira palavra.

Na estação, não havia colocado o desenho sobre a chapa.

Tinha desenhado nela.

John pegou o marcador permanente e copiou o símbolo diretamente ao lado da rachadura.

Esperou, com a ponta ainda encostada na madeira.

Nada mudou.

A irritação veio rápido. John fechou o marcador e o jogou sobre a cama, onde ele quicou uma vez antes de cair no chão.

A marca não era um botão.

Desenhar a forma e esperar uma resposta era tão útil quanto pintar “fechado” numa porta quebrada.

John encostou a mão na tábua.

Tentou recuperar a sensação da passarela, mas encontrou apenas a aspereza da madeira sob os dedos. Pressionou a palma e examinou a rachadura.

Ela se abria perto do suporte, onde o peso da prateleira agiria de cima para baixo. John conhecia o problema. Em outra situação, usaria cola ou atravessaria a peça com parafusos.

Talvez jogasse tudo fora e comprasse uma prateleira que não fosse feita de pinho barato.

A pressão atrás dos olhos começou.

John soltou a tábua.

Ficou sentado na beirada da cama até a dor diminuir.

Quando tentou novamente, não procurou a imagem inteira da passarela.

Concentrou-se naquela peça.

Na rachadura.

Nas fibras que ainda prendiam um lado ao outro.

No ponto onde cederia quando recebesse peso.

Linhas verdes muito fracas apareceram ao redor da abertura.

John puxou a mão.

A visão voltou ao normal, mas seu coração continuou acelerado. Por um momento, o quarto pareceu estreito demais, cheio do cheiro de roupa usada e poeira de madeira.

Respirou pela boca até o enjoo passar.

Aquilo não fora uma lembrança.

John pegou o caderno e escreveu:

tocando + olhando a falha = vi linhas

Parou sobre a palavra “olhando”.

Riscou-a.

entendendo?

A pergunta ficou torta na página.

A dor de cabeça permaneceu depois que John guardou a tábua. Ele estava deitado, tentando descansar os olhos, quando o celular vibrou sobre a cama.

AGÊNCIA NACIONAL DE ESTABILIDADE

John deixou chamar duas vezes antes de atender.

As perguntas começaram pelo horário em que entrara no setor. O agente quis saber sua posição quando Garrick apareceu e quantas pessoas estavam próximas.

— Viu algum segundo desperto? — perguntou o agente.

John demorou um pouco mais do que devia.

— Não.

— Nenhum passageiro utilizando Manifestação?

— Não que eu tenha identificado.

Era verdade.

De uma maneira que passou a incomodá-lo assim que terminou de falar.

O agente perguntou sobre a luz verde.

— Eu vi durante o colapso — respondeu John.

— Consegue indicar a origem?

— Eu estava tentando não cair.

Houve um pequeno ruído do outro lado, talvez uma caneta tocando a mesa.

— Seu último exame de Manifestação consta como negativo. Foi aos dezessete?

— Foi.

— Teve algum episódio diferente desde então?

John passou o polegar pela borda irregular de uma folha rasgada.

— Não.

O silêncio durou pouco.

— Se lembrar de alguma coisa que ajude a determinar a origem do segundo efeito, entre em contato por este número — orientou o agente.

A ligação terminou.

John continuou com o telefone junto ao ouvido até a tela apagar.

Só então percebeu que apertava o marcador na outra mão.

A ANE agora sabia seu nome.

Sua classificação.

O lugar exato em que estivera.

Ainda faltava uma informação.

Se ele podia repetir o efeito.

John voltou à tábua.

Só percebeu que o quarto havia escurecido quando precisou acender a luminária para enxergar a rachadura.

A prateleira estava apoiada sobre dois blocos baixos, com uma caixa de ferramentas perto da região danificada.

John começou usando um livro como peso. Acrescentou outro quando a fissura não se moveu e depois trocou o segundo pela caixa de ferramentas ao perceber que os livros distribuíam demais a carga.

A rachadura começou a abrir.

John desenhou a marca diretamente na madeira e colocou a mão ao lado dela.

A tábua continuou cedendo.

Dessa vez, não refez o símbolo imediatamente. Aproximou o rosto da madeira, tentando acompanhar a abertura, mas a pressão atrás dos olhos fazia a peça se duplicar diante dele.

Piscou.

Duas tábuas.

Piscou novamente.

Uma.

A fissura começava por baixo. Algumas fibras na parte superior ainda resistiam.

Peso concentrado à direita.

Suporte baixo demais.

Abertura avançando para dentro.

John moveu um dos blocos.

A mudança reduziu a tensão.

As linhas que tentava perceber desapareceram.

— Droga — resmungou.

Devolveu o apoio ao lugar anterior e quase derrubou a caixa de ferramentas.

Quando tornou a encostar a mão na tábua, a dor veio mais depressa.

As linhas apareceram fracas, acompanhando a madeira a partir do peso. John tentou segui-las, mas uma pulsação atrás do olho esquerdo apagava parte da geometria a cada batida do coração.

O símbolo desenhado estava errado.

A última curva terminava longe demais da região que ainda resistia.

John procurou o marcador sobre a cama.

Não encontrou.

Então lembrou que o havia derrubado.

Abaixar-se fez o quadril doer. Quando voltou para a mesa, as linhas já tinham desaparecido.

Precisou começar outra vez.

Na segunda tentativa, o sangue desceu por uma das narinas antes que a geometria se completasse.

John limpou com o dorso da mão direita e deixou uma mancha vermelha perto do polegar.

A tábua estalou.

— Espera — murmurou.

Não sabia se falava consigo ou com a madeira.

Encostou a palma outra vez.

A pressão atravessou sua cabeça.

O desenho apareceu incompleto, mas foi suficiente.

John corrigiu a última curva com o marcador.

A marca acendeu.

Ele perdeu o ar.

O brilho verde entrou na madeira e desapareceu sob a superfície.

Um instante depois, a dor atravessou seu punho e subiu pelo antebraço.

John soltou o marcador.

Quase afastou a mão.

A rachadura se moveu mais um pouco.

Ainda não.

Ele tornou a pressionar a palma.

A fissura parou.

John ficou imóvel.

A tábua não recuperou a forma. A rachadura continuava visível, com uma lasca levantada junto ao suporte. O peso permanecia sobre ela.

Mas não abria mais.

John afastou a mão devagar.

O brilho perdeu intensidade.

Não se apagou.

Ele esperou, segurando um pedaço de papel contra o nariz. Não sabia quanto tempo passara. Em algum momento percebeu que prendia a respiração e soltou o ar.

A fissura mantinha a mesma largura.

John puxou o caderno para perto.

Escreveu:

respondeu

Tentou registrar o horário, mas o sangue pingou sobre os números. Limpou a folha com o papel que segurava no nariz e apenas espalhou a mancha.

Abandonou o horário.

Embaixo, anotou:

direto na peça

Na linha seguinte:

precisei entender onde abria

John encarou a palavra “entender”.

Parecia grande demais para o que havia feito.

Não encontrou outra melhor.

Acrescentou:

não fechou

Retirou a caixa de ferramentas.

A marca continuou acesa.

Quando tornou a colocar o peso, a rachadura permaneceu estável.

John observou a madeira.

O efeito não dependia mais de sua mão.

Virou-se para a porta do quarto, esperando que Elena aparecesse e encontrasse uma prateleira quebrada brilhando sobre a mesa.

Não seria exatamente uma explicação simples.

Precisava apagar aquilo.

John passou um pano sobre o desenho. A tinta borrou, mas o verde permaneceu dentro da madeira.

Tentou cobrir a marca com uma das folhas usadas nos primeiros testes.

O brilho atravessou o papel.

John puxou a tábua para longe dos blocos. A dor no ombro fez a peça escapar e bater contra a mesa.

A runa oscilou.

Ele congelou.

Examinou o ponto onde a luz entrava na madeira. A marca estava ao lado da rachadura, mas não sobre ela. John não sabia se cortar a inscrição destruiria o efeito ou apenas faria a carga voltar de uma vez.

Também não sabia quanto tempo faltava para Elena passar pelo corredor.

Pegou uma serra curta na bolsa de ferramentas.

O primeiro movimento saiu torto porque sua mão esquerda não conseguia firmar a tábua. John prendeu a peça entre o joelho e a lateral da mesa.

O quadril protestou.

Ele continuou.

Serrou alguns centímetros longe da inscrição, parou para conferir o brilho e retomou o corte.

A madeira rangeu.

Mais um movimento.

Outro.

Quando o pedaço marcado se separou, a luz apagou.

John deixou a serra parada dentro do corte.

Ficou observando a madeira.

Nada voltou a brilhar.

Recolocou a caixa de ferramentas sobre a parte rachada.

A abertura avançou outra vez.

John puxou o caderno.

cortei fora — apagou

Parou.

Riscou “fora” e escreveu “separei” por cima.

Também não gostou.

Tentou começar outra linha:

a marca precisa

John ficou olhando para as três palavras.

Precisava da madeira?

Da rachadura?

De sua mão?

Uma gota de sangue caiu exatamente no espaço onde viria a resposta.

John observou a mancha se espalhar pelas fibras do papel.

Então fechou o caderno.

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